terça-feira, 23 de janeiro de 2018
segunda-feira, 22 de janeiro de 2018
The Weight of Glory - 8
(...)
Não estou a esquecer-me do quanto este desejo tão inocente é parodiado nas nossas ambições humanas, ou no quão rapidamente, na minha experiência, o legítimo prazer de agradar aqueles a quem era meu dever agradar se transforme no veneno mortal da auto-admiração. Mas acho que conseguia detectar um instante – um curto, curto instante – antes disto acontecer, durante o qual a satisfação de ter agradado aqueles a quem acertadamente amei, e acertadamente temi, era pura. E isto é suficiente para pensarmos sobre o que pode acontecer quando a alma redimida, para além de toda a esperança, e de quase toda a crença, descobre por fim que agradou Aquele para o qual ela foi criada para agradar. Então, não haverá espaço para vaidade. Será libertada da miserável ilusão de que foi pelo seu esforço. Sem qualquer mancha daquilo a que agora chamamos auto-aprovação, ela irá alegrar-se inocentemente naquilo que Deus a criou para ser, e a ocasião que curará o seu velho complexo de inferioridade para sempre, afogará também o seu orgulho, mais fundo do que o livro de Prospero. A perfeita humildade dispensa modéstia. Se Deus está satisfeito com a obra, a obra pode estar satisfeita consigo própria; "não lhe compete regatear elogios com o Soberano". Consigo imaginar alguém a dizer que não lhe agrada a minha ideia do Céu enquanto um sítio onde recebemos palmadinhas nas costas. Mas por detrás desse desagrado jaz um equívoco movido por orgulho. No fim, aquela Face que é o encanto ou o terror do universo, terá de se voltar para cada um de nós com uma ou outra expressão, conferindo glória inexprimível ou infligindo vergonha que não pode ser curada ou disfarçada. Li num jornal no outro dia que o fundamental é o que pensamos acerca de Deus. Por Deus, não é! O que Deus pensa de nós é não apenas mais importante, mas infinitamente mais importante. De facto, o que pensamos d'Ele não tem importância alguma, excepto na medida em que isso esteja relacionado com o que Ele pensa de nós. Está escrito que "nos apresentaremos diante" d'Ele, compareceremos, seremos inspeccionados. A promessa de glória é a promessa, quase impossível de acreditar e só possível pela obra de Cristo, de que alguns de nós, qualquer um de nós que realmente o escolha, sobreviverá a esse exame, encontrará aprovação, agradará a Deus. Agradar a Deus... ser um ingrediente real na felicidade divina... ser amado por Deus, e ser aceite não apenas por piedade, mas por deleite, da mesma maneira que um artista se deleita na sua obra ou um pai se deleita num filho – parece impossível, um peso ou um fardo de glória que os nossos pensamentos dificilmente conseguem suster. Mas assim é.
(...)
The Weight of Glory
Não estou a esquecer-me do quanto este desejo tão inocente é parodiado nas nossas ambições humanas, ou no quão rapidamente, na minha experiência, o legítimo prazer de agradar aqueles a quem era meu dever agradar se transforme no veneno mortal da auto-admiração. Mas acho que conseguia detectar um instante – um curto, curto instante – antes disto acontecer, durante o qual a satisfação de ter agradado aqueles a quem acertadamente amei, e acertadamente temi, era pura. E isto é suficiente para pensarmos sobre o que pode acontecer quando a alma redimida, para além de toda a esperança, e de quase toda a crença, descobre por fim que agradou Aquele para o qual ela foi criada para agradar. Então, não haverá espaço para vaidade. Será libertada da miserável ilusão de que foi pelo seu esforço. Sem qualquer mancha daquilo a que agora chamamos auto-aprovação, ela irá alegrar-se inocentemente naquilo que Deus a criou para ser, e a ocasião que curará o seu velho complexo de inferioridade para sempre, afogará também o seu orgulho, mais fundo do que o livro de Prospero. A perfeita humildade dispensa modéstia. Se Deus está satisfeito com a obra, a obra pode estar satisfeita consigo própria; "não lhe compete regatear elogios com o Soberano". Consigo imaginar alguém a dizer que não lhe agrada a minha ideia do Céu enquanto um sítio onde recebemos palmadinhas nas costas. Mas por detrás desse desagrado jaz um equívoco movido por orgulho. No fim, aquela Face que é o encanto ou o terror do universo, terá de se voltar para cada um de nós com uma ou outra expressão, conferindo glória inexprimível ou infligindo vergonha que não pode ser curada ou disfarçada. Li num jornal no outro dia que o fundamental é o que pensamos acerca de Deus. Por Deus, não é! O que Deus pensa de nós é não apenas mais importante, mas infinitamente mais importante. De facto, o que pensamos d'Ele não tem importância alguma, excepto na medida em que isso esteja relacionado com o que Ele pensa de nós. Está escrito que "nos apresentaremos diante" d'Ele, compareceremos, seremos inspeccionados. A promessa de glória é a promessa, quase impossível de acreditar e só possível pela obra de Cristo, de que alguns de nós, qualquer um de nós que realmente o escolha, sobreviverá a esse exame, encontrará aprovação, agradará a Deus. Agradar a Deus... ser um ingrediente real na felicidade divina... ser amado por Deus, e ser aceite não apenas por piedade, mas por deleite, da mesma maneira que um artista se deleita na sua obra ou um pai se deleita num filho – parece impossível, um peso ou um fardo de glória que os nossos pensamentos dificilmente conseguem suster. Mas assim é.
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The Weight of Glory
segunda-feira, 1 de janeiro de 2018
The Weight of Glory - 7
(...)
De seguida, viro-me para a ideia de glória. Não há forma de escapar ao facto de que esta ideia é bastante proeminente no Novo Testamente e nos primeiros escritos cristãos. Salvação está constantemente associada a palmeiras, coroas, roupões brancos, tronos e esplendor como o do sol e das estrelas. Tudo isto não me causa nenhum apelo imediato, e a esse respeito, imagino que eu seja um típico moderno. Glória sugere-me duas ideias, das quais uma parece-me perversa, e a outra ridícula. Para mim, glória significa ou fama ou luminosidade. Em relação à primeira, como ser famoso significa ser mais conhecido do que as outras pessoas, vejo o desejo pela fama como uma paixão competitiva, e como tal, mais do Inferno do que do Céu. Em relação à segunda, quem é que deseja tornar-se numa espécie de lâmpada eléctrica viva?
Quando comecei a debruçar-me sobre este assunto fiquei bastante surpreendido por deparar-me com cristãos tão diferentes quanto Milton, Johnson e Tomás de Aquino a levarem bastante a sério a ideia de glória celestial no sentido de fama ou boa reputação. Mas não fama conferida por criaturas semelhantes a nós – fama com Deus, aprovação ou (diria eu) "apreciação" por Deus. E então, quando pensei melhor no assunto, reparei que esta perspectiva concorda com as Escrituras; nada pode eliminar da parábola o elogio divino, "procedeste bem, servo bom e fiel". Com isto, uma boa parte do que eu tinha pensado a vida toda caiu como um castelo de cartas. De repente lembrei-me que ninguém pode entrar no Céu, excepto se for como uma criança; e nada é tão óbvio numa criança – não numa criança presunçosa, mas numa boa criança – como o seu grande e indisfarçável prazer em ser elogiada. Não apenas numa criança, mas até mesmo num cão ou num cavalo. Aparentemente, o que tinha confundido com humildade tinha-me impedido, estes anos todos, de perceber qual era de facto o mais humilde, o mais infantil, o mais "criaturístico" – não, mais do que isso, o prazer específico dos inferiores: o prazer da besta diante do homem, da criança diante do seu pai, do aluno diante do seu professor, da criatura diante do seu Criador.
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The Weight of Glory
De seguida, viro-me para a ideia de glória. Não há forma de escapar ao facto de que esta ideia é bastante proeminente no Novo Testamente e nos primeiros escritos cristãos. Salvação está constantemente associada a palmeiras, coroas, roupões brancos, tronos e esplendor como o do sol e das estrelas. Tudo isto não me causa nenhum apelo imediato, e a esse respeito, imagino que eu seja um típico moderno. Glória sugere-me duas ideias, das quais uma parece-me perversa, e a outra ridícula. Para mim, glória significa ou fama ou luminosidade. Em relação à primeira, como ser famoso significa ser mais conhecido do que as outras pessoas, vejo o desejo pela fama como uma paixão competitiva, e como tal, mais do Inferno do que do Céu. Em relação à segunda, quem é que deseja tornar-se numa espécie de lâmpada eléctrica viva?
Quando comecei a debruçar-me sobre este assunto fiquei bastante surpreendido por deparar-me com cristãos tão diferentes quanto Milton, Johnson e Tomás de Aquino a levarem bastante a sério a ideia de glória celestial no sentido de fama ou boa reputação. Mas não fama conferida por criaturas semelhantes a nós – fama com Deus, aprovação ou (diria eu) "apreciação" por Deus. E então, quando pensei melhor no assunto, reparei que esta perspectiva concorda com as Escrituras; nada pode eliminar da parábola o elogio divino, "procedeste bem, servo bom e fiel". Com isto, uma boa parte do que eu tinha pensado a vida toda caiu como um castelo de cartas. De repente lembrei-me que ninguém pode entrar no Céu, excepto se for como uma criança; e nada é tão óbvio numa criança – não numa criança presunçosa, mas numa boa criança – como o seu grande e indisfarçável prazer em ser elogiada. Não apenas numa criança, mas até mesmo num cão ou num cavalo. Aparentemente, o que tinha confundido com humildade tinha-me impedido, estes anos todos, de perceber qual era de facto o mais humilde, o mais infantil, o mais "criaturístico" – não, mais do que isso, o prazer específico dos inferiores: o prazer da besta diante do homem, da criança diante do seu pai, do aluno diante do seu professor, da criatura diante do seu Criador.
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The Weight of Glory
segunda-feira, 25 de dezembro de 2017
The Weight of Glory - 6
(..)
As promessas das Ecrituras podem ser reduzidas, por alto, a cinco ênfases. É prometido, em primeiro lugar, que estaremos com Cristo; em segundo, que seremos como Ele; em terceiro, com uma enorme riqueza de imagens, que teremos "glória"; em quarto, que seremos, em certo sentido, alimentados ou banqueteados ou entretidos; e finalmente, que teremos algum tipo de cargo oficial – governar cidades, julgar anjos, ser pilares do templo de Deus. A primeira pergunta que faço acerca destas promessas é: "porquê qualquer uma delas excepto a primeira?" Pode alguma coisa ser acrescentada à concepção de estar com Cristo? Porque deve ser verdade que, como diz um velho escritor, quem tem Deus e tudo o resto não tem mais do que aquele que tem apenas Deus. Penso que a resposta jaz uma vez mais na natureza dos símbolos. Porque embora possamos não reparar à primeira vista, ainda assim é verdade que qualquer concepção de estar com Cristo que qualquer um de nós possa agora formar não será muito menos simbólica do que as outras promessas; porque infiltrará uma ideia de proximidade espacial e conversa carinhosa da maneira que entendemos conversa agora, que provavelmente concentrar-se-á mais na humanidade de Cristo, excluindo a sua divindade. E de facto, descobrimos que os que só observam a primeira promessa, enchem-na de uma imagética bastante terrena – de facto, com imagética himenal ou erótica. Não estou, em momento algum, a condenar tal imagética. Desejo de coração conseguir envolver-me com ela mais profundamente do que consigo, e orem para que eu venha a conseguir. Mas o meu ponto é que isto é também apenas um símbolo, semelhante à realidade em alguns aspectos, mas diferente noutros, e como tal, precisa de correcção dos símbolos diferentes das outras promessas. A variação da promessas não significa que outra coisa que não Deus virá a ser a nossa derradeira felicidade; mas porque Deus é mais do que uma Pessoa, e porque não devemos imaginar a alegria da Sua presença demasiado exclusivamente em termos da nossa pobre experiência presente de amor pessoal, com toda a sua pequenez, distorção e monotonia, é-nos fornecida uma dúzia de imagens que se mudam, corrigem e aliviam umas às outras.
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The Weight of Glory
As promessas das Ecrituras podem ser reduzidas, por alto, a cinco ênfases. É prometido, em primeiro lugar, que estaremos com Cristo; em segundo, que seremos como Ele; em terceiro, com uma enorme riqueza de imagens, que teremos "glória"; em quarto, que seremos, em certo sentido, alimentados ou banqueteados ou entretidos; e finalmente, que teremos algum tipo de cargo oficial – governar cidades, julgar anjos, ser pilares do templo de Deus. A primeira pergunta que faço acerca destas promessas é: "porquê qualquer uma delas excepto a primeira?" Pode alguma coisa ser acrescentada à concepção de estar com Cristo? Porque deve ser verdade que, como diz um velho escritor, quem tem Deus e tudo o resto não tem mais do que aquele que tem apenas Deus. Penso que a resposta jaz uma vez mais na natureza dos símbolos. Porque embora possamos não reparar à primeira vista, ainda assim é verdade que qualquer concepção de estar com Cristo que qualquer um de nós possa agora formar não será muito menos simbólica do que as outras promessas; porque infiltrará uma ideia de proximidade espacial e conversa carinhosa da maneira que entendemos conversa agora, que provavelmente concentrar-se-á mais na humanidade de Cristo, excluindo a sua divindade. E de facto, descobrimos que os que só observam a primeira promessa, enchem-na de uma imagética bastante terrena – de facto, com imagética himenal ou erótica. Não estou, em momento algum, a condenar tal imagética. Desejo de coração conseguir envolver-me com ela mais profundamente do que consigo, e orem para que eu venha a conseguir. Mas o meu ponto é que isto é também apenas um símbolo, semelhante à realidade em alguns aspectos, mas diferente noutros, e como tal, precisa de correcção dos símbolos diferentes das outras promessas. A variação da promessas não significa que outra coisa que não Deus virá a ser a nossa derradeira felicidade; mas porque Deus é mais do que uma Pessoa, e porque não devemos imaginar a alegria da Sua presença demasiado exclusivamente em termos da nossa pobre experiência presente de amor pessoal, com toda a sua pequenez, distorção e monotonia, é-nos fornecida uma dúzia de imagens que se mudam, corrigem e aliviam umas às outras.
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The Weight of Glory
segunda-feira, 4 de dezembro de 2017
The Weight of Glory - 5
(...)
Façam eles como quiserem, nós continuamos conscientes de um desejo que nenhuma felicidade natural satisfará. Mas há alguma razão para supor que a realidade oferece qualquer possibilidade de o satisfazer? "Nem estar com fome prova que temos o pão". Mas penso que pode ser salientado que isto é não perceber o que importa. A fome física de um homem não prova que ele vá ter algum pão; ele poderá morrer de fome numa jangada no Atlântico. Mas seguramente que a fome de um homem prova que ele provém de uma raça que repara o seu corpo quando come e habita um mundo onde existem substâncias comestíveis. Da mesma maneira, embora não acredite (quem me dera acreditar) que o meu desejo pelo Paraíso prove que eu vá desfrutar dele, penso que é uma indicação razoavelmente boa de que existe, e que alguns homens para lá irão. Um homem pode amar uma mulher e não conquistá-la; mas seria muito estranho se o fenómeno a que chamamos "apaixonar" ocorresse num mundo assexuado.
Então, eis o desejo, ainda a vaguear e incerto do seu objecto, e ainda largamente incapaz de olhar na direcção onde esse desejo realmente se encontra. Os nossos livros sagrados dão-nos alguma descrição do objecto. É, obviamente, uma descrição simbólica. O Céu é, por definição, exterior à nossa experiência, mas todas as descrições inteligíveis devem ser feitas a partir de coisas internas à nossa experiência. A imagem do Céu nas escrituras é, portanto, apenas tão simbólica quanto a imagem que o nosso desejo, sem ajudas, inventa para si mesmo; o Céu não está realmente cheio de jóias mais do que poderia estar da beleza da Natureza, ou de uma bela peça musical. A diferença é que a imagética das escrituras tem autoridade. Chegou até nós através de escritores que foram mais próximos de Deus do que nós, e aguentou o teste da experiência dos Cristãos ao longo dos séculos. O apelo natural que esta imagética autoritativa tem para mim é, à primeira vista, bastante reduzido. À primeira vista esfria, mais do que desperta, o meu desejo. E isso é apenas o que eu devia esperar. Se o Cristianismo não conseguisse dizer-me acerca da terra distante mais do que o meu temperamento já me tinha levado a presumir, então o Cristianismo não seria mais elevado do que eu próprio. Se tem mais para me dar, devo esperar que seja menos atraente no imediato do que "as minhas cenas". Ao inicio Sófocles pode parecer enfadonho e frio para o rapaz que só atingiu o Shelley. Se a nossa religião é uma coisa objectiva, então nunca devemos desviar os nossos olhos daqueles elementos que parecem confusos ou repelentes; porque será precisamente o confuso e o repelente que esconderá o que ainda não sabemos e precisamos de saber.
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The Weight of Glory
Façam eles como quiserem, nós continuamos conscientes de um desejo que nenhuma felicidade natural satisfará. Mas há alguma razão para supor que a realidade oferece qualquer possibilidade de o satisfazer? "Nem estar com fome prova que temos o pão". Mas penso que pode ser salientado que isto é não perceber o que importa. A fome física de um homem não prova que ele vá ter algum pão; ele poderá morrer de fome numa jangada no Atlântico. Mas seguramente que a fome de um homem prova que ele provém de uma raça que repara o seu corpo quando come e habita um mundo onde existem substâncias comestíveis. Da mesma maneira, embora não acredite (quem me dera acreditar) que o meu desejo pelo Paraíso prove que eu vá desfrutar dele, penso que é uma indicação razoavelmente boa de que existe, e que alguns homens para lá irão. Um homem pode amar uma mulher e não conquistá-la; mas seria muito estranho se o fenómeno a que chamamos "apaixonar" ocorresse num mundo assexuado.
Então, eis o desejo, ainda a vaguear e incerto do seu objecto, e ainda largamente incapaz de olhar na direcção onde esse desejo realmente se encontra. Os nossos livros sagrados dão-nos alguma descrição do objecto. É, obviamente, uma descrição simbólica. O Céu é, por definição, exterior à nossa experiência, mas todas as descrições inteligíveis devem ser feitas a partir de coisas internas à nossa experiência. A imagem do Céu nas escrituras é, portanto, apenas tão simbólica quanto a imagem que o nosso desejo, sem ajudas, inventa para si mesmo; o Céu não está realmente cheio de jóias mais do que poderia estar da beleza da Natureza, ou de uma bela peça musical. A diferença é que a imagética das escrituras tem autoridade. Chegou até nós através de escritores que foram mais próximos de Deus do que nós, e aguentou o teste da experiência dos Cristãos ao longo dos séculos. O apelo natural que esta imagética autoritativa tem para mim é, à primeira vista, bastante reduzido. À primeira vista esfria, mais do que desperta, o meu desejo. E isso é apenas o que eu devia esperar. Se o Cristianismo não conseguisse dizer-me acerca da terra distante mais do que o meu temperamento já me tinha levado a presumir, então o Cristianismo não seria mais elevado do que eu próprio. Se tem mais para me dar, devo esperar que seja menos atraente no imediato do que "as minhas cenas". Ao inicio Sófocles pode parecer enfadonho e frio para o rapaz que só atingiu o Shelley. Se a nossa religião é uma coisa objectiva, então nunca devemos desviar os nossos olhos daqueles elementos que parecem confusos ou repelentes; porque será precisamente o confuso e o repelente que esconderá o que ainda não sabemos e precisamos de saber.
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The Weight of Glory
segunda-feira, 27 de novembro de 2017
The Weight of Glory - 4
(...)
Ao falar deste desejo pelo nosso país distante, que encontramos em nós até mesmo agora, sinto uma certa timidez. Estou praticamente a cometer uma indecência. Estou a tentar dilacerar o segredo inconsolável em cada um de vocês – o segredo que magoa tanto que se vingam dele a chamar-lhe nomes como Nostalgia, Romantismo ou Adolescência; também o segredo que nos atravessa com tanta doçura que, numa conversa mais íntima, a sua menção torna-se iminente, sentimo-nos encavacados e fingimos que nos rimos de nós próprios; o segredo que não conseguimos esconder e que não conseguimos contar, embora desejemos fazer ambos. Não conseguimos contá-lo porque é o desejo por algo que nunca realmente surgiu na nossa experiência. Não conseguimos escondê-lo porque a nossa experiência está constantemente a sugeri-lo, e traímo-nos como amantes ao ouvir a referência a um certo nome.
O nosso expediente mais vulgar é chamar-lhe Beleza e comportar-mo-nos se isso resolvesse o assunto. O expediente de Wordsworth era identificá-lo com certos momentos do seu passado. Mas tudo isso é treta. Se Wordsworth tivesse regressado a esses momentos no passado, não encontraria a coisa em si mesma, mas apenas a lembrança dela; o que ele se lembrava acabaria por se tornar também uma lembrança. Os livros ou a música em que pensávamos que a Beleza estava localizada, trair-nos-ão se lha confiarmos; não estava neles, apenas chegou-nos através deles, e o que veio através deles foi anseio (longing). Estas coisas – a beleza ou a memória do nosso passado – são boas imagens do que realmente desejamos; mas se forem confundidas pela própria coisa, tornam-em em ídolos tontos, destroçando os corações dos seus adoradores. É que elas não são a própria coisa; são apenas o aroma de uma flor que não encontrámos, o eco de uma melodia que não ouvimos, notícias de um país que até hoje nunca visitámos.
Pensam que estou a tentar tecer um feitiço? Talvez esteja; mas lembrem-se dos contos de fadas. Feitiços tanto são usados para quebrar encantamentos como para induzi-los. E eu e vocês temos necessidade do feitiço mais potente que se conseguir encontrar para nos acordar do encantamento maligno de mundanismo que nos tem sido lançado desde há quase cem anos. Quase toda a nossa educação tem sido direccionada para silenciar esta tímida, persistente, voz interior; quase todas as nossas filosofias modernas foram construídas para nos convencer que o bem do homem é para ser encontrado neste mundo.
E ainda assim, é assinalável que filosofias como as do Progresso ou da Evolução Criativa comportam elas próprias um testemunho relutante da verdade de que a nossa verdadeira meta existe noutro lugar. Quando eles querem convencer-vos de que este mundo é o vosso lar, reparem em como é que apresentam as coisas. Começam por tentar persuadir-nos que este mundo pode ser transformado no Céu, alimentando, portanto, a vossa sensação de exílio neste mundo como ele é actualmente. Depois, dizem-vos que este evento afortunado é ainda assim um bom caminho para o futuro, alimentando a tua consciência de que a tua pátria não é aqui e agora. Finalmente, temendo que o vosso anseio pelo transtemporal desperte e dê cabo do plano, usam qualquer retórica que esteja mais à mão para manter afastada da vossa mente a recordação de que mesmo que toda a felicidade que prometeram fosse alcançada pelo homem neste mundo, ainda assim cada geração perdê-la-ia ao morrer, incluindo a última geração de todas, e esta história toda seria nada, nem sequer uma história, para todo o sempre.
Eis portanto, todo o absurdo que o Sr. Shaw coloca no discurso final de Lilith, e da observação de Bergson de que o elan vital (força vital) é capaz de superar todos os obstáculos, talvez até a morte – como se pudessemos acreditar que qualquer desenvolvimento social ou biológico que venha a acontecer neste planeta virá a atrasar o envelhecimento do sol ou reverter a Segunda Lei da Termodinâmica.
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The Weight of Glory
Ao falar deste desejo pelo nosso país distante, que encontramos em nós até mesmo agora, sinto uma certa timidez. Estou praticamente a cometer uma indecência. Estou a tentar dilacerar o segredo inconsolável em cada um de vocês – o segredo que magoa tanto que se vingam dele a chamar-lhe nomes como Nostalgia, Romantismo ou Adolescência; também o segredo que nos atravessa com tanta doçura que, numa conversa mais íntima, a sua menção torna-se iminente, sentimo-nos encavacados e fingimos que nos rimos de nós próprios; o segredo que não conseguimos esconder e que não conseguimos contar, embora desejemos fazer ambos. Não conseguimos contá-lo porque é o desejo por algo que nunca realmente surgiu na nossa experiência. Não conseguimos escondê-lo porque a nossa experiência está constantemente a sugeri-lo, e traímo-nos como amantes ao ouvir a referência a um certo nome.
O nosso expediente mais vulgar é chamar-lhe Beleza e comportar-mo-nos se isso resolvesse o assunto. O expediente de Wordsworth era identificá-lo com certos momentos do seu passado. Mas tudo isso é treta. Se Wordsworth tivesse regressado a esses momentos no passado, não encontraria a coisa em si mesma, mas apenas a lembrança dela; o que ele se lembrava acabaria por se tornar também uma lembrança. Os livros ou a música em que pensávamos que a Beleza estava localizada, trair-nos-ão se lha confiarmos; não estava neles, apenas chegou-nos através deles, e o que veio através deles foi anseio (longing). Estas coisas – a beleza ou a memória do nosso passado – são boas imagens do que realmente desejamos; mas se forem confundidas pela própria coisa, tornam-em em ídolos tontos, destroçando os corações dos seus adoradores. É que elas não são a própria coisa; são apenas o aroma de uma flor que não encontrámos, o eco de uma melodia que não ouvimos, notícias de um país que até hoje nunca visitámos.
Pensam que estou a tentar tecer um feitiço? Talvez esteja; mas lembrem-se dos contos de fadas. Feitiços tanto são usados para quebrar encantamentos como para induzi-los. E eu e vocês temos necessidade do feitiço mais potente que se conseguir encontrar para nos acordar do encantamento maligno de mundanismo que nos tem sido lançado desde há quase cem anos. Quase toda a nossa educação tem sido direccionada para silenciar esta tímida, persistente, voz interior; quase todas as nossas filosofias modernas foram construídas para nos convencer que o bem do homem é para ser encontrado neste mundo.
E ainda assim, é assinalável que filosofias como as do Progresso ou da Evolução Criativa comportam elas próprias um testemunho relutante da verdade de que a nossa verdadeira meta existe noutro lugar. Quando eles querem convencer-vos de que este mundo é o vosso lar, reparem em como é que apresentam as coisas. Começam por tentar persuadir-nos que este mundo pode ser transformado no Céu, alimentando, portanto, a vossa sensação de exílio neste mundo como ele é actualmente. Depois, dizem-vos que este evento afortunado é ainda assim um bom caminho para o futuro, alimentando a tua consciência de que a tua pátria não é aqui e agora. Finalmente, temendo que o vosso anseio pelo transtemporal desperte e dê cabo do plano, usam qualquer retórica que esteja mais à mão para manter afastada da vossa mente a recordação de que mesmo que toda a felicidade que prometeram fosse alcançada pelo homem neste mundo, ainda assim cada geração perdê-la-ia ao morrer, incluindo a última geração de todas, e esta história toda seria nada, nem sequer uma história, para todo o sempre.
Eis portanto, todo o absurdo que o Sr. Shaw coloca no discurso final de Lilith, e da observação de Bergson de que o elan vital (força vital) é capaz de superar todos os obstáculos, talvez até a morte – como se pudessemos acreditar que qualquer desenvolvimento social ou biológico que venha a acontecer neste planeta virá a atrasar o envelhecimento do sol ou reverter a Segunda Lei da Termodinâmica.
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The Weight of Glory
segunda-feira, 20 de novembro de 2017
The Weight of Glory - 3
(...)
O cristão, em relação ao Céu, está praticamente na mesma posição que o miúdo da escola. Aqueles que alcançaram a vida eterna na visão de Deus sem dúvida que sabem muito bem que não não é nenhum suborno, mas sim a consumação da sua vida terrena de discipulado; mas nós que ainda não a alcançámos não o podemos saber da mesma maneira, e não podemos sequer começar a saber, a não ser por continuar a obedecer e encontrar a recompensa inicial da nossa obediência na nossa capacidade crescente de desejar a derradeira recompensa. Na mesma proporção que o nosso desejo aumenta, o nosso medo de que seja um desejar mercenário diminuirá, até que finalmente o reconheçamos como sendo absurdo. Mas provavelmente isto não acontecerá, para a maioria de nós, de um dia para o outro; a poesia substitui a gramática, o Evangelho substitui a Lei, e o desejo transforma a obediência, tão gradualmente quanto a maré eleva um navio encalhado.
Mas há mais uma importante semelhança entre nós e o miúdo da escola. Se ele for um miúdo com imaginação, ele irá, muito provavelmente, deleitar-se nos poetas ingleses e romancistas adequados à sua idade algum tempo antes de começar a suspeitar que a gramática Grega o levará a um gozo cada vez maior do mesmo tipo. Ele poderá até negligenciar o Grego para ler Shelley e Swinburne às escondidas. Por outras palavras, o desejo que o Grego irá acabar por satisfazer já existe nele e está ligado a objectos que parecem não ter nada a ver com Xenofonte ou com os verbos em μι. Agora, se somos feitos para o Céu, o desejo para o nosso lugar adequado já existirá em nós, mas ainda não ligado ao verdadeiro objecto, e poderá até apresentar-se como rival desse objecto. E isto, penso eu, é apenas o que encontramos. Sem dúvida que há um ponto em que a minha analogia do miúdo da escola começa a falhar. A poesia Inglesa que ele lê quando deveria estar a fazer exercícios de Grego poderá ser tão boa quanto a poesia Grega para a qual os exercícios o direccionam, de tal forma que ao ficar-se pelo Milton em vez de se aventurar até ao Aquiles, o seu desejo não está a envolver-se com um falso objecto. Mas o nosso caso é muito diferente. Se um bem transtemporal, transfinito, é o nosso destino real, então qualquer outro bem no qual o nosso desejo se fixe deve ser, em alguma medida, falacioso; só poderá ter, na melhor das hipóteses, uma relação simbólica com o que realmente o satisfaz.
(...)
The Weight of Glory
O cristão, em relação ao Céu, está praticamente na mesma posição que o miúdo da escola. Aqueles que alcançaram a vida eterna na visão de Deus sem dúvida que sabem muito bem que não não é nenhum suborno, mas sim a consumação da sua vida terrena de discipulado; mas nós que ainda não a alcançámos não o podemos saber da mesma maneira, e não podemos sequer começar a saber, a não ser por continuar a obedecer e encontrar a recompensa inicial da nossa obediência na nossa capacidade crescente de desejar a derradeira recompensa. Na mesma proporção que o nosso desejo aumenta, o nosso medo de que seja um desejar mercenário diminuirá, até que finalmente o reconheçamos como sendo absurdo. Mas provavelmente isto não acontecerá, para a maioria de nós, de um dia para o outro; a poesia substitui a gramática, o Evangelho substitui a Lei, e o desejo transforma a obediência, tão gradualmente quanto a maré eleva um navio encalhado.
Mas há mais uma importante semelhança entre nós e o miúdo da escola. Se ele for um miúdo com imaginação, ele irá, muito provavelmente, deleitar-se nos poetas ingleses e romancistas adequados à sua idade algum tempo antes de começar a suspeitar que a gramática Grega o levará a um gozo cada vez maior do mesmo tipo. Ele poderá até negligenciar o Grego para ler Shelley e Swinburne às escondidas. Por outras palavras, o desejo que o Grego irá acabar por satisfazer já existe nele e está ligado a objectos que parecem não ter nada a ver com Xenofonte ou com os verbos em μι. Agora, se somos feitos para o Céu, o desejo para o nosso lugar adequado já existirá em nós, mas ainda não ligado ao verdadeiro objecto, e poderá até apresentar-se como rival desse objecto. E isto, penso eu, é apenas o que encontramos. Sem dúvida que há um ponto em que a minha analogia do miúdo da escola começa a falhar. A poesia Inglesa que ele lê quando deveria estar a fazer exercícios de Grego poderá ser tão boa quanto a poesia Grega para a qual os exercícios o direccionam, de tal forma que ao ficar-se pelo Milton em vez de se aventurar até ao Aquiles, o seu desejo não está a envolver-se com um falso objecto. Mas o nosso caso é muito diferente. Se um bem transtemporal, transfinito, é o nosso destino real, então qualquer outro bem no qual o nosso desejo se fixe deve ser, em alguma medida, falacioso; só poderá ter, na melhor das hipóteses, uma relação simbólica com o que realmente o satisfaz.
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The Weight of Glory
sábado, 18 de novembro de 2017
Velhas histórias que tornam o herói vulgar e a história extraordinária
The view that fairy tales cannot really have happened, though crazy, is common. The man I speak of disbelieved in fairy tales in an even more amazing and perverted sense. He actually thought that fairy tales ought not to be told to children. That is (like a belief in slavery or annexation) one of those intellectual errors which lie very near to ordinary mortal sins. There are some refusals which, though they may be done what is called conscientiously, yet carry so much of their whole horror in the very act of them, that a man must in doing them not only harden but slightly corrupt his heart…
… Folk-lore means that the soul is sane, but that the universe is wild and full of marvels. Realism means that the world is dull and full of routine, but that the soul is sick and screaming. The problem of the fairy tale is—what will a healthy man do with a fantastic world? The problem of the modern novel is—what will a madman do with a dull world? In the fairy tales the cosmos goes mad; but the hero does not go mad. In the modern novels the hero is mad before the book begins, and suffers from the harsh steadiness and cruel sanity of the cosmos. In the excellent tale of “The Dragon’s Grandmother,” in all the other tales of Grimm, it is assumed that the young man setting out on his travels will have all substantial truths in him; that he will be brave, full of faith, reasonable, that he will respect his parents, keep his word, rescue one kind of people, defy another kind, ‘parcere subjectis et debellare,’ etc. Then, having assumed this centre of sanity, the writer entertains himself by fancying what would happen if the whole world went mad all round it, if the sun turned green and the moon blue, if horses had six legs and giants had two heads. But your modern literature takes insanity as its centre. Therefore, it loses the interest even of insanity.
A lunatic is not startling to himself, because he is quite serious; that is what makes him a lunatic. A man who thinks he is a piece of glass is to himself as dull as a piece of glass. A man who thinks he is a chicken is to himself as common as a chicken. It is only sanity that can see even a wild poetry in insanity. Therefore, these wise old tales made the hero ordinary and the tale extraordinary.
… Folk-lore means that the soul is sane, but that the universe is wild and full of marvels. Realism means that the world is dull and full of routine, but that the soul is sick and screaming. The problem of the fairy tale is—what will a healthy man do with a fantastic world? The problem of the modern novel is—what will a madman do with a dull world? In the fairy tales the cosmos goes mad; but the hero does not go mad. In the modern novels the hero is mad before the book begins, and suffers from the harsh steadiness and cruel sanity of the cosmos. In the excellent tale of “The Dragon’s Grandmother,” in all the other tales of Grimm, it is assumed that the young man setting out on his travels will have all substantial truths in him; that he will be brave, full of faith, reasonable, that he will respect his parents, keep his word, rescue one kind of people, defy another kind, ‘parcere subjectis et debellare,’ etc. Then, having assumed this centre of sanity, the writer entertains himself by fancying what would happen if the whole world went mad all round it, if the sun turned green and the moon blue, if horses had six legs and giants had two heads. But your modern literature takes insanity as its centre. Therefore, it loses the interest even of insanity.
A lunatic is not startling to himself, because he is quite serious; that is what makes him a lunatic. A man who thinks he is a piece of glass is to himself as dull as a piece of glass. A man who thinks he is a chicken is to himself as common as a chicken. It is only sanity that can see even a wild poetry in insanity. Therefore, these wise old tales made the hero ordinary and the tale extraordinary.
segunda-feira, 13 de novembro de 2017
The Weight of Glory - 2
(...)
Não devemos ficar atrapalhados quando descrentes dizem que esta promessa de recompensa torna a vida cristã numa vida mercenária. Existem diferentes tipos de recompensa. Há a recompensa que não tem nenhuma ligação natural com as coisas que fazes para a ganhar, e é bastante distinta dos desejos que deviam acompanhar essas coisas que fizeste. Dinheiro não é a recompensa natural do amor; é por isso que chamamos a um homem "mercenário" se ele casar com uma mulher apenas tendo em vista o seu dinheiro. Mas o casamento é a recompensa própria para um verdadeiro amante ("lover", "amador", pessoa que ama), e ele não é mercenário por o desejar. Um general que combata bem para conseguir um título nobiliárquico é mercenário; um general que combata pela vitória não é, sendo a victória a recompensa apropriada para o combate, tal como o casamento é a recompensa adequada para o amor. As recompensas apropriadas não estão meramente anexadas à actividade pela qual são conseguidas, mas são a própria actvidade em consumação. Há ainda um terceiro caso, que é mais complicado. Desfrutar de poesia Grega é certamente uma recompensa adequada, e não mercenária, para a aprendizagem do Grego; mas apenas aqueles que alcançaram o nível de desfrutar de poesia Grega podem dizer, a partir da sua experiência, que assim é. O miúdo da escola principiante em gramática Grega não pode antecipar o seu apreço amadurecido por Sófocles, da mesma maneira que um amante antecipa o casamento, ou que um general antecipa a victória. Ele tem de começar por trabalhar para tentar ter boas notas nos testes, ou para evitar castigos, ou para agradar aos pais ou, quando muito, na esperança de um bem futuro que no momento presente, ele não consegue imaginar ou desejar. A sua atitude, como tal, tem uma certa semelhança com a do mercenário; a recompensa que ele vai receber será, de facto, uma recompensa apropriada, mas ele não saberá disso até a receber. Claro, ele vai recebê-la gradualmente; o gozo surgirá por entre o mero frete, e ninguém conseguirá identificar o dia ou a hora em que um cessou e o outro se iniciou. Mas será apenas à medida que se aproxima da recompensa que se tornará capaz de a desejar por seu próprio interesse; de facto, a capacidade de a desejar é em si mesma uma recompensa preliminar.
(...)
The Weight of Glory
Não devemos ficar atrapalhados quando descrentes dizem que esta promessa de recompensa torna a vida cristã numa vida mercenária. Existem diferentes tipos de recompensa. Há a recompensa que não tem nenhuma ligação natural com as coisas que fazes para a ganhar, e é bastante distinta dos desejos que deviam acompanhar essas coisas que fizeste. Dinheiro não é a recompensa natural do amor; é por isso que chamamos a um homem "mercenário" se ele casar com uma mulher apenas tendo em vista o seu dinheiro. Mas o casamento é a recompensa própria para um verdadeiro amante ("lover", "amador", pessoa que ama), e ele não é mercenário por o desejar. Um general que combata bem para conseguir um título nobiliárquico é mercenário; um general que combata pela vitória não é, sendo a victória a recompensa apropriada para o combate, tal como o casamento é a recompensa adequada para o amor. As recompensas apropriadas não estão meramente anexadas à actividade pela qual são conseguidas, mas são a própria actvidade em consumação. Há ainda um terceiro caso, que é mais complicado. Desfrutar de poesia Grega é certamente uma recompensa adequada, e não mercenária, para a aprendizagem do Grego; mas apenas aqueles que alcançaram o nível de desfrutar de poesia Grega podem dizer, a partir da sua experiência, que assim é. O miúdo da escola principiante em gramática Grega não pode antecipar o seu apreço amadurecido por Sófocles, da mesma maneira que um amante antecipa o casamento, ou que um general antecipa a victória. Ele tem de começar por trabalhar para tentar ter boas notas nos testes, ou para evitar castigos, ou para agradar aos pais ou, quando muito, na esperança de um bem futuro que no momento presente, ele não consegue imaginar ou desejar. A sua atitude, como tal, tem uma certa semelhança com a do mercenário; a recompensa que ele vai receber será, de facto, uma recompensa apropriada, mas ele não saberá disso até a receber. Claro, ele vai recebê-la gradualmente; o gozo surgirá por entre o mero frete, e ninguém conseguirá identificar o dia ou a hora em que um cessou e o outro se iniciou. Mas será apenas à medida que se aproxima da recompensa que se tornará capaz de a desejar por seu próprio interesse; de facto, a capacidade de a desejar é em si mesma uma recompensa preliminar.
(...)
The Weight of Glory
segunda-feira, 6 de novembro de 2017
The Weight of Glory - 1
Se perguntássemos a vinte bons homens dos dias de hoje qual é que eles pensavam ser a mais elevada das virtudes, dezanove responderiam "altruísmo/abnegação" (em inglês, "unselfinshness", que se poderia traduzir directamente por "desegoísmo"). Mas se perguntássemos à maioria dos grandes cristãos de antigamente, responderiam "amor". Repararam no que aconteceu? Um termo negativo foi substituído por um positivo, e isto é de uma importância maior do que meramente filológica. O ideal negativo do "altruísmo" ("desegoísmo") transporta consigo a sugestão não de conseguir primariamente coisas boas para os outros, mas de prescindirmos delas para nós próprios, como se o importante fosse a nossa abstinência, e não a felicidade dos outros. Não penso que isto seja a virtude cristã do "amor". O Novo Testamento tem muito a dizer sobre auto-negação, mas não auto-negação como um fim em si mesmo. É-nos dito para negarmos a nós mesmos e que tomemos as nossas cruzes de modo a que possamos seguir Cristo; e quase todas as descrições do que iremos finalmente encontrar se o fizermos contêm um apelo ao desejo. Se espreitar na maioria das mentes modernas a noção de que desejar o nosso próprio bem e esperar sinceramente pelo seu usufruto é uma coisa má, deixem-me esclarecer-vos que esta noção infiltrou-se a partir de Kant e dos estóicos, e não faz parte da fé cristã. De facto, se considerarmos as promessas de recompensa descaradas e a natureza surpreendente das recompensas prometidas nos Evangelhos, pareceria que o Nosso Senhor acha que os nossos desejos são, não demasiado fortes, mas sim demasiado fracos. Somos criaturas desgovernadas/indecisas/irresolutas ("half-hearted", com coração assim-assim), entretidas com bebida, sexo e ambição quando nos é oferecida infinita alegria, como uma criança ignorante que prefere continuar a fazer tartes de lama num lamaçal, porque não consegue imaginar o que significa a possibilidade de um dia à beira-mar. Somos demasiado fáceis de satisfazer.
(...)
The Weight of Glory
sexta-feira, 7 de julho de 2017
Vendo no falso o verdadeiro e exigindo dos outros a mesma mentira
Comecei então a falar em voz alta e sem medo, apesar dos risos do mundo, porque, fosse como fosse, aqueles risos eram bondosos e não maldosos. Todas as minhas conversas decorriam nos serões, principalmente na companhia das senhoras, que gostavam muito de me ouvir e obrigavam também os homens a ouvir-me. Toda a gente se ria na minha cara: «Mas como é possível eu ser culpado por todos? Eu posso ser culpado, por exemplo, por si?» Eu respondia-lhes: «Como podem os senhores compreender isso se todo o mundo, desde há muito, tomou por outro caminho, vendo no falso o verdadeiro e exigindo dos outros a mesma mentira? Como vêem, eu procedi uma vez na vida com sinceridade e logo me tornei para todos uma espécie de maluquinho religioso: embora simpatizem comigo, não deixam de se rir de mim».
dados biográficos de Zóssima
Volume I
página 363
Editorial Presença
dados biográficos de Zóssima
Volume I
página 363
Editorial Presença
quinta-feira, 6 de julho de 2017
Prontos a derramar o nosso sangue pela honra sem nada saber sobre a honra
Passei muito tempo em São Petersburgo, na escola de cadetes, quase oito anos, e aquela nova educação adormeceu em mim muitas das sensações infantis, embora não me esquecesse de nada. Ganhei hábitos e mesmo opiniões novos que me transformaram numa criatura quase selvagem, cruel e absurda. Adquiri o brilho da cortesia e das maneiras mundanas, juntamente com a língua francesa, mas todos nós, incluindo eu, considerávamos os soldados que nos serviam na escola como animais. Aliás, eu era a este respeito o pior de todos, porque era o mais susceptível de todos os meus colegas. Quando acabámos o curso e nos tornámos oficiais estávamos prontos a derramar o nosso sangue pela honra do nosso regimento, mas nenhum de nós sabia nada sobre a verdadeira honra, nenhum de nós sabia o que isso significava e, se soubesse, rir-se-ia da honra. Quase nos orgulhávamos das nossas bebedeiras, fanfarronices e comportamentos desordeiros. Não diria que não prestávamos: toda aquela juventude era gente boa, mas que se portava mal, e eu em primeiro lugar.
dados biográficos de Zóssima
Volume I
página 357
Editorial Presença
dados biográficos de Zóssima
Volume I
página 357
Editorial Presença
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017
Mentir a si próprio
O principal é o senhor não mentir a si próprio. Quem mente a si mesmo e ouve as suas próprias mentiras chega a um ponto tal que já não distingue qualquer verdade em si nem à sua volta, deixando por isso de respeitar a si mesmo e aos outros. Ora, sem respeito por todos, o senhor deixa de amar e, para se divertir e distrair, sem amor, entrega-se às paixões e às volúpias grosseiras, atinge um estádio animalesco nos seus vícios, e tudo isso provém de estar a mentir permanentemente a si próprio e aos outros. Quem mente a si mesmo também será o primeiro a ofender-se. É que, às vezes, é muito agradável ficar ofendido, não é verdade? A pessoa sabe bem que ninguém a ofendeu, que inventou a sua ofensa e que mentiu para enfeitá-la, que exagerou para criar todo o cenário, que se agarrou a uma palavrinha e fez de uma ervilha uma montanha... a própria pessoa sabe isso e, mesmo assim, apressa-se a ficar ofendida, a ficar ofendida até ao prazer, até sentir um grande deleite e, a partir daqui, chega até à verdadeira hostilidade... Levante-se do chão e sente-se, por favor, porque isso tudo são também gestos falsos.
disse Zóssima a Fiódor Pávlovitch
Volume I
página 62
Editorial Presença
disse Zóssima a Fiódor Pávlovitch
Volume I
página 62
Editorial Presença
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017
Change your heart
Look around you
Change your heart
It will astound you
I need your lovin'
Like the sunshine
Everybody's gotta learn sometime
Muda o teu coração
Olha à tua volta
Muda o teu coração
Vai surpreender-te
Eu preciso do teu amor
Como do brilho do sol
Toda a gente acaba por ter de aprender.
Etiquetas:
*Artista - Beck,
*Artista - Korgis,
2004 dC,
Música
quinta-feira, 15 de dezembro de 2016
Bons dias
Fazes no dia que nasce
A manhã mais bonita
A brisa fresca da tarde
A noite menos fria
Eu não sei se tu sabes
Mas fizeste o meu dia também
Esse bom dia que dás
é outro dia que nasce
É acordar mais bonita
Trabalhar com vontade
É estar no dia com pica
É passar com a vida
e desejar-te um bom dia também
Um bom dia para ti
Não que apenas passa não que pesa e castiga
Não que esqueças mais tarde
Mas o dia em que me digas
Ao ouvido baixinho
ai tu fizeste o meu dia também tão bom também
Faz também o dia de alguém
Faz também o dia de alguém
Faz também o dia de alguém
Faz também o dia de alguém
Fazes no dia que nasce
A manhã mais bonita
A brisa fresca da tarde
A noite menos fria
Eu não sei se tu sabes
Mas fizeste o meu dia também
Um bom dia para ti
E para o estranho que passa
Para aquele que se esquiva
Para quem se embaraça
e se cala na vida
Mesmo que não o diga
Ai tu fizeste o meu dia também tão bom também
Faz também o dia de alguém
Faz também o dia de alguém
Faz também o dia de alguém
Faz também o dia de alguém
Etiquetas:
*Artista - Deolinda,
*Assunto - Educação,
*Assunto - Indiferença,
2016 dC
sexta-feira, 9 de dezembro de 2016
Medo de mim
Quando me queres incluir
e me pões a dormir
num bairro qualquer por aí
E a lição de bem-estar
é não incomodar
quem veja incómodo em mim
Por mais passos que eu dê
mesmo sem querer
irei sempre bater
ou esbarrar contra ti
É teu o meu espaço
e p´lo teu embaraço
pelas portas d´aço
eu já percebi:
Tens medo de mim
Tens medo de mim
Tens medo de mim
Quando me vens revistar
só porque dou ar
de não ser daqui nem dali
E para me proteger
impões um poder
que não olha a meios pró fim
Todo o gesto que eu faça
é vil ameaça
que anulas e esmagas
e vejo assim
que a força que empregas
é injusta e cega
não vê em quem acerta
e acertas em mim
Tens medo de mim
Tens medo de mim
Tens medo de mim
Quando me culpas e prendes
tudo porque entendes
que isso é melhor para mim
Eu, mesmo inocente,
sou sempre diferente
porque não sou igual a ti
Agora, não entendo,
porquê este medo
brutal e tão extremo
que a ninguém faz crer
que estou na cadeia
porque a tua carteira
caiu, apanhei-a,
e quis devolver.
Tens medo de mim
Tens medo de mim
e eu medo de ti
quarta-feira, 24 de agosto de 2016
A administrar como mordomos
Quantas vezes, ao participarmos em alguma ajuda a uma instituição de caridade, não teremos agido como se estivéssemos a dar alguma coisa nossa cultivando todas as expectativas de sermos considerados abnegados e generosos? Isso aconteceu quando estávamos apenas a administrar, como mordomos, parte daquilo que o verdadeiro Dono nos confiou para os propósitos que tem em mente.
A prova de que não é desta forma que nos vemos a nós próprios é o sentimento que nos invade quando alguém se esquece de nos agradecer, agradecendo só (!) a Deus.
Editora: Dikaion
página 128
Editora: Dikaion
página 128
terça-feira, 23 de agosto de 2016
Eles não respeitam as máscaras, mas julgam os seus segredos
Um dia, li uma frase de Karl Barth que compara os métodos do livro de Génesis com os romances de Dostoievski. Barth diz que ambos arrogantemente ignoram as apreciações e honras convencionais e aproximam-se das vidas de homens e mulheres cavando as profundezas de Deus nas suas supostas vidas convencionais. Dostoievski e Génesis não respeitam as máscaras de homens e mulheres, mas julgam seus segredos. Eles vêem além do que homens e mulheres aparentam ser e entendem o que eles são e o que eles não são. Eles vêem, nos termos de Paulo, sua justiça reconhecida como o divino "todavia", e não como o divino "portanto"; como perdão, e não como um permissão para o que eles acreditam ser.
Original: Under the Unpredictable Plant
Editora: United Press
página 67
Original: Under the Unpredictable Plant
Editora: United Press
página 67
segunda-feira, 22 de agosto de 2016
O personagem que haveria de criar para conseguir ser o artista que desejava ser
Nunca se viam de um modo definido as suas feições. Os seus olhos azuis, profundos, vivos e inquisitivos só apareciam fora do espaço público. David pensava agora que o amigo sempre parecera querer esconder-se. Tinha visto algumas fotografias suas de miúdo em que era possível prever no olhar esquivo, e no modo reservado do corpo, a pré-história do personagem que haveria de criar para conseguir ser o artista que desejava ser.
Editora: Quetzal
página 171
Editora: Quetzal
página 171
sexta-feira, 19 de agosto de 2016
I believe
Hallelujah! I just found Jesus
Swimming at the bottom of the bottle
I keep crawling out of
He said You look familiar but I can't place your face
I said You look like hell
and that we used to hang at my mother's request
Hallelujah! I just found Jesus
Trying to save the world through the wet hands
and mouth of a girl
She's convinced me to stay in for as long as
we both shall live
(Or until one of us gets bored)
Have I been saved?
'Cause I feel the same
Dirty and tired
Can I be saved without having shame or remorse
for what I don't believe?
I offer up my humbled soul and my broken spirit
All those things that I can't control
The intangible bullshit to you, my Lord
I believe there is no white light
Somebody's mistaken or somebody lied
I believe there is only one truth
It resonates different in me and you
so don't try to sell me yours
Etiquetas:
*Artista - Owen,
*Assunto - Cansaço,
2016 dC,
Música
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