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A mostrar mensagens com a etiqueta 2008 dC

A verdadeira catástrofe de Babel

Daí que haja uma perda verdadeiramente irreparável, uma diminuição dos possíveis humanos, quando uma língua morre. Com a sua morte, não é só uma memória de gerações única e vital - os tempos do passado ou os seus equivalentes -, não é só uma paisagem, realista ou mítica, ou um calendário que se apaga, mas também as suas configurações de um futuro concebível. Uma janela fecha-se sobre o nada. A extinção das línguas que hoje testemunhamos - todos os anos dúzias delas calam-se sem remédio - é precisamente homóloga da devastação da fauna e da flora, mas em termos ainda mais definitivos. As árvores podem ser plantadas de novo, o ADN das espécies animais pode, pelo menos em parte, ser conservado e talvez reativado. Uma língua morta continua morta ou sobrevive como relíquia pedagógica no jardim zoológico das universidades. O resultado é um empobrecimento drástico na ecologia do psiquismo humano. A verdadeira catástrofe de Babel não é a divisão das línguas: é a redução do discurso humano a mei...

A multiplicidade de milhares de línguas mutuamente ininteligíveis não é uma maldição - 2

O espaço, que é uma construção social não menos do que neurofisiológica, é linguísticamente cartografado e inflectido. As línguas habitam-no diferentemente. Através da sua «cartografia» e da nomeação das coisas, as comunidades linguísticas em causa sublinham ou elidem contornos e traços variáveis. O espectro das distinções precisas entre diferentes tonalidades e texturas da neve nas línguas de esquimós, o rol das cores que diferenciam as pelagens dos cavalos no falar dos gaúchos argentinos, são dois exemplos paradigmáticos. Os dialetos da Grã-Bretanha produzem mais do que cem palavras e expressões que designam os esquerdinos. A equação entre a mão esquerda (sinistra) e o mal atravessa as culturas mediterrânicas. A antropologia estrutural ensinou-nos que os conceitos e as identificações que se referem às relações de parentesco são inelutavelmente linguísticos. Até noções tão fundamentais como parentesco ou incesto dependem das taxinomias, de uma codificação lexical e sintática inseparáv...

A multiplicidade de milhares de línguas mutuamente ininteligíveis não é uma maldição - 1

Sustentei em After Babe l (1975) que a multiplicidade de milhares de línguas mutuamente ininteligíveis outrora faladas nesta Terra - e das quais muitas desapareceram hoje, ou se encontram em vias de extinção - não é, como as mitologias e alegorias do desastre entendem, uma maldição. São, pelo contrário, uma bênção de um motivo de regozijo. Cada uma, entre todas as línguas, é uma janela que abre sobre ser, sobre a criação. Uma janela como nenhuma outra. Não há línguas «menores», por reduzido que seja o seu quadro demográfico ou o seu meio. Certas línguas faladas no Deserto do Calahari traçam ramificações do conjuntivo mais numerosas e mais sutis do que as que encontramos em Aristóteles. As gramáticas hopi possuem cambiantes temporais e de movimento que se conjugam melhor com a física da relatividade e da indecidibilidade do que os nossos próprios recursos indo-europeus e anglo-saxónicos. Graças às raízes e ao desenvolvimento culturais e psicológicos incorporados no seu interior - raízes...

Todos nós somos hóspedes da vida

A própria Diáspora vive ameaçada. Referi-me às perdas constantes causadas pela assimilação e pelos casamentos mistos. Mas creio intensamente que para o judeu fora de Israel, para uma certa proporção de judeus fora de Israel, a sobrevivência se apresenta como uma missão. Em vários pontos fundamentais da lei mosaica e da exegese talmúdica, o judeu é ensinado a dar as boas-vindas ao estrangeiro. Nunca deverá esquecer que ele próprio foi um estrangeiro, um estranho na terra do Egipto. Que também ele foi um sem eira nem beira e um refugiado numa terra que o recebia sem hospitalidade. A minha convicção é que o judeu da Diáspora deve sobreviver a fim de ser um hóspede entre os homens . Todos nós somos hóspedes da vida, lançados nela independentemente da nossa inteligência e da nossa vontade. Hoje estamos a tomar sombriamente consciência de que somos os hóspedes de um planeta vandalizado. A menos que aprendamos a ser hóspedes uns dos outros, a humanidade sucumbirá na destruição mútua e no ódio...

Transformou os judeus em homens comuns

Essencialmente sem poder durante cerca de dois mil anos, os judeus no exílio, nos ghettos , rodeados pela tolerância equívoca das sociedades gentias, não estavam em posição de perseguir outros seres humanos. Não podiam, fosse por que justa causa fosse, torturar, humilhar ou deportar outros homens e mulheres. Tal foi a nobreza singular dos judeus, uma nobreza que me parece muito maior do que qualquer outra. Para mim é uma verdade axiomática que seja quem for que torture outro ser humano, ainda que sob a pressão da necessidade militar e política, seja quem for que sistematicamente humilhe ou deixe sem o seu lar outro homem, mulher ou criança, degrada o núcleo essencial da sua própria humanidade . O imperativo da sobrevivência, as ambiguidades éticas da instalação no que era a Palestina (por meio de que sofística um israelita não-crente e não-praticante se autoriza a invocar a promessa de Deus a Abraão?) forçaram Israel a torturar, a humilhar, a expropriar - ainda que muitas vezes em meno...

Os judeus no Estado de Israel

E, contudo, descubro-me a perguntar de novo, movido por um carácter de urgência crescente, o que poderá tornar plausível, o que poderá justificar o facto decididamente fanático que suscitou a interrogação inicial deste capítulo: porque continuam a existir judeus? O Estado de Israel fornece uma resposta triunfante, e por vezes triunfalista. Uma fénix renasce das cinzas, mas com garras de aço. O seu nascimento, a sua sobrevivência perante um cerco de inimigos mortais são um milagre. Do mesmo modo que o desbravamento da terra, pedra a pedra, a fundação de uma comunidade moderna, democrática e com padrões de instrução elevados, a sua capacidade de integrar hostes sucessivas de imigrantes. Cada judeu tem hoje na terra um lugar de refúgio do assegurado. Tudo isto são prodígios sem paralelo efectivo em toda a história. Israel assinala um milagre ao mesmo tempo antigo e sem precedentes no destino dos judeus, e nas suas possibilidades de sobrevivência. Mas, para existir, Israel teve de regenera...

Pressão de grupo na condenação de armas bacteriológicas

Entrado de fresco na redacção de The Economist , em Londres, vira-me encarregado de cobrir uma sessão pública nos cavernosos paços municipais de St. Pancras. A sessão era um comício de protesto contra a intervenção anglo-americana na Guerra da Coreia. O recinto estava a apinhado. O presidente da mesa, que era um conhecido publicista de esquerda e companheiro de jornada apresentou Joseph Needham . E levantou-se então uma figura de cabelos brancos, um tanto leonina. Apresentou-se como titular da cátedra William Dunn de Microbiologia na Universidade de Cambridge como testemunha directa do que estava a passar-se tanto na China como na Coreia do Norte. Insistiu no seu compromisso de certo modo sagrado de cientista de destaque internacional com a verificação empírica e experimental dos factos. A seguir mostrou ao auditório um cartucho de projéctil vazio. Declarou ao auditório que aquele objeto sinistro era uma prova irrefutável do uso de armas bacteriológicas pela artilharia americana. Os e...

Sexualidade segundo um guião

Até mesmo por si só, uma palavra, um aglomerado de sons podem desencadear uma excitação sufocante (o célebre faire catleya de Proust). A imagem desdobra-se no interior do som. A masturbação tem, assim, a sua gramática muda. Dentro desta privacidade, contudo, nos recessos do mais íntimo, intervém instâncias públicas. O vocabulário erótico e sexual dos media , a gíria amorosa do cinema e da televisão, as vagas declaratórias da publicidade e no mercado de massa, estilizam, moldam segundo convenções o ritmo, o andamento, as componentes discursivas de milhões de parceiros sexuais. No mundo desenvolvido, com a sua pornografia corrosiva, são inumeráveis os amantes, particularmente entre os jovens, que «programam» o seu modo de fazer amor, façam-no conscientemente ou não, em termos semióticos pré-estabelecidos. O que deveria ser o mais espontaneamente anárquico, o mais individualmente revelador e inventivo dos encontros humanos, seguem em muito larga medida um guião . A última liberdade, a au...

A Idade Média, conhecida como Idade das Trevas

A Idade Média, conhecida como "Idade das Trevas", foi uma das épocas de maior de-senvolvimento e criatividade técnica, artística e institucional da História. (...) todas as ditaduras exploram o povo para criar obras grandiosas à magnificência dos tiranos. Foi assim Roma e os reinos orientais. Destroçado o despotismo com a queda do império, a Cristandade gerou um surto de criatividade prática, pois as populações não temiam a pilhagem dos ditadores. Assim as realizações da Idade Média resultaram em melhorias da vida das aldeias, não em monumentos que os renascentistas poderiam admirar. Por isso esses intelectuais posteriores, nos seus gabinetes, desprezaram uma época sem mausoléus, enquanto louvavam as tiranias de que só conheciam a arquitectura e erudição. Os avanços conseguidos na chamada Idade das Trevas são impressionantes, todos dirigidos a melhorar a vida concreta (op. cit. c. II): ferraduras, arado, óculos, aquacultura, afolhamento trienal, chaminé, rel...
Unlike most humans, however, individual animals generally cannot be classified as gay or straight: an animal that engages in a same-sex flirtation or partnership does not necessarily shun heterosexual encounters. Rather many species seem to have ingrained homosexual tendencies that are a regular part of their society. That is, there are probably no strictly gay critters, just bisexual ones. “Animals don’t do sexual identity. They just do sex,” says sociologist Eric Anderson of the University of Bath in England. (...) These observations suggest to some that bisexuality is a natural state among animals, perhaps Homo sapiens included, despite the sexual-orientation boundaries most people take for granted. “[In humans] the categories of gay and straight are socially constructed,” Anderson says. (...) What is more, homosexuality among some species, including penguins, appears to be far more common in captivity than in the wild. Captivity, scientists say, may bring out gay behav...
Eu sou filho, tanto como esses rapazes, de uma cultura imensamente marcada pela língua inglesa - e gosto muito. Mas é suposto haver uma certa distância entre aquilo que nos entra pelos ouvidos e aquilo que nos sai pela boca. É certo que há casos de portugueses a tocar com americanos, formando bandas transatlânticas, mas essas são excepções: o resto é mesmo pessoal da Brandoa a fingir que é de Bristol. E isso é bem mais grave, e mais sintomático da falência do português, do que o abate das consoantes mudas. Porque, das duas uma: ou se reduz uma canção à sua melodia, o que já por si diz muito da decadência das palavras, ou então não se percebe como é que um artista português, para se expressar publicamente, deixa de fora a língua que usa na rua, nas conversas de amigos, nas declarações de amor. Não se trata aqui de "proteger" o português ou de resistir a invasões culturais, que são argumentos do tempo da Outra Senhora. Trata-se, isso sim, de acreditar na arte como uma exte...
O protagonista chama-se Michael Beard, um cientista que aspira a salvar o mundo. O ângulo para tratar esta questão foi encontrado recentemente por McEwan, apesar de há muito andar a pensar em escrever sobre o tema. Faltava-lhe o "como?" Chegou-lhe em 2005, ao integrar uma expedição de artistas e cientistas que passaram algumas semanas a a bordo de um navio, perto do Pólo Norte, a discutir matérias ambientais. "Enquanto estava a bordo apercebi-me rapidamente de que o quarto onde todos nós mudávamos de roupa e deixávamos os nossos sapatos depressa se tornou um cena de caos social", disse o escritor - citado pelo The Guardian - descrevendo como os eminentes cientistas que falavam seriamente sobre o futuro da humanidade eram capazes de roubar os sapatos uns dos outros...
“I need another place Will there be peace? I need another world This one's nearly gone Still have too many dreams Never seen the light I need another world A place where I can go I'm gonna miss the sea I'm gonna miss the snow I'm gonna miss the bees I'll miss the things that grow I'm gonna miss the trees I'm gonna miss the sound I'll miss the animals I'm gonna miss you all I'm gonna miss the birds Singing all this songs Been kissing this so long Another world”
A minha sobrinha Maria Luísa raramente nada no mar de Moledo. Mas aprecia bastante que os filhos esbracejem na crista das ondas, verificando por si próprios o que significa um "banho frio", que "faz bem à saúde". Ela justifica-se com os meus argumentos, mas escusa-se a adoptá-los para si própria. As jovens mães de hoje compreendem a necessidade da disciplina e da contrariedade – mas já vão atrasadas para tomarem o caminho da felicidade.

Amendoíns

"[...] acredito que a crise do ano que vem seja violenta. Mas creio que, se uma crise quiser mesmo impressionar os portugueses, vai ter de trabalhar a sério. Um crescimento zero, para nós, é amendoins. Pequenas recessões comem os portugueses ao pequeno-almoço. 2009 só assusta esses maricas da Europa que têm andado a crescer acima dos 7 por cento. Quem nunca foi além dos 2%, não está preocupado." Ricardo Araújo Pereira, in Revista Visão, 11 de Dezembro de 2008
Hoje, como escreve Toby Young em recente ensaio para a revista "Prospect", a era meritocrática foi enterrada. Depois do berço e do mérito, chegámos à era da celebridade. Podemos nascer no berço certo; podemos até subir a corda social com os nossos próprios pulsos, provando o nosso valor intrínseco; mas se não somos "famosos", ou seja, se não alimentamos o voyeurismo coletivo em que vivemos, não somos rigorosamente nada. Vivemos em sociedades mediatizadas e massificadas. E numa sociedade mediatizada e massificada, é o anonimato, e não a pobreza ou a incompetência, que pesa profundamente sobre a espécie.
Vivemos numa era, em todas as artes, em que só se faz arte sobre a arte. A humanidade já explorou até à exaustão as possibilidades de todas as formas artísticas. Todas as artes estão formalmente esgotadas. Para onde vamos agora? Temos que regressar à fonte que é a vida. Uma obra de arte não é uma metáfora sobre outra metáfora. É uma metáfora sobre a vida. A vida é difícil de expressar. Fazer arte sobre a arte é mais fácil. Mas temos que voltar ao concreto da vida, à nossa essência humana. Não é sexy, não é vistoso, não é cool, mas é tudo o que tivemos desde o início, e é tudo o que teremos enquanto seres humanos: as nossas vidas miseráveis. E quanto mais sentido fizermos delas e de nós, melhor. Acho que a nova geração está a ficar farta de tretas e a perceber que o espectáculo da má música, da má literatura, da má pintura, do mau cinema, é banal, superficial, e uma perda de tempo.