quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

"Se o ladrão for achado a minar uma casa, e for ferido de modo que morra, o que o feriu não será réu de sangue; mas se o sol houver saído sobre o ladrão, o que o feriu será réu de sangue. O ladrão certamente dará indenização; se nada possuir, será então vendido por seu furto."

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010



We don’t eat in no white restaurant
We’re eatin’ in the car
Baloney again, baloney again
We don’t sleep in no white hotel bed
We’re sleepin’ in the car, baloney again
You don’t strut around in these country towns
You best stay in the car
Look on ahead don’t stare around
You best stay where you are
You’re a long way from home, boy
Don’t push your luck too far
Baloney again

Twenty-two years we’ve sung the word
Since nineteen thirty-one
Amen, I say amen
Now the young folk want to praise the lord
With guitar, bass and drums, amen
Well I’ll never get tired of jesus
But it’s been a heavy load
Carrying his precious love
Down a long dirt road
We’re a long way from home
Just let’s pay the man and go
Baloney again

The lord is my shepherd
He leadeth me in pastures green
He gave us this day
Our daily bread and gasoline
Go under the willow
Park her up beside the stream
Shoulders for pillows
Lay down your head and dream
Shoulders for pillows
Lay down your head and dream

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

A nossa imaginação, levada por natureza a soerguer-se, e repleta de poesia, cria seres cuja superioridade nos esmaga, e quando lançamos o olhar para o mundo real, qualquer outro nos parece mais perfeito do que nós mesmos. E isso é muito natural, sentimos tantas vezes que nos faltam tantas coisas, e o que nos falta por vezes outro parece possuí-lo. Concedemos-lhe então tudo aquilo que temos nós próprios, e ainda por cima de tudo isso certas qualidade ideais. É assim que imaginamos nós mesmos as perfeições que criam o nosso suplício. Pelo contrário, quando, com toda a nossa fraqueza, toda a nossa lástima, caminhamos com coragem para um fim, sentimo-nos às vezes mais adiantados bolinando do que os outros à força de velas e remos, e… Será, todavia, ter um verdadeiro sentimento de si próprio caminhar com os outros ou mesmo suplantá-los?

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Eia agora vós, que dizeis: Hoje, ou amanhã, iremos a tal cidade, e lá passaremos um ano, e contrataremos, e ganharemos; digo-vos que não sabeis o que acontecerá amanhã. Porque, que é a nossa vida? É um vapor que aparece por um pouco, e depois se desvanece; em lugar do que devíeis dizer: se o Senhor quiser, e se vivermos, faremos isto ou aquilo. Mas agora, vos gloriais nas vossas presunções: toda a glória tal como esta é maligna. Aquele, pois, que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

"Viveu sempre sossegado
cada amor em cada lado
mas ele mesmo até morrer
vá-se lá saber
o que sentia todo o dia até anoitecer
(e o que ele ouvia)
viveu sempre em todo o lado
com seus dons de namorado
sempre sempre a envelhecer
vá-se lá dizer
o que fazia todo o dia até amanhecer
(e o que ele ouvia)

é bom ter má fama
dá para ter vazia a cama
e nesta solidão de Kant
ser tido um grande amante
é bom ter de fundo
o que anda pelas bocas do mundo
e quem quiser acreditar
ao menos não vem cá espreitar
sobra-me tempo para cantar

Fez de tudo até calçado
mas seu jeito de empregado
só deixava perceber
para quem queria ver
de cada dia uma alegria para desaparecer
(e o que ele ouvia)
dez de tudo de empregado
só não fez do seu passado
um segredo para esconder
já não vai vencer
mas respondia para se defender
(e o que ele ouvia)

é bom ter má fama
dá para ter a cama vazia
e nesta solidão de Kant
ser tido um grande amante
é bom ter de fundo
o que anda pelas bocas do mundo
e quem quiser acreditar
ao menos não vem cá espreitar
sobra-me tempo para cantar"

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Quando de manhã, logo que nasce o Sol, vou para o me querido Wahlheim, quando eu próprio colho as minhas ervilhas no quintal da minha hospedeira, quando me sento para as descascar e ler Homero, quando vou escolher a panela à pequena cozinha, quando me sirvo da manteiga, ponho as ervilhas ao lume, as cubro e me sento ao pé para as mexer de vez em vez, sinto então intensamente como os altaneiros amantes de Penélope podiam eles próprios matar, retalhar e fazer assar os bois e os porcos. Não há nada que me encha de sentimentos verdadeiros e doces como estes factos da vida patriarcal, com que eu posso, sem afectação, engalanar a vida.
Como me sinto feliz por ter um coração feito para sentir as alegrias inocentes e simples do homem que põe na sua mesa a couve que ele próprio cultivou! Não goza apenas a couve, mas relembra ao mesmo tempo a bela manhã em que a plantou, as deliciosas tardes em que a regou, e o prazer que sentia dia-a-dia ao vê-la crescer.
A new day, a new dawn - a new creation. Just as the first infinitesimal part of a second at the beginning of the universe was a unique and unrepeated moment, so the resurrection of Jesus, Saviour, Lord and God, was the first, unique, unprecedented, without parallel moment when God's promised new creation began. For without the resurrection, the cross is a defeat; there is no forgiveness, no salvation, no new life and no hope beyond death. But thanks be to God! He gives us the victory through our Lord Jesus Christ.
(...)
Meanwhile, what are the implications for everyday life?

Tom Wright again: 'Because the early Christians believed that "resurrection" had begun with Jesus, and would be completed in the great final resurrection on the last day, they believed that God had called them to work with him, in the power of the Spirit, to anticipate the final resurrection, in personal and political life, in mission and holiness' (57).

Those who belong to Jesus are called to whole-life discipleship, to the resurrection life of the kingdom, whereby in every corner of our lives we are charged with transforming the present, as far as we were able, in the light of that future.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Significa que, embora a feiticeira conheça a magia profunda, há uma magia ainda mais profunda que ela não conhece. O seu conhecimento só vai até à aurora dos tempos. Mas, se ela tivesse conseguido olhar um pouco mais para trás, para a calma e a escuridão antes da aurora dos tempos, teria descoberto aí um encanto diferente. Teria sabido que, quando uma vítima que não cometeu qualquer traição é morta em lugar de um traidor, a mesa parte-se e a própria morte começa a recuar.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010



De tudo que é nego torto
Do mangue e do cais do porto
Ela já foi namorada
O seu corpo é dos errantes
Dos cegos, dos retirantes
É de quem não tem mais nada
Dá-se assim desde menina
Na garagem, na cantina
Atrás do tanque, no mato
É a rainha dos detentos
Das loucas, dos lazarentos
Dos moleques do internato
E também vai amiúde
Co'os velhinhos sem saúde
E as viúvas sem porvir
Ela é um poço de bondade
E é por isso que a cidade
Vive sempre a repetir
Joga pedra na Geni
Joga pedra na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni

Um dia surgiu, brilhante
Entre as nuvens, flutuante
Um enorme zepelim
Pairou sobre os edifícios
Abriu dois mil orifícios
Com dois mil canhões assim
A cidade apavorada
Se quedou paralisada
Pronta pra virar geléia
Mas do zepelim gigante
Desceu o seu comandante
Dizendo - Mudei de idéia
Quando vi nesta cidade
Tanto horror e iniqüidade
Resolvi tudo explodir
Mas posso evitar o drama
Se aquela formosa dama
Esta noite me servir

Essa dama era Geni
Mas não pode ser Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni

Mas de fato, logo ela
Tão coitada e tão singela
Cativara o forasteiro
O guerreiro tão vistoso
Tão temido e poderoso
Era dela, prisioneiro
Acontece que a donzela
- e isso era segredo dela
Também tinha seus caprichos
E a deitar com homem tão nobre
Tão cheirando a brilho e a cobre
Preferia amar com os bichos
Ao ouvir tal heresia
A cidade em romaria
Foi beijar a sua mão
O prefeito de joelhos
O bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão
Vai com ele, vai Geni
Vai com ele, vai Geni
Você pode nos salvar
Você vai nos redimir
Você dá pra qualquer um
Bendita Geni

Foram tantos os pedidos
Tão sinceros, tão sentidos
Que ela dominou seu asco
Nessa noite lancinante
Entregou-se a tal amante
Como quem dá-se ao carrasco
Ele fez tanta sujeira
Lambuzou-se a noite inteira
Até ficar saciado
E nem bem amanhecia
Partiu numa nuvem fria
Com seu zepelim prateado
Num suspiro aliviado
Ela se virou de lado
E tentou até sorrir
Mas logo raiou o dia
E a cidade em cantoria
Não deixou ela dormir
Joga pedra na Geni
Joga bosta na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni
A person who gives this some thought and yet does not regard music as a marvellous creation of God, must be a clodhopper indeed and does not deserve to be called a human being; he should be permitted to hear nothing but the braying of asses and the grunting of hogs.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Há uma sala do trono maior do que o universo que habitamos. No meio de uma escuridão sem alívio, ( ou de uma luz sem sombras, dependendo de quem está se aproximando do trono), no centro absoluto de todos os universos, há um trono de pura luz. Ou de árvores vivas. Ou de mármore. Ou de gelo. Ou de cabeças e corações e olhos sangrentos de um animal que nunca ninguem viu vivo. Ninguem sabe do que é feito o trono porque não existem duas criaturas em existência que vêem o trono da mesma maneira. Os seres que habitam a sala do trono são pequenos, minúsculos em comparação com o trono e aquele que se assenta sobre ele- como crianças em relação a seu pai, como formigas em relação a uma montanha, como moléculas em relação ao sistema solar.
O que senta sobre o trono, todos já viram, mas nenhum sabe descrever. Nenhum santo ou criatura exaltada ou espírito antigo saberia começar a descrever sua aparência- ninguem nem viu seu rosto- embora existam rumores que alguns anfíbios comeram um santo alimento que os deu capacidade de começar a descrevê-lo, mas esse conhecimento os levou a loucura e a morte ("Eles não estavam prontos," dizia um espírito de vento para sua parceira, "eles foram apressados demais.")- e se fossem pressionados diriam apenas que ele é justamente o que você esperaria que ele fosse, só que muito mais. E assentado no centro exato da sala do trono está Ele, cuja voz e aparência e textura definia toda a existência de toda outra criatura na sala- no universo- em todos os universos- e cuja presença fazia tuda outra coisa parecer irreal e ilusória. Ele está sempre sentado, sua cabeça acima da linha de visão de todos, até mesmo dos mais poderosos arcons, calmamente mantendo toda a existência em existência, fazendo rodar as galáxias, fazendo seus julgamentos, paciente como só alguem que não está limitado ao tempo é paciente.
O tempo. Toda criatura na sala do trono vê a existência como uma sucessão de fatos, como uma sequência de segundos, como um antes, um agora e um depois, menos aquele que está no trono. Ninguem entende como ele vê o mundo. Uns dizem que Ele é na verdade um imenso ato, e o universo é a interpretação que nossa mente nos dá á medida que ela vai conseguindo decifra-lo. Outros dizem que ele vê o tempo como alguem vê um mapa. Outros dizem que ele já moveu tudo e fez tudo antes mesmo dos universos começarem, e que os atos que os membros da corte vêem serem feitos no trono são apenas uma ilusão. E outros, talvez com mais razão, dizem que a maneira que Ele vê as coisas é que define como as coisas realmente são, e portanto a maneira em que ele vê o tempo- um meio pelo qual seres menores interpretam a realidade- é a natureza verdadeira do tempo, e assim viver a vida experimentando um ato após o outro é uma peculiaridade nossa, e os atos que vemos Ele fazer podem muito bem ter ocorrido há milênios, ou daqui a milhões de anos, ou em bilhões de momentos presentes. A criatura não vê o eterno agir diretamente, mas vê reflexos vindo de todos os cantos do universo captados com todos os sentidos, e os interpreta da maneira mais adequada á sua natureza.
Assim, ninguem sabia com certeza (nem os anjos, nem os arcons, nem os deuses, nem os demiúrgos ao redor das quais gravitam os universos, nem os seres que habitam a árvore do mundo, que atravessa os nove planos da existência e cujas folhas mais altas atingem por pouco a base do trono) o que ocorria quando Lúcifer (esse não era seu nome. Ouvir seu nome verdadeiro era como ouvir o sol nascer, era como ouvir uma luz puramente vermelha rasgar o universo. Seu nome era mais real e concreto do que todos os universos combinados, e quase tão precioso. Novamente, o que temos são reflexos, sussurros que espalham pelo universo e chegam a ouvidos fechados) entrava na sala do trono e pedia uma audiência com o Criador. Ele entrava em intervalos regulares que passavam como minutos para alguns seres, e milênios para outros, mas quando ele entrava, toda a sala se colocava em silêncio. Seus passos eram decididos, quase atrevidos (mas nem tanto), e sua estatura fazia os anjos parecerem pássaros em comparação. Ele era belo, mais belo do que o trono, mais belo até do que Sofia, mas seus passos traziam um frio que invadia a própria essência de cada ser, e sua aura era como um vácuo, um contorno negro em volta de seu corpo que sugava lentamente a vida, cor e forma de tudo ao seu redor. E quando ele abria a boca (ou aquilo que poderíamos chamar de boca. O que ele teria, se tivesse uma boca), e sua voz se elevava ao trono, por um segundo, por um furioso segundo, um segundo que passava como um microsegundo para alguns e como um milênio para outros, todo ser na sala era tomado por um amor violento, angústiado, desesperado por ele, pois ouvir a voz de Lúcifer é como ouvir música pela primeira vez, é como experimentar seu primeiro beijo, é como se esquecer de tudo e querer viver apenas para a amar a voz.
Mas então Aquele que está sentado no trono dizia algo (ninguem entendia o quê, a não ser Lúcifer e alguns pequeninos espíritos que haviam fugido do o universo de Lúcifer. Ele dizia "De onde vens?"), ao que Lúcifer respondia, "De perambular pelo meu universo e andar por ele". Lúcifer tinha seu próprio universo. Ele havia roubado um dos infinitos bilhões de universos, um dos menores, mas ele nunca deixava de lembrar o Criador que ele havia tomado posse daquela pequena faísca de existência e torturado seus habitantes ao ponto da loucura. Haviam rumores de que um dos aspectos do Eterno havia infiltrado o universo, ou estava invadindo o universo, ou simplesmente iria arrancar o universo das mãos de Lúcifer, mas quando se trata destes mistérios, novamente, não conseguimos ver a coisa em si; ela é grande demais para ser vista. A única coisa que havia eram sussuros e reflexos que ecoavam pela sala do trono. Rumores, notícias e fofocas vindo de cantos remotos são comuns nessa sala, onde todos os universos se encontram, e, por um breve instante que dura para sempre, se tocam. Os rumores dizem que durante cada audiência eles discutem sobre um animal que mora em num canto sujo do universo roubado, algo que soa quase como um jogo, algo que soaria como uma aposta, se os habitantes da sala do trono soubessem o que era uma aposta.
E então há silêncio. Lúcifer se cala, e a Voz se cala, e por algum tempo (para alguns parecem segundos, para outros, bilhões de anos) há silêncio total. E então Aquele que se assenta no trono diz, "Porque?"
Lúcifer se mantém impassível e diz, "Você é onisciente. Você sabe."
"Mas isso não me impede de querer ouvir você dizendo. Eu sei de todas as coisas, mas me deleito quando um pequenino se revela voluntariamente a mim."
"Você quer que eu jogue em sua cara a razão pela qual eu te odeio? A razão pela qual eu peguei aquele universo insignificante?"
"Nada é insignificante."
Silêncio, e então Lúcifer fala:
"Eu vencerei, no final. Eu terminarei de destruir esse universo e pegarei outro. Você não cria universos novos para substituir os velhos, e você não tira os universos de mim. Eventualmente, todos os mundos estarão destruídos, e eu vencerei."
"Você não tirou aquele universo de mim."
"Eu sei. Seus príncipes o entregaram em minhas mãos. Mas fui eu que os seduzi. Eu seduzirei outros. Você verá."
"Eu vejo."
"Que seja."
"Você sabe que nunca poderá vencer."
Silêncio. Lúcifer sabe que isso é verdade, sabe que todo o seu esforço é em vão.
Mas Ele está ferido. Lúcifer sorri por entre seu desespero e se anima com esse fato. Ele pode ser todo-poderoso, mas Ele ama esse universo destruído, e enquanto ele pudesse machucar aqueles mundos, ele estava machucando o Criador. Lúcifer vira e começa a sair da sala do trono. A voz do Eterno sai atrás dele com um amor mais forte do que a força combinada dos arcanjos e pede, "Volte. Fique. Você sabe que não tem que ser assim."
Lúcifer se vira, sorrindo triunfalmente. "Você diz isso toda vez."
"Sim."
"Eu recuso seu amor. Eu rejeito seu perdão. E eu vencerei. Enquanto eu tiver uma maneira de te ferir, eu vencerei."
E sua presença não está mais na sala do trono, e um eco atravessa todos os universos, uma voz mais potente do que as estrelas, diz para cada criatura em cada plano de existência, "Volte." E uma voz como o vento da primavera atravessa o bastião da revolta, a pequena sala do trono de Lúcifer (alguns a conhecem como Nastrond, outros como Hades, outros com nomes piores e outros a conhecem como lar) e implora de cada alma danada, "Volte." E uma voz como o de um pai falando com um sua filha doente e morrendo, uma voz com amor e compaixão infinitos- uma voz que definia o próprio amor- sussurra a toda criatura de um pequeno planeta num canto esquecido do universo de Lúcifer, dizendo "Volte".

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

A estupidez humana não cessa de me espantar. Leio na imprensa do dia que uma associação "humanista" da Grã-Bretanha lançou em Londres uma campanha pública para defender a provável inexistência de Deus. A ideia foi escrever nos ônibus da cidade duas frases de arrasadora profundidade filosófica: "Deus provavelmente não existe. Por isso, deixa de te preocupar e aproveita a vida".

A tese espanta, não apenas pela infantilidade que a define --mas pela natureza ilógica que a contamina. Se Deus não existe, haverá necessariamente motivos para celebrar?

Os mais radicais "philosophes" do século 18 concordariam que sim. O próprio projeto iluminista, na sua crítica à instituição religiosa como autoritária e obscurantista, defendia que a libertação dos Homens passava pela libertação do divino. Nem todos os "philosophes" eram ateus, é certo: Rousseau ou Diderot, impenitentes "deístas", não são comparáveis a La Mettrie ou Helvétius. Mas o iluminismo continental abriria a primeira brecha na cultura ocidental, ao retirar a Fé do seu trono e ao coroar a deusa Razão.

Foi esse gesto primordial que tornaria possível as devastadoras críticas posteriores do trio maravilha (Feuerbach, Marx e Freud). Deus criou os Homens? Pelo contrário: Deus é uma criação dos Homens por razões várias e todas elas racionalmente explicáveis.

Os Homens criaram Deus por temerem a sua própria mortalidade (Feuerbach). Os Homens criaram Deus por contraposição às condições materiais das suas existências precárias (Marx). Os Homens criaram Deus por puro sentimento de culpa: parricidas arrependidos, eles buscam ainda uma autoridade perdida; Deus é o "fétiche" infantil de quem se recusa a viver uma vida adulta (Freud).

Infelizmente, aparece sempre alguém para estragar a festa. Falo de Doistóievski, claro, disposto a contrariar o otimismo liberal da burguesia russa oitocentista, para quem Deus era um empecilho de modernidade. Pela boca de Karamazov, Dostoiévski formularia a pergunta que Feuerbach, Marx, Freud e também Nietzsche se recusaram a enfrentar: e se a ausência de Deus significa também a ausência de qualquer limite ético para a acção humana?

Essa possibilidade seria confirmada no século seguinte: um século devastado por grandes construções coletivistas, utópicas e rigorosamente ateias que libertaram um fanatismo e uma crueldade indistinguíveis do fanatismo e da crueldade das antigas religiões tradicionais.

Quando os Homens não acreditam em Deus, eles não passam a acreditar em nada; eles acreditam, antes, em qualquer coisa, como dizia profeticamente Chesterton. Antes de festejarmos a provável inexistência do barbudo, convém saber o que essa coisa será.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Eu creio que a Terra de Canaã fala da vida vitoriosa do cristão. A salvação de Deus levou-nos através do Jordão, mas muitos cristão desfalecem na fronteira da Terra Prometida. Teimosamente, não acreditamos que a subida do monte nos leve à nossa herança, e escondemo-nos entre as rochas do vale.