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Mensagens

A mostrar mensagens com a etiqueta *Autor - João Leal

Só Ele e eu somos os mesmos

Como na melodia que se vai repetindo em variações, reconheço o Deus da minha intimidade desde criança como a presença mais constante na minha vida.  Todas as células do meu corpo se substituem e já nenhuma existe de quando, pela primeira vez, terei orado. Ainda assim, aqui estou e aqui Ele está. Só Ele e eu somos os mesmos.  A memória desvanece-se, as certezas cortam-se e resvalam para a berma do caminho. As ações comprometem-se no seu momento e são substituídas por outras. E, no final do dia, quando me deito, encontro-me com Ele, ambos adornados de um silêncio pristino.  Aí estou eu, chegado de mais uma jornada, preparado para fechar a janela sobre o dia que passou e Ele recebendo-me, preparado para me ouvir ou só para me acenar o cuidado da sua evidência.  Digo de novo, tal como a sua presença se renova, olhe eu para onde olhar, como na melodia que se vai repetindo em variações, reconheço o Deus da minha intimidade desde criança como a presença mais constante na mi...

O personagem que haveria de criar para conseguir ser o artista que desejava ser

Nunca se viam de um modo definido as suas feições. Os seus olhos azuis, profundos, vivos e inquisitivos só apareciam fora do espaço público. David pensava agora que o amigo sempre parecera querer esconder-se. Tinha visto algumas fotografias suas de miúdo em que era possível prever no olhar esquivo, e no modo reservado do corpo, a pré-história do personagem que haveria de criar para conseguir ser o artista que desejava ser. Terra Fresca página 171 João Leal 2016 Editora: Quetzal

Sobretudo a total ausência de magia

A criança que fui seguiu-me de desapontamento em desapontamento nesta primeira semana de trabalho. Pedra, lixo, silvedo e, sobretudo, a total ausência de magia. Nada remotamente relacionado com passagens secretas ou entradas para grutas ou divisões escondidas com a possibilidade de algum achado extraordinário. Sabia, evidentemente, que as lendas acerca da serra não podiam ser reais, mas sou incapaz de evitar sentir-me decepcionado. Terra Fresca página 13 João Leal 2016 dC Editora: Quetzal

Amar o mundo para lhe sobreviver

A ideia de um adolescente revoltado que se costuma ter no meio das famílias de classe média é o puto que fuma umas ganzas, se veste de um modo estapafúrdio e faz uns disparates nas respostas que dá na escola e aos pais para chamar a atenção. O adolescente revoltado que eu fui, igual a todos os outro com que cresci, era outra coisa. Não estávamos em conflito com o mundo que nos rodeava: tentávamos sobreviver nele. Para isso, precisávamos de o amar, conhecer bem e era necessário que o seu sangue, o Mal, passeasse através de nós pelos corredores e camaratas do Convento. Alçapão João Leal 2005 dC Editora: Quetzal

A Pergunta

O homem desce a avenida nocturna. Empunha um espada numa mão e leva o outro braço caído junto ao corpo. As luzes dos candeeiros reflectem-se fugazmente no metal da lâmina e tornam em espelhos as poças no chão alcatroado. O homem está cansado de não conseguir dormir. Na sua direcção vem uma rapariga envolvida em trapos e de cabeça coberta com um lenço andrajoso. É de madrugada e os dois são os únicos na avenida. Quando eles se cruzarem, ela vai notar a espada e depois vai notar que a espada está coberta de algo que parece sangue e pedaços de carne. E só quando ele a interpelar e lhe perguntar "Para onde foi o meu deus? Porque não me pode perdoar e voltar a receber?" ela notará que aquele homem enorme não é um homem mas sim um anjo, cujas asas se abrem lentamente sobre si. Da resposta que ela der virá o seu destino, que pode muito bem ser o de corpo despedaçado, como os que ficaram espalhados por ele nos passeios e becos da cidade nas horas que passaram desde que o Sol se pôs. ...

Os Olhos

Os Olhos Arrancavam-lhe as unhas, davam-lhe murros na cabeça, batiam-lhe com barras de ferro nas pernas, queimavam-lhe os testículos com cigarros, não o deixavam dormir há anos e então ele gritou "Pai, porque me abandonaste?", mas ele não era divino nem homem, por isso, sendo eterno, sofreu e deu urros até ao fim, até que um homem pegou na sua cabeça e, agarrando-lhe na nuca, esmagou a sua cara contra as paredes de pedras aguçadas, uma, duas, trinta vezes. A seguir já não gritou mais pela boca, tendo passado a gritar com os olhos, agora, para sempre, muito abertos como os de um cavalo enquanto é chicoteado até à morte. Blog: Transmissão Especial Autor: João Leal 2005 dC

O Velho Amado

Sentado na cadeira, olhando a Praça, ele lembra-se de quando era jovem. Nessa altura, o corpo ainda não o havia desprezado e calcorreava as montanhas em longas caminhadas de meditação. Como se sentia satisfeito com a sua força! Os seus braços eram capazes de erguer os troncos e de cavar a terra. Também o Inverno não lhe pesava como agora, em que tem de estar resguardado de tudo sob pena de que a morte lhe toque. Olha as pessoas que esperam que assome à janela, acenando. Sabe que um gesto e um sorriso seus são momentos inesquecíveis para aqueles que viajam tantos quilómetros só para o verem. Contarão aos filhos e aos netos e guardarão a sua imagem como uma esperança para depois da vida, como uma das coisas mais importantes que lhes aconteceu. Está sentado e a sua cabeça pende para cima do ombro. A baba cai-lhe do canto da boca, As suas mãos estão descontroladas e tremem além da sua vontade. Os pensamentos estão baralhados. É um prisioneiro de milhões de homens, do seu corpo e da deusa q...

O Anão

Mancava. A perna esquerda era mais curta da direita. O cabelo amarelo escuro, desgrenhado e eriçado. O seu corpo ondulante, em permanente desequilíbrio. Assobiava o anão enquanto passava pelo beco mais escuro da cidade. Da jaqueta verde pendia um relógio e, num dos bolso do casaco demasiado largo a dar-lhe pelos joelhos , podia-se adivinhar o volume de um livro ou caderno. A noite já ia alta e ele disse para si próprio que tinha de se despachar. Bateu a uma porta no local mais escuro, por detrás de um amontoado de caixotes do lixo. Um anjo abriu a porta e chamou outro com um rosnido. Seguiram os três e entraram na avenida onde os carros e os néons traziam uma espécie de vida à madrugada. Os anjos enormes, com os olhos irradiando uma luz vermelha, rosnavam baixinho, inquietos ao passarem pelas prostitutas e pregadores de esquina pregando o apocalipse iminente. O anão seguia, mancando, sempre a assobiar. Entraram num prédio de aspecto miserável onde se podia ler 'Hotel Bossa Nov...