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A mostrar mensagens com a etiqueta 1864 dC
Fiódor Dostoiévski, numa carta ao irmão, explica que a ideia de que a natureza humana só pode ser modificada por influência da fé religiosa espontânea e instintiva não foi expressa nos Cadernos do Subterrâneo devido aos obstáculos impostos pela censura: «[…] Era melhor não publicar o último capítulo (o principal, em que a própria ideia é expressa) do que publicá-lo nesta forma, se seja, com as frases esfaceladas e contradizendo-se a si mesmo. Mas, que remédio! Porcos de censores! Onde escarneço de tudo e blasfemo a fingir, deixaram passar; mas onde concluí disso tudo a necessidade da fé e de Cristo, proibiram […]»
- Lisa, minha amiga, a culpa foi minha… desculpa-me – comecei, mas os seus dedos apertaram-me as mãos com tanta força que eu percebi que estava a dizer asneiras e calei-me. - Toma, Lisa, a minha morada. Vai ver-me. - Vou… – murmurou numa voz decidida, sempre de cabeça baixa. - E agora vou-me embora, adeus… até breve.
Havia muito que sentira ter-lhe revirado a alma, ter-lhe literalmente quebrado o coração, e quando mais me ia convencendo disso, tanto mais depressa e com mais força procurava atingir o meu objectivo. Era o jogo, o jogo que me arrastava…
Depois morres, amortalham-te à pressa, um qualquer, refilando – não há tempo! –, ninguém para te benzer, ninguém mesmo para soltar um pequeno suspiro por ti, depressa que se faz tarde. Compram-te um caixão barato, tiram-te da cave, como tiraram de manhã essa desgraçada, fazem o teu banquete de luto numa taberna. Na campa rasa – a lama, a sujidade, essa neve líquida; para quê fazer cerimónias? «Toca a baixá-la, Vânia; lá vai a má sina dela – de pernas para o ar aqui também, a grande porca. Mas encurta-me essas cordas rapaz» «Estão bem assim.» «Mas como é que estão bem assim? Não vês que ela está de lado? É um ser humano, ao fim e ao cabo! E depois, que se amole! Vai, deita a terra.» Os coveiros não vão querer zangar-se por tua causa.
Não penseis que, frente ao oficial, eu tenha sido cobarde por cobardia; do fundo do coração, eu nunca fui cobarde, mesmo que, em flagrante, sempre o tenha sido, mas – nada de risotas por enquanto –, tenho uma explicação; eu tenho uma explicação para tudo, podeis ter a certeza. Ah, se ao menos esse oficial fosse daqueles que aceitam bater-se em duelo!

A ciência ensinará ao homem e ser-lhe-á muito mais fácil sobreviver

Mas, ainda assim, tendes toda a certeza de que o homem se habituará infalivelmente quando desaparecerem por completo alguns hábitos velhos e maus e quando o senso comum e a ciência reeducarem por completo e orientarem por norma a natureza humana. Tendes a certeza de que, então, o homem também deixará de enganar-se voluntariamente e, por assim dizer, não desejará naturalmente desunir a sua vontade dos seus interesses normais. Mais ainda: então, dizem os senhores, a própria ciência ensinará ao homem (embora, a meu ver, isso seja um luxo) que, na realidade, ele não tem vontade nem capricho, nem os teve nunca, e mais não é do que uma espécie de tecla de piano ou pistão do órgão; e que além disso, há no mundo leis da natureza, logo, tudo o que o homem faz não é feito por sua vontade, mas espontaneamente, pelas leis da natureza. Por conseguinte, basta descobrir essas leis da natureza, e o homem nem responsável será pelos seus procedimentos, e ser-lhe-á muito mais fácil sobreviver.