Os seus pensamento foram interompidos pela abertura da porta. Devine entrou, sozinho, trazendo consigo um tabuleiro com uma garrafa de uísque, copos e um cifão.
- Weston anda ver se encontras alguma coisa para comer – disse, pousando o tabuleiro no chão, ao lado da cadeira onde Ransom se encontrava sentado, e principiando a abrir a garrafa.
Ransom, que, na verdade, se sentia bastante sequioso, reparou que o seu anfitrião era uma das tais pessoas irritantes que se esquecem de utilizar as mãos ao mesmo tempo de falam.
Devine, que começara a tirar a prata que cobria a rolha com a ponta do saca-rolhas, parou de repente para perguntar:
- Como é que veio parar a estar zona selvagem do país?
- Ando a dar uma volta pelas redondezas – respondeu Ransom. - A noite passada dormi em Stoke Underwood e estava a pensar ficar esta noite em Nadderby. Como eles não me deram hospitalidade, resolvi seguir para Sterk.
- Santo Deus! - exclamou Devine, mantendo a rolha no interior da garrafa. - Fazes isso para poupar dinheiro ou é masoquismo puro?
- Claro que é por prazer – disse Ransom, não conseguindo desviar os olhos da garrafa, que nunca mais era aberta.
- Como é que consegues explicar isso? - perguntou Devine, voltando a si o suficiente para tirar mais um pouco de prata da rolha.
- Nem eu sei bem. Para começar, gosto realmente de andar a pé...
- Santo Deus! Deves ter gostado imenso de estar na tropa, como todas aquelas caminhadas intermináveis ao longo de Thingummy, não?
- Não, não. É exactamente ao contrário da tropa. A diferença fundamental está em que tu, na tropa, nunca estás sozinho por um só momento nem podes escolher o sítio para onde queres ir ou até mesmo a parte da estrada por onde te apetece seguir. Numa viagem deste género estás totalmente entregue a ti mesmo. Páras onde queres e segues caminho quando tens vontade disso. Não tens de dar satisfações a ninguém.
- Até que, uma noite, encontras um telegrama no teu hotel a dizer: «Volta imediatamente» - replicou Devine, removendo, finalmente, o resto da prata.
- Só se foste suficientemente parvo para deixares em casa uma lista do teu itinerário! A pior coisa que me podia acontecer era o homem dos telegramas dizer: «É favor o Dr. Elwin Ransom, que se crê estar em viagem de recreio algures nas Midlands...»
- Estou a perceber a ideia – disse Devine, parando no preciso momento em que ia abrir a garrafa. - Isso não seria possível se andasses em viagem de negócios. És um diabo cheio de sorte.
Para Além do Planeta Silencioso
página 17
C. S. Lewis
Editora: Europa-América
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segunda-feira, 22 de abril de 2019
quinta-feira, 18 de abril de 2019
Contactar pela primeira vez com uma nova arte
A qualquer homem, ao contactar pela primeira vez com uma nova arte, depara-se-lhe, a certa altura, algo que, erguendo a ponta do véu que esconde o mistério, revela, numa explosão de maravilha que o posterior entendimento total quase nunca chega a igualar, um lampejo das imensas possibilidades que lhe são inerentes. Para Ransom, esse momento ocorreu naquela altura, no que dizia respeito à sua compreensão das canções malacandrianas. De início reparou que o ritmo utilizado tinha por base a influência de um sangue diferente do nosso, de um coração que batia mais depressa e de uma temperatura interna mais elevada. O conhecimento que tinha das criaturas, e o amor que entretanto desenvolvera em relação a elas, fez que começasse a ouvi-las tal como cantavam. As primeiras estrofes do canto fúnebre, cantadas em notas baixas, acordando nele a sensação de grandes massas que se moviam a velocidades inconcebíveis, de gigantes dançando, de mágoas eternamente dissipadas por algo que desconhecia mas de que, apesar de tudo, tinha conhecimento, inundaram-lhe o espírito, como se as portas do céus se tivessem aberto diante dele.
Para Além do Planeta Silencioso
página 123
C. S. Lewis
Editora: Europa-América
Para Além do Planeta Silencioso
página 123
C. S. Lewis
Editora: Europa-América
segunda-feira, 12 de março de 2018
The Weight of Glory - 13
(...)
Entretanto, a cruz vem antes da coroa e amanhã é segunda-feira de manhã. Abriu uma fenda nas muralhas impiedosas do mundo, e somos convidados a seguir o nosso Capitão lá para dentro. Segui-Lo é, obviamente, o ponto essencial. E assim sendo, poderá ser perguntado sobre qual a aplicação prática destas especulações com que nos temos presenteado. Consigo lembrar-me de pelo menos uma aplicação. É possível que cada um pense demasiado na sua potencial glória na próxima vida; é mais dificilmente possível que se pense o mesmo com demasiada frequencia ou profundidade em relação ao seu próximo. A carga, ou o peso, ou o fardo da glória do meu próximo deve ser depositada nas minhas costas, uma carga tão pesada que só a humildade pode carregá-la, e as costas dos orgulhosos cederão. É uma coisa séria viver numa sociedade de possíveis deuses e deusas, lembrar que a pessoa mais aborrecida e desinteressante com que possas ter falado, um dia poderá ser uma criatura que, se a visses agora, sentir-te-ias fortemente tentado a adorá-la, ou então, um horror e uma corrupção tal que agora apenas podes conhecer, se tanto, num pesadelo. Durante todo o dia estamos, em algum grau, a ajudarmo-nos uns aos outros para um ou outro destes destinos. É à luz destas possibilidades esmagadoras, é com a reverência e a circunspecção que se lhes adequa, que devemos orientar o nosso trato uns com os outros, em todas as amizades, em todos os amores, em todas as brincadeiras, em todas as políticas. Não existem pessoas comuns/vulgares/ordinárias (ordinary). Tu nunca falaste com um mero mortal. Nações, culturas, artes, civilizações – estas são mortais, e as suas vidas estão para as nossas como a vida de um mosquito. Mas é com imortais que brincamos, trabalhamos, casamos, desprezamos e exploramos – horrores imortais ou esplendores eternos. Isto não sgnifica que devamos ser perpetuamente solenes. Devemos brincar. Mas o nosso divertimente deve ser daquele tipo (e é, de facto, o mais divertido) que existe entre pessoas que, desde o princípio, se levaram a sério mutuamente – sem frivolidade, sem superioridade, sem presunção. E a nossa caridade deve ser um amor real e custoso, profundamente sentidos pelos pecados apesar dos quais amamos o pecador – não mera tolerância ou indulgência que caricaturam o amor, da mesma forma que frivolidade caricatura a diversão. A seguir ao próprio Santo Sacramento, o teu próximo é o objecto mais santo que é apresentado aos nossos sentidos. Se o teu próximo for Cristão, ele é santo quase da mesma maneira, porque nele também a vere latitat de Cristo – o glorificador e o glorifiado, a própria personificação da Glória, está verdadeiramente escondiada.
The Weight of Glory
Entretanto, a cruz vem antes da coroa e amanhã é segunda-feira de manhã. Abriu uma fenda nas muralhas impiedosas do mundo, e somos convidados a seguir o nosso Capitão lá para dentro. Segui-Lo é, obviamente, o ponto essencial. E assim sendo, poderá ser perguntado sobre qual a aplicação prática destas especulações com que nos temos presenteado. Consigo lembrar-me de pelo menos uma aplicação. É possível que cada um pense demasiado na sua potencial glória na próxima vida; é mais dificilmente possível que se pense o mesmo com demasiada frequencia ou profundidade em relação ao seu próximo. A carga, ou o peso, ou o fardo da glória do meu próximo deve ser depositada nas minhas costas, uma carga tão pesada que só a humildade pode carregá-la, e as costas dos orgulhosos cederão. É uma coisa séria viver numa sociedade de possíveis deuses e deusas, lembrar que a pessoa mais aborrecida e desinteressante com que possas ter falado, um dia poderá ser uma criatura que, se a visses agora, sentir-te-ias fortemente tentado a adorá-la, ou então, um horror e uma corrupção tal que agora apenas podes conhecer, se tanto, num pesadelo. Durante todo o dia estamos, em algum grau, a ajudarmo-nos uns aos outros para um ou outro destes destinos. É à luz destas possibilidades esmagadoras, é com a reverência e a circunspecção que se lhes adequa, que devemos orientar o nosso trato uns com os outros, em todas as amizades, em todos os amores, em todas as brincadeiras, em todas as políticas. Não existem pessoas comuns/vulgares/ordinárias (ordinary). Tu nunca falaste com um mero mortal. Nações, culturas, artes, civilizações – estas são mortais, e as suas vidas estão para as nossas como a vida de um mosquito. Mas é com imortais que brincamos, trabalhamos, casamos, desprezamos e exploramos – horrores imortais ou esplendores eternos. Isto não sgnifica que devamos ser perpetuamente solenes. Devemos brincar. Mas o nosso divertimente deve ser daquele tipo (e é, de facto, o mais divertido) que existe entre pessoas que, desde o princípio, se levaram a sério mutuamente – sem frivolidade, sem superioridade, sem presunção. E a nossa caridade deve ser um amor real e custoso, profundamente sentidos pelos pecados apesar dos quais amamos o pecador – não mera tolerância ou indulgência que caricaturam o amor, da mesma forma que frivolidade caricatura a diversão. A seguir ao próprio Santo Sacramento, o teu próximo é o objecto mais santo que é apresentado aos nossos sentidos. Se o teu próximo for Cristão, ele é santo quase da mesma maneira, porque nele também a vere latitat de Cristo – o glorificador e o glorifiado, a própria personificação da Glória, está verdadeiramente escondiada.
The Weight of Glory
segunda-feira, 5 de março de 2018
The Weight of Glory - 12
(...)
E quando lá chegarmos, além da Natureza, comeremos da árvore da vida. De momento, somos renascidos em Cristo, o espírito em nós vive directamente em Deus; mas a mente, e ainda mais o corpo, recebe vida d'Ele através de mil subtracções – através dos nossos antepassados, através da nossa comida, através dos elementos. Os resultados débeis e distantes dessas energias que o êxtase criativo de Deus implantou na matéria quando Ele fez os mundos são o que agora chamamos de prazeres físicos; e mesmo que filtrados, eles são demasiado para o que conseguimos lidar actualmente. Como seria provar na fonte aquele regato do qual até estas coisas menores se mostram intoxicantes. Ainda assim, creio eu, isso é o que jaz diante de nós. O homem completo é feito para beber alegria da fonte da alegria. Como disse Santo Agostinho, o êxtase da alma salva "fluirá" para o corpo glorificado. À luz dos nossos apetites actuais especializados e depravados, não conseguimos imaginar esta torrens voluptatis, e aviso-vos seriamente para não o tentarem. Mas isto deve ser mencionado, para expulsar pensamentos ainda mais desorientadores – pensamentos de que o que se salva é um mero espírito, ou de que o corpo ressurrecto vive numa insensibilidade dormente. O corpo foi feito para o Senhor, e estas excentricidades sinistras estão muito distantes do que está certo.
(...)
The Weight of Glory
E quando lá chegarmos, além da Natureza, comeremos da árvore da vida. De momento, somos renascidos em Cristo, o espírito em nós vive directamente em Deus; mas a mente, e ainda mais o corpo, recebe vida d'Ele através de mil subtracções – através dos nossos antepassados, através da nossa comida, através dos elementos. Os resultados débeis e distantes dessas energias que o êxtase criativo de Deus implantou na matéria quando Ele fez os mundos são o que agora chamamos de prazeres físicos; e mesmo que filtrados, eles são demasiado para o que conseguimos lidar actualmente. Como seria provar na fonte aquele regato do qual até estas coisas menores se mostram intoxicantes. Ainda assim, creio eu, isso é o que jaz diante de nós. O homem completo é feito para beber alegria da fonte da alegria. Como disse Santo Agostinho, o êxtase da alma salva "fluirá" para o corpo glorificado. À luz dos nossos apetites actuais especializados e depravados, não conseguimos imaginar esta torrens voluptatis, e aviso-vos seriamente para não o tentarem. Mas isto deve ser mencionado, para expulsar pensamentos ainda mais desorientadores – pensamentos de que o que se salva é um mero espírito, ou de que o corpo ressurrecto vive numa insensibilidade dormente. O corpo foi feito para o Senhor, e estas excentricidades sinistras estão muito distantes do que está certo.
(...)
The Weight of Glory
segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018
The Weight of Glory - 11
(...)
E isto traz-me para o outro sentido para glória – glória enquanto brilho, esplendor, luminosidade. Devemos brilhar como o sol, a Estrela Vespertina ser-nos-á oferecida. Penso que comecei a perceber o que isso significa. Por um lado, claro, Deus já nos ofereceu a Estrela Verpertina: uma pessoa pode sair e desfrutar da oferta por muitas belas manhãs, se se levantar cedo o suficiente. Mas o que é que, poderão perguntar, nós queremos? Ah, mas nós queremos muito mais do que isso – algo a que os livros de estética pouco se dedicam. Mas os poetas e as mitologias sabem tudo sobre o assunto. Não queremos apenas ver a beleza, embora, sabe Deus, até esse seja um prémio suficiente. Queremos outra coisa, que dificilmente pode ser exprimida por palavras – estar unidos com a beleza que vemos, passar para ela, recebê-la em nós, banharmo-nos nela, tornarmo-nos parte dela. É por isso que povoámos o ar, a terra e a água com deuses e deusas, e ninfas e elfos – que, embora nós não possamos, no entanto estas projecções podem, desfrutar nelas mesmas da beleza, graça e poder da qual a Natureza é a imagem. É por isso que os poetas nos dizem falsidades tão adoráveis. Eles falam como se o vento do oeste pudesse mesmo varrer a alma humana; mas não pode. Eles dizem-nos que "a beleza nascida de um som murmurante" passará para um rosto humano. Mas não passa. Ou pelo menos, ainda não passa. Porque se levamos a sério a imagética das Escrituras, se acreditamos que um dia Deus nos dará a Estrela Vespertina e nos compelir a envergar o esplendor do sol, então podemos supor que os mitos antigos e a poesia moderna, sendo falsas enquanto história, poderão estar bastante perto da verdade enquanto profecia. De momento estamos no exterior do mundo, no lado errado da porta. Nós conseguimos distinguir a frescura e a pureza da manhã, mas elas não nos tornam frescos e puros. Não nos conseguimos misturar com os esplendores que vemos. Mas todas as páginas do Novo Testamento sussurram o rumor de que não será sempre assim. Em algum dia, se Deus quiser, entraremos para o lado de dentro. Quando as almas humanas se tornarem tão perfeitas em obediência voluntária quanto a criação inanimada na sua obediência desprovida de vida, então poderão envergar a sua glória, ou melhor, aquela glória superior da qual a Natureza é apenas um primeiro esboço. Não julguem que estou a descair para uma qualquer extravagância pagã de ser absorvido na Natureza. A Natureza é mortal. Nós viveremos para além dela. Quando todos os sóis e nébulas tiverem morrido, cada um de vocês continuará vivo. A Natureza é apenas a imagem, o símbolo; mas é o símbolo que as Escrituras me convidam a usar. Somos instados a passar através da Natureza, para além dela, até àquele esplendor que ela reflecte a espaços.
(...)
The Weight of Glory
E isto traz-me para o outro sentido para glória – glória enquanto brilho, esplendor, luminosidade. Devemos brilhar como o sol, a Estrela Vespertina ser-nos-á oferecida. Penso que comecei a perceber o que isso significa. Por um lado, claro, Deus já nos ofereceu a Estrela Verpertina: uma pessoa pode sair e desfrutar da oferta por muitas belas manhãs, se se levantar cedo o suficiente. Mas o que é que, poderão perguntar, nós queremos? Ah, mas nós queremos muito mais do que isso – algo a que os livros de estética pouco se dedicam. Mas os poetas e as mitologias sabem tudo sobre o assunto. Não queremos apenas ver a beleza, embora, sabe Deus, até esse seja um prémio suficiente. Queremos outra coisa, que dificilmente pode ser exprimida por palavras – estar unidos com a beleza que vemos, passar para ela, recebê-la em nós, banharmo-nos nela, tornarmo-nos parte dela. É por isso que povoámos o ar, a terra e a água com deuses e deusas, e ninfas e elfos – que, embora nós não possamos, no entanto estas projecções podem, desfrutar nelas mesmas da beleza, graça e poder da qual a Natureza é a imagem. É por isso que os poetas nos dizem falsidades tão adoráveis. Eles falam como se o vento do oeste pudesse mesmo varrer a alma humana; mas não pode. Eles dizem-nos que "a beleza nascida de um som murmurante" passará para um rosto humano. Mas não passa. Ou pelo menos, ainda não passa. Porque se levamos a sério a imagética das Escrituras, se acreditamos que um dia Deus nos dará a Estrela Vespertina e nos compelir a envergar o esplendor do sol, então podemos supor que os mitos antigos e a poesia moderna, sendo falsas enquanto história, poderão estar bastante perto da verdade enquanto profecia. De momento estamos no exterior do mundo, no lado errado da porta. Nós conseguimos distinguir a frescura e a pureza da manhã, mas elas não nos tornam frescos e puros. Não nos conseguimos misturar com os esplendores que vemos. Mas todas as páginas do Novo Testamento sussurram o rumor de que não será sempre assim. Em algum dia, se Deus quiser, entraremos para o lado de dentro. Quando as almas humanas se tornarem tão perfeitas em obediência voluntária quanto a criação inanimada na sua obediência desprovida de vida, então poderão envergar a sua glória, ou melhor, aquela glória superior da qual a Natureza é apenas um primeiro esboço. Não julguem que estou a descair para uma qualquer extravagância pagã de ser absorvido na Natureza. A Natureza é mortal. Nós viveremos para além dela. Quando todos os sóis e nébulas tiverem morrido, cada um de vocês continuará vivo. A Natureza é apenas a imagem, o símbolo; mas é o símbolo que as Escrituras me convidam a usar. Somos instados a passar através da Natureza, para além dela, até àquele esplendor que ela reflecte a espaços.
(...)
The Weight of Glory
segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018
The Weight of Glory - 10
(...)
Talvez pareça um tanto rude descrever glória enquanto o facto de Deus "reparar" em nós. Mas esta é praticamente a linguagem do Novo Testamento. Paulo promete àqueles que amem Deus, não como nós esperaríamos, que conhecerão Deus, mas que serão conhecidos por Ele. É uma estranha promessa. Então Deus não conhece todas as coisas a toda a hora? No entanto, ressoa terrivelmente noutra passagem do Novo Testamento. Nela somos avisados que poderá acontecer a qualquer um de nós quando nos apresentarmos finalmente diante de Deus ouvir a palavras implacáveis: "Nunca te conheci. Aparta-te de mim". Em certo sentido, tão obscuro para o intelecto quanto insuportável para os sentimentos, tanto podemos ser banidos da presença d'Aquele que está presente em todo lado, como apagados do conhecimento d'Aquele que conhece tudo. Nós podemos ser completa e absolutamente deixados de fora – repelidos, exilados, alienados, final e inexprimivelmente ignorados. Por outro lado, nós podemos ser chamados a entrar, acolhidos, recebidos, reconhecidos. Caminhamos todos os dias na lâmina da navalha entre estas duas possibilidades. Aparentemente, como tal, a nossa nostalgia permanente, o nosso anseio de ser reunidos com qualquer coisa no universo da qual nos sentimos separados, estar do lado de dentro de uma porta que sempre vimos do lado de fora, não é uma mera fantasia neurótica, mas o mais verdadeiro indicador da nossa condição real. E estar por fim convocado a entrar seria uma glória e uma honra para além de qualquer um dos nossos méritos, e também a cura para aquela velha aflição
(...)
The Weight of Glory
Talvez pareça um tanto rude descrever glória enquanto o facto de Deus "reparar" em nós. Mas esta é praticamente a linguagem do Novo Testamento. Paulo promete àqueles que amem Deus, não como nós esperaríamos, que conhecerão Deus, mas que serão conhecidos por Ele. É uma estranha promessa. Então Deus não conhece todas as coisas a toda a hora? No entanto, ressoa terrivelmente noutra passagem do Novo Testamento. Nela somos avisados que poderá acontecer a qualquer um de nós quando nos apresentarmos finalmente diante de Deus ouvir a palavras implacáveis: "Nunca te conheci. Aparta-te de mim". Em certo sentido, tão obscuro para o intelecto quanto insuportável para os sentimentos, tanto podemos ser banidos da presença d'Aquele que está presente em todo lado, como apagados do conhecimento d'Aquele que conhece tudo. Nós podemos ser completa e absolutamente deixados de fora – repelidos, exilados, alienados, final e inexprimivelmente ignorados. Por outro lado, nós podemos ser chamados a entrar, acolhidos, recebidos, reconhecidos. Caminhamos todos os dias na lâmina da navalha entre estas duas possibilidades. Aparentemente, como tal, a nossa nostalgia permanente, o nosso anseio de ser reunidos com qualquer coisa no universo da qual nos sentimos separados, estar do lado de dentro de uma porta que sempre vimos do lado de fora, não é uma mera fantasia neurótica, mas o mais verdadeiro indicador da nossa condição real. E estar por fim convocado a entrar seria uma glória e uma honra para além de qualquer um dos nossos méritos, e também a cura para aquela velha aflição
(...)
The Weight of Glory
segunda-feira, 29 de janeiro de 2018
The Weight of Glory - 9
(...)
E agora reparem no que está a acontecer. Se eu tivesse rejeitado a imagem escritural e autoritativa de glória, e ficado obstinadamente bloqueado no desejo vago que, no início, era a minha única pista para o Céu, poderia não ter encontrado de todo a ligação entre esse desejo e a promessa cristã. Mas agora, tendo seguido nos textos sagrados o que parecia ser confuso e repelente, descubro, para minha grande surpresa, olhando para trás, que a ligação é claríssima. Glória, aquela pela qual o Cristianismo me ensina a esperar, satisfaz afinal o meu desejo original e, na verdade, revela um elemento desse desejo em que eu não tinha reparado. Ao deixar de considerar, por um momento, o meu próprio querer, comecei a perceber melhor o que eu realmente queria. Quando tentei, há alguns minutos atrás, descrever os nossos anseios espirituais, acabei por omitir uma das suas características mais curiosas. Geralmente reparamos nela assim que a visão esmorece, que música termina, ou que a paisagem perde a sua luz celestial. O que sentimos nesses momentos foi bem descrito por Keats como "a jornada de regresso ao eu habitual". Vocês sabem o que quero dizer. Por breves minutos temos a ilusão de que pertencemos àquele mundo. Depois acordamos e percebemos que tal não acontece. Fomo meros espectadores. A beleza sorriu-nos, mas não nos recebeu; a sua face virou-se na nossa direcção, mas não nos viu. Não fomos aceites, acolhidos ou convidados a dançar. Podemos ir quando nos apetecer, podemos ficar se conseguirmos: "Ninguém nos ouve". Um cientista poderá responder que como a maior parte das coisas a que chamamos belas é inanimada, não é lá muito surpreendente que elas não reparem em nós. Como é óbvio, isso é verdade. Não é do objecto físico que vos estou a falar, mas daquela qualquer coisa indescritível da qual ele se torna mensageiro por um momento. E parte da amargura que se mistura com a doçura da mensagem deve-se ao facto de que tão raramente a mensagem parece ser dirigida a nós, mas dirigida sim a alguma coisa de que ouvimos falar. Por amargura, quero dizer dor, não ressentimento. Não nos devemos atrever a pedir para ser objecto de atenção. No entanto definhamos. A sensação de que somos tratados como estrangeiros neste universo, o anseio de sermos reconhecidos, de recebermos algum tipo de reacção, de contruir pontes sobre os abismos que crescem entre nós e a realidade, é parte do nosso segredo inconsolável. E seguramente que, deste ponto de vista, a glória, no sentido descrito, se torna altamente relevante para o nosso desejo. Porque glória significa boa reputação junto de Deus, aceitação por parte de Deus, resposta, reconhecimento e ser acolhido no coração das coisas. A porta em que temos batido a nossa vida toda abrir-se-á finalmente.
(...)
The Weight Of Glory
E agora reparem no que está a acontecer. Se eu tivesse rejeitado a imagem escritural e autoritativa de glória, e ficado obstinadamente bloqueado no desejo vago que, no início, era a minha única pista para o Céu, poderia não ter encontrado de todo a ligação entre esse desejo e a promessa cristã. Mas agora, tendo seguido nos textos sagrados o que parecia ser confuso e repelente, descubro, para minha grande surpresa, olhando para trás, que a ligação é claríssima. Glória, aquela pela qual o Cristianismo me ensina a esperar, satisfaz afinal o meu desejo original e, na verdade, revela um elemento desse desejo em que eu não tinha reparado. Ao deixar de considerar, por um momento, o meu próprio querer, comecei a perceber melhor o que eu realmente queria. Quando tentei, há alguns minutos atrás, descrever os nossos anseios espirituais, acabei por omitir uma das suas características mais curiosas. Geralmente reparamos nela assim que a visão esmorece, que música termina, ou que a paisagem perde a sua luz celestial. O que sentimos nesses momentos foi bem descrito por Keats como "a jornada de regresso ao eu habitual". Vocês sabem o que quero dizer. Por breves minutos temos a ilusão de que pertencemos àquele mundo. Depois acordamos e percebemos que tal não acontece. Fomo meros espectadores. A beleza sorriu-nos, mas não nos recebeu; a sua face virou-se na nossa direcção, mas não nos viu. Não fomos aceites, acolhidos ou convidados a dançar. Podemos ir quando nos apetecer, podemos ficar se conseguirmos: "Ninguém nos ouve". Um cientista poderá responder que como a maior parte das coisas a que chamamos belas é inanimada, não é lá muito surpreendente que elas não reparem em nós. Como é óbvio, isso é verdade. Não é do objecto físico que vos estou a falar, mas daquela qualquer coisa indescritível da qual ele se torna mensageiro por um momento. E parte da amargura que se mistura com a doçura da mensagem deve-se ao facto de que tão raramente a mensagem parece ser dirigida a nós, mas dirigida sim a alguma coisa de que ouvimos falar. Por amargura, quero dizer dor, não ressentimento. Não nos devemos atrever a pedir para ser objecto de atenção. No entanto definhamos. A sensação de que somos tratados como estrangeiros neste universo, o anseio de sermos reconhecidos, de recebermos algum tipo de reacção, de contruir pontes sobre os abismos que crescem entre nós e a realidade, é parte do nosso segredo inconsolável. E seguramente que, deste ponto de vista, a glória, no sentido descrito, se torna altamente relevante para o nosso desejo. Porque glória significa boa reputação junto de Deus, aceitação por parte de Deus, resposta, reconhecimento e ser acolhido no coração das coisas. A porta em que temos batido a nossa vida toda abrir-se-á finalmente.
(...)
The Weight Of Glory
segunda-feira, 22 de janeiro de 2018
The Weight of Glory - 8
(...)
Não estou a esquecer-me do quanto este desejo tão inocente é parodiado nas nossas ambições humanas, ou no quão rapidamente, na minha experiência, o legítimo prazer de agradar aqueles a quem era meu dever agradar se transforme no veneno mortal da auto-admiração. Mas acho que conseguia detectar um instante – um curto, curto instante – antes disto acontecer, durante o qual a satisfação de ter agradado aqueles a quem acertadamente amei, e acertadamente temi, era pura. E isto é suficiente para pensarmos sobre o que pode acontecer quando a alma redimida, para além de toda a esperança, e de quase toda a crença, descobre por fim que agradou Aquele para o qual ela foi criada para agradar. Então, não haverá espaço para vaidade. Será libertada da miserável ilusão de que foi pelo seu esforço. Sem qualquer mancha daquilo a que agora chamamos auto-aprovação, ela irá alegrar-se inocentemente naquilo que Deus a criou para ser, e a ocasião que curará o seu velho complexo de inferioridade para sempre, afogará também o seu orgulho, mais fundo do que o livro de Prospero. A perfeita humildade dispensa modéstia. Se Deus está satisfeito com a obra, a obra pode estar satisfeita consigo própria; "não lhe compete regatear elogios com o Soberano". Consigo imaginar alguém a dizer que não lhe agrada a minha ideia do Céu enquanto um sítio onde recebemos palmadinhas nas costas. Mas por detrás desse desagrado jaz um equívoco movido por orgulho. No fim, aquela Face que é o encanto ou o terror do universo, terá de se voltar para cada um de nós com uma ou outra expressão, conferindo glória inexprimível ou infligindo vergonha que não pode ser curada ou disfarçada. Li num jornal no outro dia que o fundamental é o que pensamos acerca de Deus. Por Deus, não é! O que Deus pensa de nós é não apenas mais importante, mas infinitamente mais importante. De facto, o que pensamos d'Ele não tem importância alguma, excepto na medida em que isso esteja relacionado com o que Ele pensa de nós. Está escrito que "nos apresentaremos diante" d'Ele, compareceremos, seremos inspeccionados. A promessa de glória é a promessa, quase impossível de acreditar e só possível pela obra de Cristo, de que alguns de nós, qualquer um de nós que realmente o escolha, sobreviverá a esse exame, encontrará aprovação, agradará a Deus. Agradar a Deus... ser um ingrediente real na felicidade divina... ser amado por Deus, e ser aceite não apenas por piedade, mas por deleite, da mesma maneira que um artista se deleita na sua obra ou um pai se deleita num filho – parece impossível, um peso ou um fardo de glória que os nossos pensamentos dificilmente conseguem suster. Mas assim é.
(...)
The Weight of Glory
Não estou a esquecer-me do quanto este desejo tão inocente é parodiado nas nossas ambições humanas, ou no quão rapidamente, na minha experiência, o legítimo prazer de agradar aqueles a quem era meu dever agradar se transforme no veneno mortal da auto-admiração. Mas acho que conseguia detectar um instante – um curto, curto instante – antes disto acontecer, durante o qual a satisfação de ter agradado aqueles a quem acertadamente amei, e acertadamente temi, era pura. E isto é suficiente para pensarmos sobre o que pode acontecer quando a alma redimida, para além de toda a esperança, e de quase toda a crença, descobre por fim que agradou Aquele para o qual ela foi criada para agradar. Então, não haverá espaço para vaidade. Será libertada da miserável ilusão de que foi pelo seu esforço. Sem qualquer mancha daquilo a que agora chamamos auto-aprovação, ela irá alegrar-se inocentemente naquilo que Deus a criou para ser, e a ocasião que curará o seu velho complexo de inferioridade para sempre, afogará também o seu orgulho, mais fundo do que o livro de Prospero. A perfeita humildade dispensa modéstia. Se Deus está satisfeito com a obra, a obra pode estar satisfeita consigo própria; "não lhe compete regatear elogios com o Soberano". Consigo imaginar alguém a dizer que não lhe agrada a minha ideia do Céu enquanto um sítio onde recebemos palmadinhas nas costas. Mas por detrás desse desagrado jaz um equívoco movido por orgulho. No fim, aquela Face que é o encanto ou o terror do universo, terá de se voltar para cada um de nós com uma ou outra expressão, conferindo glória inexprimível ou infligindo vergonha que não pode ser curada ou disfarçada. Li num jornal no outro dia que o fundamental é o que pensamos acerca de Deus. Por Deus, não é! O que Deus pensa de nós é não apenas mais importante, mas infinitamente mais importante. De facto, o que pensamos d'Ele não tem importância alguma, excepto na medida em que isso esteja relacionado com o que Ele pensa de nós. Está escrito que "nos apresentaremos diante" d'Ele, compareceremos, seremos inspeccionados. A promessa de glória é a promessa, quase impossível de acreditar e só possível pela obra de Cristo, de que alguns de nós, qualquer um de nós que realmente o escolha, sobreviverá a esse exame, encontrará aprovação, agradará a Deus. Agradar a Deus... ser um ingrediente real na felicidade divina... ser amado por Deus, e ser aceite não apenas por piedade, mas por deleite, da mesma maneira que um artista se deleita na sua obra ou um pai se deleita num filho – parece impossível, um peso ou um fardo de glória que os nossos pensamentos dificilmente conseguem suster. Mas assim é.
(...)
The Weight of Glory
segunda-feira, 1 de janeiro de 2018
The Weight of Glory - 7
(...)
De seguida, viro-me para a ideia de glória. Não há forma de escapar ao facto de que esta ideia é bastante proeminente no Novo Testamente e nos primeiros escritos cristãos. Salvação está constantemente associada a palmeiras, coroas, roupões brancos, tronos e esplendor como o do sol e das estrelas. Tudo isto não me causa nenhum apelo imediato, e a esse respeito, imagino que eu seja um típico moderno. Glória sugere-me duas ideias, das quais uma parece-me perversa, e a outra ridícula. Para mim, glória significa ou fama ou luminosidade. Em relação à primeira, como ser famoso significa ser mais conhecido do que as outras pessoas, vejo o desejo pela fama como uma paixão competitiva, e como tal, mais do Inferno do que do Céu. Em relação à segunda, quem é que deseja tornar-se numa espécie de lâmpada eléctrica viva?
Quando comecei a debruçar-me sobre este assunto fiquei bastante surpreendido por deparar-me com cristãos tão diferentes quanto Milton, Johnson e Tomás de Aquino a levarem bastante a sério a ideia de glória celestial no sentido de fama ou boa reputação. Mas não fama conferida por criaturas semelhantes a nós – fama com Deus, aprovação ou (diria eu) "apreciação" por Deus. E então, quando pensei melhor no assunto, reparei que esta perspectiva concorda com as Escrituras; nada pode eliminar da parábola o elogio divino, "procedeste bem, servo bom e fiel". Com isto, uma boa parte do que eu tinha pensado a vida toda caiu como um castelo de cartas. De repente lembrei-me que ninguém pode entrar no Céu, excepto se for como uma criança; e nada é tão óbvio numa criança – não numa criança presunçosa, mas numa boa criança – como o seu grande e indisfarçável prazer em ser elogiada. Não apenas numa criança, mas até mesmo num cão ou num cavalo. Aparentemente, o que tinha confundido com humildade tinha-me impedido, estes anos todos, de perceber qual era de facto o mais humilde, o mais infantil, o mais "criaturístico" – não, mais do que isso, o prazer específico dos inferiores: o prazer da besta diante do homem, da criança diante do seu pai, do aluno diante do seu professor, da criatura diante do seu Criador.
(...)
The Weight of Glory
De seguida, viro-me para a ideia de glória. Não há forma de escapar ao facto de que esta ideia é bastante proeminente no Novo Testamente e nos primeiros escritos cristãos. Salvação está constantemente associada a palmeiras, coroas, roupões brancos, tronos e esplendor como o do sol e das estrelas. Tudo isto não me causa nenhum apelo imediato, e a esse respeito, imagino que eu seja um típico moderno. Glória sugere-me duas ideias, das quais uma parece-me perversa, e a outra ridícula. Para mim, glória significa ou fama ou luminosidade. Em relação à primeira, como ser famoso significa ser mais conhecido do que as outras pessoas, vejo o desejo pela fama como uma paixão competitiva, e como tal, mais do Inferno do que do Céu. Em relação à segunda, quem é que deseja tornar-se numa espécie de lâmpada eléctrica viva?
Quando comecei a debruçar-me sobre este assunto fiquei bastante surpreendido por deparar-me com cristãos tão diferentes quanto Milton, Johnson e Tomás de Aquino a levarem bastante a sério a ideia de glória celestial no sentido de fama ou boa reputação. Mas não fama conferida por criaturas semelhantes a nós – fama com Deus, aprovação ou (diria eu) "apreciação" por Deus. E então, quando pensei melhor no assunto, reparei que esta perspectiva concorda com as Escrituras; nada pode eliminar da parábola o elogio divino, "procedeste bem, servo bom e fiel". Com isto, uma boa parte do que eu tinha pensado a vida toda caiu como um castelo de cartas. De repente lembrei-me que ninguém pode entrar no Céu, excepto se for como uma criança; e nada é tão óbvio numa criança – não numa criança presunçosa, mas numa boa criança – como o seu grande e indisfarçável prazer em ser elogiada. Não apenas numa criança, mas até mesmo num cão ou num cavalo. Aparentemente, o que tinha confundido com humildade tinha-me impedido, estes anos todos, de perceber qual era de facto o mais humilde, o mais infantil, o mais "criaturístico" – não, mais do que isso, o prazer específico dos inferiores: o prazer da besta diante do homem, da criança diante do seu pai, do aluno diante do seu professor, da criatura diante do seu Criador.
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The Weight of Glory
segunda-feira, 25 de dezembro de 2017
The Weight of Glory - 6
(..)
As promessas das Ecrituras podem ser reduzidas, por alto, a cinco ênfases. É prometido, em primeiro lugar, que estaremos com Cristo; em segundo, que seremos como Ele; em terceiro, com uma enorme riqueza de imagens, que teremos "glória"; em quarto, que seremos, em certo sentido, alimentados ou banqueteados ou entretidos; e finalmente, que teremos algum tipo de cargo oficial – governar cidades, julgar anjos, ser pilares do templo de Deus. A primeira pergunta que faço acerca destas promessas é: "porquê qualquer uma delas excepto a primeira?" Pode alguma coisa ser acrescentada à concepção de estar com Cristo? Porque deve ser verdade que, como diz um velho escritor, quem tem Deus e tudo o resto não tem mais do que aquele que tem apenas Deus. Penso que a resposta jaz uma vez mais na natureza dos símbolos. Porque embora possamos não reparar à primeira vista, ainda assim é verdade que qualquer concepção de estar com Cristo que qualquer um de nós possa agora formar não será muito menos simbólica do que as outras promessas; porque infiltrará uma ideia de proximidade espacial e conversa carinhosa da maneira que entendemos conversa agora, que provavelmente concentrar-se-á mais na humanidade de Cristo, excluindo a sua divindade. E de facto, descobrimos que os que só observam a primeira promessa, enchem-na de uma imagética bastante terrena – de facto, com imagética himenal ou erótica. Não estou, em momento algum, a condenar tal imagética. Desejo de coração conseguir envolver-me com ela mais profundamente do que consigo, e orem para que eu venha a conseguir. Mas o meu ponto é que isto é também apenas um símbolo, semelhante à realidade em alguns aspectos, mas diferente noutros, e como tal, precisa de correcção dos símbolos diferentes das outras promessas. A variação da promessas não significa que outra coisa que não Deus virá a ser a nossa derradeira felicidade; mas porque Deus é mais do que uma Pessoa, e porque não devemos imaginar a alegria da Sua presença demasiado exclusivamente em termos da nossa pobre experiência presente de amor pessoal, com toda a sua pequenez, distorção e monotonia, é-nos fornecida uma dúzia de imagens que se mudam, corrigem e aliviam umas às outras.
(...)
The Weight of Glory
As promessas das Ecrituras podem ser reduzidas, por alto, a cinco ênfases. É prometido, em primeiro lugar, que estaremos com Cristo; em segundo, que seremos como Ele; em terceiro, com uma enorme riqueza de imagens, que teremos "glória"; em quarto, que seremos, em certo sentido, alimentados ou banqueteados ou entretidos; e finalmente, que teremos algum tipo de cargo oficial – governar cidades, julgar anjos, ser pilares do templo de Deus. A primeira pergunta que faço acerca destas promessas é: "porquê qualquer uma delas excepto a primeira?" Pode alguma coisa ser acrescentada à concepção de estar com Cristo? Porque deve ser verdade que, como diz um velho escritor, quem tem Deus e tudo o resto não tem mais do que aquele que tem apenas Deus. Penso que a resposta jaz uma vez mais na natureza dos símbolos. Porque embora possamos não reparar à primeira vista, ainda assim é verdade que qualquer concepção de estar com Cristo que qualquer um de nós possa agora formar não será muito menos simbólica do que as outras promessas; porque infiltrará uma ideia de proximidade espacial e conversa carinhosa da maneira que entendemos conversa agora, que provavelmente concentrar-se-á mais na humanidade de Cristo, excluindo a sua divindade. E de facto, descobrimos que os que só observam a primeira promessa, enchem-na de uma imagética bastante terrena – de facto, com imagética himenal ou erótica. Não estou, em momento algum, a condenar tal imagética. Desejo de coração conseguir envolver-me com ela mais profundamente do que consigo, e orem para que eu venha a conseguir. Mas o meu ponto é que isto é também apenas um símbolo, semelhante à realidade em alguns aspectos, mas diferente noutros, e como tal, precisa de correcção dos símbolos diferentes das outras promessas. A variação da promessas não significa que outra coisa que não Deus virá a ser a nossa derradeira felicidade; mas porque Deus é mais do que uma Pessoa, e porque não devemos imaginar a alegria da Sua presença demasiado exclusivamente em termos da nossa pobre experiência presente de amor pessoal, com toda a sua pequenez, distorção e monotonia, é-nos fornecida uma dúzia de imagens que se mudam, corrigem e aliviam umas às outras.
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The Weight of Glory
segunda-feira, 4 de dezembro de 2017
The Weight of Glory - 5
(...)
Façam eles como quiserem, nós continuamos conscientes de um desejo que nenhuma felicidade natural satisfará. Mas há alguma razão para supor que a realidade oferece qualquer possibilidade de o satisfazer? "Nem estar com fome prova que temos o pão". Mas penso que pode ser salientado que isto é não perceber o que importa. A fome física de um homem não prova que ele vá ter algum pão; ele poderá morrer de fome numa jangada no Atlântico. Mas seguramente que a fome de um homem prova que ele provém de uma raça que repara o seu corpo quando come e habita um mundo onde existem substâncias comestíveis. Da mesma maneira, embora não acredite (quem me dera acreditar) que o meu desejo pelo Paraíso prove que eu vá desfrutar dele, penso que é uma indicação razoavelmente boa de que existe, e que alguns homens para lá irão. Um homem pode amar uma mulher e não conquistá-la; mas seria muito estranho se o fenómeno a que chamamos "apaixonar" ocorresse num mundo assexuado.
Então, eis o desejo, ainda a vaguear e incerto do seu objecto, e ainda largamente incapaz de olhar na direcção onde esse desejo realmente se encontra. Os nossos livros sagrados dão-nos alguma descrição do objecto. É, obviamente, uma descrição simbólica. O Céu é, por definição, exterior à nossa experiência, mas todas as descrições inteligíveis devem ser feitas a partir de coisas internas à nossa experiência. A imagem do Céu nas escrituras é, portanto, apenas tão simbólica quanto a imagem que o nosso desejo, sem ajudas, inventa para si mesmo; o Céu não está realmente cheio de jóias mais do que poderia estar da beleza da Natureza, ou de uma bela peça musical. A diferença é que a imagética das escrituras tem autoridade. Chegou até nós através de escritores que foram mais próximos de Deus do que nós, e aguentou o teste da experiência dos Cristãos ao longo dos séculos. O apelo natural que esta imagética autoritativa tem para mim é, à primeira vista, bastante reduzido. À primeira vista esfria, mais do que desperta, o meu desejo. E isso é apenas o que eu devia esperar. Se o Cristianismo não conseguisse dizer-me acerca da terra distante mais do que o meu temperamento já me tinha levado a presumir, então o Cristianismo não seria mais elevado do que eu próprio. Se tem mais para me dar, devo esperar que seja menos atraente no imediato do que "as minhas cenas". Ao inicio Sófocles pode parecer enfadonho e frio para o rapaz que só atingiu o Shelley. Se a nossa religião é uma coisa objectiva, então nunca devemos desviar os nossos olhos daqueles elementos que parecem confusos ou repelentes; porque será precisamente o confuso e o repelente que esconderá o que ainda não sabemos e precisamos de saber.
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The Weight of Glory
Façam eles como quiserem, nós continuamos conscientes de um desejo que nenhuma felicidade natural satisfará. Mas há alguma razão para supor que a realidade oferece qualquer possibilidade de o satisfazer? "Nem estar com fome prova que temos o pão". Mas penso que pode ser salientado que isto é não perceber o que importa. A fome física de um homem não prova que ele vá ter algum pão; ele poderá morrer de fome numa jangada no Atlântico. Mas seguramente que a fome de um homem prova que ele provém de uma raça que repara o seu corpo quando come e habita um mundo onde existem substâncias comestíveis. Da mesma maneira, embora não acredite (quem me dera acreditar) que o meu desejo pelo Paraíso prove que eu vá desfrutar dele, penso que é uma indicação razoavelmente boa de que existe, e que alguns homens para lá irão. Um homem pode amar uma mulher e não conquistá-la; mas seria muito estranho se o fenómeno a que chamamos "apaixonar" ocorresse num mundo assexuado.
Então, eis o desejo, ainda a vaguear e incerto do seu objecto, e ainda largamente incapaz de olhar na direcção onde esse desejo realmente se encontra. Os nossos livros sagrados dão-nos alguma descrição do objecto. É, obviamente, uma descrição simbólica. O Céu é, por definição, exterior à nossa experiência, mas todas as descrições inteligíveis devem ser feitas a partir de coisas internas à nossa experiência. A imagem do Céu nas escrituras é, portanto, apenas tão simbólica quanto a imagem que o nosso desejo, sem ajudas, inventa para si mesmo; o Céu não está realmente cheio de jóias mais do que poderia estar da beleza da Natureza, ou de uma bela peça musical. A diferença é que a imagética das escrituras tem autoridade. Chegou até nós através de escritores que foram mais próximos de Deus do que nós, e aguentou o teste da experiência dos Cristãos ao longo dos séculos. O apelo natural que esta imagética autoritativa tem para mim é, à primeira vista, bastante reduzido. À primeira vista esfria, mais do que desperta, o meu desejo. E isso é apenas o que eu devia esperar. Se o Cristianismo não conseguisse dizer-me acerca da terra distante mais do que o meu temperamento já me tinha levado a presumir, então o Cristianismo não seria mais elevado do que eu próprio. Se tem mais para me dar, devo esperar que seja menos atraente no imediato do que "as minhas cenas". Ao inicio Sófocles pode parecer enfadonho e frio para o rapaz que só atingiu o Shelley. Se a nossa religião é uma coisa objectiva, então nunca devemos desviar os nossos olhos daqueles elementos que parecem confusos ou repelentes; porque será precisamente o confuso e o repelente que esconderá o que ainda não sabemos e precisamos de saber.
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The Weight of Glory
segunda-feira, 27 de novembro de 2017
The Weight of Glory - 4
(...)
Ao falar deste desejo pelo nosso país distante, que encontramos em nós até mesmo agora, sinto uma certa timidez. Estou praticamente a cometer uma indecência. Estou a tentar dilacerar o segredo inconsolável em cada um de vocês – o segredo que magoa tanto que se vingam dele a chamar-lhe nomes como Nostalgia, Romantismo ou Adolescência; também o segredo que nos atravessa com tanta doçura que, numa conversa mais íntima, a sua menção torna-se iminente, sentimo-nos encavacados e fingimos que nos rimos de nós próprios; o segredo que não conseguimos esconder e que não conseguimos contar, embora desejemos fazer ambos. Não conseguimos contá-lo porque é o desejo por algo que nunca realmente surgiu na nossa experiência. Não conseguimos escondê-lo porque a nossa experiência está constantemente a sugeri-lo, e traímo-nos como amantes ao ouvir a referência a um certo nome.
O nosso expediente mais vulgar é chamar-lhe Beleza e comportar-mo-nos se isso resolvesse o assunto. O expediente de Wordsworth era identificá-lo com certos momentos do seu passado. Mas tudo isso é treta. Se Wordsworth tivesse regressado a esses momentos no passado, não encontraria a coisa em si mesma, mas apenas a lembrança dela; o que ele se lembrava acabaria por se tornar também uma lembrança. Os livros ou a música em que pensávamos que a Beleza estava localizada, trair-nos-ão se lha confiarmos; não estava neles, apenas chegou-nos através deles, e o que veio através deles foi anseio (longing). Estas coisas – a beleza ou a memória do nosso passado – são boas imagens do que realmente desejamos; mas se forem confundidas pela própria coisa, tornam-em em ídolos tontos, destroçando os corações dos seus adoradores. É que elas não são a própria coisa; são apenas o aroma de uma flor que não encontrámos, o eco de uma melodia que não ouvimos, notícias de um país que até hoje nunca visitámos.
Pensam que estou a tentar tecer um feitiço? Talvez esteja; mas lembrem-se dos contos de fadas. Feitiços tanto são usados para quebrar encantamentos como para induzi-los. E eu e vocês temos necessidade do feitiço mais potente que se conseguir encontrar para nos acordar do encantamento maligno de mundanismo que nos tem sido lançado desde há quase cem anos. Quase toda a nossa educação tem sido direccionada para silenciar esta tímida, persistente, voz interior; quase todas as nossas filosofias modernas foram construídas para nos convencer que o bem do homem é para ser encontrado neste mundo.
E ainda assim, é assinalável que filosofias como as do Progresso ou da Evolução Criativa comportam elas próprias um testemunho relutante da verdade de que a nossa verdadeira meta existe noutro lugar. Quando eles querem convencer-vos de que este mundo é o vosso lar, reparem em como é que apresentam as coisas. Começam por tentar persuadir-nos que este mundo pode ser transformado no Céu, alimentando, portanto, a vossa sensação de exílio neste mundo como ele é actualmente. Depois, dizem-vos que este evento afortunado é ainda assim um bom caminho para o futuro, alimentando a tua consciência de que a tua pátria não é aqui e agora. Finalmente, temendo que o vosso anseio pelo transtemporal desperte e dê cabo do plano, usam qualquer retórica que esteja mais à mão para manter afastada da vossa mente a recordação de que mesmo que toda a felicidade que prometeram fosse alcançada pelo homem neste mundo, ainda assim cada geração perdê-la-ia ao morrer, incluindo a última geração de todas, e esta história toda seria nada, nem sequer uma história, para todo o sempre.
Eis portanto, todo o absurdo que o Sr. Shaw coloca no discurso final de Lilith, e da observação de Bergson de que o elan vital (força vital) é capaz de superar todos os obstáculos, talvez até a morte – como se pudessemos acreditar que qualquer desenvolvimento social ou biológico que venha a acontecer neste planeta virá a atrasar o envelhecimento do sol ou reverter a Segunda Lei da Termodinâmica.
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The Weight of Glory
Ao falar deste desejo pelo nosso país distante, que encontramos em nós até mesmo agora, sinto uma certa timidez. Estou praticamente a cometer uma indecência. Estou a tentar dilacerar o segredo inconsolável em cada um de vocês – o segredo que magoa tanto que se vingam dele a chamar-lhe nomes como Nostalgia, Romantismo ou Adolescência; também o segredo que nos atravessa com tanta doçura que, numa conversa mais íntima, a sua menção torna-se iminente, sentimo-nos encavacados e fingimos que nos rimos de nós próprios; o segredo que não conseguimos esconder e que não conseguimos contar, embora desejemos fazer ambos. Não conseguimos contá-lo porque é o desejo por algo que nunca realmente surgiu na nossa experiência. Não conseguimos escondê-lo porque a nossa experiência está constantemente a sugeri-lo, e traímo-nos como amantes ao ouvir a referência a um certo nome.
O nosso expediente mais vulgar é chamar-lhe Beleza e comportar-mo-nos se isso resolvesse o assunto. O expediente de Wordsworth era identificá-lo com certos momentos do seu passado. Mas tudo isso é treta. Se Wordsworth tivesse regressado a esses momentos no passado, não encontraria a coisa em si mesma, mas apenas a lembrança dela; o que ele se lembrava acabaria por se tornar também uma lembrança. Os livros ou a música em que pensávamos que a Beleza estava localizada, trair-nos-ão se lha confiarmos; não estava neles, apenas chegou-nos através deles, e o que veio através deles foi anseio (longing). Estas coisas – a beleza ou a memória do nosso passado – são boas imagens do que realmente desejamos; mas se forem confundidas pela própria coisa, tornam-em em ídolos tontos, destroçando os corações dos seus adoradores. É que elas não são a própria coisa; são apenas o aroma de uma flor que não encontrámos, o eco de uma melodia que não ouvimos, notícias de um país que até hoje nunca visitámos.
Pensam que estou a tentar tecer um feitiço? Talvez esteja; mas lembrem-se dos contos de fadas. Feitiços tanto são usados para quebrar encantamentos como para induzi-los. E eu e vocês temos necessidade do feitiço mais potente que se conseguir encontrar para nos acordar do encantamento maligno de mundanismo que nos tem sido lançado desde há quase cem anos. Quase toda a nossa educação tem sido direccionada para silenciar esta tímida, persistente, voz interior; quase todas as nossas filosofias modernas foram construídas para nos convencer que o bem do homem é para ser encontrado neste mundo.
E ainda assim, é assinalável que filosofias como as do Progresso ou da Evolução Criativa comportam elas próprias um testemunho relutante da verdade de que a nossa verdadeira meta existe noutro lugar. Quando eles querem convencer-vos de que este mundo é o vosso lar, reparem em como é que apresentam as coisas. Começam por tentar persuadir-nos que este mundo pode ser transformado no Céu, alimentando, portanto, a vossa sensação de exílio neste mundo como ele é actualmente. Depois, dizem-vos que este evento afortunado é ainda assim um bom caminho para o futuro, alimentando a tua consciência de que a tua pátria não é aqui e agora. Finalmente, temendo que o vosso anseio pelo transtemporal desperte e dê cabo do plano, usam qualquer retórica que esteja mais à mão para manter afastada da vossa mente a recordação de que mesmo que toda a felicidade que prometeram fosse alcançada pelo homem neste mundo, ainda assim cada geração perdê-la-ia ao morrer, incluindo a última geração de todas, e esta história toda seria nada, nem sequer uma história, para todo o sempre.
Eis portanto, todo o absurdo que o Sr. Shaw coloca no discurso final de Lilith, e da observação de Bergson de que o elan vital (força vital) é capaz de superar todos os obstáculos, talvez até a morte – como se pudessemos acreditar que qualquer desenvolvimento social ou biológico que venha a acontecer neste planeta virá a atrasar o envelhecimento do sol ou reverter a Segunda Lei da Termodinâmica.
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The Weight of Glory
segunda-feira, 20 de novembro de 2017
The Weight of Glory - 3
(...)
O cristão, em relação ao Céu, está praticamente na mesma posição que o miúdo da escola. Aqueles que alcançaram a vida eterna na visão de Deus sem dúvida que sabem muito bem que não não é nenhum suborno, mas sim a consumação da sua vida terrena de discipulado; mas nós que ainda não a alcançámos não o podemos saber da mesma maneira, e não podemos sequer começar a saber, a não ser por continuar a obedecer e encontrar a recompensa inicial da nossa obediência na nossa capacidade crescente de desejar a derradeira recompensa. Na mesma proporção que o nosso desejo aumenta, o nosso medo de que seja um desejar mercenário diminuirá, até que finalmente o reconheçamos como sendo absurdo. Mas provavelmente isto não acontecerá, para a maioria de nós, de um dia para o outro; a poesia substitui a gramática, o Evangelho substitui a Lei, e o desejo transforma a obediência, tão gradualmente quanto a maré eleva um navio encalhado.
Mas há mais uma importante semelhança entre nós e o miúdo da escola. Se ele for um miúdo com imaginação, ele irá, muito provavelmente, deleitar-se nos poetas ingleses e romancistas adequados à sua idade algum tempo antes de começar a suspeitar que a gramática Grega o levará a um gozo cada vez maior do mesmo tipo. Ele poderá até negligenciar o Grego para ler Shelley e Swinburne às escondidas. Por outras palavras, o desejo que o Grego irá acabar por satisfazer já existe nele e está ligado a objectos que parecem não ter nada a ver com Xenofonte ou com os verbos em μι. Agora, se somos feitos para o Céu, o desejo para o nosso lugar adequado já existirá em nós, mas ainda não ligado ao verdadeiro objecto, e poderá até apresentar-se como rival desse objecto. E isto, penso eu, é apenas o que encontramos. Sem dúvida que há um ponto em que a minha analogia do miúdo da escola começa a falhar. A poesia Inglesa que ele lê quando deveria estar a fazer exercícios de Grego poderá ser tão boa quanto a poesia Grega para a qual os exercícios o direccionam, de tal forma que ao ficar-se pelo Milton em vez de se aventurar até ao Aquiles, o seu desejo não está a envolver-se com um falso objecto. Mas o nosso caso é muito diferente. Se um bem transtemporal, transfinito, é o nosso destino real, então qualquer outro bem no qual o nosso desejo se fixe deve ser, em alguma medida, falacioso; só poderá ter, na melhor das hipóteses, uma relação simbólica com o que realmente o satisfaz.
(...)
The Weight of Glory
O cristão, em relação ao Céu, está praticamente na mesma posição que o miúdo da escola. Aqueles que alcançaram a vida eterna na visão de Deus sem dúvida que sabem muito bem que não não é nenhum suborno, mas sim a consumação da sua vida terrena de discipulado; mas nós que ainda não a alcançámos não o podemos saber da mesma maneira, e não podemos sequer começar a saber, a não ser por continuar a obedecer e encontrar a recompensa inicial da nossa obediência na nossa capacidade crescente de desejar a derradeira recompensa. Na mesma proporção que o nosso desejo aumenta, o nosso medo de que seja um desejar mercenário diminuirá, até que finalmente o reconheçamos como sendo absurdo. Mas provavelmente isto não acontecerá, para a maioria de nós, de um dia para o outro; a poesia substitui a gramática, o Evangelho substitui a Lei, e o desejo transforma a obediência, tão gradualmente quanto a maré eleva um navio encalhado.
Mas há mais uma importante semelhança entre nós e o miúdo da escola. Se ele for um miúdo com imaginação, ele irá, muito provavelmente, deleitar-se nos poetas ingleses e romancistas adequados à sua idade algum tempo antes de começar a suspeitar que a gramática Grega o levará a um gozo cada vez maior do mesmo tipo. Ele poderá até negligenciar o Grego para ler Shelley e Swinburne às escondidas. Por outras palavras, o desejo que o Grego irá acabar por satisfazer já existe nele e está ligado a objectos que parecem não ter nada a ver com Xenofonte ou com os verbos em μι. Agora, se somos feitos para o Céu, o desejo para o nosso lugar adequado já existirá em nós, mas ainda não ligado ao verdadeiro objecto, e poderá até apresentar-se como rival desse objecto. E isto, penso eu, é apenas o que encontramos. Sem dúvida que há um ponto em que a minha analogia do miúdo da escola começa a falhar. A poesia Inglesa que ele lê quando deveria estar a fazer exercícios de Grego poderá ser tão boa quanto a poesia Grega para a qual os exercícios o direccionam, de tal forma que ao ficar-se pelo Milton em vez de se aventurar até ao Aquiles, o seu desejo não está a envolver-se com um falso objecto. Mas o nosso caso é muito diferente. Se um bem transtemporal, transfinito, é o nosso destino real, então qualquer outro bem no qual o nosso desejo se fixe deve ser, em alguma medida, falacioso; só poderá ter, na melhor das hipóteses, uma relação simbólica com o que realmente o satisfaz.
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The Weight of Glory
segunda-feira, 13 de novembro de 2017
The Weight of Glory - 2
(...)
Não devemos ficar atrapalhados quando descrentes dizem que esta promessa de recompensa torna a vida cristã numa vida mercenária. Existem diferentes tipos de recompensa. Há a recompensa que não tem nenhuma ligação natural com as coisas que fazes para a ganhar, e é bastante distinta dos desejos que deviam acompanhar essas coisas que fizeste. Dinheiro não é a recompensa natural do amor; é por isso que chamamos a um homem "mercenário" se ele casar com uma mulher apenas tendo em vista o seu dinheiro. Mas o casamento é a recompensa própria para um verdadeiro amante ("lover", "amador", pessoa que ama), e ele não é mercenário por o desejar. Um general que combata bem para conseguir um título nobiliárquico é mercenário; um general que combata pela vitória não é, sendo a victória a recompensa apropriada para o combate, tal como o casamento é a recompensa adequada para o amor. As recompensas apropriadas não estão meramente anexadas à actividade pela qual são conseguidas, mas são a própria actvidade em consumação. Há ainda um terceiro caso, que é mais complicado. Desfrutar de poesia Grega é certamente uma recompensa adequada, e não mercenária, para a aprendizagem do Grego; mas apenas aqueles que alcançaram o nível de desfrutar de poesia Grega podem dizer, a partir da sua experiência, que assim é. O miúdo da escola principiante em gramática Grega não pode antecipar o seu apreço amadurecido por Sófocles, da mesma maneira que um amante antecipa o casamento, ou que um general antecipa a victória. Ele tem de começar por trabalhar para tentar ter boas notas nos testes, ou para evitar castigos, ou para agradar aos pais ou, quando muito, na esperança de um bem futuro que no momento presente, ele não consegue imaginar ou desejar. A sua atitude, como tal, tem uma certa semelhança com a do mercenário; a recompensa que ele vai receber será, de facto, uma recompensa apropriada, mas ele não saberá disso até a receber. Claro, ele vai recebê-la gradualmente; o gozo surgirá por entre o mero frete, e ninguém conseguirá identificar o dia ou a hora em que um cessou e o outro se iniciou. Mas será apenas à medida que se aproxima da recompensa que se tornará capaz de a desejar por seu próprio interesse; de facto, a capacidade de a desejar é em si mesma uma recompensa preliminar.
(...)
The Weight of Glory
Não devemos ficar atrapalhados quando descrentes dizem que esta promessa de recompensa torna a vida cristã numa vida mercenária. Existem diferentes tipos de recompensa. Há a recompensa que não tem nenhuma ligação natural com as coisas que fazes para a ganhar, e é bastante distinta dos desejos que deviam acompanhar essas coisas que fizeste. Dinheiro não é a recompensa natural do amor; é por isso que chamamos a um homem "mercenário" se ele casar com uma mulher apenas tendo em vista o seu dinheiro. Mas o casamento é a recompensa própria para um verdadeiro amante ("lover", "amador", pessoa que ama), e ele não é mercenário por o desejar. Um general que combata bem para conseguir um título nobiliárquico é mercenário; um general que combata pela vitória não é, sendo a victória a recompensa apropriada para o combate, tal como o casamento é a recompensa adequada para o amor. As recompensas apropriadas não estão meramente anexadas à actividade pela qual são conseguidas, mas são a própria actvidade em consumação. Há ainda um terceiro caso, que é mais complicado. Desfrutar de poesia Grega é certamente uma recompensa adequada, e não mercenária, para a aprendizagem do Grego; mas apenas aqueles que alcançaram o nível de desfrutar de poesia Grega podem dizer, a partir da sua experiência, que assim é. O miúdo da escola principiante em gramática Grega não pode antecipar o seu apreço amadurecido por Sófocles, da mesma maneira que um amante antecipa o casamento, ou que um general antecipa a victória. Ele tem de começar por trabalhar para tentar ter boas notas nos testes, ou para evitar castigos, ou para agradar aos pais ou, quando muito, na esperança de um bem futuro que no momento presente, ele não consegue imaginar ou desejar. A sua atitude, como tal, tem uma certa semelhança com a do mercenário; a recompensa que ele vai receber será, de facto, uma recompensa apropriada, mas ele não saberá disso até a receber. Claro, ele vai recebê-la gradualmente; o gozo surgirá por entre o mero frete, e ninguém conseguirá identificar o dia ou a hora em que um cessou e o outro se iniciou. Mas será apenas à medida que se aproxima da recompensa que se tornará capaz de a desejar por seu próprio interesse; de facto, a capacidade de a desejar é em si mesma uma recompensa preliminar.
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The Weight of Glory
segunda-feira, 6 de novembro de 2017
The Weight of Glory - 1
Se perguntássemos a vinte bons homens dos dias de hoje qual é que eles pensavam ser a mais elevada das virtudes, dezanove responderiam "altruísmo/abnegação" (em inglês, "unselfinshness", que se poderia traduzir directamente por "desegoísmo"). Mas se perguntássemos à maioria dos grandes cristãos de antigamente, responderiam "amor". Repararam no que aconteceu? Um termo negativo foi substituído por um positivo, e isto é de uma importância maior do que meramente filológica. O ideal negativo do "altruísmo" ("desegoísmo") transporta consigo a sugestão não de conseguir primariamente coisas boas para os outros, mas de prescindirmos delas para nós próprios, como se o importante fosse a nossa abstinência, e não a felicidade dos outros. Não penso que isto seja a virtude cristã do "amor". O Novo Testamento tem muito a dizer sobre auto-negação, mas não auto-negação como um fim em si mesmo. É-nos dito para negarmos a nós mesmos e que tomemos as nossas cruzes de modo a que possamos seguir Cristo; e quase todas as descrições do que iremos finalmente encontrar se o fizermos contêm um apelo ao desejo. Se espreitar na maioria das mentes modernas a noção de que desejar o nosso próprio bem e esperar sinceramente pelo seu usufruto é uma coisa má, deixem-me esclarecer-vos que esta noção infiltrou-se a partir de Kant e dos estóicos, e não faz parte da fé cristã. De facto, se considerarmos as promessas de recompensa descaradas e a natureza surpreendente das recompensas prometidas nos Evangelhos, pareceria que o Nosso Senhor acha que os nossos desejos são, não demasiado fortes, mas sim demasiado fracos. Somos criaturas desgovernadas/indecisas/irresolutas ("half-hearted", com coração assim-assim), entretidas com bebida, sexo e ambição quando nos é oferecida infinita alegria, como uma criança ignorante que prefere continuar a fazer tartes de lama num lamaçal, porque não consegue imaginar o que significa a possibilidade de um dia à beira-mar. Somos demasiado fáceis de satisfazer.
(...)
The Weight of Glory
quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
Por vezes, Senhor, somos tentados a dizer que se queríeis que nos comportássemos como os lírios do campo poderíeis ter-nos conferido uma organição mais semelhante à deles. Mas essa é, suponho, a vossa grande experiência. Ou não. Não uma experiência, posto que não necessitais de descobrir como as coisas são. Antes a vossa grande empresa. Criar um organismo que é também espírito. Criar esse terrível oxímoro, um 'animal espiritual'. Tomar um pobre primata, um bruto todo ele cheio de terminações nervosas, uma criatura com um estômago que exige que o encham, um animal reprodutor que anseia por acasalar, e dizer-lhe 'Vá, anda com isso. Torna-te um deus.'
Original: A Grief Observed
Editora Grifo
página 130
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*Autor - Clive Staples Lewis,
*Obra - Dor,
1961 dC
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
De um lado a união mística. Do outro lado, a ressurreição da carne. Não consigo atingir um fantasma de imagem, uma fórmula ou mesmo um sentimento que as combine. Mas a realidade, como nos é dado compreender, consegue. A realidade, uma vez mais a iconoclasta. O Paraíso resolverá os nossos problemas mas não, penso eu, apresentando-nos subtis reconciliações entre todas as nossas noções aparentemente contraditórias. As noções ser-nos-ão todas violentamente retiradas debaixo dos pés. E veremos que afinal nunca houve qualquer problema.
E, mais que uma vez, essa impressão que eu não sei descrever senão como o som de um riso no escuro. A sensação de que algo de esmagadora simplicidade é a verdadeira resposta.
Original: A Grief Observed
Editora Grifo
página 128
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*Autor - Clive Staples Lewis,
*Obra - Dor,
1962 dC
quarta-feira, 21 de novembro de 2012
Quando coloco estas questões perante Deus, fico sem resposta. Mas um tipo muito particular de 'sem resposta'. Não é a porta fechada. É antes como um olhar fixo sobre mim, silencioso, mas de modo algum desapiedado. Como se Ele abanasse a cabeça, não para recusar mas para ponderar a questão. Como 'Acalma-te, criança, tu não entendes'.
Editora Grifo
página 125
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*Autor - Clive Staples Lewis,
*Obra - Dor,
1961 dC
quarta-feira, 14 de novembro de 2012
Estarei eu, por exemplo, a desviar-me sub-repticiamente para o lado de Deus por saber que, se existe uma estrada que conduza a H., tem de passar por Ele? Mas, claro, sei perfeitamente que ele não pode ser usado como estrada nenhuma. Se nos aproximamos d'Ele não como o destino mas como a estrada, não como o fim mas como os meios, não estamos realmente a aproximar-nos d'Ele de maneira nenhuma.
Original: A Grief Observed
Editora Grifo
página 123
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*Autor - Clive Staples Lewis,
*Obra - Dor,
1961 dC
terça-feira, 16 de outubro de 2012
É que uma esposa perfeita contém tantas pessoas em si. O que não era H. para mim? Era minha filha e minha mãe minha pupila e minha mestra, minha súbdita e mina soberana. E sempre, reunindo todas essas numa, o meu fiel camarada, amigo, companheiro de bordo, irmão de armas. Minha amante, sim. Mas, ao mesmo tempo, tudo aquilo que qualquer amigo masculino (e tenho-os bons) alguma vez foi para mim. Talvez mais. Se nunca nos tivéssemos apaixonado nem por isso teríamos deixado de andar sempre juntos e dado origem a um escândalo. Era isso que eu pretendia significar quando, certa vez, a gabei pelas suas "virtudes masculinas". Mas ela logo pôs fim ao cumprimento, perguntando-me se me agradaria ser gabado pelas minhas virtudes femininas. Foi um bom contra-ataque, minha querida. (...) E a ti, tanto como a mim, agradava-te que existisse esse aspecto. E agradava-te que eu soubesse reconhecê-lo.
Salomão chama à ua noite "Irmã". Poderia uma mulher ser plenamente uma esposa se, por um momento, numa particular disposição, um homem não se sentisse inclinado a chamar-lhe Irmão?
Original: A Grief ObservedEditora Grifo
páginas 88-90
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*Assunto - Casamento,
*Autor - Clive Staples Lewis,
*Obra - Dor,
1961 dC
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