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A mostrar mensagens com a etiqueta *Obra - O Esvaziamento de Cristo
(…) quando nós lemos as Escrituras, a maior parte das vezes apenas as lemos para nos informarmos ou instruirmos, para nos sentirmos edificados ou inspirados, ou – o que não é raro – tentando encontrar uma citação que apoie as nossas próprias ideias. O Livro Sagrado torna-se assim um livro entre outros livros, sendo muitas vezes utilizado só dessa forma, assim como Jesus se tornou um ser humano entre outros seres humanos, sendo muitas vezes tratado apenas como tal.
A disciplina da vida espiritual, porém, não tem nada a ver com a disciplina do atletismo, do estudo académico ou da formação profissional, em que se alcança uma boa forma física, se adquirem novos conhecimentos ou se aprende a dominar uma nova aptidão. A disciplina do discípulo cristão não consiste em dominar nada, mas antes em deixar-se dominar pelo Espírito. A verdadeira disciplina cristã é o esforço humano de criar o espaço em que o Espírito de Cristo nos pode inserir na sua linhagem.
  Nós não somos chamados a tocar os pontos fortes das pessoas, mas na sua consciência da própria dor, não daquilo que elas têm sob controlo, mas ali onde se sentem amedrontadas e inseguras, não na sua autoconfiança e assertividade, mas naquilo em que se atrevem a duvidar e a levantar questões difíceis; em suma, não onde elas vivem na ilusão da imortalidade, mas naquilo em que estão dispostas a confrontar-se com a sua humanidade decaída, frágil e mortal. Como seguidores de Cristo, somos enviados ao mundo nus, vulneráveis e fracos, podendo assim alcançar os outros homens, nossos irmãos, na sua dor e agonia, e revelar-lhes o poder do amor de Deus, transmitindo-lhes o poder do Espírito de Deus.
No centro da nossa fé cristã encontra-se o mistério que Deus escolheu para revelar o mistério divino mediante a submissão sem reservas ao impulso descendente. Deus não só escolheu um povo insignificante para transmitir a Palavra da salvação ao longo dos séculos, não só escolheu um pequeno resto desse povo para cumprir as promessas divinas, não só escolheu uma humilde jovem de uma cidade desconhecida da Galileia para a tornar o templo da Palavra, mas também decidiu manifestar a plenitude do amor divino num homem cuja vida desembocou numa morte humilhante fora das muralhas da cidade.
Nós nunca chegaremos a conhecer a nossa verdadeira vocação na vida, a menos que estejamos dispostos a aceitar o apelo radical que o Evangelho nos faz. Ao longo dos últimos vinte séculos, muitos cristãos ouviram este apelo e responderam-lhe num espírito de verdadeira obediência. Uns tornaram-se eremitas do deserto, ao passo que outros se tornaram servos na cidade. Uns partiram para terras distantes como pregadores, professores e médicos, ao passo que outros ficaram onde estavam e formaram a sua família, trabalhando fielmente. Uns tornaram-se famosos, enquanto que outros continuaram a ser desconhecidos. Embora as suas respostas revelem uma diversidade extraordinária, todos estes cristãos aceitaram o apelo de seguir a Cristo sem condescendências.