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Mensagens

A mostrar mensagens com a etiqueta *Autor - António Vitorino de Almeida

Do mal o menos, animou-se um pouco a conversa…

Infelizmente, o movimento instintivo derrubou um copo de vinho tinto por cima do aparelho de uma senhora de porte severo que se encontrava à minha direita e que, depois de soltar um grito agudo, lembrando o piar agoirento de algumas aves noturnas, começou a murmurar imprecações de teor algo insultuoso, enquanto procurava, desesperada, na carteira um lenço com que pudesse minorar os estragos provocados no pequeno engenho.  - Tem aqui o meu guardanapo - decidi mostrar-lhe a minha solicitude, a despeito dos lamentáveis impropérios que ciciava. - São coisas que acontecem quando menos se desejam… E de novo o Mendonça: - São coisas que não deviam acontecer, pois têm efeitos irreparáveis, sobretudo nesses modelos… Basta um pingo de suor, uma lágrima, um pouco de baba, para deixarem de funcionar! - Pois eu encomendei há dias um que pode levar-se para a banheira ou até para a piscina! - Elucidou o corcunda. - Ah, sim?! Mas que maravilha… e que prático! Era a voz da minha m...

Um jantar numa atmosfera nada agradável

Quanto ao jantar, consistiu numa refeição gastronomicamente correcta, mas devo dizer que decorreu numa atmosfera pouco ou nada agradável.  O silêncio devia-se ao facto perturbador de que quase todas aquelas pessoas tinham junto do respectivo prato um pequeno aparelho luminoso no qual deslizavam um dedo ou, no caso de uma senhora velhinha que devia ser avó do Mendonça, carregando um pauzinho preto, uma espécie de palito mais grosso e alongado. Percebi que se tratava de um objecto já em desuso, apropriado à idade da vetusta utente, cuja mão tremia enervantemente, sendo talvez por isso que lhe tinham fornecido o pauzinho, uma espécie de muleta electrónica. Desviei o olhar da macróbia numa louvável tentativa de iniciar qualquer conversação interessante, começando por um elogio à sopa de agriões, uma tradição muito portuguesa, mas ninguém me prestou atenção, pois verifiquei que estavam todos a ler e a escrever, mesmo enquanto levavam a colher à boca, uma série de frases curtas...

Coexistência com o inaceitável

Na opinião do crítico, estava efectivamente implícito! E voltou a elogiar a pujança criativa do realizador, a beleza das imagens, lentas, impregnadas de inquietação poética, misteriosas como os arpejos de uma harpa sem cordas; a rudeza da montagem que talvez se pudesse definir como neo-nouvelle vague ; e sobretudo a parcimónia do diálogo, admiravelmente reduzido ao essencial, atingindo o silêncio absoluto no violento clímax emocional que se despoletava na sequência da decapitação do sedutor, à porta do apartamente de Picadilly Circus: um choque inesperado e brutal de duas classes e duas culturas! - Mas eu não vi nada disso... - balbuciei, já um pouco aterrado com a minha eventual deficiência na observação de todas essas subtilezas... - É o que está im... im... implícito na sequência do u... u... urinol! - finalizou o crítico. Acatei com artificioso respeito a argumentação técnica do especialista, conquanto continuasse a achar, de mim para mim, que se tratava de um filme hediondo...

Diferenças entre as religiões inglesa e portuguesa

Foi com viva emoção que assisti pela primeira vez a uma cerimónia religiosa na abadia de Westminster. Encantou-me a distinção natural, a sóbria elegância do vestuário, a dignidade daqueles fiéis que, de pé, afinadíssimos, entoavam: «Aleluia! Aleluia!...», e não pude evitar uma expressão escarninha, mista de ironia, sarcasmo e até algum nojo, ao pensar nos formigames de andrajos, de pústulas, de aleijões, que se arrastam pelas estradas lusitanas, mesclando-se em massas híbridas e descomunais de povaréu lamuriento, conclaves mundiais de moléstias e pedinchice, no charnequenho lugar da Cova da Iria!... Nem a honrosa presença de altíssimos dignatários da diplomacia mundial, de governantes ilustres, de prestigiadas individualidades da vida civil e militar, das mais imponentes e paramentadas figuras da hierarquia clerical, do próprio Papa, que também já por lá andou a suportar, com assinalável estoicismo, capaz de se infectar, a proximidade promíscua do magote insalubre, a escutar e mesmo ...
Não saberia explicar porquê, mas sentia-me novamente um homem forte, recuperado das minhas depressões, pronto a enfrentar a vida e os seus problemas com aquele vigor que sempre me caracterizou. Junto ao tronco de uma árvore, urinei sobre a neve: derreti-a toda!