domingo, 12 de dezembro de 2010

El reconocimiento del elemento subjectivo en la interpretación de las Escrituras resulta demasiado incómodo para quienes quisieran equiparar su propia teologia con la Palabra de Dios. La mentalidad racionalista preferiría concebir el Evangelio como un sistema de verdad al cual se puede llegar directamente mediante un acercamiento 'científico', 'objectivo', sin un compromisso personal. El hecho es que la objectividad absoluta no es posible. El intérprete está siempre presente en su interpretación de Evangelio, y está, presente en ella como un ser falible. Por supuesto, toda interpretación puede someterse a un control que asegure una mayor aproximación al mesaje revelado. Esa es la función de la hermenéutica como disciplina científica. Pero no se debe cerrar los ojos a la distancia que hay entre el Evangelio revelado y toda interpetación del mismo. Toda interpretación toma la forma que le impone el intérprete y por lo tanto refleja en mayor o menor grado, el contexto cultural que condiciona a éste. En resumidas cuentas, el conocimiento de Dios que se desprende de las Escrituras por la vía de la exégesis es verdadero, pero no completo. Consecuentemente ninguna teologia es absoluta. Dios siempre transciende nuestra imagen de él.


O reconhecimento de que existe um elemento subjectivo na interpretação das Escrituras torna-se demasiado incómodo para quem quiser equiparar a sua própria teologia à Palavra de Deus. A mentalidade racionalista prefere conceber o Evangelho como um sistema de verdade ao qual se pode chegar directamente mediante uma abordagem "científica", "objectiva", sem um compromisso pessoal. O facto é que a objectividade absoluta não é possível. O intérprete está sempre presente na sua interpretação do Evangelho, e está presente sendo um ser falível. Como é óbvio, toda a interpretação pode submeter-se a um controlo que assegure uma maior aproximação da mensagem revelada. Essa é a função da hermenêutica enquanto disciplina científica. Mas não se deve fechar os olhos à distância que existe entre o Evangelho revelado e a interpretação que se faz dele. Toda a interpretação toma a forma que o intérprete impõe e portanto reflecte, em maior ou menor grau, o contexto cultural que o condiciona. Resumindo, o conhecimento de Deus que nos chega das Escrituras por meio da exegese é verdadeiro, mas não completo. Consequentemente nenhuma teologia é absoluta. Deus transcende sempre a imagem que fazemos dele.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010



Diz que deu, diz que Deus, diz que Deus dará,
Não vou duvidar,ô nega e se Deus não dá, como é que vai ficar, ô nega?
Diz que deu, diz que dá, e se Deus negar, ô nega
Eu vou me indignar e chega, Deus dará, deus dará


Deus é um cara gozador, adora brincadeira
Pois prá me jogar no mundo, tinha o mundo inteiro
Mas achou muito engraçado me botar cabreiro
Na barriga da miséria nasci batuqueiro
Eu sou do rio de janeiro


Jesus cristo ainda me paga, um dia ainda me explica
Como é que pôs no mundo essa pouca titica
Vou correr o mundo afora, dar uma canjica
Que prá ver se alguém me embala ao ronco da cuíca
E aquele abraço prá quem fica


Deus me deu mão de veludo prá fazer carícia
Deus me deu muita saudade e muita preguiça
Deus me deu perna cumprida e muita malícia
Prá correr atrás da bola e fugir da polícia
Um dia ainda sou notícia


Deus me fez um cara fraco, desdentado e feio
Pele e osso simplesmente, quase sem recheio
Mas se alguém me desafia e bota a mãe no meio
Dou pernada a três por quatro e nem me despenteio
Que eu já tô de saco cheio

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Perfilados de medo, agradecemos
o medo que nos salva da loucura.
Decisão e coragem valem menos
a vida sem viver é mais segura.

Aventureiros já sem aventura,
perfilados de medo combatemos
irónicos fantasmas à procura
do que não fomos, do que não seremos.

Perfilados de medo, sem mais voz,
o coração nos dentes oprimido,
os loucos, os fantasmas somos nós.

Rebanho pelo medo perseguido,
já vivemos tão juntos e tão sós
que da vida perdemos o sentido…

domingo, 28 de novembro de 2010

E, contudo, Jesus falou acerca de dinheiro com maior frequência do que sobre qualquer outro assunto, com excepção do Reino de Deus. Ele dedicou uma quantidade inusitada de tempo e energia à questão do dinheiro. Na comovente história acerca da 'oferta da viúva pobre', lemos que Jesus sentou-se intencionalmente defronte do tesouro e ficou contemplando as pessoas colocarem ali as suas ofertas (Marcos 12:41). Ele Se propôs a ver o que elas davam e discernir o espírito com que davam. Para Jesus, dar não era um assunto particular. Ele não desviou o olhar, encabulado – como tantas vezes fazemos hoje – por estar-se intrometendo nos negócios pessoais de alguém. Não, Jesus considerou a oferta um negócio público e usou a ocasião para ensinar acerca da dádiva sacrificial.

sábado, 27 de novembro de 2010

Martinho Lutero observou astutamente: 'Três conversões são necessárias: a conversão do coração, a da mente e a da bolsa'. Dessas três, pode muito bem ser que nós, os modernos, achemos a conversão da bolsa a mais difícil. Até mesmo falar sobre dinheiro é difícil para nós. De facto, ouvi contar recentemente acerca de um casal, dois psicólogos, que falava aberta e francamente na frente dos filhos acerca de sexo, morte e todo o tipo de assunto difícil, mas que ia para o quarto e fechava a porta para falar acerca de dinheiro. Numa pesquisa conduzida junto de psicoterapeutas, na qual eles enumeravam coisa que não deviam fazer com os seus pacientes, descobriu-se que emprestar dinheiro a um cliente constituía um tabu maio do que tocar, beijar ou até mesmo ter relações sexuais. Para nós, o dinheiro é, sem dúvida, um assunto proibido.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Perguntaram ao chefe religioso Dalai Lama... 'o que mais te surpreendeu na Humanidade?' Ele respondeu: 'os homens... Perdem a saúde para juntar dinheiro, e depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde. Pensam ansiosamente no futuro, esquecem o presente de tal forma que acabam por não viver nem o presente nem o futuro. E vivem como se nunca fossem morrer... e morrem como se nunca tivessem vivido.'

domingo, 21 de novembro de 2010

Que esta seja então a conclusão de tudo: podemos sofrer a perda dos nossos bens, da nossa reputação, da nossa vida e de tudo o que temos; mas o Evangelho, a nossa fé e Jesus Cristo, jamais permitiremos que nos sejam arrebatados. E maldita seja aquela humildade que avilta e se submete nessas questões. E que todo o cristão seja orgulhoso, não condescendendo quando se tratar de negar a Cristo.
Portanto, se Deus me ajudar, a minha cabeça será mais dura que a cabeça de todos os homens. Neste ponto eu assumo o título, segundo o provérbio: cedu nulli, não cedo a ninguém. Sim, eu me alegro, de todo o meu coração, em me mostrar neste ponto rebelde e obstinado. E aqui confesso que serei sempre intrépido e inflexível, a ninguém cederei sequer uma polegada. O amor cede, pois ele “tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (I Coríntios 13:7), mas a fé não cede…
Agora, no que se refere à fé devemos ser invencíveis, e, se possível, mais duros do que diamante; mas no tocante ao amor, devemos se meigos e mais flexíveis do que a cana ou a folha que é sacudida pelo vento, prontos para nos submeter a tudo.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

“Estou contente, estou contente,
Com este novo ingrediente”


Ironia dos Street Kids, aqui:

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

E o Senhor foi com Josafat; porque andou nos primeiros caminhos de David, seu pai, e não buscou aos Baalim. Antes, buscou ao Deus do seu pai, e andou nos seus mandamentos, e não segundos as obras de Israel. E o Senhor confirmou o reino na sua mão, e todo o Judá deu presentes a Josafat: e teve riquezas e glória em abundância. E exaltou-se o seu coração nos caminhos do Senhor e ainda, de mais, tirou os altos e os bosques de Judá.
E, no terceiro ano do seu reinado, enviou ele os seus princípes a Bencail, e a Obadias, e a Zacarias, e a Natanel, e a Micaia, para ensinarem nas cidades de Judá. E como eles, os levitas, Senaias e Netanias, e Zebadias, e Asael, e Semiramoth, e Jónatas, e Adonias, e Tobias, e Tobadonias, levitas: e com eles, os sacerdotes, Elisama e Jorão.
E ensinaram em Judá e tinham consigo o livro da lei do Senhor: e rodearam todas as cidades de Judá, e ensinaram entre o povo. E veio o temor do Senhor sobre todos os reinos das terras que estavam em roda de Judá, e não guerrearam contra Josafat.

II Crónicas 17:3-10

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Durante os meses em que preguei estes sermões, eu dizia e repetia para mim mesmo: “Eis-nos aqui, uma congregação londrina relativamente sofisticada, em pleno século XX, dedicando-nos, semana após semana ao estudo sistemático de uma pequena carta escrita no primeiro século por um cristão judeu que era, na época, pouco conhecido, e destinada a umas obscuras igrejas escondidas nas montanhas da Galácia.” Extraordinário! Será que existe na nossa geração qualquer outro documento tão antigo que desperte tanta atenção de tanta gente por um período tão longo? Eu acho que não, a não ser outros documentos bíblicos. O estudo deixou-me mais convencido do que nunca da inspiração divina e, portanto, da autoridade permanente e da relevância das Escrituras 

domingo, 24 de outubro de 2010

Una elocuente ilustración del lugar que desempeña la teología en la resistencia de la Iglesia al condicionamento social la provee el ejemplo de la iglesia confessante en su lucha contra el Nacional-socialismo en la Alemanha de Hitler. En palabras de E.H. Robertson, la resistencia cristiana a Hitler 'requeria una comprensión de la fe cristiana, una cuidadosa discriminación entre lo importante y lo trivial. Los que se resistían tenían que saber por quê valía la pena morir'.


Uma ilustração eloquente do papel que a teologia desempenha na resistência da Igreja ao condicionamento social vem do exemplo da igreja confessional na sua luta contra o Nacional Socialismo na Alemanha de Hitler. Nas palavra de E.H. Robertson, a resistência cristã a Hitler "requeria uma compreensão da fé cristã, uma cuidadosa discriminção entre o que é importante e o que é trivial. Os que resistiam tinham de saber as coisas pelas quais valia a pena morrer".

sábado, 23 de outubro de 2010

Nesse local comeram e dormiram, ambas as coisas de forma considerável. Os feijões com bacon, que estas indiscritíveis figuras cozinhavam bem, e o espantoso aparecimento do vinho da Borgonha, proveniente das suas caves, coroaram em Syme a sensação de uma nova camaradagem e conforto. Durante todo este tormento, o seu medo mais profundo tinha sido o isolamente e não existiam palavras capazes de expressar o abismo entre o isolamento e a existência de um aliado. Pode conceder-se aos matemáticos que quatro sejam duas vezes dois. Mas dois não são duas vezes um; dois são duas mil vezes um. É por isso que, apesar das suas centenas de desvantagens, o mundo regressará sempre à monogamia.

domingo, 17 de outubro de 2010

"Os elefantes lutam entre si; o almiscareiro, no meio deles, morre esmagado."
"Quando o gato e os ratos vivem em paz, a despensa ressente-se."

sábado, 16 de outubro de 2010

Foi descrita, com alguma justeza, como uma colónia artística, embora nunca tenha produzido, de maneira definida, qualquer tipo de arte. Muito embora as suas pretensões a centro intelectual fossem um pouco vagas, as suas pretensões a local agradável eram indiscutíveis. O visitante que olhasse pela primeira vez para as bizarras casas vermelhas não poderia deixar de se interrogar sobre a estranha forma que deveriam ter as pessoas para que nelas pudessem viver – e quando as conhece, não ficaria desapontado nesse aspecto. O local não seria apenas agradável, mas perfeito, se ao menos por uma vez ele pudesse olhá-lo não como uma ilusão mas antes como um sonho. Mesmo que os seus habitantes não fossem 'artistas' o conjunto não deixava de ser artístico. Aquele jovem de longos cabelos ruivos e expressão descarada – esse jovem não era um poeta, mas certamente era um poema. Aquele velho cavalheiro de selvagens barbas brancas e de louco chapéu branco – esse venerável impostor, não era realmente um filósofo; mas pelo menos levava outros a filosofar. Aquele cavalheiro das ciências, com a cabeça careca e em forma de ovo e o pelado pescoço de passarinho – não tinha realmente direito a apresentar aqueles ares de cientista. Não fizera nenhuma nova descoberta na área da biologia; mas que criatura biológica poderia descobrir que fosse mais singular do que ele próprio? Por isso, e apenas por isso, todo o local tinha que ser devidamente respeitado; tinha que ser considerado não tanto como uma oficina de artistas, mas como uma frágil, embora acabada, obra de arte. Um homem que penetrasse na sua atmosfera social sentir-se-ia como se tivesse entrado numa obra cómica.

sábado, 9 de outubro de 2010

Gregory retomou o seu bom humor oratório e alto.
- Um artista é idêntico a um anarquista – gritou. - Pode mudar as palavras como quiser. Um anarquista é um artista. O homem que lança uma bomba é um artista, porque prefere um grande momento a qualquer outra coisa. Ele compreende como é mais valiosa uma explosão de intensa luz, o estrépito de um trovão perfeito, do que os corpos comuns de uns poucos polícia informes. Um artista ignora todos os governos, abole todas as convenções. O poeta regozija-se apenas na desordem. Se não fosse assim, a coisa mais poética do mundo seriam os Caminhos de Ferro Subterrâneos.
- E são – disse o Sr. Syme.
- Disparate! - afirmou Gregory, que se mostrava sempre muito racional quando outra pessoa tentava estabelecer um paradoxo. - Porque é que todos os escriturários e trabalhadores que viajam nos comboios têm um ar tão triste e cansado? É porque sabem que tudo está bem com o comboio. É porque sabem que,  seja qual for o destino para o qual compraram o bilhete, chegarão a esse destino. É porque sabem que, depois de terem passado Sloane Square, a estação seguinte será Victoria e nada mais do que Victoria. Oh, o seu êxtase selvagem! Oh, os seus olhos, brilhantes como estrelas, e as suas almas de novo no Eden, se a estação seguinte fosse, inxplicavelmente, Baker Street!
- Você é que não é poético – respondeu o poeta Syme. - Se o que diz dos escriturários é verdade, então eles devem ser tão prosaicos como a sua poesia. O raro e estranho é atingir o objectivo; o grosseiro e óbvio é falhá-lo. Achamos que é épico quando um homem com uma única seta selvagem atinge um pássaro distante. Não será igualmente épico quando um homem como uma única máquina solitária atinge a estação distante? O caos é aborrecido; porque nos caos o comboio poderia, de facto, ir para qualquer local, para Baker Street ou para Bagdad. Mas o homem é um mágico e toda a sua magia está nisso, no facto de ele dizer realmente Victoria e, pasmem! ser Victoria. Não, leve o seus livros de mera poesia e prosa, deixe-me ler um horário, com lágrimas de orgulho. Leve o seu Byron*, que celebra as derrotas dos homens; dê-me Bradshaw** que celebra as suas victórias. Dê-me Bradshaw, digo eu!
- Tem mesmo de continuar? - perguntou Gregory sarcasticamente.
- Digo-lhe – continuou Syme ardentemente -, de cada vez que chega um comboio sinto que atravessou baterias de sitiantes e que o homem venceu a batalha contra o caos. Diz com despeito que quando alguém parte de Sloane Square deve chegar a Victoria. Eu digo que se podem fazer outras mil coisas e que, quando realmente lá chego, me sinto como se tivesse conseguido escapar no último momento. E quando ouço o guarda-freio gritar a palavra 'Victoria', não é uma palavra sem sentido. Na realidade, para mim, é o grito de um arauto anunciando a conquista. Para mim é, de facto, 'Victoria'; é a vitória de Adão.
Gregory abanou a sua cabeça, pesada e ruiva, com um sorriso lento e triste.
- E mesmo aí - disse ele -, nós poetas perguntamos sempre 'E o que é Victoria agora que lá chegou?' Pensa que Victoria é como a Nova Jerusalém. Nós sabemos que a Nova Jerusalém será apenas como Victoria. Sim, o poeta será um descontente, mesmo nas estradas do céu. O poeta está sempre revoltado.
- Lá está você outra vez – disse Syme irritado -, o que há de poético em ser-se revoltado? Mais valia dizer que é poético estar-se enjoado. A indisposição é uma revolta. Tanto o estar maldisposto como o estar revoltado podem ser saudáveis em ocasiões desesperadas; mas diabos me levem se consigo perceber por que razão são poéticos. Em abstracto a revolta é... revoltante. É vomitado.
A rapariga encolheu-se momentâneamente, perante o termo desagradável, mas Syme estava demasiado entusiasmado para lhe prestar atenção.
- As coisas que correm bem – gritou – é que são poéticas! A nossa digestão, por exemplo, correndo sagrada e silenciosamente bem, essa é a fonte de toda a poesia. Sim, a coisa mais poética, mais poética do que as flores, mais poética do que as estrelas, a coisa mais poética do mundo é não estar maldisposto.
- Francamente – disse Gregory, arrogante -, os exemplos que escolhe...
- Peço desculpa – disse Syme sombriamente. - Pensei que tínhamos abolido todas as convenções.

* Lord Byron, importante figura do romantismo, é considerado um dos maiores poetas europeus, sendo as suas obras lidas até hoje (N. da T.)
** George Bradshaw, cartógrafo, impressor e editor inglês do século XIX, foi o criador dos horários dos caminhos-de-ferro (N. da T.)

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Por volta dos doze anos de idade, dei de caras com um livro que o meu pai guardava numa estante do seu escritório. Chamava-se “O Dinossauro Excelentíssimo”. Peguei no livro porque acreditava tratar-se de um livro sobre dinossauros. O meu pai nada fez para impedir que o lesse. Lembro-me vagamente de me ter dito qualquer coisa do género “lê e depois diz-me o que achaste”. Deve-o ter dito, certamente, com um sorriso. É claro que abandonei o livro passado pouco tempo. Tudo era difícil: as expressões, as palavras e, acima de tudo, o sentido do que estava escrito. Mais tarde, por volta de 90, voltei a pegar no "Dinossauro". Não posso afirmar, para benefício do argumento, que reli o livro. Em bom rigor, não o tinha lido. Assim como não posso afirmar que marquei na minha agenda, aos doze anos, que no dia x do mês y de 1990 voltaria a pegar no livro. Mas posso afirmar que o contacto com aquele livro despertou em mim a curiosidade de, mais tarde, o ler. Aquele passou a representar o mundo complexo mas, ao mesmo tempo, apelativamente misterioso. Conto este episódio porque sei que a forma despreocupada e livre como sempre me deixaram folhear qualquer livro que fosse em qualquer idade - produto, por sua vez, de uma orientação literária absolutamente desorientada/caótica por parte dos meus pais - despertou em mim a curiosidade de ler, mesmo quando estranhava o que ia lendo. O estranhar levou-me sempre a pensar que havia um difuso mas certamente admirável mundo ao qual eu não tinha acesso - mas, acreditava, um dia haveria de ter. É natural que uma parte do gosto, mas igualmente do esforço, em saber e conhecer mais, passou também pela ideia, ainda que mais ou menos inconsciente, de que portas outrora fechadas se abririam.
O exemplo do “Dinossauro Excelentíssimo” é, aliás, extremo. Pedir a uma criança de doze anos que «apanhe» as entrelinhas do que está escrito no livro de Cardoso Pires, é o mesmo que pedir a José Sócrates que perceba o peso ou o ónus de um “mutatis mutandis” na aplicação de uma política keynesiana aos dias de hoje. Moby Dick é bem mais pacífico porque, ainda que superficialmente, não deixa de ser um livro de aventuras perfeitamente cognoscível a uma criança de dez ou doze, ou a um adolescente de catorze ou dezasseis. Pensar-se que uma leitura de Moby Dick aos treze anos arruma em definitivo o livro (ou seja, queima-se ali a única oportunidade de leitura da obra), não tem o mais leve fundamento. Assim como é ridículo pensar-se que a leitura naquela idade «formata» para sempre a percepção ou o entendimento da «mensagem» da obra. Os “Maias” que li aos dezasseis eram bem diferentes dos "Maias" que li aos trinta (e não houve conflito de espécie alguma entre uma e outra experiência). A probabilidade de uma leitura aos doze, catorze ou dezasseis contribuir para a releitura aos trinta ou quarenta, é bem maior que a probabilidade da ausência de leitura aos doze, catorze ou dezasseis contribuir para a primeira das leituras numa idade maior. Por razões óbvias, retirei da equação a existência de intelectos que jamais perceberão esta ou aquela obra, seja aos dez, trinta ou oitenta.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

(...) o Deus vivo da Bíblia é o Deus tanto da criação quanto da redenção, e está preocupado com a totalidade do nosso bem-estar. Os teólogos mais antigos costumavam dizer que Deus escreveu dois livros, um chamado 'Natureza', e outro chamado 'Escrituras', através do quais se revelou. Além disso, ele nos deu-nos esses dois livros para os estudar. O estudo da ordem natural é chamado 'ciência', e o da revelação bíblica, 'teologia'. E ao nos envolvermos com estas disciplinas geminadas, nós estamos (nas palavras de Johann Kepler, astrónomo do século XVII) a pensar os pensamentos de Deus depois d'Ele.
Os cristãos certamente deveriam estar na vanguarda do movimento em prol da responsabilidade ambiental. Afinal, o que diz a nossa doutrina quanto à Criação e à administração da natureza? Deus fez o mundo? Ele o sustenta? Ele submeteu os recursos do mundo aos nossos cuidados? A sua preocupação pessoal pela sua própria criação deveria ser o suficiente para inspirar-nos a ter a mesma preocupação.

(Prefácio)

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

'- Do you think that is quite fair to appropiate the apples?
- What, keep all the apples for themselves?
- Aren't we to have any?
- I thought they were going to be shared out equally.'

The significance os these lines was lost on the BBC producer, Rayner Heppenstall, who cut them out. As Orwell did not revise Animal Farm, it is beyond an editor's remit to add them to the book, but they do highlight what Orwell told Geoffrey Gorer was the 'key passage' of Animal Farm.