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A mostrar mensagens com a etiqueta *Autor - Vergílio Ferreira

O privilégio do exílio

Todos nós admiramos e respeitamos um adversário ou inimigo político de um regime opressor e que tivesse por isso de se exilar. Mas só se lhe reconhecemos o privilégio de ter direito a isso como às classes favorecidas a vivenda ou o automóvel. Que diríamos de um simples cavador que também se arrogasse a importância de se exilar?
Pensar 
Página 179 
Vergílio Ferreira 
1992 dC 
Editora: Bertrand

A primeira pedra do que és

Quase tudo o que vais sendo vem no impulso que te move. Não apenas quando a cólera é esse impulso, ou o disparate que se te adianta, ou um sentimento qualquer que é de mais. Mesmo a arte, o pensar, o escrever. Porque o todo que em ti resulta, vem da pedra fundamental que para ele escolheste ou te calhou para o início desse todo. Há um puzzle a organizar e que não sabes e está em ti. O resto vai sendo o que tu pensas ou vai pensando por si e o que te pertence não é bem o que supunhas que estava em ti, mas o que se revela desse estar. Depois só te resta o espanto ou a alegria ou o desapontamento de saberes o que não sabias que sabias ou não. Sê prudente e sem pressa. Vê se é possível escolheres a pedra sobre a qual erguerás o edifício. É por isso que há sempre uma cerimónia quando se põe a «primeira pedra», que é posta normalmente por uma «entidade», para que o seu prestígio contamine o edifício todo. E é por isso talvez também que essa «entidade» não está sempre à altura da cerimónia e…

As palavras voam, o que fica?

Verba volant, scripta manent, dizia a sabedoria dos antigos. Era a chamada de atenção para a responsabilidade do que fica escrito, contra a volubilidade do falar. Mas era também, para o nosso repouso, a certeza de que os escritos estavam aí, a toda a hora da nossa visita. Simplesmente as palavras hoje não “voam” e permanecem também nos registos magnéticos e a vozearia multiplica-se assim até à surdez. E opostamente os escritos tendem a esquecer-se, sobretudo os dos jornais, que são uma variante do falatório. Além de que nos é possível e mais fácil substituir pelas palavras que voam a escrita que já não fazemos. Quantas cartas o telefone te dispensou de escrever? Mas o próprio livro é quase sempre para “ler mais tarde”. E os chamado “livros de cabeceira” não se entende que não sejam senão para facilitarem o sono. A estante ainda é um móvel de adorno e de prestígio como outros móveis de uso e distinção. Mas a sua utilidade pouco vai além disso. O homem simplificou-se com a atrofia das f…

Arte religiosa às vezes

Toda a verdadeira arte é uma expressão do sagrado. A arte religiosa às vezes também o é.

Pensar 
Página 329
Vergílio Ferreira 
1992 dC 
Editora: Bertrand

Sentimentos por cozinhar

O sentimento em bruto, como toda a “história” em bruto para um escritor, é absolutamente intragável como a carne crua. Mas é absolutamente agradável e funcional depois de bem cozinhada. Não te iludas pois com a carne cara que compraste no magarefe, dizendo aos teus conhecidos que é muito boa. Cozinha-a e depois falamos.

 Pensar 
Página 345 
Vergílio Ferreira 
1992 dC 
Editora: Bertrand

Desejar conhecer um artista que se ama

Desejar conhecer pessoalmente um artista que se ama é querer apropriar-se do mistério da sua obra. Mas é muito raro saber-se que por detrás de uma obra não está o seu autor, mas as tintas de um quadro ou a pedra de uma escultura ou as palavras de um texto e assim. Porque a arte que devia estar no artista é apenas o mistério que ele próprio desconhece. E entre uma e outro está só o intervalo onde não há já ninguém. Assim a arte é maior do que o artista. Assim ela o dispensa depois de usado e vive por si enquanto ele já apodrece. Muita gente quer conhecer a arte num artista. Mas ninguém quer conhecer o estrume que está antes de uma roseira.

Pensar 
Página 344 
Vergílio Ferreira 
1992 dC
Editora: Bertrand

A casa

A casa. Pensá-la agora um pouco sem bem saber porquê. Talvez porque ela se te afunda na memória como tudo o que passou. Existiria ela outrora na cidade? Hoje não existe. Ela implica a existência da família e a família é tão problemática. Centro de convergência da união do sangue, ela fechava-nos no seu abrigo, impregnada da nossa história, do que em nós foi alegria ou amargura ou esperança, envolvia-nos de protecção no que em nós não morre de infância até à idade adulta ou da velhice. Entrar em casa, fechar a porta, e encontrar uma defesa segura contra tudo o que nos agrediu. Nela encontramos o repouso para a fadiga do corpo e da alma. Entrar em casa é reencontrarmo-nos connosco, a nossa pessoa de que nos tínhamos perdido. É sobretudo estar alguém connosco, mesmo que não esteja ninguém. Porque a casa tem uma alma. Ela cria-se com o que de todos os que nela são ou foram, se depositou nas salas, nos móveis, em todos os objectos. É por isso que entrar numa casa vazia e alheia é sentir lo…

Olhar o mar do alto de uma falésia

Olhar o mar do alto das arribas. Percorrer instintivamente, num olhar balanceado, todo o circuito do horizonte. Olhar em baixo o cavado das ondas com grandes veios de mármore, seguir-lhes o percurso até às rochas, vê-las estoirar contra elas e erguerem-se numa explosão alta de espuma ao retardador. Aspirar fundo o seu aroma genesíaco a infinitude, a espaço e solidão. Ouvir-lhe o fervor na caldeira do mundo. Sentir instantâneamente a distância da fragilidade e pequenez à imensidão poderosa e sem limites. Conhecer o azul ainda húmido no instante da sua criação. Recolher a saudação de outras terras e outras gentes que vem na aragem por sobre a extensão das águas. Ficar atento a um sinal indistinto que anuncia o começo do mundo. Entender a linguagem cifrada de um destino comum entre mar e céu. Olhar o mar do alto de uma falésia.

Pensar 
página 189 
Vergílio Ferreira 
1992 dC
Editora: Bertrand

Ir ver o mar

Ir ver o mar. Vê-lo de vez em quando e sempre com a mesma fascinação. Que é que vem dele para assim nos fascinar? A sua força imensa diante da nossa pequenez. O seu mistério visível e inquietante porque é o invisível da sua visibilidade. O irrisório da sua absurda convulsão e o aceno indistinto que vem de trás do horizonte e não sabemos o que é. O aroma a espaço, uma memória confusa de aventura, o sinal presente da sua infinitude ausente, a dilatação de nós a um poder imenso, um certo conluio com Deus.

Pensar
página 139
Vergílio Ferreira
1992 dC
Editora: Bertrand