Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A mostrar mensagens com a etiqueta 1949 dC
  Expliquei-lhe, no entanto, que a minha natureza era feita de tal modo que as minhas necessidades físicas perturbavam frequentemente os meus sentimentos. No dia do enterro, estava muito cansado e com muito sono, de forma que não dei lá muito bem pelo que se passou. O que podia afirmar, com toda a certeza, era que preferia que a mãe não tivesse morrido. Mas o advogado não ficou contente. Disse: «Isso não chega».
Depois quis saber se eu já escolhera advogado. Respondi que não, e perguntei-lhe se era absolutamente necessário ter advogado. «Porquê?», disse ele. Repliquei, afirmando que achava o meu caso simples. Sorriu, dizendo: «É uma opinião. No entanto, a lei é a lei. Se o senhor não quer quem o defenda, nós nomeamos automaticamente advogado.» Achei que era muito cómodo a justiça encarregar-se desses pormenores. Disse-lho. Concordou comigo, e concluiu que a lei estava bem feita.
Saímos, e Raimundo ofereceu-me um copo de aguardente. Depois quis jogar uma partida de bilhar e ganhou-me por pouco. A seguir, queria ir a um bordel, mas eu disse que não, porque não tinha vontade. Então voltámos lentamente para casa, e ele voltou a dizer até que ponto se sentia contente por ter conseguido castigar a amante. Achei-o muito simpático comigo, e pensei que era um momento bem agradável.
Hoje trabalhei muito, no escritório. O patrão foi amável. Perguntou-me se eu não estava muito cansado e quis saber a idade da mãe. Para não me enganar, respondi «Uns sessenta e tal anos», e, não sei porquê, ficou com um ar aliviado, com um ar de «assunto arrumado».
Nessa altura, pensei muitas vezes que, se me obrigassem a viver dentro do tronco seco de árvore, sem outra ocupação além de olhar a flor do céu por cima da minha cabeça, ter-me-ia habituado pouco a pouco. Observaria a passagem das aves ou os encontros entre as nuvens, tal como aqui observava as extraordinárias gravatas do advogado, e como, num outro mundo, esperava até sábado para apertar nos meus braços o corpo de Maria. Ora a verdade, afinal de contas, é que eu não estava dentro de um tronco de uma árvore. Havia pessoas mais infelizes do que eu. Acabamos por nos habituar a tudo, gostava a minha mãe de dizer.
Sentei-me e os polícias puseram-se um de cada lado da cadeira. Foi nesse momento que, diante de mim, distingui uma fila de caras. Todas me olhavam: percebi que eram os membros do júri. Mas não sou capaz de dizer o que os distinguia dos outros. Tive apenas uma impressão: eu estava no banco de um eléctrico e todos estes passageiros anónimos espiavam o recém-chegado, para lhe observar os ridículos. Sei perfeitamente que esta ideia era parva, pois aqui não era o ridículo que eles procuravam, era o crime. Porém, a diferença entre as duas coisas não se me afigurava muito grande e, de qualquer modo, foi a ideia que me veio à cabeça.
No início da minha detenção, no entanto, o mais duro foi virem-me à cabeça pensamentos de homem livre. Por exemplo, sentia, de repente, o desejo de estar numa praia e de correr para o mar. Imaginando o barulho das primeiras ondas sob as plantas dos pés, a entrada do corpo na água, a libertação que era para mim o banho de mar, sentia, de repente, até que ponto as paredes da prisão me cercavam. Mas isto durou apenas alguns meses. Depois, passei a ter unicamente pensamentos de prisioneiro. Aguardava o passeio quotidiano no pátio ou então a visita do advogado.”