terça-feira, 14 de janeiro de 2014

What scientific idea is ready for retirement?
ESSENTIALISM

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Moral controversies such as those over abortion and euthanasia are riddled with the same infection. At what point is a brain-dead accident-victim defined as "dead"? At what moment during development does an embryo become a "person"? Only a mind infected with essentialism would ask such questions. An embryo develops gradually from single-celled zygote to newborn baby, and there's no one instant when "personhood" should be deemed to have arrived. The world is divided into those who get this truth and those who wail: "But there has to be some moment when the foetus becomes human." No, there really doesn't, any more than there has to be a day when a middle-aged person becomes old. It would be better – though still not ideal – to say the embryo goes through stages of being a quarter human, half human, three quarters human… The essentialist mind will recoil from such language and accuse me of all manner of horrors for denying the essence of humanness.

Evolution too, like embryonic development, is gradual. Every one of our ancestors, back to the common root we share with chimpanzees and beyond, belonged to the same species as its own parents and its own children. And likewise for the ancestors of a chimpanzee, back to the same shared progenitor. We are linked to modern chimpanzees by a V-shaped chain of individuals who once lived and breathed and reproduced, each link in the chain being a member of the same species as its neighbours in the chain, no matter that taxonomists insist on dividing them at convenient points and thrusting discontinuous labels upon them. If all the intermediates, down both forks of the V from the shared ancestor, had happened to survive, moralists would have to abandon their essentialist, "speciesist" habit of placing Homo sapiens on a sacred plinth, infinitely separate from all other species. Abortion would no more be "murder" than killing a chimpanzee – or, by extension, any animal. Indeed an early-stage human embryo, with no nervous system and presumably lacking pain and fear, might defensibly be afforded less moral protection than an adult pig, which is clearly well equipped to suffer. Our essentialist urge toward rigid definitions of "human" (in debates over abortion and animal rights) and "alive" (in debates over euthanasia and end-of-life decisions) makes no sense in the light of evolution and other gradualistic phenomena.
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Pergunta: Que ideia científica está pronta para a reforma?
Resposta de Dawkins: Essencialismo.

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Controvérsias morais como as levantadas pelo aborto e eutanásia estão armadilhadas com o mesmo vírus. Em que ponto é que uma vítima de morte cerebral pode ser considerada "morta"? Em que ponto do seu desenvolvimento um embrião torna-se uma "pessoa"? Apenas uma mente infectada com essencialismo pode colocar estas questões. Um embrião desenvolve-se gradualmente a partir do zigoto unicelular até chegar a recém-nascido, e não há um momento a partir do qual possamos considerar que a “pessoalidade” chegou. O mundo divide-se naqueles que percebem esta verdade e os que murmuram “mas tem de haver um momento em que o feto se torna humano”. Não, na realidade não existe, tanto quanto não tem de haver um dia em que um adulto passa a velho. Seria melhor - embora não ideal - dizer que o embrião atravessa estágios em que se torna um quarto de humano, meio humano, três quartos de humano… A mente essencialista afastar-se-á de tal linguagem e acusar-me-á de topo o tipo de horrores por negar a essência da humanidade.

Também a evolução, como o desenvolvimento embrionário, é gradual. Todos os nossos ancestrais, desde a raiz comum que partilhamos com os chimpanzes entre outros, pertenceram à mesma espécie que os seus pais e os seus filhos. E o mesmo se passa com os ancestrais dos chimpanzés, até ao mesmo progenitor partilhado. Estamos ligados aos chimpanzés modernos por uma cadeia de indivíduos em V que viveram, respiraram e reproduziram-se, sendo cada elo da cadeia um membro da mesma espécie que os seus vizinhos na cadeia, mesmo que os taxonomistas insistam em dividi-los em pontos convenientes, forçando a rotulação deles em categorias descontínuas. Se todos os intermédios, ao longo de ambas as pernas do V do ancestral partilhado, tivessem sobrevivido até aos nossos dias, os moralistas teriam de abandonar o seu hábito essencialista, “especista”, de colocar o Homo Sapiens num pedestal sagrado, infinitamente separado das outras espécies. O aborto não seria mais “homicídio” do que matar um chimpanzé - ou, consequentemente, qualquer animal. De facto, um embrião num estágio inicial de desenvolvimento, sem sistema nervoso e presumivelmente sem dor ou medo, poderia razoavelmente beneficiar de uma protecção moral inferior do que um porco adulto, que está claramente equipado para sofrer. A nossa inclinação essencialista para as definições rígidas de “humano” (em debates sobre o aborto e direitos dos animais) e de “vivo” (em debates sobre eutanásia e decisões de fim-de-vida) não faz sentido à luz da evolução e de outros fenómenos “gradualísticos”.
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