sexta-feira, 30 de abril de 2010



Desarmem
os campos minados da ignorância
onde se infiltra friamente
o preconceito, esse sim, fatal, letal, brutal
e não há senso que lhe valha
o preconceito desempalha
animais incongruentes
atacando pela trilha
de uma ilha outrora virgem
Aparência da virtude
O preconceito nunca falha
flecha certeira
na esteira
da inocência
aparência de virtude
E por mais que se escude
na justificação pseudo-ética
cosmética, caquética
do seu valor de guardião das morais
vitais pra lá do ano 2000
o preconceito não tem estado civil
é casado com a morte
divorciado da vida
é viúvo de si mesmo
é solteiro e por junto separado
suicida

Desarmem o preconceito!

Armem por favor as armas do amor
amor no sentido primeiro e secular
armem o mar
armem o vento p'ro uso depois
vão e regressem depois
mas por quem sois
mas por quem sois
armem as armas do amor
armem as armas do amor
armem as armas do amor
armem por favor
as armas do amor

Desarmem
as metralhadoras côr-de-cinza
que defendem
a condescendência
cautelosa, lacrimosa
das decisões oficiais
carimbadas despachadas
e só por isso legais
mas que vão milhas atrás
das atrozes realidades
que o corpo grita
e a alma berra
A condescendência não desferra
No cofre forte onde se encerra
a planificação ponderada
de um problema complexo
há soluções de fachada
2 mil mortos perfilados na parada
há palestras sobre sexo
é um problema complexo
nosso dano se ninguém resolve nada
ano após ano
2 mil mortos perfilados na parada
1 por ano
nossa escada em caracol para o nirvana

Desarmem a condescendência!

Desarmem
a pose altiva
emproada gargalhada
que veste a incompetência
incipiência
disfarçada de suma
sabedoria
quem diria
quem diria que debaixo de uma
só alegoria
tanto exemplo existiria
Exemplos de incompetência
são aos montes, são às serras
impossíveis de escalar
passos vãos, inúteis guerras
A incompetência é incapaz de se olhar
o cadáver inocente
é olhado pelo soldado incontinente
pelo menos é um olhar
a incompetência, nem pensar
nem pensar
em juntar o resultado à vontade
o sonhado
à realidade
e do real
partir para a utopia
menos mal
assim seria
menos mal

Desarmem a incompetência!

Desarmem
a boa consciência arrogante
altissonante, complacente
da intolerância religiosa
da intolerância civil
da intolerância, tanto faz
desdenhosa e incapaz
de intuir na diferença
a trave-mestra desta vida
sal da vida
A intolerância é uma água envenenada
rota em jorros mas dos gritos
só sai água silenciosa
a mais perigosa
engrossa rios, traz detritos
traz a caixa das esmolas
flutuando já tombada
penetra casas e escolas
leva livros
ditos sagrados
mas levados
mais à letra
que a própria letra
das suas margens
e assim pondo-se à margem
dos próprios rios sagrados

Desarmem a intolerância!

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Joyce woke me up to the infinity of meaning within the limitations of the ordinary person in the ordinary day. Leopold Bloom buying and selling, talking and listening, eating and defecating, praying and blaspheming is mythic in the grand manner. The twenty-year-long voyage from Troy to Ithaca is repeated every twenty-four hours in anyone's life if we only have eyes and ears for it.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Não deveria nos surpreender ou nos assustar que todas as culturas possuem mitos sobre a criação, lendas sobre o dilúvio e conceitos rituais similares. Deveríamos esperar isso. E não devemos tremer diante do erudito moderno que vê a invenção histórica em origens míticas. O facto de haver uma similaridade entre o mito no cristianismo e em outras religiões não significa que o cristianismo está em pé de igualdade com essas religiões ou subordinado a um monomito cristão mais genérico. O próprio cristianismo é a verdadeira encarnação do monomito na história, e as outras mitologias o reflectem e o distorcem, como se fossem espelhos sujos ou quebrados.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Segundo Campbell, todas as religiões e mitologias são apenas manifestações locais de uma verdade singular do que ele chama de ‘monomito’ do herói. O monomito, em sua forma mais básica, consiste de uma viagem de separação do herói desde a sua iniciação até ao retorno, e incorpora a redenção de uma maneira que iremos discutir no próximo capítulo, quando falarmos sobre a estrutura da história. Campbell procura provar a sua tese com uma recitação eclética de muitas das histórias do mundo, desde os mitos da criação até as lendas sobre o dilúvio e os heróis da fé.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

«O que é do mar se os rios se recusam?». Reencontro esta frase espantosa, que não lia há anos, embora tenha todas as edições portuguesas (cinco) de A Nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer (Antígona) É um brevíssimo texto póstumo de Stig Dagerman, escritor sueco que se suicidou em 1954. Lembro-me bem de ter comprado a primeira edição, em 1995, tinha eu 22 anos, era então um romântico radical. Dagerman fazia as duas perguntas essenciais: o que podemos exigir da vida e qual é a libertação em caso de fracasso. As questões importantes aos 22: a felicidade e o suicídio. Escrito em estado de depressão, o texto é porém bem menos depressivo do que eu recordava, ainda indeciso se a noite é uma treva entre dois dias ou se o dia é uma treva entre duas noites. A ideia que consola é o suicídio, a ideia do suicídio, essa opção. Creio que o texto é escrito naquela fase optimista da depressão, em que imaginamos que o suicídio consola. Dagerman tem porém consciência de que o consolo é pouco: «O que procuro para a vida não é uma desculpa, mas exactamente o seu contrário: é o perdão que busco. Descubro, afinal, que se não levar em conta a minha liberdade, todo o consolo é enganador, mera imagem reflectida do desespero». A liberdade é um consolo, mas só o perdão liberta. Creio que ainda não sabia isso, aos 22.

sábado, 17 de abril de 2010

Listen carefully to what I am saying—and be wary of the shrewd advice that tells you how to get ahead in the world on your own. Giving, not getting, is the way. Generosity begets generosity. Stinginess impoverishes.

sexta-feira, 16 de abril de 2010



Is this one for the people? Is this one for the Lord?
Or do I simply serenade for things I must afford?
You can jumble them together, my conflict still remains
Holiness is calling, in the midst of courting fame
Cause I see the trust in their eyes
Though the sky is falling
They need Your love in their lives
Compromise is calling

What if I stumble, what if I fall?
What if I lose my step and I make fools of us all?
Will the love continue when my walk becomes a crawl?
What if I stumble, and what if I fall?

What if I stumble, what if I fall?
You never turn in the heat of it all
What if I stumble, what if I fall?

Father please forgive me for I can not compose
The fear that lives within me
Or the rate at which it grows
If struggle has a purpose on the narrow road you've carved
Why do I dread my trespasses will leave a deadly scar
Do they see the fear in my eyes? Are they so revealing?
This time I cannot disguise all the doubt I'm feeling

What if I stumble?
Everyone's got to crawl when you know that
You're up against a wall, it's about to fall
Everyone's got to crawl when you know that

I hear You whispering my name [You say]
"My love for You will never change" [never change]

What if I stumble, what if I fall?
You never turn in the heat of it all
What if I stumble, what if I fall?
You are my comfort, and my God

sexta-feira, 9 de abril de 2010



How many times have
You heard someone say
If I had his money
I could do things my way

But little they know
That it's so hard to find
One rich man in ten
With a satisfied mind

Once I was waitin'
In fortune and fame
Everything that I dreamed for
To get a start in life's game

Then suddenly it happened
I lost every dime
But I'm richer by far
With a satisfied mind

Money can't buy back
Your youth when you're old
Or a friend when you're lonely
Or a love that's grown cold

The wealthiest person
Is a pauper at times
Compared to the man
With a satisfied mind

When my life has ended
And my time has run out
My friends and my loved ones
I'll leave there's no doubt

But one thing's for certain
When it comes my time
I'll leave this old world
With a satisfied mind

Quantas vezes já aconteceu
Ouvires alguém dizer
Que se tivesse o dinheiro de fulano
Poderia fazer as coisas à minha maneira

Mas mal eles sabem
Que é tão difícil encontrar
Um homem rico em dez
com alma satisfeita

Houve uma altura em que esperava
por fortuna e fama
Era tudo o que sonhava para
entrar no jogo da vida

E então aconteceu subitamente
Fiquei sem tostão
Mas sou de longe mais rico
com a alma satisfeita

Dinheiro não pode comprar de volta
a juventude quando és velho
ou um amigo quando estás só
ou um amor que arrefeceu

A pessoa mais próspera
É por vezes a mais pobre
Quando comparada com um homem
Com a alma satisfeita

Quando a minha vida chegar ao fim
E o meu tempo acabar
Os meus amigos e as minhas amadas
Vou deixar, disso não há dúvida

Mas uma coisa é certa
Quando chegar o meu tempo
Vou deixar este mundo
Com uma alma satisfeita

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Um caso eloquente na nossa época é do Nelson Mandela. Impelido por uma poderosa vaga, com a auréola do prestígio que lhe conferiam os seus longos anos de detenção, estava na posição do chefe da orquestra. Os olhos dos seus compatriotas estavam virados para ele, para as suas expressões, para os seus gestos. Se tivesse deixado falar a sua amargura, acertado contas com os seus carrascos, punido todos os que tinham apoiado ou tolerado o apartheid, ninguém poderia censurá-lo por isso. Se tivesse querido permanecer na presidência da República até ao seu último fôlego e governar como autocrata, ninguém poderia impedi-lo de o fazer. Mas ele teve o cuidado de dar, muito explicitamente, sinais muito diferentes. Não se contentou em perdoar aqueles que o tinham perseguido, quis mesmo visitar a viúva do antigo primeiro-ministro Verwoerd, um dos artífices da segregação, para lhe dizer que o passado era já o passado e que ela também tinha o seu lugar na nova África do Sul. A mensagem era clara: eu, Mandela, que sofri os tormentos que todos conhecem sob o regime racista, eu que fiz mais do que qualquer outro para pôr termo a esta abominação, quis ir como presidente que sou sentar-me sob o tecto do homem que me pôs na prisão para tomar chá com a sua viúva. Que ninguém de entre os meus se sinta autorizado, a partir de hoje, a exercer qualquer tipo de desforra militante ou manifestar um desejo de vingança!

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Gosto da história do Filipe que tinha Síndroma de Down e era posto de parte pelos seus colegas. Um dia, durante a época da Páscoa, a professora para tentar ilustrar esta verdade tão bonita do renascer da natureza e da Ressurreição de Cristo, deu uma caixinha de cartão a todos os alunos da classe. Tinham uma missão: ir para o campo e trazer de volta um símbolo da Páscoa. Os garotos foram em alegre algazarra cumprir a tarefa. De volta, colocaram as caixinhas em cima da mesa da professora. Um a uma a professora foi abrindo as caixas. A primeira tinha lá dentro uma borboleta que saiu voando assarapantada. “Que lindo!” – exclamaram as crianças. A caixa seguinte continha um ramo singelo de flores silvestres. “É a natureza a voltar à vida” – dizia a professora, passando a outra caixa. A caixa seguinte estava ... vazia. Simplesmente vazia. “Assim não vale” – disse a miudagem – “alguém fez batota”. “É minha” – interveio o pequeno Filipe. “Pois é, nunca fazes nada de jeito” – gozaram os colegas. “Eu fiz bem! Está vazia porque o túmulo também estava vazio” – explicou o Filipe. O silêncio que caiu na sala foi espantoso e luminoso. Compreenderam.
Por vezes pergunto-me o que fazem os cépticos e os não-crentes durante a Páscoa? No natal sabemos. Comem peru engordado no aviário. E na Páscoa? Comem borrego!? Certamente que não! Não podem partilhar do símbolo máximo da morte e Ressurreição de Cristo. Seria, digamos, ... incoerente! Na Páscoa, quando a Igreja de Cristo celebra o Seu poder sobre a morte e a esperança da restauração futura da natureza, que fazem os ateus!? O humanismo poderá ajudar para o dia a dia desta existência bacoca, mas deixa qualquer céptico-ateu-descrente, vazio diante dum túmulo frio. Porque ninguém pode escapar à realidade da morte. Quer estejamos no outono da vida ou no seu clímax, todos seremos confrontados com a morte. Por exemplo, quando o leitor acabar de ler este post, 5 pessoas terão morrido à volta do mundo.
Mas, o céptico pede um sinal. Provas e documentação. Que provas? Que informação? Há mais evidências da Ressurreição de Cristo do que há sobre a existência de Júlio César. Há mais provas sobre a morte e Ressurreição de Cristo do que factos que provem que Alexandre o Grande morreu com 33 anos. Os cépticos são uns ingénuos aceitando milhões de factos minúsculos sobre uma miríade de coisas, sobre as quais existem apenas fios ténues de evidência. Cristo durante a Sua última semana de vida teve uma frase demolidora: “da boca dos pequeninos e crianças de peito tiraste perfeito louvor” (Mateus 21:16). Mas é claro que os cépticos e os ateus deste mundo, serão “crescidos” de mais para louvarem a Deus. Resta-lhes uma alternativa coerente com a sua descrença. Enfiem-se num túmulo frio e inóspito, enquanto os cristãos festejam. Olhem, o de Cristo está vazio. Ele não precisa dele. É que os vivos não têm necessidade de túmulos.