sexta-feira, 26 de abril de 2019
It's my house
It's my house and I live here
(I wanna tell you)
It's my house and I live here
There's a welcome mat at the door
And if you come on in
You're gonna get much more
There's my chair I put it there
Everything you see
Is with love and care
On the table, there sits a rose
Through every window
A little light flows
Books of feeling on the shelf above
'cause it was built for love
I was built for love
There's a candle to light the stairs
Where my dreams await someone to share
Oh, there's music on the radio
And good vibrations won't let me go
I put my name on the ceilin' above
'cause it was buillt for love
You say you wanna move in with me
You say you wanna move in with me
Got to follow the rules to get me
Got to follow the rules to get me
You wanna visit my house
Say you wanna drop by
Wanna visit my house, yeah
To see me sometimes
Etiquetas:
*Artista - Diana Ross,
*Artista - John Mayer,
*Assunto - Lar,
1979 dC,
Música
quinta-feira, 25 de abril de 2019
A casa
A casa. Pensá-la agora um pouco sem bem saber porquê. Talvez porque ela se te afunda na memória como tudo o que passou. Existiria ela outrora na cidade? Hoje não existe. Ela implica a existência da família e a família é tão problemática. Centro de convergência da união do sangue, ela fechava-nos no seu abrigo, impregnada da nossa história, do que em nós foi alegria ou amargura ou esperança, envolvia-nos de protecção no que em nós não morre de infância até à idade adulta ou da velhice. Entrar em casa, fechar a porta, e encontrar uma defesa segura contra tudo o que nos agrediu. Nela encontramos o repouso para a fadiga do corpo e da alma. Entrar em casa é reencontrarmo-nos connosco, a nossa pessoa de que nos tínhamos perdido. É sobretudo estar alguém connosco, mesmo que não esteja ninguém. Porque a casa tem uma alma. Ela cria-se com o que de todos os que nela são ou foram, se depositou nas salas, nos móveis, em todos os objectos. É por isso que entrar numa casa vazia e alheia é sentir logo uma saturação de presença, de qualquer coisa animada. Eis porque nos perturba a mudança dos móveis que a nossa mulher entendeu fazer. Porque isso é um atentado contra a pessoa da própria casa, a alma que era sua e nós conhecíamos.
Mas hoje a casa desfez-se. A casa aprende-se devagar e já não há quem a ensine. Ela não é mais um sítio de se ser mas de se estar. Ela é mesmo muitas vezess o sítio em que se pode estar apenas defendido contra o frio, a chuva, o abrigo em que se pode dormir. E isto não apenas para o pobre mas para o rico. Os bairros da lata são sítios em que se dorme (mal), porque a rua é o sítio de se estar acordado. Assim quem lá vive também prefere um automóvel e TV a uma casa. Que se lhes dê a opção entre uma barraca com automóvel e casa sem ele. Mas o rico, que tem casa, vive também na rua, mesmo que não viva. Porque a leva com ele para casa no viver e no sentir. E não apenas porque o telefone e TV e ruídos lha invadem, mas porque lhe traz o pensar e sentir que na rua ficou. A casa pode então ser um brinquedo, um objecto de capricho, de exibição, e no seu artifício não se impregna do sangue de quem a habita. Ela está separada de quem lá mora como a família que cedo se desagrega. Ao apelo então da memória de um lar que já não há, inventa-se a casa de campo, que é normalmente a casa de praia, para que se estabeleça a ambiguidade de já não ser a casa da cidade e sê-lo ainda. De campo ou de praia, a casa contamina-se logo da casa que por um tempo se deixou e que veio logo atrás. A maior perda que na da cidade se tem é a da nossa própria pessoa. E é essa que desesperadamente se tenta recuperar. Mas a saudade da nossa pessoa fascina-nos e repele-nos. O campo é o mito da cidade – diz-se. Como aliás a cidade é o do campo. Mas tudo é mito do que se perdeu. A infância, a juventude, todo o outrora da memória.
A casa. Sonho para sempre perdido. Como tudo onde o tempo se demorava. Porque o tempo morreu e só dele resta o passar...
Pensar
página 189
Vergílio Ferreira
Editora: Bertrand
Mas hoje a casa desfez-se. A casa aprende-se devagar e já não há quem a ensine. Ela não é mais um sítio de se ser mas de se estar. Ela é mesmo muitas vezess o sítio em que se pode estar apenas defendido contra o frio, a chuva, o abrigo em que se pode dormir. E isto não apenas para o pobre mas para o rico. Os bairros da lata são sítios em que se dorme (mal), porque a rua é o sítio de se estar acordado. Assim quem lá vive também prefere um automóvel e TV a uma casa. Que se lhes dê a opção entre uma barraca com automóvel e casa sem ele. Mas o rico, que tem casa, vive também na rua, mesmo que não viva. Porque a leva com ele para casa no viver e no sentir. E não apenas porque o telefone e TV e ruídos lha invadem, mas porque lhe traz o pensar e sentir que na rua ficou. A casa pode então ser um brinquedo, um objecto de capricho, de exibição, e no seu artifício não se impregna do sangue de quem a habita. Ela está separada de quem lá mora como a família que cedo se desagrega. Ao apelo então da memória de um lar que já não há, inventa-se a casa de campo, que é normalmente a casa de praia, para que se estabeleça a ambiguidade de já não ser a casa da cidade e sê-lo ainda. De campo ou de praia, a casa contamina-se logo da casa que por um tempo se deixou e que veio logo atrás. A maior perda que na da cidade se tem é a da nossa própria pessoa. E é essa que desesperadamente se tenta recuperar. Mas a saudade da nossa pessoa fascina-nos e repele-nos. O campo é o mito da cidade – diz-se. Como aliás a cidade é o do campo. Mas tudo é mito do que se perdeu. A infância, a juventude, todo o outrora da memória.
A casa. Sonho para sempre perdido. Como tudo onde o tempo se demorava. Porque o tempo morreu e só dele resta o passar...
Pensar
página 189
Vergílio Ferreira
Editora: Bertrand
Etiquetas:
*Assunto - Lar,
*Autor - Vergílio Ferreira,
1992 DC
segunda-feira, 22 de abril de 2019
Estar contactável nos anos 30
Os seus pensamento foram interompidos pela abertura da porta. Devine entrou, sozinho, trazendo consigo um tabuleiro com uma garrafa de uísque, copos e um cifão.
- Weston anda ver se encontras alguma coisa para comer – disse, pousando o tabuleiro no chão, ao lado da cadeira onde Ransom se encontrava sentado, e principiando a abrir a garrafa.
Ransom, que, na verdade, se sentia bastante sequioso, reparou que o seu anfitrião era uma das tais pessoas irritantes que se esquecem de utilizar as mãos ao mesmo tempo de falam. Devine, que começara a tirar a prata que cobria a rolha com a ponta do saca-rolhas, parou de repente para perguntar:
- Como é que veio parar a estar zona selvagem do país?
- Ando a dar uma volta pelas redondezas – respondeu Ransom. - A noite passada dormi em Stoke Underwood e estava a pensar ficar esta noite em Nadderby. Como eles não me deram hospitalidade, resolvi seguir para Sterk.
- Santo Deus! - exclamou Devine, mantendo a rolha no interior da garrafa. - Fazes isso para poupar dinheiro ou é masoquismo puro?
- Claro que é por prazer – disse Ransom, não conseguindo desviar os olhos da garrafa, que nunca mais era aberta.
- Como é que consegues explicar isso? - perguntou Devine, voltando a si o suficiente para tirar mais um pouco de prata da rolha.
- Nem eu sei bem. Para começar, gosto realmente de andar a pé...
- Santo Deus! Deves ter gostado imenso de estar na tropa, como todas aquelas caminhadas intermináveis ao longo de Thingummy, não?
- Não, não. É exactamente ao contrário da tropa. A diferença fundamental está em que tu, na tropa, nunca estás sozinho por um só momento nem podes escolher o sítio para onde queres ir ou até mesmo a parte da estrada por onde te apetece seguir. Numa viagem deste género estás totalmente entregue a ti mesmo. Páras onde queres e segues caminho quando tens vontade disso. Não tens de dar satisfações a ninguém.
- Até que, uma noite, encontras um telegrama no teu hotel a dizer: «Volta imediatamente» - replicou Devine, removendo, finalmente, o resto da prata.
- Só se foste suficientemente parvo para deixares em casa uma lista do teu itinerário! A pior coisa que me podia acontecer era o homem dos telegramas dizer: «É favor o Dr. Elwin Ransom, que se crê estar em viagem de recreio algures nas Midlands...»
- Estou a perceber a ideia – disse Devine, parando no preciso momento em que ia abrir a garrafa. - Isso não seria possível se andasses em viagem de negócios. És um diabo cheio de sorte.
Para Além do Planeta Silencioso
página 17
C. S. Lewis
Editora: Europa-América
- Weston anda ver se encontras alguma coisa para comer – disse, pousando o tabuleiro no chão, ao lado da cadeira onde Ransom se encontrava sentado, e principiando a abrir a garrafa.
Ransom, que, na verdade, se sentia bastante sequioso, reparou que o seu anfitrião era uma das tais pessoas irritantes que se esquecem de utilizar as mãos ao mesmo tempo de falam. Devine, que começara a tirar a prata que cobria a rolha com a ponta do saca-rolhas, parou de repente para perguntar:
- Como é que veio parar a estar zona selvagem do país?
- Ando a dar uma volta pelas redondezas – respondeu Ransom. - A noite passada dormi em Stoke Underwood e estava a pensar ficar esta noite em Nadderby. Como eles não me deram hospitalidade, resolvi seguir para Sterk.
- Santo Deus! - exclamou Devine, mantendo a rolha no interior da garrafa. - Fazes isso para poupar dinheiro ou é masoquismo puro?
- Claro que é por prazer – disse Ransom, não conseguindo desviar os olhos da garrafa, que nunca mais era aberta.
- Como é que consegues explicar isso? - perguntou Devine, voltando a si o suficiente para tirar mais um pouco de prata da rolha.
- Nem eu sei bem. Para começar, gosto realmente de andar a pé...
- Santo Deus! Deves ter gostado imenso de estar na tropa, como todas aquelas caminhadas intermináveis ao longo de Thingummy, não?
- Não, não. É exactamente ao contrário da tropa. A diferença fundamental está em que tu, na tropa, nunca estás sozinho por um só momento nem podes escolher o sítio para onde queres ir ou até mesmo a parte da estrada por onde te apetece seguir. Numa viagem deste género estás totalmente entregue a ti mesmo. Páras onde queres e segues caminho quando tens vontade disso. Não tens de dar satisfações a ninguém.
- Até que, uma noite, encontras um telegrama no teu hotel a dizer: «Volta imediatamente» - replicou Devine, removendo, finalmente, o resto da prata.
- Só se foste suficientemente parvo para deixares em casa uma lista do teu itinerário! A pior coisa que me podia acontecer era o homem dos telegramas dizer: «É favor o Dr. Elwin Ransom, que se crê estar em viagem de recreio algures nas Midlands...»
- Estou a perceber a ideia – disse Devine, parando no preciso momento em que ia abrir a garrafa. - Isso não seria possível se andasses em viagem de negócios. És um diabo cheio de sorte.
Para Além do Planeta Silencioso
página 17
C. S. Lewis
Editora: Europa-América
quinta-feira, 18 de abril de 2019
Contactar pela primeira vez com uma nova arte
A qualquer homem, ao contactar pela primeira vez com uma nova arte, depara-se-lhe, a certa altura, algo que, erguendo a ponta do véu que esconde o mistério, revela, numa explosão de maravilha que o posterior entendimento total quase nunca chega a igualar, um lampejo das imensas possibilidades que lhe são inerentes. Para Ransom, esse momento ocorreu naquela altura, no que dizia respeito à sua compreensão das canções malacandrianas. De início reparou que o ritmo utilizado tinha por base a influência de um sangue diferente do nosso, de um coração que batia mais depressa e de uma temperatura interna mais elevada. O conhecimento que tinha das criaturas, e o amor que entretanto desenvolvera em relação a elas, fez que começasse a ouvi-las tal como cantavam. As primeiras estrofes do canto fúnebre, cantadas em notas baixas, acordando nele a sensação de grandes massas que se moviam a velocidades inconcebíveis, de gigantes dançando, de mágoas eternamente dissipadas por algo que desconhecia mas de que, apesar de tudo, tinha conhecimento, inundaram-lhe o espírito, como se as portas do céus se tivessem aberto diante dele.
Para Além do Planeta Silencioso
página 123
C. S. Lewis
Editora: Europa-América
Para Além do Planeta Silencioso
página 123
C. S. Lewis
Editora: Europa-América
sexta-feira, 8 de março de 2019
Lay down your weary tune
Lay down your weary tune, lay down
Lay down the song you strum
And rest yourself 'neath the strength of strings
No voice can hope to hum
Struck by the sounds before the sun
I knew the night had gone
The morning breeze like a bugle blew
Against the drum of dawn
Lay down your weary tune, lay down
Lay down the song you strum
And rest yourself 'neath the strength of strings
No voice can hope to hum
The ocean wild like an organ played
The seaweed wove its strands
The crashing waves like cymbals clashed
Against the rocks and the sand
Lay down your weary tune, lay down
Lay down the song you strum
And rest yourself 'neath the strength of strings
No voice can hope to hum
I stood unwound beneath the skies
And clouds unbound by laws
The crying rain like a trumpet sang
And asked for no applause
Lay down your weary tune, lay down
Lay down the song you strum
And rest yourself 'neath the strength of strings
No voice can hope to hum
The last of leaves fell from the trees
And clung to a new love's breast
The branches bare like a banjo moan
To the winds that listen the best
I gazed down in the river's mirror
And watched its winding strum
The water smooth ran like a hymn
And like a harp did hum
Lay down your weary tune, lay down
Lay down the song you strum
And rest yourself 'neath the strength of strings
No voice can hope to hum
Etiquetas:
*Artista - Bob Dylan,
*Assunto - Criação,
*Assunto - ver o mar,
1963 dC
sexta-feira, 1 de março de 2019
Water Falls
It falls like hair
Falling across a young girl’s shoulders
Water falls
Making pools in the asfalt
Dirty mirrors with clouds and buildings inside
It falls on the roof of my house
Falls on my mother and on my hair
Most people call it rain
Etiquetas:
*Arte - Paterson,
*Artista - Jim Jarmusch,
2016 dC
terça-feira, 26 de fevereiro de 2019
Olhar o mar do alto de uma falésia
Olhar o mar do alto das arribas. Percorrer instintivamente, num olhar balanceado, todo o circuito do horizonte. Olhar em baixo o cavado das ondas com grandes veios de mármore, seguir-lhes o percurso até às rochas, vê-las estoirar contra elas e erguerem-se numa explosão alta de espuma ao retardador. Aspirar fundo o seu aroma genesíaco a infinitude, a espaço e solidão. Ouvir-lhe o fervor na caldeira do mundo. Sentir instantâneamente a distância da fragilidade e pequenez à imensidão poderosa e sem limites. Conhecer o azul ainda húmido no instante da sua criação. Recolher a saudação de outras terras e outras gentes que vem na aragem por sobre a extensão das águas. Ficar atento a um sinal indistinto que anuncia o começo do mundo. Entender a linguagem cifrada de um destino comum entre mar e céu. Olhar o mar do alto de uma falésia.
Pensar
página 189
Vergílio Ferreira
Editora: Bertrand
Pensar
página 189
Vergílio Ferreira
Editora: Bertrand
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019
Ir ver o mar
Ir ver o mar. Vê-lo de vez em quando e sempre com a mesma fascinação. Que é que vem dele para assim nos fascinar? A sua força imensa diante da nossa pequenez. O seu mistério visível e inquietante porque é o invisível da sua visibilidade. O irrisório da sua absurda convulsão e o aceno indistinto que vem de trás do horizonte e não sabemos o que é. O aroma a espaço, uma memória confusa de aventura, o sinal presente da sua infinitude ausente, a dilatação de nós a um poder imenso, um certo conluio com Deus.
Pensar
página 139
Vergílio Ferreira
Editora: Bertrand
Pensar
página 139
Vergílio Ferreira
Editora: Bertrand
Etiquetas:
*Assunto - Mar,
*Assunto - ver o mar,
*Autor - Vergílio Ferreira,
1992 DC
sexta-feira, 27 de julho de 2018
O patriota cósmico - 2
Suponhamos que somos confrontados com uma realidade desesperante – como Pimlico, por exemplo. Se meditarmos no que é realmente o melhor para Pimlico, chegaremos à conclusão de que o fio do raciocínio nos conduz ao trono, ou ao misticismo e à arbitrariedade. Não basta uma pessoa ter uma visão negativo de Pimlico, porque, nesse caso, limitar-se-á a dar um tiro na cabeça, ou a mudar de casa e ir viver para Chelsea. Também não basta, evidentemente, uma pessoa ter uma visão positiva de Pimlico, porque, nesse caso, Pimlico continuará a ser o que é, o que seria péssimo. A única maneira de sair disto parece ser amar Pimlico, amar este bairro com uma ligação transcendental e sem qualquer motivação de natureza mundana. Se aparecesse outro homem que amasse Pimlico, aí se construiriam torres de Marfim e pináculos de ouro; Pimlico ataviar-se-ia como se ataviam as mulheres apaixonadas. Porque a decoração não serve para esconder coisas horríveis, mas para decorar coisas que já são adoráveis. Uma mãe não põe uma fita azul no filho porque ele fica feiíssimo sem ela. E um namorado não oferece um colar à namorada para ela esconder o pescoço. Se as pessoas amassem Pimlico como as mães amam os seus filhos – de forma arbitrária, porque são os filhos delas – dentro de um ou dois anos Pimlico seria mais belo do que Florença.
Alguns leitores dirão que estou simplesmente a fantasiar. E eu respondo que não, que isto é a história da humanidade. Foi assim que as cidades se tornaram grandiosas. Recuemos às mais obscuras raízes da civilização e verificaremos que elas se encontram enroscadas em redor de uma pedra sagrada ou de um poço sagrado. As pessoas começaram a prestar homenagem a um local e, a seguir, conquistaram glórias em sua honra. Os romanos não amavam Roma pelo facto de ser uma grande cidade; foi porque a amavam que Roma se tornou uma grande cidade.
*Pimlico e Chelsea são dois bairros de Londres, o primeiro relativamente pobre, o segundo razoavelmente elegante.
Ortodoxia
página 93
Gilbert Keith Chesterton
Editora: Alêtheia
Alguns leitores dirão que estou simplesmente a fantasiar. E eu respondo que não, que isto é a história da humanidade. Foi assim que as cidades se tornaram grandiosas. Recuemos às mais obscuras raízes da civilização e verificaremos que elas se encontram enroscadas em redor de uma pedra sagrada ou de um poço sagrado. As pessoas começaram a prestar homenagem a um local e, a seguir, conquistaram glórias em sua honra. Os romanos não amavam Roma pelo facto de ser uma grande cidade; foi porque a amavam que Roma se tornou uma grande cidade.
*Pimlico e Chelsea são dois bairros de Londres, o primeiro relativamente pobre, o segundo razoavelmente elegante.
Ortodoxia
página 93
Gilbert Keith Chesterton
Editora: Alêtheia
O patriota cósmico - 1
Afirmei, no capítulo anterior, que é nos contos de fadas que melhor se exprime a sensação de fundo de que este mundo é estranho, sem deixar de ser atractivo. O leitor poderá, se quiser, considerar que a fase seguinte é a daquele estilo de literatura belicosa, que chega por vezes a ser patrioteira, que costuma seguir-se na história de vida de um rapaz. Todos nós devemos grande parte das nossas mais sólidas noções morais aos romances de cordel. Seja por que razão for, sempre me pareceu, e continua a parecer-me, que a melhor maneira de exprimirmos a nossa atitude em relação à vida não é em termos de crítica e aprovação, mas em termos de uma espécie de lealdade militar. A minha aceitação do universo não é optimista, é mais uma espécie de patriotismo. É uma questão de lealdade básica. O mundo não é uma pensão de Brighton, de onde possamos pensar ir-nos embora por ser uma pensão miserável. O mundo é a fortaleza da nossa família, com a bandeira erguida no alto do torreão e, quanto mais miserável for, menos justificações temos para o deixar. A questão não é que este mundo seja triste demais para se poder amá-lo ou alegre demais para se poder não o amar; a questão é que, quando de facto amamos uma coisa, a alegria dessa coisa é uma razão para a amarmos, e a tristeza dessa coisa é uma razão para a amarmos ainda mais. Enquanto motivações para o patriota inglês, os pensamentos optimistas sobre Inglaterra assemelham-se aos pensamentos pessimistas. Da mesma maneira, enquanto motivações para o patriota cósmico, também o optimismo e o pessimismo se assemelham.
Ortodoxia
página 92
Gilbert Keith Chesterton
Editora: Alêtheia
Ortodoxia
página 92
Gilbert Keith Chesterton
Editora: Alêtheia
terça-feira, 24 de julho de 2018
Coexistência com o inaceitável
Na opinião do crítico, estava efectivamente implícito! E voltou a elogiar a pujança criativa do realizador, a beleza das imagens, lentas, impregnadas de inquietação poética, misteriosas como os arpejos de uma harpa sem cordas; a rudeza da montagem que talvez se pudesse definir como neo-nouvelle vague; e sobretudo a parcimónia do diálogo, admiravelmente reduzido ao essencial, atingindo o silêncio absoluto no violento clímax emocional que se despoletava na sequência da decapitação do sedutor, à porta do apartamente de Picadilly Circus: um choque inesperado e brutal de duas classes e duas culturas!
- Mas eu não vi nada disso... - balbuciei, já um pouco aterrado com a minha eventual deficiência na observação de todas essas subtilezas...
- É o que está im... im... implícito na sequência do u... u... urinol! - finalizou o crítico.
Acatei com artificioso respeito a argumentação técnica do especialista, conquanto continuasse a achar, de mim para mim, que se tratava de um filme hediondo – o que não tinha importância nenhuma, já que sempre baseei o meu comportamento em normas exemplarmente diplomáticas de coexistência com o inaceitável, considerando que basta, muitas vezes, aceitá-lo na prática, para que ele perca a sua força como teoria...
Tubarão 2000
página 35
António Vitorino d'Almeida
Editora: Oficina do Livro
- Mas eu não vi nada disso... - balbuciei, já um pouco aterrado com a minha eventual deficiência na observação de todas essas subtilezas...
- É o que está im... im... implícito na sequência do u... u... urinol! - finalizou o crítico.
Acatei com artificioso respeito a argumentação técnica do especialista, conquanto continuasse a achar, de mim para mim, que se tratava de um filme hediondo – o que não tinha importância nenhuma, já que sempre baseei o meu comportamento em normas exemplarmente diplomáticas de coexistência com o inaceitável, considerando que basta, muitas vezes, aceitá-lo na prática, para que ele perca a sua força como teoria...
Tubarão 2000
página 35
António Vitorino d'Almeida
Editora: Oficina do Livro
segunda-feira, 16 de julho de 2018
Diferenças entre as religiões inglesa e portuguesa
Foi com viva emoção que assisti pela primeira vez a uma cerimónia religiosa na abadia de Westminster.
Encantou-me a distinção natural, a sóbria elegância do vestuário, a dignidade daqueles fiéis que, de pé, afinadíssimos, entoavam: «Aleluia! Aleluia!...», e não pude evitar uma expressão escarninha, mista de ironia, sarcasmo e até algum nojo, ao pensar nos formigames de andrajos, de pústulas, de aleijões, que se arrastam pelas estradas lusitanas, mesclando-se em massas híbridas e descomunais de povaréu lamuriento, conclaves mundiais de moléstias e pedinchice, no charnequenho lugar da Cova da Iria!...
Nem a honrosa presença de altíssimos dignatários da diplomacia mundial, de governantes ilustres, de prestigiadas individualidades da vida civil e militar, das mais imponentes e paramentadas figuras da hierarquia clerical, do próprio Papa, que também já por lá andou a suportar, com assinalável estoicismo, capaz de se infectar, a proximidade promíscua do magote insalubre, a escutar e mesmo a responder, graças à sua excelente formação poliglota, aos clamores crendeiros da matilha abusadora (como se o Sumo Pontífice não tivesse preocupações infinitamente mais transcendentes do que as mazelas e os desassossegos de cada gabiru...) pois nada disso alterou o panorama de sordidez de tais amontoamentos: somos miseráveis em tudo, até na religião...
Olhei em volta, atentamente, percorrendo a imponente estrutura arquitectónica do templo londrino, e não vi um único maneta, uma única criatura de pernas inchadas, afectada por elefantíase, era como se as varizes, as gangrenas e a fé religiosa só formassem um todo inseparável nas igrejas portuguesas, pois também não ouvi tosses espasmódicas nem queixumes doloridos, ninguém me pediu esmola, exibindo chagas ou amputações, não esbarrei com cegos nem espezinhei paralíticos, só deparei com gente finíssima, prova inequívoca de uma civiliação robusta, de sólida elevação moral e apuradíssima presença física.
Tubarão 2000
página 35
António Vitorino d'Almeida
Editora: Oficina do Livro
Encantou-me a distinção natural, a sóbria elegância do vestuário, a dignidade daqueles fiéis que, de pé, afinadíssimos, entoavam: «Aleluia! Aleluia!...», e não pude evitar uma expressão escarninha, mista de ironia, sarcasmo e até algum nojo, ao pensar nos formigames de andrajos, de pústulas, de aleijões, que se arrastam pelas estradas lusitanas, mesclando-se em massas híbridas e descomunais de povaréu lamuriento, conclaves mundiais de moléstias e pedinchice, no charnequenho lugar da Cova da Iria!...
Nem a honrosa presença de altíssimos dignatários da diplomacia mundial, de governantes ilustres, de prestigiadas individualidades da vida civil e militar, das mais imponentes e paramentadas figuras da hierarquia clerical, do próprio Papa, que também já por lá andou a suportar, com assinalável estoicismo, capaz de se infectar, a proximidade promíscua do magote insalubre, a escutar e mesmo a responder, graças à sua excelente formação poliglota, aos clamores crendeiros da matilha abusadora (como se o Sumo Pontífice não tivesse preocupações infinitamente mais transcendentes do que as mazelas e os desassossegos de cada gabiru...) pois nada disso alterou o panorama de sordidez de tais amontoamentos: somos miseráveis em tudo, até na religião...
Olhei em volta, atentamente, percorrendo a imponente estrutura arquitectónica do templo londrino, e não vi um único maneta, uma única criatura de pernas inchadas, afectada por elefantíase, era como se as varizes, as gangrenas e a fé religiosa só formassem um todo inseparável nas igrejas portuguesas, pois também não ouvi tosses espasmódicas nem queixumes doloridos, ninguém me pediu esmola, exibindo chagas ou amputações, não esbarrei com cegos nem espezinhei paralíticos, só deparei com gente finíssima, prova inequívoca de uma civiliação robusta, de sólida elevação moral e apuradíssima presença física.
Tubarão 2000
página 35
António Vitorino d'Almeida
Editora: Oficina do Livro
quinta-feira, 5 de julho de 2018
segunda-feira, 21 de maio de 2018
domingo, 22 de abril de 2018
Pastor ou proprietário de gado?
Apascentai o rebanho de Deus que está entre vós, tendo cuidado dele, não por força, mas voluntáriamente; nem por torpe ganâcia, mas de ânimo pronto; nem como tendo domínio sobre a herança de Deus, mas servindo de exemplo ao rebanho; e, quando aparecer o Sumo Pastor, alcançareis a incorruptível coroa de glória.
I Pedro 5:2-4
I Pedro 5:2-4
Etiquetas:
*Assunto - Mordomia,
*Bíblia - Pedro I
domingo, 8 de abril de 2018
Uma ordem chocante - 2
Levenson argumenta que só podemos entender a ordem de Deus a Abraão tendo em conta esse pano de fundo cultural. A Bíblia afirma, repetidas vezes, que, devido ao pecado dos israelitas, a vida dos seus primogénitos estará automaticamente perdida, embora possa ser resgatada através de sacrifícios regulares (Êxodo 22:28; 34:19-20) ou, enter os levitas, do serviço ao tabernáculo (Números 3:40-41), ou ainda através do pagamento de um resgate ao tabernáculo e aos sacerdotes (Êxodo 3:46-48). Quando Deus submeteu o Egipto a juízo, por ter escravizado os israelitas, o seu último castigo consistiu em matar os seus primogénitos. A vida dos seus primogénitos estava perdida, devido aos pecados das suas famílias e da nação. Porquê? O filho primogénito era a família. Por isso, quando Deus disse aos israelitas que a vida do primogénito lhe pertencia, a menos que fosse resgatada, estava a dizer, da forma mais viva possível, naquelas culturas, que cada família da terra tinha uma dívida para com a justiça eterna: a dívida do pecado.
Tudo isto é fundamental para interpretarmos a ordem dada por Deus a Abraão. Se Abraão tivesse ouvido uma voz, que lhe parecesse ser Deus, a dizer: «Levanta-te e mata Sara», é provável que Abraão nunca o tivesse feito. Teria suposto de imediato que estava a ter alucinações, pois Deus não lhe pediria para fazer nada que contradissesse claramente tudo o que Ele disse acerca da justiça e rectidão. Contudo, quando Deus afirmou que a vida do seu filho único estava perdida, isso não pareceu uma afirmação irracional e contraditória aos ouvidos de Abraão. Reparem que Deus não estava a pedir a Abraão que entrasse na tenda de Isaac e o assassinasse. Estava a pedir-lhe que lhe oferecesse um holocausto. Estava a cobrar a dívida de Abraão. O seu filho tinha de morrer pelos pecados da família.
Falsos Deuses
página 37
Timothy Keller
Editora: Paulinas
Tudo isto é fundamental para interpretarmos a ordem dada por Deus a Abraão. Se Abraão tivesse ouvido uma voz, que lhe parecesse ser Deus, a dizer: «Levanta-te e mata Sara», é provável que Abraão nunca o tivesse feito. Teria suposto de imediato que estava a ter alucinações, pois Deus não lhe pediria para fazer nada que contradissesse claramente tudo o que Ele disse acerca da justiça e rectidão. Contudo, quando Deus afirmou que a vida do seu filho único estava perdida, isso não pareceu uma afirmação irracional e contraditória aos ouvidos de Abraão. Reparem que Deus não estava a pedir a Abraão que entrasse na tenda de Isaac e o assassinasse. Estava a pedir-lhe que lhe oferecesse um holocausto. Estava a cobrar a dívida de Abraão. O seu filho tinha de morrer pelos pecados da família.
Falsos Deuses
página 37
Timothy Keller
Editora: Paulinas
Uma ordem chocante - 1
Muitos leitores, ao longo dos tempos, têm levantado objecções compreensíveis a este relato. Têm interpretado a «moral» desta história como significando que fazer coisas cruéis e violentas é bom, desde que se acredite que essa é a vontade de Deus. Nunca ninguém falou de forma tão expressiva acerca deste assunto como Søren Kierkegaard, cujo livro Temor e Tremor se baseia na história de Abraão e Isaac. A conclusão derradeira de Kierkegaard é a de que a fé é irracional e absurda. Abraão pensou que aquela ordem não fazia sentido nenhum, contradizendo tudo o mais que Deus alguma vez dissera, mas obedeceu a essa ordem.
Será que aquela ordem parecera completamente irracional a Abraão? A interpretação feita por Kierkegaard deste episódio não toma em conta o significado do filho primogénito, segundo o pensamento e simbolismo judeus. Jon Levenson, erudito judeu, professor em Harvard, escreveu A morte e a ressurreição do filho amado. Nesse volume, ele recorda-nos que as culturas antigas não eram tão individualistas como a nossa. As esperanças e os sonhos das pessoas nunca tinham a ver com o seu êxito, prosperidade ou proeminência pessoais. Como toda a gente fazia parte de uma família, e ninguém vivia separado da sua, essas coisas só se procuravam para o clã inteiro. Devemos lembrar ainda a antiga lei da primogenitura. O filho mais velho recebia a maior parte das terras e dos bens, para que a família não perdesse o seu lugar na sociedade.
Numa cultura individualista como a nossa, a identidade e o sentido de valor de um adulto está, muitas vezes, envolto das suas capacidades e realizações, mas na Antiguidade, todas as esperanças e sonhos de um homem e da sua família repousavam sobre o primogénito varão. O apelo a desistir do filho primogénito é apenas comparável a um cirurgião que desiste de usar as suas mãos, ou a um artista visual que perde o uso dos seus olhos.
Falsos Deuses
página 36
Timothy Keller
Editora: Paulinas
Será que aquela ordem parecera completamente irracional a Abraão? A interpretação feita por Kierkegaard deste episódio não toma em conta o significado do filho primogénito, segundo o pensamento e simbolismo judeus. Jon Levenson, erudito judeu, professor em Harvard, escreveu A morte e a ressurreição do filho amado. Nesse volume, ele recorda-nos que as culturas antigas não eram tão individualistas como a nossa. As esperanças e os sonhos das pessoas nunca tinham a ver com o seu êxito, prosperidade ou proeminência pessoais. Como toda a gente fazia parte de uma família, e ninguém vivia separado da sua, essas coisas só se procuravam para o clã inteiro. Devemos lembrar ainda a antiga lei da primogenitura. O filho mais velho recebia a maior parte das terras e dos bens, para que a família não perdesse o seu lugar na sociedade.
Numa cultura individualista como a nossa, a identidade e o sentido de valor de um adulto está, muitas vezes, envolto das suas capacidades e realizações, mas na Antiguidade, todas as esperanças e sonhos de um homem e da sua família repousavam sobre o primogénito varão. O apelo a desistir do filho primogénito é apenas comparável a um cirurgião que desiste de usar as suas mãos, ou a um artista visual que perde o uso dos seus olhos.
Falsos Deuses
página 36
Timothy Keller
Editora: Paulinas
quinta-feira, 29 de março de 2018
Artistas com empregos normais - 2
Did you seriously consider doing something else instead of music?
I built some stuff. There’s something about holding tools in your hand, it’s not like holding a melody in your head, where it’s like vapor. When you are tangibly making something, like a chair, you can either sit on it, or it collapses. There is no, “Do you like it?” I built a deck on my roof and a screen porch off of my cabin in the country, actually stretching screen on frames and friction fitting them into the holes. It was the most satisfying thing I’ve ever done.
I built some stuff. There’s something about holding tools in your hand, it’s not like holding a melody in your head, where it’s like vapor. When you are tangibly making something, like a chair, you can either sit on it, or it collapses. There is no, “Do you like it?” I built a deck on my roof and a screen porch off of my cabin in the country, actually stretching screen on frames and friction fitting them into the holes. It was the most satisfying thing I’ve ever done.
Etiquetas:
*Artista - Leslie Feist,
*Assunto - Arte,
*Imprensa - Pitchfork,
2017 dC
quarta-feira, 28 de março de 2018
segunda-feira, 12 de março de 2018
The Weight of Glory - 13
(...)
Entretanto, a cruz vem antes da coroa e amanhã é segunda-feira de manhã. Abriu uma fenda nas muralhas impiedosas do mundo, e somos convidados a seguir o nosso Capitão lá para dentro. Segui-Lo é, obviamente, o ponto essencial. E assim sendo, poderá ser perguntado sobre qual a aplicação prática destas especulações com que nos temos presenteado. Consigo lembrar-me de pelo menos uma aplicação. É possível que cada um pense demasiado na sua potencial glória na próxima vida; é mais dificilmente possível que se pense o mesmo com demasiada frequencia ou profundidade em relação ao seu próximo. A carga, ou o peso, ou o fardo da glória do meu próximo deve ser depositada nas minhas costas, uma carga tão pesada que só a humildade pode carregá-la, e as costas dos orgulhosos cederão. É uma coisa séria viver numa sociedade de possíveis deuses e deusas, lembrar que a pessoa mais aborrecida e desinteressante com que possas ter falado, um dia poderá ser uma criatura que, se a visses agora, sentir-te-ias fortemente tentado a adorá-la, ou então, um horror e uma corrupção tal que agora apenas podes conhecer, se tanto, num pesadelo. Durante todo o dia estamos, em algum grau, a ajudarmo-nos uns aos outros para um ou outro destes destinos. É à luz destas possibilidades esmagadoras, é com a reverência e a circunspecção que se lhes adequa, que devemos orientar o nosso trato uns com os outros, em todas as amizades, em todos os amores, em todas as brincadeiras, em todas as políticas. Não existem pessoas comuns/vulgares/ordinárias (ordinary). Tu nunca falaste com um mero mortal. Nações, culturas, artes, civilizações – estas são mortais, e as suas vidas estão para as nossas como a vida de um mosquito. Mas é com imortais que brincamos, trabalhamos, casamos, desprezamos e exploramos – horrores imortais ou esplendores eternos. Isto não sgnifica que devamos ser perpetuamente solenes. Devemos brincar. Mas o nosso divertimente deve ser daquele tipo (e é, de facto, o mais divertido) que existe entre pessoas que, desde o princípio, se levaram a sério mutuamente – sem frivolidade, sem superioridade, sem presunção. E a nossa caridade deve ser um amor real e custoso, profundamente sentidos pelos pecados apesar dos quais amamos o pecador – não mera tolerância ou indulgência que caricaturam o amor, da mesma forma que frivolidade caricatura a diversão. A seguir ao próprio Santo Sacramento, o teu próximo é o objecto mais santo que é apresentado aos nossos sentidos. Se o teu próximo for Cristão, ele é santo quase da mesma maneira, porque nele também a vere latitat de Cristo – o glorificador e o glorifiado, a própria personificação da Glória, está verdadeiramente escondiada.
The Weight of Glory
Entretanto, a cruz vem antes da coroa e amanhã é segunda-feira de manhã. Abriu uma fenda nas muralhas impiedosas do mundo, e somos convidados a seguir o nosso Capitão lá para dentro. Segui-Lo é, obviamente, o ponto essencial. E assim sendo, poderá ser perguntado sobre qual a aplicação prática destas especulações com que nos temos presenteado. Consigo lembrar-me de pelo menos uma aplicação. É possível que cada um pense demasiado na sua potencial glória na próxima vida; é mais dificilmente possível que se pense o mesmo com demasiada frequencia ou profundidade em relação ao seu próximo. A carga, ou o peso, ou o fardo da glória do meu próximo deve ser depositada nas minhas costas, uma carga tão pesada que só a humildade pode carregá-la, e as costas dos orgulhosos cederão. É uma coisa séria viver numa sociedade de possíveis deuses e deusas, lembrar que a pessoa mais aborrecida e desinteressante com que possas ter falado, um dia poderá ser uma criatura que, se a visses agora, sentir-te-ias fortemente tentado a adorá-la, ou então, um horror e uma corrupção tal que agora apenas podes conhecer, se tanto, num pesadelo. Durante todo o dia estamos, em algum grau, a ajudarmo-nos uns aos outros para um ou outro destes destinos. É à luz destas possibilidades esmagadoras, é com a reverência e a circunspecção que se lhes adequa, que devemos orientar o nosso trato uns com os outros, em todas as amizades, em todos os amores, em todas as brincadeiras, em todas as políticas. Não existem pessoas comuns/vulgares/ordinárias (ordinary). Tu nunca falaste com um mero mortal. Nações, culturas, artes, civilizações – estas são mortais, e as suas vidas estão para as nossas como a vida de um mosquito. Mas é com imortais que brincamos, trabalhamos, casamos, desprezamos e exploramos – horrores imortais ou esplendores eternos. Isto não sgnifica que devamos ser perpetuamente solenes. Devemos brincar. Mas o nosso divertimente deve ser daquele tipo (e é, de facto, o mais divertido) que existe entre pessoas que, desde o princípio, se levaram a sério mutuamente – sem frivolidade, sem superioridade, sem presunção. E a nossa caridade deve ser um amor real e custoso, profundamente sentidos pelos pecados apesar dos quais amamos o pecador – não mera tolerância ou indulgência que caricaturam o amor, da mesma forma que frivolidade caricatura a diversão. A seguir ao próprio Santo Sacramento, o teu próximo é o objecto mais santo que é apresentado aos nossos sentidos. Se o teu próximo for Cristão, ele é santo quase da mesma maneira, porque nele também a vere latitat de Cristo – o glorificador e o glorifiado, a própria personificação da Glória, está verdadeiramente escondiada.
The Weight of Glory
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