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A mostrar mensagens com a etiqueta *Assunto - Linguagem

A verdadeira catástrofe de Babel

Daí que haja uma perda verdadeiramente irreparável, uma diminuição dos possíveis humanos, quando uma língua morre. Com a sua morte, não é só uma memória de gerações única e vital - os tempos do passado ou os seus equivalentes -, não é só uma paisagem, realista ou mítica, ou um calendário que se apaga, mas também as suas configurações de um futuro concebível. Uma janela fecha-se sobre o nada. A extinção das línguas que hoje testemunhamos - todos os anos dúzias delas calam-se sem remédio - é precisamente homóloga da devastação da fauna e da flora, mas em termos ainda mais definitivos. As árvores podem ser plantadas de novo, o ADN das espécies animais pode, pelo menos em parte, ser conservado e talvez reativado. Uma língua morta continua morta ou sobrevive como relíquia pedagógica no jardim zoológico das universidades. O resultado é um empobrecimento drástico na ecologia do psiquismo humano. A verdadeira catástrofe de Babel não é a divisão das línguas: é a redução do discurso humano a mei...

A multiplicidade de milhares de línguas mutuamente ininteligíveis não é uma maldição - 2

O espaço, que é uma construção social não menos do que neurofisiológica, é linguísticamente cartografado e inflectido. As línguas habitam-no diferentemente. Através da sua «cartografia» e da nomeação das coisas, as comunidades linguísticas em causa sublinham ou elidem contornos e traços variáveis. O espectro das distinções precisas entre diferentes tonalidades e texturas da neve nas línguas de esquimós, o rol das cores que diferenciam as pelagens dos cavalos no falar dos gaúchos argentinos, são dois exemplos paradigmáticos. Os dialetos da Grã-Bretanha produzem mais do que cem palavras e expressões que designam os esquerdinos. A equação entre a mão esquerda (sinistra) e o mal atravessa as culturas mediterrânicas. A antropologia estrutural ensinou-nos que os conceitos e as identificações que se referem às relações de parentesco são inelutavelmente linguísticos. Até noções tão fundamentais como parentesco ou incesto dependem das taxinomias, de uma codificação lexical e sintática inseparáv...

A multiplicidade de milhares de línguas mutuamente ininteligíveis não é uma maldição - 1

Sustentei em After Babe l (1975) que a multiplicidade de milhares de línguas mutuamente ininteligíveis outrora faladas nesta Terra - e das quais muitas desapareceram hoje, ou se encontram em vias de extinção - não é, como as mitologias e alegorias do desastre entendem, uma maldição. São, pelo contrário, uma bênção de um motivo de regozijo. Cada uma, entre todas as línguas, é uma janela que abre sobre ser, sobre a criação. Uma janela como nenhuma outra. Não há línguas «menores», por reduzido que seja o seu quadro demográfico ou o seu meio. Certas línguas faladas no Deserto do Calahari traçam ramificações do conjuntivo mais numerosas e mais sutis do que as que encontramos em Aristóteles. As gramáticas hopi possuem cambiantes temporais e de movimento que se conjugam melhor com a física da relatividade e da indecidibilidade do que os nossos próprios recursos indo-europeus e anglo-saxónicos. Graças às raízes e ao desenvolvimento culturais e psicológicos incorporados no seu interior - raízes...

Sexualidade segundo um guião

Até mesmo por si só, uma palavra, um aglomerado de sons podem desencadear uma excitação sufocante (o célebre faire catleya de Proust). A imagem desdobra-se no interior do som. A masturbação tem, assim, a sua gramática muda. Dentro desta privacidade, contudo, nos recessos do mais íntimo, intervém instâncias públicas. O vocabulário erótico e sexual dos media , a gíria amorosa do cinema e da televisão, as vagas declaratórias da publicidade e no mercado de massa, estilizam, moldam segundo convenções o ritmo, o andamento, as componentes discursivas de milhões de parceiros sexuais. No mundo desenvolvido, com a sua pornografia corrosiva, são inumeráveis os amantes, particularmente entre os jovens, que «programam» o seu modo de fazer amor, façam-no conscientemente ou não, em termos semióticos pré-estabelecidos. O que deveria ser o mais espontaneamente anárquico, o mais individualmente revelador e inventivo dos encontros humanos, seguem em muito larga medida um guião . A última liberdade, a au...
No dia em que terminei de escrever a minha tese de doutorado, enviei o manuscrito para um colega. E pedi uma opinião sincera. Três dias volvidos, ele respondeu: "Você vai ser fuzilado pela banca". O problema estava na qualidade do texto. A tese estava bem escrita. Pior: bem escrita e totalmente compreensível. Eu tinha cometido uma heresia nas ciências sociais: escrever uma tese de doutorado com o propósito honesto de ser lido e compreendido. Sugestão dele para evitar o desastre: reescrever o texto e transformar cada parágrafo em paralelepípedo. Lembro essa história agora por dois motivos. Primeiro, porque Barton Swaim escreve na "Weekly Standard" sobre a qualidade da prosa acadêmica. Qualidade atroz, entenda-se. Por que motivo a fauna universitária faz um esforço tão tortuoso para ser tortuosa? Swaim arrisca três hipóteses. Para começar, as humanidades vivem o complexo de inferioridade que as atormenta desde o século 18, quando as ciências naturais deram o seu salt...
Languages like Wintu, a native tongue in California, or Siletz Dee-ni, in Oregon, or Amurdak, an Aboriginal tongue in Australia’s Northern Territory, retain only one or two fluent or semifluent speakers. A last speaker with no one to talk to exists in unspeakable solitude. (...) Speaking Aka — or any language—means immersing oneself in its character and concepts. “I’m seeing the world through the looking glass of this language,” said Father Vijay D’Souza, who was running the Jesuit school in Palizi at the time of my visit. (...)When he came to Palizi in 1999 and began speaking Aka, the language transformed him. “It alters your thinking, your worldview,” (...) (...) Palizi is far removed from pervasive U.S. culture, so it was something of a surprise to the two linguists when the teenagers launched into a full-bore, L.A.-style rap song complete with gang hand gestures and head bobbing and attitude, a pitch-perfect rendition of an American street art, with one refinement: They w...
Uma característica do falar dos ímpios é o excesso, a falta de controle. Os ímpios falam demais; falam sem pensar, estão sempre falando. Se você viajar de ônibus ou de trem, ou se estiver numa sala pública, verá esse constante falatório; é sempre uma característica dos ímpios. Provavelmente, nem todos percebemos que o povo cristão não fala tanto como o povo não cristão. Outra característica da conversação do não cristão é aquilo que realmente faz dela o que é – tão somente uma expressão do ego. A vida do não regenerado é sempre egoísta, egocêntrica, e a sua conversação e o seu falar sempre visam uma oportunidade para exibição pessoal. Isto explica porque tais pessoas, quanto juntas, procuram falar todas ao mesmo tempo. Uma não pode esperar que a outra termine; todos querem ficar com a palavra. Está eternamente presente o desejo de ser interessante, divertido, e de ser admirado, com o povo dizendo: que maravilhoso! Toda ela querem estar sempre com a palavra, anseiam por auto-expressão e...
Essa é a maneira escriturística de lembrar-nos que, em nossa vida neste mundo, não há nada que seja de maior importância que a capacidade de falar porque, afinal de contas, expressamos o que realmente somos pelo que dizemos. As palavras do nosso Senhor – "Da abundância do coração fala a boca" (Lucas 6:45) – dizem-nos a mesma coisa. Quando falamos estamos expressando o que está em nosso coração. Às vezes os nossos amigos nos lembram que "nos entregamos" pelo nosso falar. No entanto, o nosso Senhor tem mais uma verdade para nos dizer: "O homem bom tira boas coisas do seu bom tesouro, e o homem mau do mau tesouro tira coisas más. Mas eu vos digo que de toda a palavra ociosa que os homens disserem hão de dar conta no dia do juízo. Porque por tuas palavras serás justificado e por tuas palavras serás condenado". Todos nós somos lerdos para perceber a importância do falar. Falamos com tanta liberdade, tão levianamente, tão soltamente; e, no entanto, diz o nosso S...
Contudo o nosso texto vai além: o homem pode falar, pode expressar-se, pode por pensamentos em palavras e em linguagem. De muitas maneiras é o maior dom concedido à humanidade e sendo assim, não é de admirar que seja a coisa mais mal utilizada. Na esfera espiritual, o diabo centraliza os seus ataques naquilo que é mais precioso no homem. E o que há de devastador, quanto ao pecado, é que ele sempre destrói primeiro o que há de melhor em nós. Os centros mais elevados são sempre os primeiros a serem afectados pelo pecado. Não admira, pois, que considerável atenção seja dada pelo apóstolo à questão geral do falar, visto que expressa tanto a essência do se e da personalidade do homem. No capítulo três da sua Epístola, Tiago argumenta sobre o mesmo ponto. Ali a língua humana é comparada ao leme do navio (...).
"Não sai da vossa boca nenhuma palavra torpe, mas só a que for boa para promover a edificação, para que dê graça aos que a ouvem", Efésios 4:29 Obviamente, pois, na opinião e na avaliação do apóstolo, toda esta questão ligada ao falar é vital e, necessariamente, deve receber grande proeminência ao tratarmos e estudarmos a aplicação da verdade aos pormenores das nossas vidas. E isso não é surpreendente porque, como já fiz lembrar quanto à questão da mentira, a fala é, afinal de contas, o fator biológico distintivo e diferencial do homem. Comparando-se e contrastando-se o homem e os animais, há muitas diferenças, mas esta é provavelmente a mais proeminente e importante; o que faz do homem um homem é o dom da fala e da expressão. Nessa capacidade de expressar-se vemos sobressair mais claramente a imagem de Deus, segundo a qual o homem foi criado originariamente. O homem pode pensar, raciocinar e ver-se objectivamente e considerar-se a si próprio; os animais não podem fazer isso...