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A mostrar mensagens com a etiqueta *Obra - A Genealogia da Moral
O facto de ainda reter estas ideias hoje, e de elas se terem tornado progressivamente inseparáveis até se entrelaçarem e fundido umas nas outras – tudo isto fortalece a minha feliz certeza de que, longe de emergirem como fenómenos isolados, aleatórios ou esporádicos, estas ideias cresceram de uma raiz comum, de uma vontade fundamental de conhecimento, de uma vontade que vai buscar os imperativos às profundezas e fala uma linguagem cada vez mais específica e exige respostas cada vez mais específicas. Pois nada mais convém a um filósofo. Não temos o direito a qualquer acto isolado: não temos o direito de cometer erros isolados e a descoberta de verdades isoladas está-nos igualmente vedada. Antes, os nossos pensamentos, os nossos valores, os nossos sim e não saem de nós com a mesma necessidade com que uma árvore dá os seus frutos - relacionados e ligados uns aos outros e prova de uma vontade única, de uma saúde única, de uma terra única, de um sol único.
Reconhecidamente, praticar a leitura como uma arte requer uma coisa acima de tudo, e é uma coisa que hoje em dia, mais do que nunca foi completamente esquecida – um facto que explica porque é que se passará algum tempo antes de os meus escritos se tornarem «legíveis» – é uma coisa para a qual é preciso ser-se praticamente bovino e certamente não um «homem moderno»: isto é, ruminação…
Enquanto história da ética, a Genealogia persegue dois objectivos. Primeiro, procura desacreditar o que Nietzsche vê como os valores morais dominantes da sua época – justiça, igualdade, compaixão – tal como foram herdados pela tradição do Iluminismo. Segundo, a Genealogia prossegue para desacreditar a crítica científica vitoriana desses valores empreendidos pela filosofia utilitarista, pela psicologia associacionista, pelo darwinismo social, e num estudo história exclusivamente baseado em factos. (Introdução)