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Um dia ideal para fazer um exame interior

Um dia ideal para fazer um exame interior: esta claridade fria que o sal projecta, como uma sentença sem indulgência, sobre as criaturas, entra em mim pelos olhos; estou iluminado, por dentro, por uma luz depauperante. Bastar-me-ia um quarto de hora, tenha a certeza, para chegar ao asco supremo por mim próprio. Muito obrigado, não estou interessado.  A Náusea [La Nausée]  Página 30  Jean-Paul Sartre  1938 dC  Editora: Livros do Brasil

Estar contactável nos anos 30

Os seus pensamento foram interompidos pela abertura da porta. Devine entrou, sozinho, trazendo consigo um tabuleiro com uma garrafa de uísque, copos e um cifão. - Weston anda ver se encontras alguma coisa para comer – disse, pousando o tabuleiro no chão, ao lado da cadeira onde Ransom se encontrava sentado, e principiando a abrir a garrafa. Ransom, que, na verdade, se sentia bastante sequioso, reparou que o seu anfitrião era uma das tais pessoas irritantes que se esquecem de utilizar as mãos ao mesmo tempo de falam. Devine, que começara a tirar a prata que cobria a rolha com a ponta do saca-rolhas, parou de repente para perguntar: - Como é que veio parar a estar zona selvagem do país? - Ando a dar uma volta pelas redondezas – respondeu Ransom. - A noite passada dormi em Stoke Underwood e estava a pensar ficar esta noite em Nadderby. Como eles não me deram hospitalidade, resolvi seguir para Sterk. - Santo Deus! - exclamou Devine, mantendo a rolha no interior da garrafa. - Fazes is...

Contactar pela primeira vez com uma nova arte

A qualquer homem, ao contactar pela primeira vez com uma nova arte, depara-se-lhe, a certa altura, algo que, erguendo a ponta do véu que esconde o mistério, revela, numa explosão de maravilha que o posterior entendimento total quase nunca chega a igualar, um lampejo das imensas possibilidades que lhe são inerentes. Para Ransom, esse momento ocorreu naquela altura, no que dizia respeito à sua compreensão das canções malacandrianas. De início reparou que o ritmo utilizado tinha por base a influência de um sangue diferente do nosso, de um coração que batia mais depressa e de uma temperatura interna mais elevada. O conhecimento que tinha das criaturas, e o amor que entretanto desenvolvera em relação a elas, fez que começasse a ouvi-las tal como cantavam. As primeiras estrofes do canto fúnebre, cantadas em notas baixas, acordando nele a sensação de grandes massas que se moviam a velocidades inconcebíveis, de gigantes dançando, de mágoas eternamente dissipadas por algo que desconhecia mas de...
Mais uma vez, ele dava a impressão de que era um menino entretido com um brinquedo, um brinquedo em que se fala friamente, com todas as minúcias, em barrigas perfuradas por baionetas ou couros cabeludos arrancados, e depois vai tranquilamente tomar chá em casa.
Ele não era feito para a paz, não podia crer nela. O Céu era uma simples palavra; o Inferno, uma coisa em que podia acreditar. Um cérebro só é capaz daquilo que pode conceber, e não pode conceber aquilo que nunca experimentou: as suas células eram formadas pelo pátio de recreio cimentado da escola, pelo fogão apagado e o homem a agonizar na sala de espera de St. Pancras, pela sua cama no Frank e pela cama paterna. Um terrível sentimento se agitava no seu íntimo: por que não tivera ele a sua oportunidade como os outros, por que não lhe fora dado vislumbrar o Céu, ainda que fosse apenas uma nesga entre as paredes de Brighton?...
Ida levantou-se pesadamente e atravessou o restaurante, como um navio de guerra que vai entrar em acção, um navio de guerra a combater ao lado da justiça numa luta para acabar com todas as guerras, as bandeiras de sinalização a proclamar que todos cumprirão o seu dever. Os seus grandes seios, que nunca tinham amamentado um filho, sentiam uma compaixão inexorável. Rosa fugiu ao avistá-la, mas Ida avançou implacavelmente para a porta de serviço.
Bastava apelar para um deles, pois Ida Arnold defendia a causa justa. Era jovial e cheia de saúde, podia emborcar um copo como o melhor de entre eles. Gostava da pândega, os seus grandes seios exibiam francamente a sua carnalidade pelo Old Steyne fora, mas bastava olhá-la para compreender que se podia ter confiança nela. Não iria contar coisas à esposa de ninguém, não lembraria a um homem, na manhã seguinte, o que ele desejava esquecer.
Estar unificado com o Uno não significava coisa alguma, em comparação com um copo de Guiness num dia de sol. Acreditava em fantasmas, mas não se podia chamar vida a essa ténue e transparente existência: o ranger de uma tábua, um pedaço de ectoplasma num armário de vidro na sede da Sociedade de Investigações Psíquicas, uma voz que ela ouvira, certa vez, numa sessão dizendo: «Tudo é esplêndido no plano superior. Há flores por toda a parte». «Flores!», pensava Ida com desdém. Isso não era a vida. A vida era a luz do sol a refulgir nos varões de latão da cama, um cálice de Porto ao rubro, o pulo que dá o coração da gente quando o cavalo em que apostámos atinge a meta e os discos sobem um após o outro. A vida era os pobres lábios de Fred colados aos seus, no táxi, vibrando com a trepidação do motor ao longo da avenida. De que valia morrer para depois vir dizer tolices sobre flores?
A nossa crença no Céu – prosseguiu o pastor – não é modificada pela nossa descrença no velho inferno medieval. Nós cremos – disse ele, lançando um rápido olhar ao longo do liso e polido plano inclinado, em direcção à porta de estilo Arte Nova, através da qual o esquife seria lançado às chamas –, nós cremos que este nosso irmão já está unificado com o Uno. – Martelava as palavras, como pequenos paralelepípedos de manteiga, com a sua marca particular. – Alcançou a unidade. Ignoramos o que seja esse Uno com quem (ou com que) ele está agora unificado. Não conservamos as velhas crenças medievais em mares refulgentes e coroas de ouro. A verdade é beleza, e para nós, geração amante da verdade, há uma beleza maior na certeza de que o nosso irmão se acha neste momento reabsorvido no espírito universal.
Sabes como deves fazer? – perguntou desajeitadamente. Pareceu pensar que ela esperava algum gesto de ternura da sua parte. Inclinou-se e beijou-a na face; tinha medo da boca: os pensamentos comunicam-se com tanta facilidade de um lado ao outro! – Não faz doer – assegurou ele, e deu alguns passos na direcção da estrada principal.