sábado, 18 de novembro de 2017

Velhas histórias que tornam o herói vulgar e a história extraordinária

The view that fairy tales cannot really have happened, though crazy, is common. The man I speak of disbelieved in fairy tales in an even more amazing and perverted sense. He actually thought that fairy tales ought not to be told to children. That is (like a belief in slavery or annexation) one of those intellectual errors which lie very near to ordinary mortal sins. There are some refusals which, though they may be done what is called conscientiously, yet carry so much of their whole horror in the very act of them, that a man must in doing them not only harden but slightly corrupt his heart… 

… Folk-lore means that the soul is sane, but that the universe is wild and full of marvels. Realism means that the world is dull and full of routine, but that the soul is sick and screaming. The problem of the fairy tale is—what will a healthy man do with a fantastic world? The problem of the modern novel is—what will a madman do with a dull world? In the fairy tales the cosmos goes mad; but the hero does not go mad. In the modern novels the hero is mad before the book begins, and suffers from the harsh steadiness and cruel sanity of the cosmos. In the excellent tale of “The Dragon’s Grandmother,” in all the other tales of Grimm, it is assumed that the young man setting out on his travels will have all substantial truths in him; that he will be brave, full of faith, reasonable, that he will respect his parents, keep his word, rescue one kind of people, defy another kind, ‘parcere subjectis et debellare,’ etc. Then, having assumed this centre of sanity, the writer entertains himself by fancying what would happen if the whole world went mad all round it, if the sun turned green and the moon blue, if horses had six legs and giants had two heads. But your modern literature takes insanity as its centre. Therefore, it loses the interest even of insanity. 

 A lunatic is not startling to himself, because he is quite serious; that is what makes him a lunatic. A man who thinks he is a piece of glass is to himself as dull as a piece of glass. A man who thinks he is a chicken is to himself as common as a chicken. It is only sanity that can see even a wild poetry in insanity. Therefore, these wise old tales made the hero ordinary and the tale extraordinary.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

The Weight of Glory - 2

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Não devemos ficar atrapalhados quando descrentes dizem que esta promessa de recompensa torna a vida cristã numa vida mercenária. Existem diferentes tipos de recompensa. Há a recompensa que não tem nenhuma ligação natural com as coisas que fazes para a ganhar, e é bastante distinta dos desejos que deviam acompanhar essas coisas que fizeste. Dinheiro não é a recompensa natural do amor; é por isso que chamamos a um homem "mercenário" se ele casar com uma mulher apenas tendo em vista o seu dinheiro. Mas o casamento é a recompensa própria para um verdadeiro amante ("lover", "amador", pessoa que ama), e ele não é mercenário por o desejar. Um general que combata bem para conseguir um título nobiliárquico é mercenário; um general que combata pela vitória não é, sendo a victória a recompensa apropriada para o combate, tal como o casamento é a recompensa adequada para o amor. As recompensas apropriadas não estão meramente anexadas à actividade pela qual são conseguidas, mas são a própria actvidade em consumação. Há ainda um terceiro caso, que é mais complicado. Desfrutar de poesia Grega é certamente uma recompensa adequada, e não mercenária, para a aprendizagem do Grego; mas apenas aqueles que alcançaram o nível de desfrutar de poesia Grega podem dizer, a partir da sua experiência, que assim é. O miúdo da escola principiante em gramática Grega não pode antecipar o seu apreço amadurecido por Sófocles, da mesma maneira que um amante antecipa o casamento, ou que um general antecipa a victória. Ele tem de começar por trabalhar para tentar ter boas notas nos testes, ou para evitar castigos, ou para agradar aos pais ou, quando muito, na esperança de um bem futuro que no momento presente, ele não consegue imaginar ou desejar. A sua atitude, como tal, tem uma certa semelhança com a do mercenário; a recompensa que ele vai receber será, de facto, uma recompensa apropriada, mas ele não saberá disso até a receber. Claro, ele vai recebê-la gradualmente; o gozo surgirá por entre o mero frete, e ninguém conseguirá identificar o dia ou o a hora em que um cessou e o outro se iniciou. Mas será apenas à medida que se aproxima da recompensa que se tornará capaz de a desejar por seu próprio interesse; de facto, a capacidade de a desejar é em si mesma uma recompensa preliminar.

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The Weight of Glory

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

The Weight of Glory - 1

Se perguntássemos a vinte bons homens dos dias de hoje qual é que eles pensavam ser a mais elevada das virtudes, dezanove responderiam "altruísmo/abnegação" (em inglês, "unselfinshness", que se poderia traduzir directamente por "desegoísmo"). Mas se perguntássemos à maioria dos grandes cristãos de antigamente, responderiam "amor". Repararam no que aconteceu? Um termo negativo foi substituído por um positivo, e isto é de uma importância maior do que meramente filológica. O ideal negativo do "altruísmo" ("desegoísmo") transporta consigo a sugestão não de conseguir primariamente coisas boas para os outros, mas de prescindirmos delas para nós próprios, como se o importante fosse a nossa abstinência, e não a felicidade dos outros. Não penso que isto seja a virtude cristã do "amor". O Novo Testamento tem muito a dizer sobre auto-negação, mas não auto-negação como um fim em si mesmo. É-nos dito para negarmos a nós mesmos e que tomemos as nossas cruzes de modo a que possamos seguir Cristo; e quase todas as descrições do que iremos finalmente encontrar se o fizermos contêm um apelo ao desejo. Se espreitar na maioria das mentes modernas a noção de que desejar o nosso próprio bem e esperar sinceramente pelo seu usufruto é uma coisa má, deixem-me esclarecer-vos que esta noção infiltrou-se a partir de Kant e dos estóicos, e não faz parte da fé cristã. De facto, se considerarmos as promessas de recompensa descaradas e a natureza surpreendente das recompensas prometidas nos Evangelhos, pareceria que o Nosso Senhor acha que os nossos desejos são, não demasiado fortes, mas sim demasiado fracos. Somos criaturas desgovernadas/indecisas/irresolutas ("half-hearted", com coração assim-assim), entretidas com bebida, sexo e ambição quando nos é oferecida infinita alegria, como uma criança ignorante que prefere continuar a fazer tartes de lama num lamaçal, porque não consegue imaginar o que significa a possibilidade de um dia à beira-mar. Somos demasiado fáceis de satisfazer.

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The Weight of Glory

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Vendo no falso o verdadeiro e exigindo dos outros a mesma mentira

Comecei então a falar em voz alta e sem medo, apesar dos risos do mundo, porque, fosse como fosse, aqueles risos eram bondosos e não maldosos. Todas as minhas conversas decorriam nos serões, principalmente na companhia das senhoras, que gostavam muito de me ouvir e obrigavam também os homens a ouvir-me. Toda a gente se ria na minha cara: «Mas como é possível eu ser culpado por todos? Eu posso ser culpado, por exemplo, por si?» Eu respondia-lhes: «Como podem os senhores compreender isso se todo o mundo, desde há muito, tomou por outro caminho, vendo no falso o verdadeiro e exigindo dos outros a mesma mentira? Como vêem, eu procedi uma vez na vida com sinceridade e logo me tornei para todos uma espécie de maluquinho religioso: embora simpatizem comigo, não deixam de se rir de mim».

dados biográficos de Zóssima 

Volume I
página 363
Editorial Presença

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Prontos a derramar o nosso sangue pela honra sem nada saber sobre a honra

Passei muito tempo em São Petersburgo, na escola de cadetes, quase oito anos, e aquela nova educação adormeceu em mim muitas das sensações infantis, embora não me esquecesse de nada. Ganhei hábitos e mesmo opiniões novos que me transformaram numa criatura quase selvagem, cruel e absurda. Adquiri o brilho da cortesia e das maneiras mundanas, juntamente com a língua francesa, mas todos nós, incluindo eu, considerávamos os soldados que nos serviam na escola como animais. Aliás, eu era a este respeito o pior de todos, porque era o mais susceptível de todos os meus colegas. Quando acabámos o curso e nos tornámos oficiais estávamos prontos a derramar o nosso sangue pela honra do nosso regimento, mas nenhum de nós sabia nada sobre a verdadeira honra, nenhum de nós sabia o que isso significava e, se soubesse, rir-se-ia da honra. Quase nos orgulhávamos das nossas bebedeiras, fanfarronices e comportamentos desordeiros. Não diria que não prestávamos: toda aquela juventude era gente boa, mas que se portava mal, e eu em primeiro lugar.

dados biográficos de Zóssima

Volume I 
página 357
Editorial Presença

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Mentir a si próprio

O principal é o senhor não mentir a si próprio. Quem mente a si mesmo e ouve as suas próprias mentiras chega a um ponto tal que já não distingue qualquer verdade em si nem à sua volta, deixando por isso de respeitar a si mesmo e aos outros. Ora, sem respeito por todos, o senhor deixa de amar e, para se divertir e distrair, sem amor, entrega-se às paixões e às volúpias grosseiras, atinge um estádio animalesco nos seus vícios, e tudo isso provém de estar a mentir permanentemente a si próprio e aos outros. Quem mente a si mesmo também será o primeiro a ofender-se. É que, às vezes, é muito agradável ficar ofendido, não é verdade? A pessoa sabe bem que ninguém a ofendeu, que inventou a sua ofensa e que mentiu para enfeitá-la, que exagerou para criar todo o cenário, que se agarrou a uma palavrinha e fez de uma ervilha uma montanha... a própria pessoa sabe isso e, mesmo assim, apressa-se a ficar ofendida, a ficar ofendida até ao prazer, até sentir um grande deleite e, a partir daqui, chega até à verdadeira hostilidade... Levante-se do chão e sente-se, por favor, porque isso tudo são também gestos falsos.

disse Zóssima a Fiódor Pávlovitch

Volume I
página 62
Editorial Presença

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017



Change your heart
Look around you
Change your heart
It will astound you
I need your lovin'
Like the sunshine
Everybody's gotta learn sometime

Muda o teu coração
Olha à tua volta
Muda o teu coração
Vai surpreender-te
Eu preciso do teu amor
Como do brilho do sol
Toda a gente acaba por ter de aprender.