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Mensagens

A mostrar mensagens com a etiqueta *Autor - Fiodor Dostoievsky

O amor vivo é uma coisa cruel e assustadora

- Está a falar com franqueza? Está bem, depois desta sua confissão acredito que é sincera e tem um bom coração. Mesmo que não chegue à felicidade, lembre-se sempre de que está no bom caminho e tente não se desviar dele. O principal é evitar a mentira, qualquer mentira, sobretudo a mentira a si mesma. Esteja de olho nas mentiras que diz, não descure a atenção delas hora a hora, minuto a minuto. Evite também o desgosto pelos outros e por si mesma: o que lhe parece repugnante no seu íntimo purifica-se com o próprio facto de ter reparar nisso. Evite também o medo, embora o medo seja apenas uma consequência da mentira. Nunca desanime com a sua própria fraqueza na busca do amor, e nem sequer tenha muito medo dos seus procedimentos menos bons. Lamento não poder dizer-lhe nada mais consolador, porque o amor vivo, em comparação com o amor sonhado, é uma coisa cruel e assustadora. O amor dos sonhos anseia por uma obra rápida, satisfação imediata e aos olhos de todos. Aqui, é verdade, chega-se ao...

Humanidade em geral e pessoas em particular

Aquilo era um ataque da mais sincera autoflagelação e, ao acabar, olhou para o Stárets com o mais resoluto olhar de desafio.  - Tal qual um médico me confessou a muito - observou o Stárets . - Era um homem já de idade e com uma inteligência incontestável. Falava do mesmo modo sincero, embora com ironia, mas uma triste ironia. Gosto da humanidade, dizia ele, mas eu próprio me admiro: quanto mais gosto da humanidade em geral, menos gosto das pessoas em particular, isto é, das pessoas em separado, das pessoas concretas. Nos meus sonhos, dizia ele, chego muitas vezes as ideias apaixonadas de servir a humanidade e, se calhar, seria mesmo capaz de subir ao Calvário pelas pessoas se de repente isso fosse necessário; ao mesmo tempo digo-lhe sou incapaz de conviver com alguém no mesmo quarto durante dois dias, digo por experiência. Mal alguém fica perto de mim, logo a sua personalidade me oprime o amor próprio e me constrange a liberdade. Sou capaz de ganhar ódio, de um dia para o outro, a ...

Amor vivo? Exijo imediatamente o pagamento.

- Amor vivo? Esta é uma questão e que questão! Veja: amo tanto a humanidade que às vezes, imagine, sonho abandonar tudo, tudo o que tenho, abandonar a Lise e ir servir como enfermeira. Fecho os olhos, penso e sonho, e nesses instantes sinto em mim uma força invencível. Não haveria feridas, não haveria chagas purulentas que me assustassem. Faria as ligaduras e limparia as feridas com as minhas próprias mãos, seria a enfermeira de vela para todos esses sofredores, estou pronta a beijar essas chagas...  - Já não é mau que a sua mente sonhe com isso e não com outra coisa. Pode mesmo acontecer que a senhora venha realmente a fazer alguma boa acção.  - Sim, mas por quanto tempo aguentaria eu essa vida? - continuava a senhora com ardor, como em frenesi - É esta a questão principal! É a mais torturante das minhas questões. Fecho os olhos e pergunto a mim própria: aguentarias muito tempo nesse caminho? E se o doente a quem lavas as chagas não te responder logo com a gratidão mas, pelo ...

Vendo no falso o verdadeiro e exigindo dos outros a mesma mentira

Comecei então a falar em voz alta e sem medo, apesar dos risos do mundo, porque, fosse como fosse, aqueles risos eram bondosos e não maldosos. Todas as minhas conversas decorriam nos serões, principalmente na companhia das senhoras, que gostavam muito de me ouvir e obrigavam também os homens a ouvir-me. Toda a gente se ria na minha cara: «Mas como é possível eu ser culpado por todos? Eu posso ser culpado, por exemplo, por si?» Eu respondia-lhes: «Como podem os senhores compreender isso se todo o mundo, desde há muito, tomou por outro caminho, vendo no falso o verdadeiro e exigindo dos outros a mesma mentira? Como vêem, eu procedi uma vez na vida com sinceridade e logo me tornei para todos uma espécie de maluquinho religioso: embora simpatizem comigo, não deixam de se rir de mim». dados biográficos de Zóssima  Volume I página 363 Editorial Presença

Prontos a derramar o nosso sangue pela honra sem nada saber sobre a honra

Passei muito tempo em São Petersburgo, na escola de cadetes, quase oito anos, e aquela nova educação adormeceu em mim muitas das sensações infantis, embora não me esquecesse de nada. Ganhei hábitos e mesmo opiniões novos que me transformaram numa criatura quase selvagem, cruel e absurda. Adquiri o brilho da cortesia e das maneiras mundanas, juntamente com a língua francesa, mas todos nós, incluindo eu, considerávamos os soldados que nos serviam na escola como animais. Aliás, eu era a este respeito o pior de todos, porque era o mais susceptível de todos os meus colegas. Quando acabámos o curso e nos tornámos oficiais estávamos prontos a derramar o nosso sangue pela honra do nosso regimento, mas nenhum de nós sabia nada sobre a verdadeira honra, nenhum de nós sabia o que isso significava e, se soubesse, rir-se-ia da honra. Quase nos orgulhávamos das nossas bebedeiras, fanfarronices e comportamentos desordeiros. Não diria que não prestávamos: toda aquela juventude era gente boa, mas que s...

Mentir a si próprio

O principal é o senhor não mentir a si próprio. Quem mente a si mesmo e ouve as suas próprias mentiras chega a um ponto tal que já não distingue qualquer verdade em si nem à sua volta, deixando por isso de respeitar a si mesmo e aos outros. Ora, sem respeito por todos, o senhor deixa de amar e, para se divertir e distrair, sem amor, entrega-se às paixões e às volúpias grosseiras, atinge um estádio animalesco nos seus vícios, e tudo isso provém de estar a mentir permanentemente a si próprio e aos outros. Quem mente a si mesmo também será o primeiro a ofender-se. É que, às vezes, é muito agradável ficar ofendido, não é verdade? A pessoa sabe bem que ninguém a ofendeu, que inventou a sua ofensa e que mentiu para enfeitá-la, que exagerou para criar todo o cenário, que se agarrou a uma palavrinha e fez de uma ervilha uma montanha... a própria pessoa sabe isso e, mesmo assim, apressa-se a ficar ofendida, a ficar ofendida até ao prazer, até sentir um grande deleite e, a partir daqui, chega at...
Olhai as pessoas seculares, para todo o mundo que se eleva sobre o povo de Deus: não será que se deformou nele a imagem de Deus e toda a verdade Dele? Eles têm a ciência, e a ciência tem apenas aquilo que é acessível aos sentidos. Ora, o mundo espiritual, a metade superior do ser humano, é rejeitada por completo, é expulsa jubilosamente, até com ódio. O mundo proclamou a liberdade, especialmente nos últimos tempos, e o que vemos na liberdade deles? Só escravidão e suicídio! Porque o mundo diz: "tens necessidades, portanto satisfá-las, porque tens os mesmos direitos que as pessoas mais nobres e mais ricas. Não temas satisfazê-las mas, inclusive, multiplica-as" – eis a doutrina actual do mundo. É nisso que eles vêm a liberdade. Então, o que resulta deste direito à multiplicação das necessidades? Entre os ricos, o isolamento e o suicídio espiritual, entre os pobres a inveja e o homicídio, porque os direitos foram dados, mas não foram indicados ainda os meios para satisfazê-los....
Fiódor Dostoiévski, numa carta ao irmão, explica que a ideia de que a natureza humana só pode ser modificada por influência da fé religiosa espontânea e instintiva não foi expressa nos Cadernos do Subterrâneo devido aos obstáculos impostos pela censura: «[…] Era melhor não publicar o último capítulo (o principal, em que a própria ideia é expressa) do que publicá-lo nesta forma, se seja, com as frases esfaceladas e contradizendo-se a si mesmo. Mas, que remédio! Porcos de censores! Onde escarneço de tudo e blasfemo a fingir, deixaram passar; mas onde concluí disso tudo a necessidade da fé e de Cristo, proibiram […]»
- Lisa, minha amiga, a culpa foi minha… desculpa-me – comecei, mas os seus dedos apertaram-me as mãos com tanta força que eu percebi que estava a dizer asneiras e calei-me. - Toma, Lisa, a minha morada. Vai ver-me. - Vou… – murmurou numa voz decidida, sempre de cabeça baixa. - E agora vou-me embora, adeus… até breve.
Havia muito que sentira ter-lhe revirado a alma, ter-lhe literalmente quebrado o coração, e quando mais me ia convencendo disso, tanto mais depressa e com mais força procurava atingir o meu objectivo. Era o jogo, o jogo que me arrastava…
Depois morres, amortalham-te à pressa, um qualquer, refilando – não há tempo! –, ninguém para te benzer, ninguém mesmo para soltar um pequeno suspiro por ti, depressa que se faz tarde. Compram-te um caixão barato, tiram-te da cave, como tiraram de manhã essa desgraçada, fazem o teu banquete de luto numa taberna. Na campa rasa – a lama, a sujidade, essa neve líquida; para quê fazer cerimónias? «Toca a baixá-la, Vânia; lá vai a má sina dela – de pernas para o ar aqui também, a grande porca. Mas encurta-me essas cordas rapaz» «Estão bem assim.» «Mas como é que estão bem assim? Não vês que ela está de lado? É um ser humano, ao fim e ao cabo! E depois, que se amole! Vai, deita a terra.» Os coveiros não vão querer zangar-se por tua causa.
Não penseis que, frente ao oficial, eu tenha sido cobarde por cobardia; do fundo do coração, eu nunca fui cobarde, mesmo que, em flagrante, sempre o tenha sido, mas – nada de risotas por enquanto –, tenho uma explicação; eu tenho uma explicação para tudo, podeis ter a certeza. Ah, se ao menos esse oficial fosse daqueles que aceitam bater-se em duelo!

A ciência ensinará ao homem e ser-lhe-á muito mais fácil sobreviver

Mas, ainda assim, tendes toda a certeza de que o homem se habituará infalivelmente quando desaparecerem por completo alguns hábitos velhos e maus e quando o senso comum e a ciência reeducarem por completo e orientarem por norma a natureza humana. Tendes a certeza de que, então, o homem também deixará de enganar-se voluntariamente e, por assim dizer, não desejará naturalmente desunir a sua vontade dos seus interesses normais. Mais ainda: então, dizem os senhores, a própria ciência ensinará ao homem (embora, a meu ver, isso seja um luxo) que, na realidade, ele não tem vontade nem capricho, nem os teve nunca, e mais não é do que uma espécie de tecla de piano ou pistão do órgão; e que além disso, há no mundo leis da natureza, logo, tudo o que o homem faz não é feito por sua vontade, mas espontaneamente, pelas leis da natureza. Por conseguinte, basta descobrir essas leis da natureza, e o homem nem responsável será pelos seus procedimentos, e ser-lhe-á muito mais fácil sobreviver.