Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A mostrar mensagens com a etiqueta *Autor - John Steinbeck
Junto ao recife não há tardes douradas. Quando, às duas horas, o Sol se inclinou por trás dele, uma sombra sussurrante espalhou-se pela praia. Os sicómoros agitavam-se sobre as rochas, depois mergulhavam e atravessavam a lagoa com as cabeças erguidas como pequeninos periscópios, deixando atrás de si esteiras ténues a espraiarem-se. Uma truta enorme mergulhou na lagoa. As melgas e os mosquitos, que evitam o sol, surgiram zumbindo por sobre a água. Todos os insectos amigos do sol, moscas, libelinhas, vespas, zângãos, regressaram a casa. E ao avançar da sombra pela praia, ao chamado da primeira codorniz, Mack e os rapazes despertaram. O aroma do cozinhado cortava o coração. Hazel meteu-lhe dentro uma folha de louro colhida da árvore que se erguia junto do rio. As cenouras também já lá estavam. O café, na sua lata própria, fervilhava docemente sobre a sua própria pedra, suficientemente acima da chama para não ferver demasiado. Mack acordou, pôs-se de pé, espreguiçou-se, dirigiu-se a camba…
Kino ouviu o rebentar sereno das ondas matinais na praia. Gostava de o ouvir – Kino fechou os olhos de novo para escutar a sua música. Talvez mais ninguém o fizesse ou talvez toda a sua gente tivesse feito o mesmo. O seu povo tinha sido outrora grande amador de canções, de tal modo que tudo o que via ou pensava, ou fazia ou ouvia, se transformava numa canção. Mas isso já tinha sucedido havia muito tempo. No entanto, as canções tinham permanecido; Kino conhecia-as, mas nunca mais tinha havido canções novas. Isso não queria dizer que não houvesse canções pessoais. Naquele momento, por exemplo, havia uma canção nova, pura e doce, na cabeça de Kino, e, se soubesse falar dela, ter-lhe-ia chamado a Canção da família.