terça-feira, 31 de março de 2009

Ontem foi sábado e, como ficara combinado, a Maria veio a minha casa. Desejei-a intensamente, porque trazia um vestido às riscas brancas e encarnadas, e sandálias de couro.

segunda-feira, 30 de março de 2009

"Funeráis lindíssimos. É tão espectacular não haver paradoxo nesta expressão. Em pouco tempo, fui ou falaram-me de três ou quatro destes."
I'll keep it short and sweet - Family. Religion. Friendship. These are the three demons you must slay if you wish to succeed in business.

Mr. Burns
Hoje trabalhei muito, no escritório. O patrão foi amável. Perguntou-me se eu não estava muito cansado e quis saber a idade da mãe. Para não me enganar, respondi «Uns sessenta e tal anos», e, não sei porquê, ficou com um ar aliviado, com um ar de «assunto arrumado».

sexta-feira, 27 de março de 2009

I do not know how the gospel crossed seas to reach Mrs Pinto in distant Bolívia, the heart of South América, but i am thrilled by the fact that when this simple Bolivian migrant housewife crossed the sea to go to Germany she became a missionary.

quinta-feira, 26 de março de 2009

The British Humanist Association is currently running a campaign against religious faith. It has bought advertising space on our city buses, which now patrol the streets declaring that "There probably is no God; so stop worrying and enjoy life." My parents would have been appalled at such a declaration. From a true premise, they would have said, it derives a false and pernicious conclusion. Had they wished to announce their beliefs — and it was part of their humanism to think that you don't announce your beliefs but live them—they would have expressed them thus: "There probably is no God; so start worrying, and remember that self-discipline is up to you." The British Humanist Association sees nothing wrong with the reference to enjoyment; it seems to have no consciousness of what is clearly announced between the lines of the text, namely that there are no ideals higher than pleasure. Its publications imply that there is only one thing that stands between man and his happiness, and that is the belief in God. Take that belief away, and we can run out into the garden of permissions, picking the fruit that we wrongly thought to have been forbidden. The humanists I knew as a young man would have reacted with disgust at this hedonistic message, and at a philosophy that aims to dispense with God without also aiming to replace Him.



A Associação Humanista Britânica está actualmente a promover uma campanha contra a fé religiosa. Comprou espaços publicitários nos autocarros da nossa cidade, que agora patrulham as ruas enquanto declaram "Provavelmente não existe Deus; por isso pare de se preocupar e desfrute a vida". Os meus pais teriam ficado abismados com uma afirmação destas. A partir de uma premissa verdadeira, diriam eles, é derivada uma conclusão falsa e perniciosa. Se eles tivessessem desejado anunciar as suas crenças - e fazia parte do seu humanismo pensar que as crenças não são para anunciar, mas para vivê-las - eles ter-se-iam expressado assim: "Provavelmente não existe Deus; por isso começa a preocupar-te e lembra-te que a auto-disciplina só depende de ti". A Associação Humanista Britânica não vê nada de errado com a referência à fruição; e parece não ter consciência do que claramente é transmitido nas entrelinhas do texto, nomeadamente que não há ideais mais elevados do que o prazer. As suas publicações implicam que há apenas uma coisa que permanece entre o homem e a sua felicidade, que é a crença em Deus. Se essa crença for removida, poderemos entrar no jardim das permissões, comer a fruta que erroneamente pensávamos ser proibida. Os humanistas que conheci na minha juventude teriam reagido com estranheza a esta mensagem hedonista, e a uma filosofia que pretende dispensar Deus sem nada que O substitua.

quarta-feira, 25 de março de 2009

O facto de ainda reter estas ideias hoje, e de elas se terem tornado progressivamente inseparáveis até se entrelaçarem e fundido umas nas outras – tudo isto fortalece a minha feliz certeza de que, longe de emergirem como fenómenos isolados, aleatórios ou esporádicos, estas ideias cresceram de uma raiz comum, de uma vontade fundamental de conhecimento, de uma vontade que vai buscar os imperativos às profundezas e fala uma linguagem cada vez mais específica e exige respostas cada vez mais específicas. Pois nada mais convém a um filósofo. Não temos o direito a qualquer acto isolado: não temos o direito de cometer erros isolados e a descoberta de verdades isoladas está-nos igualmente vedada. Antes, os nossos pensamentos, os nossos valores, os nossos sim e não saem de nós com a mesma necessidade com que uma árvore dá os seus frutos - relacionados e ligados uns aos outros e prova de uma vontade única, de uma saúde única, de uma terra única, de um sol único.

terça-feira, 24 de março de 2009

Reconhecidamente, praticar a leitura como uma arte requer uma coisa acima de tudo, e é uma coisa que hoje em dia, mais do que nunca foi completamente esquecida – um facto que explica porque é que se passará algum tempo antes de os meus escritos se tornarem «legíveis» – é uma coisa para a qual é preciso ser-se praticamente bovino e certamente não um «homem moderno»: isto é, ruminação…

segunda-feira, 23 de março de 2009



Your sorry eyes cut through the bone
They make it hard to leave you alone
Leave you here wearing your wounds
Waving your guns at somebody new

(...) There's a place where you are going
You ain't never been before
No one left to watch your back now
No one standing at your door
That's what you thought love was for

(...) Baby you're a lost cause

sexta-feira, 20 de março de 2009

Os intelectuais, por exemplo, transformam tudo em objecto de uma observação estranhamente distanciada e não comprometida. Eles preenchem a solidão e a timidez de seus mundos interiores com factos, números e observações diversas que aplacam seu interesse intelectual por informações, como se fossem uma loja de artigos de segunda mão que oferece os seus produtos a vizinhos ou colegas (clientes) interessados ou não. Podem ser cientistas brilhantes ou talvez apenas conheçam todos os jogadores de futebol e o resultado de todos os campeonatos, mas não há muito mais que acrescentar a seu respeito. O coração de cada um deles está atrofiado.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Fiódor Dostoiévski, numa carta ao irmão, explica que a ideia de que a natureza humana só pode ser modificada por influência da fé religiosa espontânea e instintiva não foi expressa nos Cadernos do Subterrâneo devido aos obstáculos impostos pela censura: «[…] Era melhor não publicar o último capítulo (o principal, em que a própria ideia é expressa) do que publicá-lo nesta forma, se seja, com as frases esfaceladas e contradizendo-se a si mesmo. Mas, que remédio! Porcos de censores! Onde escarneço de tudo e blasfemo a fingir, deixaram passar; mas onde concluí disso tudo a necessidade da fé e de Cristo, proibiram […]»

terça-feira, 17 de março de 2009

The law is a good slave, but a bad master.
(...)
At the very time that parents and society, school and business certify us as free persons, we realize that we are not free for what we want most of all - to be complete. We are free from many restrictions. But what about the center? What about God?
There we live by faith and failure, by faith and forgiveness, by faith and mercy, by faith and freedom. We do not live successfully. Success imprisons. Success is an unbiblical burden stupidly assumed by prideful persons who reject the risks and perils of faith, preferring to appear right rather than to be human.


Do you remember my sister? How many mistakes did she make with those never blinking eyes? I couldn’t work it out. I swear she could read your mind, your life, the depths of your soul at one glance. Maybe she was stripping herself away, saying
Here I am, this is me
I am yours and everything about me, everything you see...
If only you look hard enough
I never could.
Our life was a pillow-fight. We’d stand there on the quilt, our hands clenched ready. Her with her milky teeth, so late for her age, and a Stanley knife in her hand. She sliced the tyres on my bike and I couldn’t forgive her.
She went blind at the age of five. We’d stand at the bedroom window and she’d get me to tell her what I saw. I’d describe the houses opposite, the little patch of grass next to the path, the gate with its rotten hinges forever wedged open that Dad was always going to fix. She’d stand there quiet for a moment. I thought she was trying to develop the images in her own head. Then she’d say:
I can see little twinkly stars,
like Christmas tree lights in faraway windows.
Rings of brightly coloured rocks
floating around orange and mustard planets.
I can see huge tiger striped fishes
chasing tiny blue and yellow dashes,
all tails and fins and bubbles.
I’d look at the grey house opposite, and close the curtains.
She burned down the house when she was ten. I was away camping with the scouts. The fireman said she’d been smoking in bed - the old story, I thought. The cat and our mum died in the flames, so Dad took us to stay with our Aunt in the country. He went back to London to find us a new house. We never saw him again.
On her thirteenth birthday she fell down the well in our Aunt’s garden and broke her head. She’d been drinking heavily. On her recovery her sight returned, a fluke of nature everyone said. That’s when she said she’d never blink again. I would tell her when she started at me, with her eyes wide and watery, that they reminded me of the well she fell into. She liked this, it made her laugh.
She moved in with a gym teacher when she was fifteen, all muscles he was. He lost his job when it all came out, and couldn’t get another one. Not in that kind of small town. Everybody knew everyone else’s business. My sister would hold her head high, though. She said she was in love. They were together for five years until one day he lost his temper. He hit her over the back of the neck with his bullworker. She lost the use of the right side of her body. He got three years and was out in fifteen months. We saw him a while later, he was coaching a non-league football team in a Cornwall seaside town. I don’t think he recognised her. My sister had put on a lot of weight from being in a chair all the time. She’d get me to stick pins and stub out cigarettes in her right hand. She’d laugh like mad because it didn’t hurt. Her left hand was pretty good though. We’d have arm wrestling matches, I’d have to use both arms and she’d still beat me.
We buried her when she was 32. Me and my Aunt, the vicar, and the man who dug the hole. She said she didn’t want to be cremated and wanted a cheap coffin so the worms could get to her quickly. She said she liked the idea of it, though I thought it was because of what happened to the cat and our mum."

segunda-feira, 16 de março de 2009

A pobreza, a carência e a perseguição impulsionaram os emigrantes católicos, mas ele não perdem a sua saudade. O huguenote e o puritano têm, em comparação com estes pobres desalojados, uma força e um orgulho que são frequentemente de uma grandeza inumana. Ele consegue viver em qualquer solo. Seria, no entanto, uma imagem incorrecta, dizer que ele cria raízes em qualquer solo. Ele pode construir a sua indústria em todo o lado, tornar qualquer solo no campo do seu trabalho e da sua "ascese intramundana" e, finalmente, ter em todo o lado um lar confortável - tudo, na medida em que ele se torna senhor da natureza e a subjuga. O seu tipo de domínio permanece inacessível ao conceito de natureza católico romano. Os povos católicos romanos parecem amar o solo, a mãe terra, de outro modo; todos eles têm o seu "terrisme". Para eles, a natureza não significa o oposto da arte e da obra humana, nem o oposto do entendimento e do sentimento ou do coração, mas o trabalho humano e o crescimento orgânico, a natureza e a ratio são uma mesma coisa. A viticultura é o mais belo símbolo desta união, mas também as cidades que são construídas a partir de tal tipo espiritual aparecem como produtos que cresceram naturalmente do solo, os quais se introduzem na paisagem e permanecem fiéis à sua terra.
Existia toda uma série de departamentos independentes dedicados à literatura, à música, ao teatro e, de um modo geral, às diversões proletárias. Aí se produziam pasquins onde quase só se falava de desporto, crimes e astrologia; romances de cordel a cinco cêntimos cada; filmes a transbordar de sexo; e canções sentimentais inteiramente compostas por processos mecânicos numa espécie de caleidoscópio conhecido pelo nome de versificador. Havia mesmo uma subsecção inteira - a Pornosec, chamavam-lhe assim em novilíngua – encarregada de produzir pornografia da mais reles, que era mandada para o exterior em embalagens seladas e que nenhum membro do Partido, além dos que lá trabalhavam, estava autorizado a ver.”

sábado, 14 de março de 2009

A better and more productive response begins with us — faculty members and administrators. We cannot expect a skeptical populace to reverse course of its own accord. The onus is on us to better convey the value that a robust intellectual life adds to the public good. And we need to begin by respecting our students (and the wider public) not just as persons but as the arbiters of knowledge that they have become. Specifically, we must respect students as thinkers, even though their thinking skills may be undeveloped and their knowledge base shallow. Moreover, our respect must be genuine. Students have keen hypocrisy sensors and do not like being patronized. Respecting students as thinkers means we need to reveal, not hide, the intellectual journeys we have taken, and make transparent the intellectual transformations we have undergone. Respecting students as thinkers thus involves a number of changes, including meeting students where they are, so that they trust us to develop their intellectual skills and expand their knowledge base; balancing our elitist values with democratic and more widely achievable goals; and, perhaps hardest of all, lowering the lofty opinion we hold of ourselves and accepting the public obligation that our privileged position entails.
(...)
I am not asking for more entertainment and less substance in our classrooms. I am asking for a paradigm shift in how we approach our students that parallels the paradigm shift in the broader culture. I am asking instructors to see the two questions that the new epistemology emblazons across the front of every classroom — "So what?" And "Who cares?" — And then to adjust their teaching accordingly.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Von Hugel says somewhere that we do not live our days with the aim of pleasing the police, but we do "follow the police regulations, since, by doing so, we find that we can more fully and easily live our day in a worthy manner."
Aliás, não é preciso acreditar no divino para acreditar no papel da religião na construção dessa identidade. Que o diga Camille Paglia, que em texto recente se apresenta como ateia e libertária de esquerda --e, apesar disso, defensora da necessidade de estudos religiosos nos currículos universitários das Humanidades. Uma sociedade totalmente secularizada, que despreza a religião e eleva o materialismo a um novo e único deus, só pode gerar uma arte entediante e adolescente. E, do ponto de vista histórico, falsamente rebelde: a arte "oposicional" começou com os românticos e morreu, algures, na década de 60, com o estertor pop. Bater na mesma tecla é bater em tecla gasta, repetitiva e artisticamente estéril.
(…)
A criação no vazio, típica de adolescentes, apenas produz grande parte da arte adolescente que ocupa os nossos museus, ou as nossas estantes privadas.

quarta-feira, 11 de março de 2009

We don't live by faith by reading a rule book, or following a map, or working through a career development program, or following the arrows. We do not begin with things, or pieces of paper, or ideas, or feelings, or deeds, or successes. Especially not successes, because we have learned that every success is an abbstraction which turns a person into an empty shell. Any formula that prevents failure also prevents freedom. We begin with God. We dare to believe that God cares who we are, knows who we are. We dare to believe that God is the reality beyond and beneath and around all things, visible and invisible, and that he provides for us and loves and blesses and saves us.
Nessa altura, pensei muitas vezes que, se me obrigassem a viver dentro do tronco seco de árvore, sem outra ocupação além de olhar a flor do céu por cima da minha cabeça, ter-me-ia habituado pouco a pouco. Observaria a passagem das aves ou os encontros entre as nuvens, tal como aqui observava as extraordinárias gravatas do advogado, e como, num outro mundo, esperava até sábado para apertar nos meus braços o corpo de Maria. Ora a verdade, afinal de contas, é que eu não estava dentro de um tronco de uma árvore. Havia pessoas mais infelizes do que eu. Acabamos por nos habituar a tudo, gostava a minha mãe de dizer.

terça-feira, 10 de março de 2009

Nosso medo de ficar sozinhos impulsiona-nos para o barulho e para as multidões. Conservamos uma constante torrente de palavras mesmo que sejam ocas. Compramos rádios que prendemos ao nosso pulso ou ajustamos aos nossos ouvidos de sorte que, se não houver ninguém por perto, pelo menos não estamos condenados ao sliêncio. T.S. Eliot analisou muito bem a nossa cultura quando disse: ‘Onde deve ser encontrado o mundo em que ressoará a palavra? Aqui não, pois não há silêncio suficiente.’

segunda-feira, 9 de março de 2009

Why is God landing in this enemy-occupied world in disguise and starting a sort of secret society to undermine the devil? Why is He not landing in force, invading it? Is it that He is not strong enough? Well, Christians think He is going to land in force; we do not know when. But we can guess why He is delaying. He wants to give us the chance of joining His side freely. I do not suppose you an I would have thought much of a Frenchman who waited till the Allies were marching into Germany and then announced he was on our side. God will invade. But I wonder whether people who ask God to interfere openly and directly in our world quite realise qhat it will be like when He does. When that happens, it is the end of the world. When the author walks on to the stage the play is over. (...) That will not be the time for choosing: it will be the time when we discover which side we really have chosen, whether we realised it before or not. Now, to-day, this moment, is our chance to choose the right side. God is holding back to give us that chance. It will not last for ever. We must take it or leave it.
Sentei-me e os polícias puseram-se um de cada lado da cadeira. Foi nesse momento que, diante de mim, distingui uma fila de caras. Todas me olhavam: percebi que eram os membros do júri. Mas não sou capaz de dizer o que os distinguia dos outros. Tive apenas uma impressão: eu estava no banco de um eléctrico e todos estes passageiros anónimos espiavam o recém-chegado, para lhe observar os ridículos. Sei perfeitamente que esta ideia era parva, pois aqui não era o ridículo que eles procuravam, era o crime. Porém, a diferença entre as duas coisas não se me afigurava muito grande e, de qualquer modo, foi a ideia que me veio à cabeça.

sábado, 7 de março de 2009

Of course, this new epistemology does not imply that our students have become skilled arbiters of information and interpretation. It simply means that they arrive at college with well-established methods of sorting, doubting, or ignoring the same. That, by itself, is not troubling. Many professors encourage students to question authority, and would welcome more who challenged and debated ideas. But this new epistemology carries some heavy baggage — indeed, it is inseparably conjoined with personal economics. Short of fame or a lottery win, today's students recognize that a college degree is the minimum credential they will need to attain their desired standard of living (and hence "happiness"). So this new epistemology produces a rather odd kind of student — one who appears polite and dutiful but who cares little about the course work, the larger questions it raises, or the value of living an examined life. And it produces such students in overwhelming abundance.

sexta-feira, 6 de março de 2009

No início da minha detenção, no entanto, o mais duro foi virem-me à cabeça pensamentos de homem livre. Por exemplo, sentia, de repente, o desejo de estar numa praia e de correr para o mar. Imaginando o barulho das primeiras ondas sob as plantas dos pés, a entrada do corpo na água, a libertação que era para mim o banho de mar, sentia, de repente, até que ponto as paredes da prisão me cercavam. Mas isto durou apenas alguns meses. Depois, passei a ter unicamente pensamentos de prisioneiro. Aguardava o passeio quotidiano no pátio ou então a visita do advogado.”

quinta-feira, 5 de março de 2009

Ele nos quer simples, sinceros, amorosos e dóceis, como as boas crianças, mas também quer que sejamos aplicados ao nosso dever com toda a nossa inteligência e com a nossa melhor disposição de combate. Não é pelo facto de se estar dando dinheiro a uma obra de caridade que se deva deixar de averiguar se essa obra de caridade não é fraudulenta. Não é pelo facto de se concentrar o pensamento em Deus mesmo (por exemplo, na oração), que se deva estar satisfeito com as ideias infantis que se tinha aos cinco anos de idade. Deus na verdade não ama menos a que não possui inteligência brilhante, nem o usa menos. Ele tem lugar para quem tem pouco discernimento, mas quer que cada um use a inteligência que possui. Não devemos dizer “seja bom e amável; quem puder, seja inteligente”, mas “seja bom e amável; mas não se esqueça de que, para isso, você tem de ser o mais inteligente que puder.” Deus não aprecia indolência intelectual, assim como não aprecia qualquer outra indolência. Se você está querendo tornar-se um cristão verdadeiro, advirto-lhe que está embarcando em algo que vai exigir todo o seu ser, o seu cérebro e tudo o mais. Mas felizmente, a coisa funciona de outro modo. Quem com toda a sinceridade procurar se tornar um verdadeiro cristão, em breve verá a sua inteligência aguçada: uma das razões porque não é preciso ter um grau de instrução especual para ser cristão é que o Cristianismo em si mesmo é um processo de aprendizado. Por essa razão é que um fiel inculto como John Bunyan foi capaz de escrever um livro (O Peregrino) que surpreendeu o mundo todo.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Uma coisa que caracteriza a acção do homem mau é que ele, se tem que renunciar a alguma coisa, exige que todo o mundo também o faça. Essa não é uma atitude cristã. O cristão pode achar conveniente renunciar a toda a espécie de coisas por motivos particulares: o casamento, comer carne, tomar cerveja, ou ir ao cinema; mas se começar a dizer que essas coisas são más em si mesmas, ou desprezar os que dela se servem, está no caminho errado.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Kino ouviu o rebentar sereno das ondas matinais na praia. Gostava de o ouvir – Kino fechou os olhos de novo para escutar a sua música. Talvez mais ninguém o fizesse ou talvez toda a sua gente tivesse feito o mesmo. O seu povo tinha sido outrora grande amador de canções, de tal modo que tudo o que via ou pensava, ou fazia ou ouvia, se transformava numa canção. Mas isso já tinha sucedido havia muito tempo. No entanto, as canções tinham permanecido; Kino conhecia-as, mas nunca mais tinha havido canções novas. Isso não queria dizer que não houvesse canções pessoais. Naquele momento, por exemplo, havia uma canção nova, pura e doce, na cabeça de Kino, e, se soubesse falar dela, ter-lhe-ia chamado a Canção da família.