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A Pergunta

O homem desce a avenida nocturna. Empunha um espada numa mão e leva o outro braço caído junto ao corpo. As luzes dos candeeiros reflectem-se fugazmente no metal da lâmina e tornam em espelhos as poças no chão alcatroado. O homem está cansado de não conseguir dormir. Na sua direcção vem uma rapariga envolvida em trapos e de cabeça coberta com um lenço andrajoso. É de madrugada e os dois são os únicos na avenida. Quando eles se cruzarem, ela vai notar a espada e depois vai notar que a espada está coberta de algo que parece sangue e pedaços de carne. E só quando ele a interpelar e lhe perguntar "Para onde foi o meu deus? Porque não me pode perdoar e voltar a receber?" ela notará que aquele homem enorme não é um homem mas sim um anjo, cujas asas se abrem lentamente sobre si. Da resposta que ela der virá o seu destino, que pode muito bem ser o de corpo despedaçado, como os que ficaram espalhados por ele nos passeios e becos da cidade nas horas que passaram desde que o Sol se pôs. ...

Os Olhos

Os Olhos Arrancavam-lhe as unhas, davam-lhe murros na cabeça, batiam-lhe com barras de ferro nas pernas, queimavam-lhe os testículos com cigarros, não o deixavam dormir há anos e então ele gritou "Pai, porque me abandonaste?", mas ele não era divino nem homem, por isso, sendo eterno, sofreu e deu urros até ao fim, até que um homem pegou na sua cabeça e, agarrando-lhe na nuca, esmagou a sua cara contra as paredes de pedras aguçadas, uma, duas, trinta vezes. A seguir já não gritou mais pela boca, tendo passado a gritar com os olhos, agora, para sempre, muito abertos como os de um cavalo enquanto é chicoteado até à morte. Blog: Transmissão Especial Autor: João Leal 2005 dC

O Velho Amado

Sentado na cadeira, olhando a Praça, ele lembra-se de quando era jovem. Nessa altura, o corpo ainda não o havia desprezado e calcorreava as montanhas em longas caminhadas de meditação. Como se sentia satisfeito com a sua força! Os seus braços eram capazes de erguer os troncos e de cavar a terra. Também o Inverno não lhe pesava como agora, em que tem de estar resguardado de tudo sob pena de que a morte lhe toque. Olha as pessoas que esperam que assome à janela, acenando. Sabe que um gesto e um sorriso seus são momentos inesquecíveis para aqueles que viajam tantos quilómetros só para o verem. Contarão aos filhos e aos netos e guardarão a sua imagem como uma esperança para depois da vida, como uma das coisas mais importantes que lhes aconteceu. Está sentado e a sua cabeça pende para cima do ombro. A baba cai-lhe do canto da boca, As suas mãos estão descontroladas e tremem além da sua vontade. Os pensamentos estão baralhados. É um prisioneiro de milhões de homens, do seu corpo e da deusa q...

O Anão

Mancava. A perna esquerda era mais curta da direita. O cabelo amarelo escuro, desgrenhado e eriçado. O seu corpo ondulante, em permanente desequilíbrio. Assobiava o anão enquanto passava pelo beco mais escuro da cidade. Da jaqueta verde pendia um relógio e, num dos bolso do casaco demasiado largo a dar-lhe pelos joelhos , podia-se adivinhar o volume de um livro ou caderno. A noite já ia alta e ele disse para si próprio que tinha de se despachar. Bateu a uma porta no local mais escuro, por detrás de um amontoado de caixotes do lixo. Um anjo abriu a porta e chamou outro com um rosnido. Seguiram os três e entraram na avenida onde os carros e os néons traziam uma espécie de vida à madrugada. Os anjos enormes, com os olhos irradiando uma luz vermelha, rosnavam baixinho, inquietos ao passarem pelas prostitutas e pregadores de esquina pregando o apocalipse iminente. O anão seguia, mancando, sempre a assobiar. Entraram num prédio de aspecto miserável onde se podia ler 'Hotel Bossa Nov...