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A mostrar mensagens com a etiqueta 1956 dC
Sobretudo, obrigava-me a visitar regularmente os cafés especializados onde se reuniam os nossos humanistas profissionais. Os meus bons antecedentes faziam, naturalmente, com que aí fosse bem recebido. Lá, sem me fazer notar, deixava escapar um palavrão: «Graças a Deus!», dizia, ou mais simplesmente: «Meu Deus…» Sabe como os nossos ateus de taberna são uns tímidos comungantes. Um momento de pasmo seguia-se ao enunciado desta enormidade, olhavam-se, estupefactos, depois rebentava o tumulto, uns fugiam do café, outros cacarejavam com indignação sem a nada dar ouvidos, todos se contorciam em convulsões, como o Diabo sob a água benta.
Tive mesmo, nessa altura, a impressão de que me estavam a pregar rasteiras. Com efeito, tropecei duas ou três vezes, ao entrar em lugares públicos. Uma vez mesmo, estatelei-me no chão. O francês cartesiano que eu sou fez logo por se recompor e atribuir estes acidentes à única divindade razoável, isto é, ao acaso.
Felizmente, o excesso do gozo tanto debilita a imaginação como a faculdade de julgar. O sofrimento dorme então com a virilidade e tão longamente como ela. Pelas mesmas razões, os adolescentes perdem com a primeira amante a inquietação metafísica, e certos casamentos, que são deboches burocratizados, tornam-se, ao mesmo tempo, os monótonos carros mortuários da audácia e da inventiva. Sim, caro amigo, o casamento burguês pôs o nosso país em pantufas e em breve o porá às portas da morte.
Compreendi então, à força de revolver a memória, que a modéstia me ajudava a brilhar, a humildade a vencer e a virtude a oprimir. Fazia a guerra por meios pacíficos e obtinha, enfim, por meio do desinteresse, tudo o que almejava.
Já lhe disse, trata-se de escapar ao julgamento. Como é difícil escapar e melindroso fazer, ao mesmo tempo, com que se admire e desculpe a própria natureza, todos procuram ser ricos. Porquê? Já o perguntou a si mesmo? Por causa do poder, certamente. Mas sobretudo porque a riqueza nos livra do julgamento imediato, nos retira da turba do metropolitano para nos fechar numa carroçaria niquelada, nos isola em vastos parques guardados, em carruagens-camas, em camarotes de luxo. A riqueza, caro amigo, não é ainda a absolvição, mas a pena suspensa, sempre fácil de conseguir…