Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A mostrar mensagens com a etiqueta *Assunto - Arte

O que fazes quando as letras não estão a aparecer?

Dear Marko,   In my experience, lyrics are almost always seemingly just not coming. This is the tearful ground zero of song writing — at least for some of us. This lack of motion, this sense of suspended powerlessness, can feel extraordinarily desperate for a songwriter. But the thing you must hold on to through these difficult periods, as hard as it may be, is this — when something’s not coming, it’s coming. It took me many years to learn this, and to this day I have trouble remembering it.  The idea of lyrics ‘not coming’ is basically a category error. What we are talking about is not a period of ‘not coming’ but a period of ‘not arriving’. The lyrics are always coming. They are always pending. They are always on their way toward us. But often they must journey a great distance and over vast stretches of time to get there. They advance through the rugged terrains of lived experience, battling to arrive at the end of our pen. In time, they emerge, leaping free of the unk...

Arte feia, engenharia bonita

Vimos que desde Rosseau se estabeleceu a dicotomia entre natureza e liberdade. A natureza passara a representar o determinismo, a máquina, com o homem na desesperançosa situação de ser absorvido pela máquina. Então, no andar superior, vemos o homem lutando pela liberdade. A liberdade que era buscada era uma liberdade absoluta, sem limitações. Não existe Deus, nem mesmo um universal, a limitá-lo, de sorte que o indivíduo procura expressar-se com total liberdade e, todavia, ao mesmo tempo, sente a condenação de ser absorvido na máquina. Esta é a tensão do homem moderno.  O campo da arte oferece uma vasta variedade de ilustrações desta tensão, tensão que, por sua vez, proporciona uma explicação parcial para o fato curioso de que muita da arte contemporânea, como expressão própria do que é o homem em si, é feia. Ele não o sabe, mas está expressando a natureza do homem decaído que, como ser criado à imagem de Deus é maravilhoso; todavia, em sua presente condição é decaído. No esforço qu...

Que valores essenciais abriremos mão nesse processo?

“A misericórdia é um valor que devia estar no cerne de qualquer sociedade funcional e tolerante. A misericórdia reconhece que somos todos imperfeitos e, ao fazê-lo, permite-nos respirar e sentir-nos protegidos. Sem misericórdia, uma sociedade perde a sua alma e devora-se a si mesma”.  “Contudo, a misericórdia não é um dado adquirido. É um valor que temos de alimentar e procurar”, afirma, defendendo a importância de “cometer erros, corrigi-los, ousar duvidar e, pelo caminho, descobrir ideias novas e mais avançadas. Sem misericórdia, a sociedade torna-se inflexível, medrosa, vingativa e sem sentido de humor”.  Sobre a “cancel culture”, ou seja, a negação da validade da obra de um artista reprovado pelos seus atos ou opiniões, Nick Cave acredita que é “a antítese da misericórdia. O politicamente correto tornou-se a religião mais infeliz do mundo. Em tempos uma tentativa meritória de reimaginar a nossa sociedade de forma mais justa, agora apresenta todos os piores aspetos que a re...

Arte religiosa às vezes

Toda a verdadeira arte é uma expressão do sagrado.  A arte religiosa às vezes também o é. Pensar  Página 329 Vergílio Ferreira  1992 dC  Editora: Bertrand

Sentimentos por cozinhar

O sentimento em bruto, como toda a “história” em bruto para um escritor, é absolutamente intragável como a carne crua. Mas é absolutamente agradável e funcional depois de bem cozinhada. Não te iludas pois com a carne cara que compraste no magarefe, dizendo aos teus conhecidos que é muito boa. Cozinha-a e depois falamos.  Pensar  Página 345  Vergílio Ferreira  1992 dC  Editora: Bertrand

Desejar conhecer um artista que se ama

Desejar conhecer pessoalmente um artista que se ama é querer apropriar-se do mistério da sua obra. Mas é muito raro saber-se que por detrás de uma obra não está o seu autor, mas as tintas de um quadro ou a pedra de uma escultura ou as palavras de um texto e assim. Porque a arte que devia estar no artista é apenas o mistério que ele próprio desconhece. E entre uma e outro está só o intervalo onde não há já ninguém. Assim a arte é maior do que o artista. Assim ela o dispensa depois de usado e vive por si enquanto ele já apodrece. Muita gente quer conhecer a arte num artista. Mas ninguém quer conhecer o estrume que está antes de uma roseira. Pensar  Página 344  Vergílio Ferreira  1992 dC Editora: Bertrand

Contactar pela primeira vez com uma nova arte

A qualquer homem, ao contactar pela primeira vez com uma nova arte, depara-se-lhe, a certa altura, algo que, erguendo a ponta do véu que esconde o mistério, revela, numa explosão de maravilha que o posterior entendimento total quase nunca chega a igualar, um lampejo das imensas possibilidades que lhe são inerentes. Para Ransom, esse momento ocorreu naquela altura, no que dizia respeito à sua compreensão das canções malacandrianas. De início reparou que o ritmo utilizado tinha por base a influência de um sangue diferente do nosso, de um coração que batia mais depressa e de uma temperatura interna mais elevada. O conhecimento que tinha das criaturas, e o amor que entretanto desenvolvera em relação a elas, fez que começasse a ouvi-las tal como cantavam. As primeiras estrofes do canto fúnebre, cantadas em notas baixas, acordando nele a sensação de grandes massas que se moviam a velocidades inconcebíveis, de gigantes dançando, de mágoas eternamente dissipadas por algo que desconhecia mas de...

Artistas com empregos normais - 2

Did you seriously consider doing something else instead of music? I built some stuff. There’s something about holding tools in your hand, it’s not like holding a melody in your head, where it’s like vapor. When you are tangibly making something, like a chair, you can either sit on it, or it collapses. There is no, “Do you like it?” I built a deck on my roof and a screen porch off of my cabin in the country, actually stretching screen on frames and friction fitting them into the holes. It was the most satisfying thing I’ve ever done.

Artistas com empregos normais - 1

But then there is another category of artists-with-jobs: people whose two professions play off each other in unexpected ways. For these creators, a trade isn’t just about paying the bills; it’s something that grounds them in reality. In 2017, a day job might perform the same replenishing ministries as sleep or a long run: relieving creative angst, restoring the artist to her body and to the texture of immediate experience. But this break is also fieldwork. For those who want to mine daily life for their art, a second job becomes an umbilical cord fastened to something vast and breathing. The alternate gig that lifts you out of your process also supplies fodder for when that process resumes. Lost time is regained as range and perspective, the artist acquiring yet one more mode of inhabiting the world.

Sob o domínio da arte, da crueldade da boa arte

(...) the creation of truly great art requires a degree of concentration, commitment, dedication, and preoccupation — of selfishness, in a word — that sets that artist apart and makes him not an outlaw, exactly, but a law unto himself. (...) Dickens was a reformer, a social improver, a champion of the poor, a man who used his own money to set up a school and shelter for prostitutes (even as, Claire Tomalin’s new biography suggests, he was himself an enthusiastic customer of streetwalkers). His popularity was such that by the mid-19th century he was probably the most beloved figure in England, more popular even than the queen.        Dickens had a wretched childhood and was determined to do better by his own children. And yet he was at best an indifferent, misguided, and often neglectful parent, and an even worse husband. His marriage to Catherine Hogarth was probably a mistake to begin with, and as she grew fat and sickly (ten pregnancies can’t hav...
Eu sou filho, tanto como esses rapazes, de uma cultura imensamente marcada pela língua inglesa - e gosto muito. Mas é suposto haver uma certa distância entre aquilo que nos entra pelos ouvidos e aquilo que nos sai pela boca. É certo que há casos de portugueses a tocar com americanos, formando bandas transatlânticas, mas essas são excepções: o resto é mesmo pessoal da Brandoa a fingir que é de Bristol. E isso é bem mais grave, e mais sintomático da falência do português, do que o abate das consoantes mudas. Porque, das duas uma: ou se reduz uma canção à sua melodia, o que já por si diz muito da decadência das palavras, ou então não se percebe como é que um artista português, para se expressar publicamente, deixa de fora a língua que usa na rua, nas conversas de amigos, nas declarações de amor. Não se trata aqui de "proteger" o português ou de resistir a invasões culturais, que são argumentos do tempo da Outra Senhora. Trata-se, isso sim, de acreditar na arte como uma exte...
 Gregory retomou o seu bom humor oratório e alto. - Um artista é idêntico a um anarquista – gritou. - Pode mudar as palavras como quiser. Um anarquista é um artista. O homem que lança uma bomba é um artista, porque prefere um grande momento a qualquer outra coisa. Ele compreende como é mais valiosa uma explosão de intensa luz, o estrépito de um trovão perfeito, do que os corpos comuns de uns poucos polícia informes. Um artista ignora todos os governos, abole todas as convenções. O poeta regozija-se apenas na desordem. Se não fosse assim, a coisa mais poética do mundo seriam os Caminhos de Ferro Subterrâneos. - E são – disse o Sr. Syme. - Disparate! - afirmou Gregory, que se mostrava sempre muito racional quando outra pessoa tentava estabelecer um paradoxo. - Porque é que todos os escriturários e trabalhadores que viajam nos comboios têm um ar tão triste e cansado? É porque sabem que tudo está bem com o comboio. É porque sabem que,  seja qual for o destino para o qual com...
O príncipe é amador e seria um pouco artista, se estivesse menos engodado pelo palavreado científico. Às vezes ranjo os dentes com impaciência e cólera quando me entusiasmo a fazer-lhe sentir a natureza e elevá-lo à arte, e que ele crê fazer-se sábio espetando sem nenhum propósito na conversa um termo bem científico.
Dizem que não há mulher feia. Também não há má poesia, que a Natureza tudo premeia. Não há menina que nasça gentia nem palavra que nasça alheia. De quem critica está a vida cheia e criticar é que é vida vazia Mas cá para mim isso são só desculpas de quem mal se depila, o buço e o soneto, o alexandrino e a axila. Mas cá para mim isso são só desculpas para quem tão mal se andraja com calças largas de homem a escrever coisas de gaja.
Aliás, não é preciso acreditar no divino para acreditar no papel da religião na construção dessa identidade. Que o diga Camille Paglia, que em texto recente se apresenta como ateia e libertária de esquerda --e, apesar disso, defensora da necessidade de estudos religiosos nos currículos universitários das Humanidades. Uma sociedade totalmente secularizada, que despreza a religião e eleva o materialismo a um novo e único deus, só pode gerar uma arte entediante e adolescente. E, do ponto de vista histórico, falsamente rebelde: a arte "oposicional" começou com os românticos e morreu, algures, na década de 60, com o estertor pop. Bater na mesma tecla é bater em tecla gasta, repetitiva e artisticamente estéril. (…) A criação no vazio, típica de adolescentes, apenas produz grande parte da arte adolescente que ocupa os nossos museus, ou as nossas estantes privadas.
Vivemos numa era, em todas as artes, em que só se faz arte sobre a arte. A humanidade já explorou até à exaustão as possibilidades de todas as formas artísticas. Todas as artes estão formalmente esgotadas. Para onde vamos agora? Temos que regressar à fonte que é a vida. Uma obra de arte não é uma metáfora sobre outra metáfora. É uma metáfora sobre a vida. A vida é difícil de expressar. Fazer arte sobre a arte é mais fácil. Mas temos que voltar ao concreto da vida, à nossa essência humana. Não é sexy, não é vistoso, não é cool, mas é tudo o que tivemos desde o início, e é tudo o que teremos enquanto seres humanos: as nossas vidas miseráveis. E quanto mais sentido fizermos delas e de nós, melhor. Acho que a nova geração está a ficar farta de tretas e a perceber que o espectáculo da má música, da má literatura, da má pintura, do mau cinema, é banal, superficial, e uma perda de tempo.