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A mostrar mensagens com a etiqueta *Obra - António Sousa Homem
Reconheço que é necessário mudar coisas no mundo – mas sei, pela história dos últimos duzentos ou trezentos anos, que as mudanças bruscas e as revoluções não apenas relembram a triste condição do género humano como se limitaram a substituir uma tirania por outra. E não sou um escolho no meio do “progresso moral” da sociedade; não me incomoda o casamento entre homossexuais, apenas peço que não se transforme em regra essa novidade. Um conservador encolhe os ombros. Vê o movimento dos astros e considera, com largueza, que há coisas que não pode mudar e pronto.
O mundo de hoje não crê em divindades que não sejam obra sua. O livro pertence a um mundo antes deste. É uma velharia num mundo entregue a adolescentes que nem da adolescência conservam as borbulhas e as espinhas no rosto.
Acontece que a "sensibilidade" e o lado "emocional" da vida são coisas para consumo moderado, como os medicamentos, e que a sua prescrição deve ser consagrada para uso íntimo e estritamente pessoal. Ao ver as montanhas do meu Minho que espera o Inverno, ou a praia de Moledo que escurece com a visão da ínsua, eu não começo a cismar. Simplesmente, fico com frio. E agasalho-me.
Digo-o sem ironia: sentar um português numa biblioteca rodeado de livros, numa varanda rodeado de paisagem, numa paisagem rodeado de natureza – é condená-lo ao cativeiro. Se vê uma pequena e pacata vila do Minho, como Âncora ou Cerveira, quer enchê-la de actividade. Se tem um jardim no meio de uma cidade, quer preenchê-lo de barraquinhas de feira e de desfiles. Não lhes bastam nem a beleza das coisas, nem a tranquilidade dos elementos (por oposição às coisas que não o são); é preciso contornar essa 'falta de interesse'.
“Subitamente, imaginei fiscais ou vigilantes (modernos e tontinhos, pagos por todos nós, mas convencidos de que existe ou de que existirá um mundo perfeito) entrando pelo meu jardim e multando os diospiros por estarem maduros demais (como Dona Elaine os prefere para os lanches de sábado) ou endireitando os ramos dos hibiscos, empurrados pelo vento.”
Portugal vive empenhado em pagar direitos de autor a cavalheiros que escrevem uns livros vagamente parecidos com romances, e a senhoras que – se vivessem noutra época – resolveriam o problema com uma ida mais frequente ao confessionário. A minha sobrinha Maria Luísa, a quem contei o achado, pensa que sou um machista empedernido e uma alma penada sem sensibilidade. Ela comove-se facilmente com poetas que desarrumam o dicionário e são considerados humanistas e homens de letras; (...)
“Acontece que a "sensibilidade" e o lado "emocional" da vida são coisas para consumo moderado, como os medicamentos, e que a sua prescrição deve ser consagrada para uso íntimo e estritamente pessoal. Ao ver as montanhas do meu Minho que espera o Inverno, ou a praia de Moledo que escurece com a visão da ínsua, eu não começo a cismar. Simplesmente, fico com frio. E agasalho-me.”
A minha sobrinha Maria Luísa raramente nada no mar de Moledo. Mas aprecia bastante que os filhos esbracejem na crista das ondas, verificando por si próprios o que significa um "banho frio", que "faz bem à saúde". Ela justifica-se com os meus argumentos, mas escusa-se a adoptá-los para si própria. As jovens mães de hoje compreendem a necessidade da disciplina e da contrariedade – mas já vão atrasadas para tomarem o caminho da felicidade.