segunda-feira, 22 de abril de 2019

Estar contactável nos anos 30

Os seus pensamento foram interompidos pela abertura da porta. Devine entrou, sozinho, trazendo consigo um tabuleiro com uma garrafa de uísque, copos e um cifão.
- Weston anda ver se encontras alguma coisa para comer – disse, pousando o tabuleiro no chão, ao lado da cadeira onde Ransom se encontrava sentado, e principiando a abrir a garrafa.
Ransom, que, na verdade, se sentia bastante sequioso, reparou que o seu anfitrião era uma das tais pessoas irritantes que se esquecem de utilizar as mãos ao mesmo tempo de falam. Devine, que começara a tirar a prata que cobria a rolha com a ponta do saca-rolhas, parou de repente para perguntar:
- Como é que veio parar a estar zona selvagem do país?
- Ando a dar uma volta pelas redondezas – respondeu Ransom. - A noite passada dormi em Stoke Underwood e estava a pensar ficar esta noite em Nadderby. Como eles não me deram hospitalidade, resolvi seguir para Sterk.
- Santo Deus! - exclamou Devine, mantendo a rolha no interior da garrafa. - Fazes isso para poupar dinheiro ou é masoquismo puro?
- Claro que é por prazer – disse Ransom, não conseguindo desviar os olhos da garrafa, que nunca mais era aberta.
- Como é que consegues explicar isso? - perguntou Devine, voltando a si o suficiente para tirar mais um pouco de prata da rolha.
- Nem eu sei bem. Para começar, gosto realmente de andar a pé...
- Santo Deus! Deves ter gostado imenso de estar na tropa, como todas aquelas caminhadas intermináveis ao longo de Thingummy, não?
- Não, não. É exactamente ao contrário da tropa. A diferença fundamental está em que tu, na tropa, nunca estás sozinho por um só momento nem podes escolher o sítio para onde queres ir ou até mesmo a parte da estrada por onde te apetece seguir. Numa viagem deste género estás totalmente entregue a ti mesmo. Páras onde queres e segues caminho quando tens vontade disso. Não tens de dar satisfações a ninguém.
- Até que, uma noite, encontras um telegrama no teu hotel a dizer: «Volta imediatamente» - replicou Devine, removendo, finalmente, o resto da prata.
- Só se foste suficientemente parvo para deixares em casa uma lista do teu itinerário! A pior coisa que me podia acontecer era o homem dos telegramas dizer: «É favor o Dr. Elwin Ransom, que se crê estar em viagem de recreio algures nas Midlands...»
- Estou a perceber a ideia – disse Devine, parando no preciso momento em que ia abrir a garrafa. - Isso não seria possível se andasses em viagem de negócios. És um diabo cheio de sorte.

Para Além do Planeta Silencioso 
página 17
C. S. Lewis 
Editora: Europa-América

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Contactar pela primeira vez com uma nova arte

A qualquer homem, ao contactar pela primeira vez com uma nova arte, depara-se-lhe, a certa altura, algo que, erguendo a ponta do véu que esconde o mistério, revela, numa explosão de maravilha que o posterior entendimento total quase nunca chega a igualar, um lampejo das imensas possibilidades que lhe são inerentes. Para Ransom, esse momento ocorreu naquela altura, no que dizia respeito à sua compreensão das canções malacandrianas. De início reparou que o ritmo utilizado tinha por base a influência de um sangue diferente do nosso, de um coração que batia mais depressa e de uma temperatura interna mais elevada. O conhecimento que tinha das criaturas, e o amor que entretanto desenvolvera em relação a elas, fez que começasse a ouvi-las tal como cantavam. As primeiras estrofes do canto fúnebre, cantadas em notas baixas, acordando nele a sensação de grandes massas que se moviam a velocidades inconcebíveis, de gigantes dançando, de mágoas eternamente dissipadas por algo que desconhecia mas de que, apesar de tudo, tinha conhecimento, inundaram-lhe o espírito, como se as portas do céus se tivessem aberto diante dele.

Para Além do Planeta Silencioso
página 123
C. S. Lewis
Editora: Europa-América


sexta-feira, 8 de março de 2019

Lay down your weary tune



Lay down your weary tune, lay down
Lay down the song you strum
And rest yourself 'neath the strength of strings
No voice can hope to hum
Struck by the sounds before the sun
I knew the night had gone
The morning breeze like a bugle blew
Against the drum of dawn

Lay down your weary tune, lay down
Lay down the song you strum
And rest yourself 'neath the strength of strings
No voice can hope to hum
The ocean wild like an organ played
The seaweed wove its strands
The crashing waves like cymbals clashed
Against the rocks and the sand

Lay down your weary tune, lay down
Lay down the song you strum
And rest yourself 'neath the strength of strings
No voice can hope to hum
I stood unwound beneath the skies
And clouds unbound by laws
The crying rain like a trumpet sang
And asked for no applause

Lay down your weary tune, lay down
Lay down the song you strum
And rest yourself 'neath the strength of strings
No voice can hope to hum
The last of leaves fell from the trees
And clung to a new love's breast
The branches bare like a banjo moan
To the winds that listen the best

I gazed down in the river's mirror
And watched its winding strum
The water smooth ran like a hymn
And like a harp did hum
Lay down your weary tune, lay down
Lay down the song you strum
And rest yourself 'neath the strength of strings
No voice can hope to hum

sexta-feira, 1 de março de 2019

Water Falls

Water falls from the bright air
It falls like hair
Falling across a young girl’s shoulders
Water falls
Making pools in the asfalt
Dirty mirrors with clouds and buildings inside
It falls on the roof of my house
Falls on my mother and on my hair
Most people call it rain

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Olhar o mar do alto de uma falésia

Olhar o mar do alto das arribas. Percorrer instintivamente, num olhar balanceado, todo o circuito do horizonte. Olhar em baixo o cavado das ondas com grandes veios de mármore, seguir-lhes o percurso até às rochas, vê-las estoirar contra elas e erguerem-se numa explosão alta de espuma ao retardador. Aspirar fundo o seu aroma genesíaco a infinitude, a espaço e solidão. Ouvir-lhe o fervor na caldeira do mundo. Sentir instantâneamente a distância da fragilidade e pequenez à imensidão poderosa e sem limites. Conhecer o azul ainda húmido no instante da sua criação. Recolher a saudação de outras terras e outras gentes que vem na aragem por sobre a extensão das águas. Ficar atento a um sinal indistinto que anuncia o começo do mundo. Entender a linguagem cifrada de um destino comum entre mar e céu. Olhar o mar do alto de uma falésia.

Pensar 
página 189 
Vergílio Ferreira 
Editora: Bertrand

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Ir ver o mar

Ir ver o mar. Vê-lo de vez em quando e sempre com a mesma fascinação. Que é que vem dele para assim nos fascinar? A sua força imensa diante da nossa pequenez. O seu mistério visível e inquietante porque é o invisível da sua visibilidade. O irrisório da sua absurda convulsão e o aceno indistinto que vem de trás do horizonte e não sabemos o que é. O aroma a espaço, uma memória confusa de aventura, o sinal presente da sua infinitude ausente, a dilatação de nós a um poder imenso, um certo conluio com Deus.

Pensar
página 139
Vergílio Ferreira
Editora: Bertrand

sexta-feira, 27 de julho de 2018

O patriota cósmico - 2

Suponhamos que somos confrontados com uma realidade desesperante – como Pimlico, por exemplo. Se meditarmos no que é realmente o melhor para Pimlico, chegaremos à conclusão de que o fio do raciocínio nos conduz ao trono, ou ao misticismo e à arbitrariedade. Não basta uma pessoa ter uma visão negativo de Pimlico, porque, nesse caso, limitar-se-á a dar um tiro na cabeça, ou a mudar de casa e ir viver para Chelsea. Também não basta, evidentemente, uma pessoa ter uma visão positiva de Pimlico, porque, nesse caso, Pimlico continuará a ser o que é, o que seria péssimo. A única maneira de sair disto parece ser amar Pimlico, amar este bairro com uma ligação transcendental e sem qualquer motivação de natureza mundana. Se aparecesse outro homem que amasse Pimlico, aí se construiriam torres de Marfim e pináculos de ouro; Pimlico ataviar-se-ia como se ataviam as mulheres apaixonadas. Porque a decoração não serve para esconder coisas horríveis, mas para decorar coisas que já são adoráveis. Uma mãe não põe uma fita azul no filho porque ele fica feiíssimo sem ela. E um namorado não oferece um colar à namorada para ela esconder o pescoço. Se as pessoas amassem Pimlico como as mães amam os seus filhos – de forma arbitrária, porque são os filhos delas – dentro de um ou dois anos Pimlico seria mais belo do que Florença.
Alguns leitores dirão que estou simplesmente a fantasiar. E eu respondo que não, que isto é a história da humanidade. Foi assim que as cidades se tornaram grandiosas. Recuemos às mais obscuras raízes da civilização e verificaremos que elas se encontram enroscadas em redor de uma pedra sagrada ou de um poço sagrado. As pessoas começaram a prestar homenagem a um local e, a seguir, conquistaram glórias em sua honra. Os romanos não amavam Roma pelo facto de ser uma grande cidade; foi porque a amavam que Roma se tornou uma grande cidade.

*Pimlico e Chelsea são dois bairros de Londres, o primeiro relativamente pobre, o segundo razoavelmente elegante.

Ortodoxia
página 93
Gilbert Keith Chesterton
Editora: Alêtheia

O patriota cósmico - 1

Afirmei, no capítulo anterior, que é nos contos de fadas que melhor se exprime a sensação de fundo de que este mundo é estranho, sem deixar de ser atractivo. O leitor poderá, se quiser, considerar que a fase seguinte é a daquele estilo de literatura belicosa, que chega por vezes a ser patrioteira, que costuma seguir-se na história de vida de um rapaz. Todos nós devemos grande parte das nossas mais sólidas noções morais aos romances de cordel. Seja por que razão for, sempre me pareceu, e continua a parecer-me, que a melhor maneira de exprimirmos a nossa atitude em relação à vida não é em termos de crítica e aprovação, mas em termos de uma espécie de lealdade militar. A minha aceitação do universo não é optimista, é mais uma espécie de patriotismo. É uma questão de lealdade básica. O mundo não é uma pensão de Brighton, de onde possamos pensar ir-nos embora por ser uma pensão miserável. O mundo é a fortaleza da nossa família, com a bandeira erguida no alto do torreão e, quanto mais miserável for, menos justificações temos para o deixar. A questão não é que este mundo seja triste demais para se poder amá-lo ou alegre demais para se poder não o amar; a questão é que, quando de facto amamos uma coisa, a alegria dessa coisa é uma razão para a amarmos, e a tristeza dessa coisa é uma razão para a amarmos ainda mais. Enquanto motivações para o patriota inglês, os pensamentos optimistas sobre Inglaterra assemelham-se aos pensamentos pessimistas. Da mesma maneira, enquanto motivações para o patriota cósmico, também o optimismo e o pessimismo se assemelham.

Ortodoxia
página 92
Gilbert Keith Chesterton
Editora: Alêtheia

terça-feira, 24 de julho de 2018

Coexistência com o inaceitável

Na opinião do crítico, estava efectivamente implícito! E voltou a elogiar a pujança criativa do realizador, a beleza das imagens, lentas, impregnadas de inquietação poética, misteriosas como os arpejos de uma harpa sem cordas; a rudeza da montagem que talvez se pudesse definir como neo-nouvelle vague; e sobretudo a parcimónia do diálogo, admiravelmente reduzido ao essencial, atingindo o silêncio absoluto no violento clímax emocional que se despoletava na sequência da decapitação do sedutor, à porta do apartamente de Picadilly Circus: um choque inesperado e brutal de duas classes e duas culturas!
- Mas eu não vi nada disso... - balbuciei, já um pouco aterrado com a minha eventual deficiência na observação de todas essas subtilezas...
- É o que está im... im... implícito na sequência do u... u... urinol! - finalizou o crítico.


Acatei com artificioso respeito a argumentação técnica do especialista, conquanto continuasse a achar, de mim para mim, que se tratava de um filme hediondo – o que não tinha importância nenhuma, já que sempre baseei o meu comportamento em normas exemplarmente diplomáticas de coexistência com o inaceitável, considerando que basta, muitas vezes, aceitá-lo na prática, para que ele perca a sua força como teoria...

Tubarão 2000 
página 35 
António Vitorino d'Almeida 
Editora: Oficina do Livro

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Diferenças entre as religiões inglesa e portuguesa

Foi com viva emoção que assisti pela primeira vez a uma cerimónia religiosa na abadia de Westminster.
Encantou-me a distinção natural, a sóbria elegância do vestuário, a dignidade daqueles fiéis que, de pé, afinadíssimos, entoavam: «Aleluia! Aleluia!...», e não pude evitar uma expressão escarninha, mista de ironia, sarcasmo e até algum nojo, ao pensar nos formigames de andrajos, de pústulas, de aleijões, que se arrastam pelas estradas lusitanas, mesclando-se em massas híbridas e descomunais de povaréu lamuriento, conclaves mundiais de moléstias e pedinchice, no charnequenho lugar da Cova da Iria!...
Nem a honrosa presença de altíssimos dignatários da diplomacia mundial, de governantes ilustres, de prestigiadas individualidades da vida civil e militar, das mais imponentes e paramentadas figuras da hierarquia clerical, do próprio Papa, que também já por lá andou a suportar, com assinalável estoicismo, capaz de se infectar, a proximidade promíscua do magote insalubre, a escutar e mesmo a responder, graças à sua excelente formação poliglota, aos clamores crendeiros da matilha abusadora (como se o Sumo Pontífice não tivesse preocupações infinitamente mais transcendentes do que as mazelas e os desassossegos de cada gabiru...) pois nada disso alterou o panorama de sordidez de tais amontoamentos: somos miseráveis em tudo, até na religião...
Olhei em volta, atentamente, percorrendo a imponente estrutura arquitectónica do templo londrino, e não vi um único maneta, uma única criatura de pernas inchadas, afectada por elefantíase, era como se as varizes, as gangrenas e a fé religiosa só formassem um todo inseparável nas igrejas portuguesas, pois também não ouvi tosses espasmódicas nem queixumes doloridos, ninguém me pediu esmola, exibindo chagas ou amputações, não esbarrei com cegos nem espezinhei paralíticos, só deparei com gente finíssima, prova inequívoca de uma civiliação robusta, de sólida elevação moral e apuradíssima presença física.

Tubarão 2000
página 35
António Vitorino d'Almeida
Editora: Oficina do Livro

domingo, 22 de abril de 2018

Pastor ou proprietário de gado?

Apascentai o rebanho de Deus que está entre vós, tendo cuidado dele, não por força, mas voluntáriamente; nem por torpe ganâcia, mas de ânimo pronto; nem como tendo domínio sobre a herança de Deus, mas servindo de exemplo ao rebanho; e, quando aparecer o Sumo Pastor, alcançareis a incorruptível coroa de glória.

I Pedro 5:2-4

domingo, 8 de abril de 2018

Uma ordem chocante - 2

Levenson argumenta que só podemos entender a ordem de Deus a Abraão tendo em conta esse pano de fundo cultural. A Bíblia afirma, repetidas vezes, que, devido ao pecado dos israelitas, a vida dos seus primogénitos estará automaticamente perdida, embora possa ser resgatada através de sacrifícios regulares (Êxodo 22:28; 34:19-20) ou, enter os levitas, do serviço ao tabernáculo (Números 3:40-41), ou ainda através do pagamento de um resgate ao tabernáculo e aos sacerdotes (Êxodo 3:46-48). Quando Deus submeteu o Egipto a juízo, por ter escravizado os israelitas, o seu último castigo consistiu em matar os seus primogénitos. A vida dos seus primogénitos estava perdida, devido aos pecados das suas famílias e da nação. Porquê? O filho primogénito era a família. Por isso, quando Deus disse aos israelitas que a vida do primogénito lhe pertencia, a menos que fosse resgatada, estava a dizer, da forma mais viva possível, naquelas culturas, que cada família da terra tinha uma dívida para com a justiça eterna: a dívida do pecado.
Tudo isto é fundamental para interpretarmos a ordem dada por Deus a Abraão. Se Abraão tivesse ouvido uma voz, que lhe parecesse ser Deus, a dizer: «Levanta-te e mata Sara», é provável que Abraão nunca o tivesse feito. Teria suposto de imediato que estava a ter alucinações, pois Deus não lhe pediria para fazer nada que contradissesse claramente tudo o que Ele disse acerca da justiça e rectidão. Contudo, quando Deus afirmou que a vida do seu filho único estava perdida, isso não pareceu uma afirmação irracional e contraditória aos ouvidos de Abraão. Reparem que Deus não estava a pedir a Abraão que entrasse na tenda de Isaac e o assassinasse. Estava a pedir-lhe que lhe oferecesse um holocausto. Estava a cobrar a dívida de Abraão. O seu filho tinha de morrer pelos pecados da família.

Falsos Deuses
página 37
Timothy Keller
Editora: Paulinas

Uma ordem chocante - 1

Muitos leitores, ao longo dos tempos, têm levantado objecções compreensíveis a este relato. Têm interpretado a «moral» desta história como significando que fazer coisas cruéis e violentas é bom, desde que se acredite que essa é a vontade de Deus. Nunca ninguém falou de forma tão expressiva acerca deste assunto como Søren Kierkegaard, cujo livro Temor e Tremor se baseia na história de Abraão e Isaac. A conclusão derradeira de Kierkegaard é a de que a fé é irracional e absurda. Abraão pensou que aquela ordem não fazia sentido nenhum, contradizendo tudo o mais que Deus alguma vez dissera, mas obedeceu a essa ordem.
Será que aquela ordem parecera completamente irracional a Abraão? A interpretação feita por Kierkegaard deste episódio não toma em conta o significado do filho primogénito, segundo o pensamento e simbolismo judeus. Jon Levenson, erudito judeu, professor em Harvard, escreveu A morte e a ressurreição do filho amado. Nesse volume, ele recorda-nos que as culturas antigas não eram tão individualistas como a nossa. As esperanças e os sonhos das pessoas nunca tinham a ver com o seu êxito, prosperidade ou proeminência pessoais. Como toda a gente fazia parte de uma família, e ninguém vivia separado da sua, essas coisas só se procuravam para o clã inteiro. Devemos lembrar ainda a antiga lei da primogenitura. O filho mais velho recebia a maior parte das terras e dos bens, para que a família não perdesse o seu lugar na sociedade.
Numa cultura individualista como a nossa, a identidade e o sentido de valor de um adulto está, muitas vezes, envolto das suas capacidades e realizações, mas na Antiguidade, todas as esperanças e sonhos de um homem e da sua família repousavam sobre o primogénito varão. O apelo a desistir do filho primogénito é apenas comparável a um cirurgião que desiste de usar as suas mãos, ou a um artista visual que perde o uso dos seus olhos.

Falsos Deuses
página 36
Timothy Keller
Editora: Paulinas

segunda-feira, 12 de março de 2018

The Weight of Glory - 13

(...)

Entretanto, a cruz vem antes da coroa e amanhã é segunda-feira de manhã. Abriu uma fenda nas muralhas impiedosas do mundo, e somos convidados a seguir o nosso Capitão lá para dentro. Segui-Lo é, obviamente, o ponto essencial. E assim sendo, poderá ser perguntado sobre qual a aplicação prática destas especulações com que nos temos presenteado. Consigo lembrar-me de pelo menos uma aplicação. É possível que cada um pense demasiado na sua potencial glória na próxima vida; é mais dificilmente possível que se pense o mesmo com demasiada frequencia ou profundidade em relação ao seu próximo. A carga, ou o peso, ou o fardo da glória do meu próximo deve ser depositada nas minhas costas, uma carga tão pesada que só a humildade pode carregá-la, e as costas dos orgulhosos cederão. É uma coisa séria viver numa sociedade de possíveis deuses e deusas, lembrar que a pessoa mais aborrecida e desinteressante com que possas ter falado, um dia poderá ser uma criatura que, se a visses agora, sentir-te-ias fortemente tentado a adorá-la, ou então, um horror e uma corrupção tal que agora apenas podes conhecer, se tanto, num pesadelo. Durante todo o dia estamos, em algum grau, a ajudarmo-nos uns aos outros para um ou outro destes destinos. É à luz destas possibilidades esmagadoras, é com a reverência e a circunspecção que se lhes adequa, que devemos orientar o nosso trato uns com os outros, em todas as amizades, em todos os amores, em todas as brincadeiras, em todas as políticas. Não existem pessoas comuns/vulgares/ordinárias (ordinary). Tu nunca falaste com um mero mortal. Nações, culturas, artes, civilizações – estas são mortais, e as suas vidas estão para as nossas como a vida de um mosquito. Mas é com imortais que brincamos, trabalhamos, casamos, desprezamos e exploramos – horrores imortais ou esplendores eternos. Isto não sgnifica que devamos ser perpetuamente solenes. Devemos brincar. Mas o nosso divertimente deve ser daquele tipo (e é, de facto, o mais divertido) que existe entre pessoas que, desde o princípio, se levaram a sério mutuamente – sem frivolidade, sem superioridade, sem presunção. E a nossa caridade deve ser um amor real e custoso, profundamente sentidos pelos pecados apesar dos quais amamos o pecador – não mera tolerância ou indulgência que caricaturam o amor, da mesma forma que frivolidade caricatura a diversão. A seguir ao próprio Santo Sacramento, o teu próximo é o objecto mais santo que é apresentado aos nossos sentidos. Se o teu próximo for Cristão, ele é santo quase da mesma maneira, porque nele também a vere latitat de Cristo – o glorificador e o glorifiado, a própria personificação da Glória, está verdadeiramente escondiada.

The Weight of Glory

segunda-feira, 5 de março de 2018

The Weight of Glory - 12

(...)

E quando lá chegarmos, além da Natureza, comeremos da árvore da vida. De momento, somos renascidos em Cristo, o espírito em nós vive directamente em Deus; mas a mente, e ainda mais o corpo, recebe vida d'Ele através de mil subtracções – através dos nossos antepassados, através da nossa comida, através dos elementos. Os resultados débeis e distantes dessas energias que o êxtase criativo de Deus implantou na matéria quando Ele fez os mundos são o que agora chamamos de prazeres físicos; e mesmo que filtrados, eles são demasiado para o que conseguimos lidar actualmente. Como seria provar na fonte aquele regato do qual até estas coisas menores se mostram intoxicantes. Ainda assim, creio eu, isso é o que jaz diante de nós. O homem completo é feito para beber alegria da fonte da alegria. Como disse Santo Agostinho, o êxtase da alma salva "fluirá" para o corpo glorificado. À luz dos nossos apetites actuais especializados e depravados, não conseguimos imaginar esta torrens voluptatis, e aviso-vos seriamente para não o tentarem. Mas isto deve ser mencionado, para expulsar pensamentos ainda mais desorientadores – pensamentos de que o que se salva é um mero espírito, ou de que o corpo ressurrecto vive numa insensibilidade dormente. O corpo foi feito para o Senhor, e estas excentricidades sinistras estão muito distantes do que está certo.

(...)

The Weight of Glory

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

The Weight of Glory - 11

(...)

E isto traz-me para o outro sentido para glória – glória enquanto brilho, esplendor, luminosidade. Devemos brilhar como o sol, a Estrela Vespertina ser-nos-á oferecida. Penso que comecei a perceber o que isso significa. Por um lado, claro, Deus já nos ofereceu a Estrela Verpertina: uma pessoa pode sair e desfrutar da oferta por muitas belas manhãs, se se levantar cedo o suficiente. Mas o que é que, poderão perguntar, nós queremos? Ah, mas nós queremos muito mais do que isso – algo a que os livros de estética pouco se dedicam. Mas os poetas e as mitologias sabem tudo sobre o assunto. Não queremos apenas ver a beleza, embora, sabe Deus, até esse seja um prémio suficiente. Queremos outra coisa, que dificilmente pode ser exprimida por palavras – estar unidos com a beleza que vemos, passar para ela, recebê-la em nós, banharmo-nos nela, tornarmo-nos parte dela. É por isso que povoámos o ar, a terra e a água com deuses e deusas, e ninfas e elfos – que, embora nós não possamos, no entanto estas projecções podem, desfrutar nelas mesmas da beleza, graça e poder da qual a Natureza é a imagem. É por isso que os poetas nos dizem falsidades tão adoráveis. Eles falam como se o vento do oeste pudesse mesmo varrer a alma humana; mas não pode. Eles dizem-nos que "a beleza nascida de um som murmurante" passará para um rosto humano. Mas não passa. Ou pelo menos, ainda não passa. Porque se levamos a sério a imagética das Escrituras, se acreditamos que um dia Deus nos dará a Estrela Vespertina e nos compelir a envergar o esplendor do sol, então podemos supor que os mitos antigos e a poesia moderna, sendo falsas enquanto história, poderão estar bastante perto da verdade enquanto profecia. De momento estamos no exterior do mundo, no lado errado da porta. Nós conseguimos distinguir a frescura e a pureza da manhã, mas elas não nos tornam frescos e puros. Não nos conseguimos misturar com os esplendores que vemos. Mas todas as páginas do Novo Testamento sussurram o rumor de que não será sempre assim. Em algum dia, se Deus quiser, entraremos para o lado de dentro. Quando as almas humanas se tornarem tão perfeitas em obediência voluntária quanto a criação inanimada na sua obediência desprovida de vida, então poderão envergar a sua glória, ou melhor, aquela glória superior da qual a Natureza é apenas um primeiro esboço. Não julguem que estou a descair para uma qualquer extravagância pagã de ser absorvido na Natureza. A Natureza é mortal. Nós viveremos para além dela. Quando todos os sóis e nébulas tiverem morrido, cada um de vocês continuará vivo. A Natureza é apenas a imagem, o símbolo; mas é o símbolo que as Escrituras me convidam a usar. Somos instados a passar através da Natureza, para além dela, até àquele esplendor que ela reflecte a espaços.

(...)

The Weight of Glory