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A mostrar mensagens com a etiqueta *Autor - John Stott

Crucificar Jesus com actualizações

O evangelho pode ser “modernizado”? Será factível esperar que a igreja aplique a fé histórica ao cenário contemporâneo, a Palavra ao mundo, sem trair a primeira nem alienar o segundo? Será que o cristianismo pode conservar autêntica a sua identidade e ao mesmo tempo demonstrar a sua relevância, ou é preciso sacrificar um deles em detrimento do outro? Seremos obrigados a escolher entre voltar ao passado e fazer do presente um amuleto, entre recitar velhas verdades que são antiquadas e inventar novas ideias que são espúrias? Dentre estes dois, talvez o maior perigo seja o de que a igreja tente reformular a fé de forma a solapar sua integridade, tornando-a irreconhecível diante dos seus arautos originais. Eu proponho que agora nos concentremos neste problema; o resto do livro dirige-se, de diferentes maneiras, ao problema complementar da relevância.  Em 1937, o académico Harvard Henry J. Cadbury publicou o seu livro O Perigo de Modernizar Jesus. Ele admitiu que o propósito - aliás, lo...

O alimento dos corvos: Fé - 3

Como é que Deus alimenta as aves? A resposta é que ele não as alimenta! Ou pelo menos de uma forma directa. Não devemos imaginar Deus a alimentar as aves, como alimentamos os nossos animais de estimação em casa, oferecendo-lhes comida dada à mão ou num prato. Não! Jesus foi um atento observador da natureza. Ele sabia que as aves se alimentam sozinhas. Umas são insectívoras. Outras comem bagas, sementes ou fruta. Umas são carnívoras, outras são piscívoras, enquanto ainda outras são necrófagas, predadoras ou piratas. Umas sugam o néctar das flores; outras alimentam-se de lagartas e até mesmo de caracóis! Então que quis Jesus dizer? Ele quis dizer que Deus alimenta as aves indirectamente. Eu fornece-lhes os meios com os quais se alimentam. Mas têm de procurar a sua comida. Como cantou o salmista a Deus: «Todos esperam de ti que lhe dês comida a seu tempo. És tu que lhes dás a comida que eles recolhem...» Numa passagem paralela, Lucas, no seu evangelho regista, em que Jesus disse, não qu...

O alimento dos corvos: Fé - 2

Primeiro, Jesus não estava a proibir a prudência e a previsão. A tradução da conhecida Versão Autorizada «não pensem no amanhã» é profundamente enganadora. O que Ele disse foi: «não tenham pensamentos ansiosos» ou (NIV) «não fiquem preocupados». Claro que devemos pensar no futuro. A própria Bíblia nos exorta a fazê-lo. A razão de devermos imitar o comportamento das formigas é o facto de elas armazenarem provisões no Verão. De facto, algumas aves que fazem o mesmo. Os pica-paus da bolota, da Califórnia, gostam de armazenar bolotas nos orifícios de árvores ou de postes de telefone e os picanços aprovisionam as suas despensas empalando insetos em espinhos. A instrução de Paulo a Timóteo é similar a esta: «Quem não se preocupa com os seus familiares e mais ainda com os da sua casa, renega a sua fé e é pior do que um descrente». Eis uma garantia bíblica para um seguro de vida ou para um meio equivalente de poupar para o futuro. Jesus é contra a preocupação não contra a prudência. A Fé em De...

O alimento dos corvos: Fé - 1

A primeira lição que as aves nos ensinam é a fé, ou seja, confiar em Deus em todas as coisas, confiar que ele suprirá todas as nossas necessidades. Não precisamos de nos preocupar, disse Jesus, quanto ao que havemos de comer ou beber para permanecermos vivos. «Olhai para as aves do céu, que nem semeiam nem segam, nem juntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas?... Homens de pouca fé!» Talvez conheçam a «versalhada» (dificilmente poderia ser considerada poesia) que regista uma conversa entre um pisco e um pardal:  Said the robin to the sparrow - Disse o pisco ao pardal:  «I should really like to know - Eu gostava mesmo de saber  Why these anxious human beings - Porque é que os seres humanos  Rush about and worry so - Vivem tão ansiosos e apressados.  Said the sparrow to he robin - Disse o pardal ao pisco:  Friend, I think it must be - Amigo, acho que deve ser.  They have no heavenly Father - Por nã...

Astronómicamente astrónomos

Está certo que, como disse a outro um certo cientista "astronomicamene falando, o homem é infinitamente pequeno". "É verdade", respondeu o seu colega; "só que, astronomicamente falando, o homem é que é o astrónomo". Ouça o Espírito, Ouça o Mundo [The Contemporary Christian] página 40 John Stott 1992 dC Editora: ABU Editora
Esta era a posição do judeu e do judaizante. Paulo os descreve como “procurando estabelecer a sua própria (justiça)”(Romanos 10:3). Esta tem sido a religião do povo comum, antes e depois deles. É a religião que se encontra nas ruas, hoje. De facto, é o princípio fundamental de cada sistema religioso e moral do mundo, excepto o Cristianismo do Novo Testamento. É um princípio popular porque é lisonjeiro. Ele diz ao homem que, se ele tão somente conseguir melhorar um pouco o seu comportamento e se ele se esforçar um pouquinho mais, conseguirá obter a sua própria salvação. 
Quando o Cristianismo é considerado como liberdade em Cristo (e é o que é), os cristãos não ficam em subserviência para com os mestres humanos, porque a sua ambição é alcançar a maturidade em Cristo. Mas quando o Cristianismo se transforma em servidão a regras e regulamentos, suas vítimas ficam inevitavelmente sujeitas, amarradas aos seus mestres, como na Idade Média.
Durante os meses em que preguei estes sermões, eu dizia e repetia para mim mesmo: “Eis-nos aqui, uma congregação londrina relativamente sofisticada, em pleno século XX, dedicando-nos, semana após semana ao estudo sistemático de uma pequena carta escrita no primeiro século por um cristão judeu que era, na época, pouco conhecido, e destinada a umas obscuras igrejas escondidas nas montanhas da Galácia.” Extraordinário! Será que existe na nossa geração qualquer outro documento tão antigo que desperte tanta atenção de tanta gente por um período tão longo? Eu acho que não, a não ser outros documentos bíblicos. O estudo deixou-me mais convencido do que nunca da inspiração divina e, portanto, da autoridade permanente e da relevância das Escrituras 

Os teólogos mais antigos costumavam dizer que Deus escreveu dois livros

(...) o Deus vivo da Bíblia é o Deus tanto da criação quanto da redenção, e está preocupado com a totalidade do nosso bem-estar. Os teólogos mais antigos costumavam dizer que Deus escreveu dois livros, um chamado 'Natureza', e outro chamado 'Escrituras', através do quais se revelou. Além disso, ele nos deu-nos esses dois livros para os estudar. O estudo da ordem natural é chamado 'ciência', e o da revelação bíblica, 'teologia'. E ao nos envolvermos com estas disciplinas geminadas, nós estamos (nas palavras de Johann Kepler, astrónomo do século XVII) a pensar os pensamentos de Deus depois d'Ele. Os cristãos certamente deveriam estar na vanguarda do movimento em prol da responsabilidade ambiental. Afinal, o que diz a nossa doutrina quanto à Criação e à administração da natureza? Deus fez o mundo? Ele o sustenta? Ele submeteu os recursos do mundo aos nossos cuidados? A sua preocupação pessoal pela sua própria criação deveria ser o suficiente para ins...

Ridicularizado como o ‘Deus da cruz’

Eu mesmo jamais poderia crer em Deus, se não fosse pela cruz. O único Deus em que creio é que Nietzsche ridicularizou como o ‘Deus da cruz’. No mundo real da dor, como se pode adorar um Deus que seja imune a ela? Já entrei em muitos templos budistas em diferentes países da Ásia e parei respeitosamente ante a estátua de Buda, as pernas e os braços cruzados, os olhos fechados, o fantasma de um sorriso a brincar em torno dos lábios, um olhar distante, isolado das agonias do mundo. Mas de cada vez, depois de algum tempo, tive de virar-me. E, na imaginação, voltei-me para aquela figura solitária, retorcida e torturada na cruz, os cravos atravessando as mãos e os pés, as costas laceradas, os membros deslocados, a fronte sangrando por causa dos espinhos, a boca intoleravelmente sedenta, lançada nas trevas do abandono de Deus. É esse o Deus para mim! Ele deixou de lado a sua imunidade à dor. Ele entrou em nosso mundo de carne e sangue, lágrimas e morte. Ele sofreu por nós. Nossos sofrimentos ...
Se a culpa for nossa, haverá a humilhação do pedido de desculpas, a humilhação mais profunda de fazer restituições onde for possível, e a humilhação mais profunda de todas que é confessar que as feridas que causamos levarão tempo para sarar e não podem facilmente ser esquecidas. Se, por outro lado, não fomos nós quem causou o mal, então talvez tenhamos de suportar o embaraço se reprovar ou repreender a outra pessoa, arriscando, assim, perder a sua amizade. Embora os seguidores de Jesus jamais tenham o direito de recusar perdão, muito menos fazer vingança, não nos é permitido baratear o perdão, oferecendo-o prematuramente onde não houver perdão.
O princípio que se aplica à família, aplica-se também à família da igreja. Ambos os tipos de família precisam de disciplina, e pela mesma razão. Entretanto, hoje é rara a disciplina na igreja, e onde ela é exercida, muitas vezes é inabilmente administrada As igrejas têm a tendência de oscilar entre a severidade extrema, que excomunga os membros pelas ofensas mais triviais, e a frouxidão extrema, que jamais nem mesmo admoesta os ofensores. O Novo Testamento, porém, oferece instruções claras acerca da disciplina, por um lado sua necessidade por causa da santidade da igreja, e por outro, seu propósito construtivo, a saber, se possível, ganhar e restaurar o membro ofensor.
O amor genuíno também se enraivece, sendo hostil a tudo o que, nos filhos, se opõe ao seu bem maior. A justiça sem misericórdia é por demais severa, e a misericórdia sem a justiça é por demais leniente. Além do mais, os filhos sabem disso automaticamente. Possuem um sentido inato de ambas as coisas. Se fizerem algo que sabem ser errado, também sabem que merecem a punição, e tanto desejam quanto esperam recebê-la. Sabem também de imediato se o castigo está sendo oferecido sem amor ou contrariamente à justiça. Os dois clamores mais pungentes de um filho são ‘Ninguém me ama’ e: ‘Não é justo’. O sentido de amor e justiça dos filhos vem de Deus, que os fez à sua imagem, e que se revelou como amor santo na cruz.
O que a apocalipse faz, de acordo com o seu género literário, é erguer a cortina que oculta o mundo invisível da realidade espiritual e mostrar o que se está a passar nos bastidores. O conflito entre a igreja e o mundo é visto como não mais que uma expressão no palco público de concurso invisível entre Cristo e Satanás, o Cordeiro e o Dragão.
Todavia, a primeira coisa que se deve dizer acerca do evangelho bíblico da reconciliação é que ele tem início na reconciliação com Deus, e continua com uma comunidade reconciliada com Cristo. Reconciliação não é um termo usado pela Bíblia no sentido de "encontrar paz consigo mesmo", embora ela insista em que somente através da perda de nós mesmos em amor a Deus e ao próximo é que verdadeiramente nos encontramos.
Foi ele apenas homem? Se assim for, como poderia um ser humano substituir a outros seres humanos? Então, foi ele apenas Deus, com a aparência de homem, mas na realidade não sendo o homem que aparentava? Se assim for, como poderia ele representar a humanidade? Além do mais, como poderia ele ter morrido? Nesse caso, devemos pensar em Cristo não como apenas homem nem como apenas Deus, mas antes, como o único Deus-homem que, por causa da sua pessoa singularmente constituída, foi singularmente qualificado para mediar entre Deus e os homens? Nossas respostas a estas questões determinarão se o conceito de expiação substitutiva é racional, moral, plausível, aceitável, e acima de tudo, bíblico.
É nesse contexto de levar o pecado que se percebe a possibilidade de alguém mais sofrer a penalidade do erro do pecador. Por exemplo, Moisés disse aos israelitas que os seus filhos teriam de vagar pelo deserto, levando sobre si as “vossas iniquidades” (Números 14:34); se um homem casado falhasse em anular um voto insensato ou um voto feito pela esposa, então (estava escrito) “responderá pelas obrigações dela”; repito, depois da destruição de Jerusalém em 586 a.C., o restante que permaneceu nas ruínas disse: “Nossos pais pecaram, e já não existem; nós é que levamos o castigo das suas iniquidades” (Lamentações 5:7). Esses são exemplos de levar o pecado involuntário e vicário. Em todos os casos, pessoas inocentes se encontraram sofrendo as consequências da culpa de outros.

Sermos "curados" contra a nossa vontade

Sermos "curados" contra a nossa vontade, e curados de estados aos quais podemos não perceber como enfermidade, é sermos colocados no mesmo nível dos que ainda não atingiram a idade da razão e dos que jamais a atingirão; é sermos classificados como infantes, imbecis e animais domésticos. Mas sermos castigados, ainda que severamente, porque o merecemos, porque "não devíamos ter errado", é sermos tratados como uma pessoa humana criada à imagem de Deus.
Em seu famoso ensaio intitulado A Teoria Humanitária do Castigo C.S. Lewis lamenta a tendência moderna de abandonar a noção da justa retribuição e substitui-la por interesses humanitários tanto pelo criminoso (reforma) como pela sociedade como um todo (freio). Pois isso significa, argumenta ele, que cada infractor da lei "fica privado dos seus direitos como ser humano. Esta é a razão. A teoria humanitária remove do castigo o conceito do merecimento. Mas o conceito do merecimento é o único elo de ligação entre o castigo e a justiça. É somente na base do merecimento ou da falta dele que uma sentença pode ser justa ou injusta." Novamente, "quando paramos de considerar o que o criminoso merece e consideramos somente o que o pode curar ou deter a outros, tacitamente o retiramos por completo da esfera da justiça; em vez de uma pessoa, um indivíduo com direitos, agora temos um mero objecto, um paciente, um ‘caso’." Com que direito podemos usar a força a fim de impor o trat...
(…) o pecado é uma qualidade implicitamente agressiva – uma crueldade, um ferimento, um afastamento de Deus e do restante da humanidade, uma alienação parcial, ou um acto de rebelião… O pecado possui uma qualidade voluntariosa, desafiadora ou desleal: alguém é desafiado ou ofendido ou magoado. Ignorar isto seria desonesto. Confessá-lo capacitar-nos-ia a fazer algo a seu respeito. Além do mais, o regresso do pecado inevitavelmente levaria ao reavivamento ou reafirmação da responsabilidade pessoal. De facto, a utilidade de reviver o pecado é que a responsabilidade seria reavivada com ele.