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Clamar contra o pecado ou aborrecer o pecado?

Fiel - Eis a razão porque a princípio me agradou muito a sua companhia, e agora já me aborrece. Como nos veremos livres dele? 
Cristão - Segue os meus conselhos, e se fizeres o que te digo, também ele se aborrecerá de ir ao teu lado, excepto se Deus tocar no seu coração e o converter. 
Fiel - Que hei-de fazer? 
Cristão - Ouve: aproxima-te dele, fala-lhe a sério sobre o poder da religião. Quando ele tiver aprovado as tuas palavras, o que não deixará de fazer, pergunta-lhe directamente se isso é o que ele pratica no seu coração, na sua casa e na sua vida. Então, Fiel aproximando-se outra vez de Eloquente, perguntou-lhe: «Então, que tal ides agora?» 
Eloquente - Vou bem; mas julgava que teríamos conversado mais. 
Fiel - Conversaremos agora. E visto que deixastes a mim a escolha do assunto, proponho este: Como se manifesta a graça salvadora de Deus, e quando existe no coração do homem? 
Eloquente - Quereis dizer que vamos falar acerca do poder das coisas espirituais. O assunto é excelente, e estou disposto a responder-vos desde já. Quando a graça de Deus existe no coração causa um grande clamor contra o pecado; 
Fiel - Mais devagar. Consideremos cada coisa de per si. Parece-me que falais mais acertadamente, dizendo que se manifesta em inclinar a alma a aborrecer o pecado. 
Eloquente - Então? Que diferença há entre clamar contra o pecado e odiá-lo? 

Fiel - Muitíssima. Podemos, por decência, clamar contra o pecado, e não o odiarmos. Tenho ouvido muita gente clamar contra o pecado, até do púlpito, e, não obstante, o toleram bem nos seus corações, nas casas e nas suas vidas. A senhora de Potifar clamou em altas vozes, com a maior energia, como se fosse muito casta, e, apesar disso, fora ela quem provocara o pecado, e de boa vontade o teria cometido. Os clamores de algumas pessoas contra o pecado são como os de uma mãe contra o filho a quem repreende, mas que logo beija e acaricia. 
Eloquente - Parece-me que quereis apanhar-me nos meus próprios argumentos. 
Fiel - Não. Apenas desejo colocar as coisas no seu verdadeiro pé. 

(...) 

O Peregrino [The Pilgrim’s Progress] 
Página 100 
John Bunyan 
1678 dC 
Editora: Dikaion

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