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A mostrar mensagens com a etiqueta *Autor - Haruki Murakami

Palavra «coração» em japonês

Em japonês, a palavra «coração» tem um significado mais amplo, abarcando não só os sentimentos como as áreas do conhecimento e a vontade, incluindo assim conceitos como «pensamento», «mente», «alma» e «espírito». (Nota das Tradutoras)  O Impiedoso País das Maravilhas e o Fim do Mundo [Sekai no owari to hādo-boirudo wandārando] Página 88  Haruki Murakami  1985 dC Editora: Casa das Letras

Escolher um carro

O meu interlocutor, um homem de meia-idade, foi buscar um catálogo, a fim de me permitir escolher o modelo, mas a última coisa que me estava a apetecer era consultar catálogos, por isso tratei de lhe explicar que precisava de um carro para quando andasse às compras. Não planeava utilizá-lo na autoestrada, nem para levar a namorada a passear. Não precisava de uma viatura com um motor potente, nem com ar condicionado, rádio, tecto de abrir ou pneus topo de gama. Disse-lhe mais: queria um modelo pequeno, que gastasse pouco e não libertasse muito fumo pelo tubo de escape, que não fosse demasiado ruidoso e não me deixasse ficar no meio da estrada. No que dizia respeito à cor, caso tivessem algum azul-marinho, seria perfeito. O vendedor propôs-me um carro utilitário, amarelo, de fabrico japonês. A cor não me entusiasmava por aí além; contudo, assim que o experimentei, percebi logo que estava na presença de uma viatura fiável e que andava bem. Além disso, gostei do design, inspirado em linha...

Escolher um sofá

(...) O sofá é muito confortável, nem demasiado mole, nem demasiado duro. Além do mais, a almofada adapta-se na perfeição à minha cabeça. Habituado que estou a trabalhar em qualquer lugar, sei do que falo quando digo que nem sempre é fácil encontrar um sofá cómodo onde valha a pena repousar o corpinho quando chega a hora de passar pelas brasas. Os sofás, na sua maioria, são comprados ao acaso, sem qualquer critério, revelando-se, até mesmo no caso dos mais luxuosos, uma autêntica decepção assim que a pessoa experimenta deitar-se em cima deles. Isto para dizer que poucos são os que realmente valem a pena. Não compreendo como é que, na hora de comprar um sofá, as pessoas podem dar-se ao luxo de ser tão pouco exigentes. Defendo a teoria – ainda que tal possa não passar de um proconceito da minha parte – de que a escolha de um sofá diz muito acerca do seu proprietário. Um sofá constitui, à sua maneira, um mundo compacto e inviolável. Isso, porém, é uma coisa que só aqueles que cresceram c...
Um dia, deitado num quarto de hotel, em Paris, estava entretido a ler o International Herald Tribune quando a minha atenção foi atraída por um artigo especializado sobre a maratona. Havia uma série de entrevistas com vários maratonistas conhecidos, a quem era perguntado se tinham algum “mantra” especial que recitassem mentalmente durante a corrida, a fim de manterem o estímulo. «Ora aí está uma questão interessante», pensei eu. Impressionou-me, acima de tudo, a quantidade de coisas diferentes que passavam pela cabeça de todos aqueles desportistas enquanto corriam os 42,195 quilómetros do trajecto. Isso mostrava até que ponto uma maratona é, de facto, uma prova dura. Sem “mantras” que possam ser repetidos até à exaustão, os corredores arriscam-se a não aguentar o desgaste. Havia um participante que repetia uma frase ensinada pelo irmão mais velho, também corredor de fundo, e que lhe tinha dado que pensar desde que começara a correr: «A dor é inevitável, mas o sofrimento é uma opção....