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Mensagens

Gula na oração

Aqueles de que falamos agem do mesmo modo na oração. Imaginam que ela consiste inteiramente no prazer e na devoção sensível que aí possam encontrar. Tentam achar esse prazer, como se costuma dizer, à força de braços; cansam-se e escondem a cabeça inutilmente. Quando verificam que nada conseguiram, ficam totalmente abatidos; imaginam que nada fizeram. A sua pretensão levou-os a perderem a verdadeira devoção e o espírito e oração sobrenatural que consiste em perseverar na paciência e na humildade, na desconfiança de si mesmo e no desejo único de agradar a Deus. Também acontece que, quando não encontram prazer neste ou naquele exercício de piedade, sentem um desgosto extremo; sentem repugnância em se entregarem de novo a esse exercício e, às vezes, chegam ao ponto de o abandonar. São, como já dissemos, parecidos com crianças pequenas; não se movem nem actuam de acordo com a razão, mas de acordo com a sensualidade. Passam todo o tempo à procura e alegria e das consolações espirituais. Nunc...

Gula nos exercícios espirituais

Por outro lado o Demónio seduz tão bem um grande número que os leva à gula, excitando os seus prazeres e os seus apetites. Esses iniciantes são incapazes de lhe resistir. Alteram a ordem que lhes é dada; aumentam -na, ou modificam-na porque a obediência neste ponto se lhes torna um jugo muito duro e demasiado estreito; alguns chegam mesmo a um tal extremo que, pelo simples facto de irem por obediência a certos exercícios de piedade, perdem o gosto e a devoção de os cumprir. Não tem outro gosto e outro desejo que o de seguir a sua própria inclinação. Por isso seria talvez melhor para eles se não cumprissem tais exercícios de piedade.  Vereis muitos deles insistindo junto dos seus mestres espirituais para obterem o que lhes agrada e, em parte à força, arrancam o seu consentimento. Quando não o conseguem, deixam-se cair na tristeza como crianças, ficam de mau humor e imaginam que não servem Deus quando não os deixam seguir os seus caprichos. Como estão apegados aos seus gostos e à sua...

Há gente que é pessoa

Pelas minhas contas, temos: pessoas, gente, povo e humanidade. O pior são as pessoas, claro, e o melhor é a humanidade. As pessoas não usam setas no trânsito; a humanidade foi à Lua. A humanidade é tão digna que, muitas vezes, aparece grafada com h grande: a Humanidade. Isso nunca aconteceu às pessoas, e bem. Não faz sentido escrever que as pessoas deitam lixo para o chão (coisa que a Humanidade, aliás, nunca faria). As pessoas raramente merecem a honra da maiúscula. Em geral, são referidas no fim da conversa, em tom de lamento, "Realmente, as pessoas...", e sempre com p pequeno. A gente talvez esteja num patamar acima, mas não muito. Há gente muito estúpida. O que é normal, dado que a gente costuma ser formada por muitas pessoas. Mas, apesar de tudo, às vezes é possível confiar na gente, e até desejar combinar um programa com ela, como fica claro na frase: "Então, gente, vamos sair?" Um convite que, não por acaso, nunca é feito às pessoas. O povo já é outra coisa...

O privilégio do exílio

Todos nós admiramos e respeitamos um adversário ou inimigo político de um regime opressor e que tivesse por isso de se exilar. Mas só se lhe reconhecemos o privilégio de ter direito a isso como às classes favorecidas a vivenda ou o automóvel. Que diríamos de um simples cavador que também se arrogasse a importância de se exilar? Pensar  Página 179  Vergílio Ferreira  1992 dC  Editora: Bertrand

A primeira pedra do que és

Quase tudo o que vais sendo vem no impulso que te move. Não apenas quando a cólera é esse impulso, ou o disparate que se te adianta, ou um sentimento qualquer que é de mais. Mesmo a arte, o pensar, o escrever. Porque o todo que em ti resulta, vem da pedra fundamental que para ele escolheste ou te calhou para o início desse todo. Há um puzzle a organizar e que não sabes e está em ti. O resto vai sendo o que tu pensas ou vai pensando por si e o que te pertence não é bem o que supunhas que estava em ti, mas o que se revela desse estar. Depois só te resta o espanto ou a alegria ou o desapontamento de saberes o que não sabias que sabias ou não. Sê prudente e sem pressa. Vê se é possível escolheres a pedra sobre a qual erguerás o edifício. É por isso que há sempre uma cerimónia quando se põe a «primeira pedra», que é posta normalmente por uma «entidade», para que o seu prestígio contamine o edifício todo. E é por isso talvez também que essa «entidade» não está sempre à altura da cerimónia e ...

As palavras voam, o que fica?

Verba volant, scripta manent , dizia a sabedoria dos antigos. Era a chamada de atenção para a responsabilidade do que fica escrito, contra a volubilidade do falar. Mas era também, para o nosso repouso, a certeza de que os escritos estavam aí, a toda a hora da nossa visita. Simplesmente as palavras hoje não “voam” e permanecem também nos registos magnéticos e a vozearia multiplica-se assim até à surdez. E opostamente os escritos tendem a esquecer-se, sobretudo os dos jornais, que são uma variante do falatório. Além de que nos é possível e mais fácil substituir pelas palavras que voam a escrita que já não fazemos. Quantas cartas o telefone te dispensou de escrever? Mas o próprio livro é quase sempre para “ler mais tarde”. E os chamado “livros de cabeceira” não se entende que não sejam senão para facilitarem o sono. A estante ainda é um móvel de adorno e de prestígio como outros móveis de uso e distinção. Mas a sua utilidade pouco vai além disso. O homem simplificou-se com a atrofia das f...

Arte religiosa às vezes

Toda a verdadeira arte é uma expressão do sagrado.  A arte religiosa às vezes também o é. Pensar  Página 329 Vergílio Ferreira  1992 dC  Editora: Bertrand

Sentimentos por cozinhar

O sentimento em bruto, como toda a “história” em bruto para um escritor, é absolutamente intragável como a carne crua. Mas é absolutamente agradável e funcional depois de bem cozinhada. Não te iludas pois com a carne cara que compraste no magarefe, dizendo aos teus conhecidos que é muito boa. Cozinha-a e depois falamos.  Pensar  Página 345  Vergílio Ferreira  1992 dC  Editora: Bertrand

Desejar conhecer um artista que se ama

Desejar conhecer pessoalmente um artista que se ama é querer apropriar-se do mistério da sua obra. Mas é muito raro saber-se que por detrás de uma obra não está o seu autor, mas as tintas de um quadro ou a pedra de uma escultura ou as palavras de um texto e assim. Porque a arte que devia estar no artista é apenas o mistério que ele próprio desconhece. E entre uma e outro está só o intervalo onde não há já ninguém. Assim a arte é maior do que o artista. Assim ela o dispensa depois de usado e vive por si enquanto ele já apodrece. Muita gente quer conhecer a arte num artista. Mas ninguém quer conhecer o estrume que está antes de uma roseira. Pensar  Página 344  Vergílio Ferreira  1992 dC Editora: Bertrand

Não encontram qualquer gosto ou consolação sensível

Quando vão comungar, pensam muito mais num qualquer prazer sensível do que em adorar e louvar com toda a humildade esse grande Deus que acabam de receber. Essa é de tal modo a sua ideia que, se não encontram no acto qualquer gosto ou consolação sensível, pensam que nada fizeram. É uma maneira muito baixa de julgar Deus. Não compreendem que a menor das vantagens que o Santo Sacramento procura é a deleitação sensível, enquanto a maior, aquela que não se vê, é a graça; é essa razão porque Deus lhes retira muitas vezes esses prazeres e esses favores sensíveis, para que os considerem com os olhos da fé. Querem sentir Deus e fruí-lo como se ele fosse compreensível e acessível aos nossos sentidos, não só quando se trata da questão que nos ocupa, mas também quando se trata dos outros exercícios espirituais. Tudo isto denota uma mui grande imperfeição e uma total oposição à natureza de Deus; porque a fé não é pura. A Noite Obscura [Noche oscura del alma] Página 58  1579 dC São João da Cr...

Aqueles que não foram partidos em dois

Happy is he who still loves something that he loved in the nursery: he has not been broken in two by time; he is not two men, but one, and has saved not only his soul but his life. Feliz é aquele que ainda aprecia algo que apreciava na infância: ele não foi partido em dois pelo tempo; ele não é dois homens, mas apenas um, e salvou não apenas a sua alma, mas a sua vida.

Ele falava precipitadamente, e não o tentei parar

I let him run on, this papier-mâché Mephistopheles, and it seemed to me that if I tried I could poke my forefinger through him, and would find nothing inside but a little loose dirt, maybe. He, don't you see, had been planning to be assistant manager by and by under the present man, and I could see that the coming of that Kurtz had upset them both not a little. He talked precipitately, and I did not try to stop him. I had my shoulders against the wreck of my steamer, hauled up on the slope like a carcass of some big river animal. The smell of mud, of primeval mud, by Jove! was in my nostrils, the high stillness of primeval forest was before my eyes; there were shiny patches on the black creek. The moon had spread over everything a thin layer of silver – over the rank grass, over the mud, upon the wall of matted vegetation standing higher than the wall of a temple, over the great river I could see through a somber gap glittering, glittering, as it flowed broadly by without a murmu...

Definições de fé

Comecemos por olhar para a sua definição de fé, questionando a origem desta. A fé «significa confiança cega na ausência de evidências ou mesmo apesar delas». Como pode alguém aceitar esta definição tão ridícula? Na sua «Prece para a minha Filha», Dawkins apresenta um ponto importante que também aqui é muito relevante:  «A próxima vez que alguém te afirmar que algo é verdade, deves responder-lhe: "E em que evidências se baseia isso?" E se não te apresentarem uma boa resposta, espero que penses muito bem antes de acreditares no que te foi dito.»  Que evidências existem para que alguém - e não me estou a referir às pessoas religiosas – possa definir a fé desta maneira absurda?  A verdade é que Dawkins não apresenta nenhuma prova em favor desta definição, que afinal pouco ou nada tem a ver com o sentido religioso (ou qualquer outro sentido) do mundo. Não oferece indícios de que é uma opinião representativa da opinião religiosa. Não cita em seu apoio nenhuma autoridade n...

Agostinho e a interpretação do Génesis

Agostinho de Hipona (354-430) foi o teólogo mais influente da sua era, tendo tido especial relevância na exploração da relação entre a interpretação bíblica e a ciência. Agostinho sublinhou a importância de serem respeitadas as conclusões da ciência na exegese bíblica. No seu comentário ao Génesis, Agostinho assinalou que certas passagens estavam genuinamente abertas a diferentes interpretações. Como tal, era importante permitir que os desenvolvimentos científicos posteriores pudessem contribuir para a escolha do modo mais apropriado de interpretar uma determinada passagem. «Em relação aos assuntos muitos obscuros e que se situam para lá da nossa visão, encontramos nas  escrituras sagradas passagens que podem ser interpretadas de maneiras muito diferentes sem prejuízo para a fé que recebemos. Nesses casos, não nos devemos precitipar e escolher uma posição definitiva que possa ser justamente posta em causa pelo posterior progresso, caso contrário nós também seremos postos em causa....

Reacção cristã dos contemporâneos de William Paley

Vários outros autores discordaram de Paley com base em argumentos teológicos, e não demoraram muito a apresentar essas discordâncias. Antes do aparecimentos da nova teoria de Darwin, já uma opinião teológica bem informada cada vez mais forte tinha exigido o abandono ou uma revisão profunda das ideias de Paley. Em 1852, John Henry Newman foi convidado a proferir uma série de palestras em Dublin sobre «a ideia de universidade». O tema permitiu-lhe explorar a relação entre o cristianismo e as ciências, especialmente a «teologia física» de William Paley. Newman usou um tom mordaz ao referir-se à perspectiva de Paley, apelidando-a de «falso evangelho». No seu entender, longe de significar um avanço nas perspectivas mais modestas adoptadas pela Igreja nos seus primórdios, tratava-se de uma degradação dessas ideias. Podemos resumir as críticas de Newman numa única frase: «A questão foi deslocada e excessivamente desenvolvida e, em consequência, quase só tem servido de instrumento contra o c...

Perspectiva limitada ou expandida dos religiosos?

Dawkins sugere que a perspectiva religiosa sobre o mundo deixa de parte algo fundamental. Depois de ter lido Decompondo o Arco-íris continuo sem saber a que é que ele se refere. A leitura cristã do mundo não nega nada do que as ciências naturais nos dizem, à excepção do dogma naturalista de que a realidade se limita àquilo que é passível de ser conhecido por meio das ciências naturais. Se existe alguma diferença, ela encontra-se no facto de o compromisso cristão com o mundo natural acrescentar uma riqueza que me parece estar ausente da visão de Dawkins, e que oferece um motivo adicional para o estudo da natureza. Foi João Calvino (1509-1564) quem comentou o quanto invejava aqueles que estudavam fisiologia e astronomia, pois podiam ter um envolvimento directo com as maravilhas da Criação de Deus. Estava a explicar que o Deus invísivel e intangível podia ser entendido através do estudo das maravilhas da natureza. A grande diferença entre a ciência e a religião talvez se situe, não no...

O traçado exterior das casas devia ter um sigificado oculto

San Narciso fica para Sul, perto de Los Angeles. Era, como muitos dos lugares com nome na Califórnia, menos uma cidade identificável do que um conjunto de ideias, uma zona de recenseamento, outra residencial, centros comerciais e vários arruamentos que conduziam à auto-estrada. Foi ali que Pierce viveu e tinha o seu quartel-general. Ali iniciara as suas especulações imobiliárias dez anos atrás e cimentara os alicerces de uma fortuna que nunca parara de crescer, embora de maneira irregular e bizarra. Isso tornava o lugar diferente, dava-lhe individualidade. No entanto, se de facto era diferente do resto da Califórnia do Sul, não se notava à primeira vista. Chegou a San Narciso num domingo, conduzindo um Impala que alugara. Nada acontecia. Estava agora numa colina, teve de fechar os olhos por causa do sol, e diante dela estendia-se uma mancha grande de casas que haviam crescido ao mesmo tempo como uma seara, na terra de um castanho pesado. Veio-lhe à memória a primeira vez que abriu um r...

It's my house

It's my house and I live here (I wanna tell you) It's my house and I live here There's a welcome mat at the door And if you come on in You're gonna get much more There's my chair I put it there Everything you see Is with love and care On the table, there sits a rose Through every window A little light flows Books of feeling on the shelf above 'cause it was built for love I was built for love There's a candle to light the stairs Where my dreams await someone to share Oh, there's music on the radio And good vibrations won't let me go I put my name on the ceilin' above 'cause it was buillt for love You say you wanna move in with me You say you wanna move in with me Got to follow the rules to get me Got to follow the rules to get me You wanna visit my house Say you wanna drop by Wanna visit my house, yeah To see me sometimes

A casa

A casa. Pensá-la agora um pouco sem bem saber porquê. Talvez porque ela se te afunda na memória como tudo o que passou. Existiria ela outrora na cidade? Hoje não existe. Ela implica a existência da família e a família é tão problemática. Centro de convergência da união do sangue, ela fechava-nos no seu abrigo, impregnada da nossa história, do que em nós foi alegria ou amargura ou esperança, envolvia-nos de protecção no que em nós não morre de infância até à idade adulta ou da velhice. Entrar em casa, fechar a porta, e encontrar uma defesa segura contra tudo o que nos agrediu. Nela encontramos o repouso para a fadiga do corpo e da alma. Entrar em casa é reencontrarmo-nos connosco, a nossa pessoa de que nos tínhamos perdido. É sobretudo estar alguém connosco, mesmo que não esteja ninguém. Porque a casa tem uma alma. Ela cria-se com o que de todos os que nela são ou foram, se depositou nas salas, nos móveis, em todos os objectos. É por isso que entrar numa casa vazia e alheia é sentir log...

Estar contactável nos anos 30

Os seus pensamento foram interompidos pela abertura da porta. Devine entrou, sozinho, trazendo consigo um tabuleiro com uma garrafa de uísque, copos e um cifão. - Weston anda ver se encontras alguma coisa para comer – disse, pousando o tabuleiro no chão, ao lado da cadeira onde Ransom se encontrava sentado, e principiando a abrir a garrafa. Ransom, que, na verdade, se sentia bastante sequioso, reparou que o seu anfitrião era uma das tais pessoas irritantes que se esquecem de utilizar as mãos ao mesmo tempo de falam. Devine, que começara a tirar a prata que cobria a rolha com a ponta do saca-rolhas, parou de repente para perguntar: - Como é que veio parar a estar zona selvagem do país? - Ando a dar uma volta pelas redondezas – respondeu Ransom. - A noite passada dormi em Stoke Underwood e estava a pensar ficar esta noite em Nadderby. Como eles não me deram hospitalidade, resolvi seguir para Sterk. - Santo Deus! - exclamou Devine, mantendo a rolha no interior da garrafa. - Fazes is...

Contactar pela primeira vez com uma nova arte

A qualquer homem, ao contactar pela primeira vez com uma nova arte, depara-se-lhe, a certa altura, algo que, erguendo a ponta do véu que esconde o mistério, revela, numa explosão de maravilha que o posterior entendimento total quase nunca chega a igualar, um lampejo das imensas possibilidades que lhe são inerentes. Para Ransom, esse momento ocorreu naquela altura, no que dizia respeito à sua compreensão das canções malacandrianas. De início reparou que o ritmo utilizado tinha por base a influência de um sangue diferente do nosso, de um coração que batia mais depressa e de uma temperatura interna mais elevada. O conhecimento que tinha das criaturas, e o amor que entretanto desenvolvera em relação a elas, fez que começasse a ouvi-las tal como cantavam. As primeiras estrofes do canto fúnebre, cantadas em notas baixas, acordando nele a sensação de grandes massas que se moviam a velocidades inconcebíveis, de gigantes dançando, de mágoas eternamente dissipadas por algo que desconhecia mas de...

Lay down your weary tune

Lay down your weary tune, lay down Lay down the song you strum And rest yourself 'neath the strength of strings No voice can hope to hum Struck by the sounds before the sun I knew the night had gone The morning breeze like a bugle blew Against the drum of dawn Pousa/larga essa música gasta, larga Larga essa música que dedilhas E descansa sob a força da cordas Que nenhuma voz pode esperar trautear Tocado pelos sons antes do sol Soube que a noite tinha passado A brisa da manhão, como uma corneta soou Contra o tambor da alvorada Lay down your weary tune, lay down Lay down the song you strum And rest yourself 'neath the strength of strings No voice can hope to hum The ocean wild like an organ played The seaweed wove its strands The crashing waves like cymbals clashed Against the rocks and the sand Pousa/larga essa música gasta, larga Larga essa música que dedilhas E descansa sob a força da cordas Que nenhuma voz pode esperar trautear O oceano selvagem como um or...

Water Falls

Water falls from the bright air It falls like hair Falling across a young girl’s shoulders Water falls Making pools in the asfalt Dirty mirrors with clouds and buildings inside It falls on the roof of my house Falls on my mother and on my hair Most people call it rain Filme: Paterson Argumento: Jim Jarmusch ano: 2016 dC

Olhar o mar do alto de uma falésia

Olhar o mar do alto das arribas. Percorrer instintivamente, num olhar balanceado, todo o circuito do horizonte. Olhar em baixo o cavado das ondas com grandes veios de mármore, seguir-lhes o percurso até às rochas, vê-las estoirar contra elas e erguerem-se numa explosão alta de espuma ao retardador. Aspirar fundo o seu aroma genesíaco a infinitude, a espaço e solidão. Ouvir-lhe o fervor na caldeira do mundo. Sentir instantâneamente a distância da fragilidade e pequenez à imensidão poderosa e sem limites. Conhecer o azul ainda húmido no instante da sua criação. Recolher a saudação de outras terras e outras gentes que vem na aragem por sobre a extensão das águas. Ficar atento a um sinal indistinto que anuncia o começo do mundo. Entender a linguagem cifrada de um destino comum entre mar e céu. Olhar o mar do alto de uma falésia. Pensar  página 189  Vergílio Ferreira  1992 dC Editora: Bertrand

Ir ver o mar

Ir ver o mar. Vê-lo de vez em quando e sempre com a mesma fascinação. Que é que vem dele para assim nos fascinar? A sua força imensa diante da nossa pequenez. O seu mistério visível e inquietante porque é o invisível da sua visibilidade. O irrisório da sua absurda convulsão e o aceno indistinto que vem de trás do horizonte e não sabemos o que é. O aroma a espaço, uma memória confusa de aventura, o sinal presente da sua infinitude ausente, a dilatação de nós a um poder imenso, um certo conluio com Deus. Pensar página 139 Vergílio Ferreira 1992 dC Editora: Bertrand

O patriota cósmico - 2

Suponhamos que somos confrontados com uma realidade desesperante – como Pimlico, por exemplo. Se meditarmos no que é realmente o melhor para Pimlico, chegaremos à conclusão de que o fio do raciocínio nos conduz ao trono, ou ao misticismo e à arbitrariedade. Não basta uma pessoa ter uma visão negativo de Pimlico, porque, nesse caso, limitar-se-á a dar um tiro na cabeça, ou a mudar de casa e ir viver para Chelsea. Também não basta, evidentemente, uma pessoa ter uma visão positiva de Pimlico, porque, nesse caso, Pimlico continuará a ser o que é, o que seria péssimo. A única maneira de sair disto parece ser amar Pimlico, amar este bairro com uma ligação transcendental e sem qualquer motivação de natureza mundana. Se aparecesse outro homem que amasse Pimlico, aí se construiriam torres de Marfim e pináculos de ouro; Pimlico ataviar-se-ia como se ataviam as mulheres apaixonadas. Porque a decoração não serve para esconder coisas horríveis, mas para decorar coisas que já são adoráveis. Uma mãe ...

O patriota cósmico - 1

Afirmei, no capítulo anterior, que é nos contos de fadas que melhor se exprime a sensação de fundo de que este mundo é estranho, sem deixar de ser atractivo. O leitor poderá, se quiser, considerar que a fase seguinte é a daquele estilo de literatura belicosa, que chega por vezes a ser patrioteira, que costuma seguir-se na história de vida de um rapaz. Todos nós devemos grande parte das nossas mais sólidas noções morais aos romances de cordel. Seja por que razão for, sempre me pareceu, e continua a parecer-me, que a melhor maneira de exprimirmos a nossa atitude em relação à vida não é em termos de crítica e aprovação, mas em termos de uma espécie de lealdade militar. A minha aceitação do universo não é optimista, é mais uma espécie de patriotismo. É uma questão de lealdade básica. O mundo não é uma pensão de Brighton, de onde possamos pensar ir-nos embora por ser uma pensão miserável. O mundo é a fortaleza da nossa família, com a bandeira erguida no alto do torreão e, quanto mais mise...

Coexistência com o inaceitável

Na opinião do crítico, estava efectivamente implícito! E voltou a elogiar a pujança criativa do realizador, a beleza das imagens, lentas, impregnadas de inquietação poética, misteriosas como os arpejos de uma harpa sem cordas; a rudeza da montagem que talvez se pudesse definir como neo-nouvelle vague ; e sobretudo a parcimónia do diálogo, admiravelmente reduzido ao essencial, atingindo o silêncio absoluto no violento clímax emocional que se despoletava na sequência da decapitação do sedutor, à porta do apartamente de Picadilly Circus: um choque inesperado e brutal de duas classes e duas culturas! - Mas eu não vi nada disso... - balbuciei, já um pouco aterrado com a minha eventual deficiência na observação de todas essas subtilezas... - É o que está im... im... implícito na sequência do u... u... urinol! - finalizou o crítico. Acatei com artificioso respeito a argumentação técnica do especialista, conquanto continuasse a achar, de mim para mim, que se tratava de um filme hediondo...

Diferenças entre as religiões inglesa e portuguesa

Foi com viva emoção que assisti pela primeira vez a uma cerimónia religiosa na abadia de Westminster. Encantou-me a distinção natural, a sóbria elegância do vestuário, a dignidade daqueles fiéis que, de pé, afinadíssimos, entoavam: «Aleluia! Aleluia!...», e não pude evitar uma expressão escarninha, mista de ironia, sarcasmo e até algum nojo, ao pensar nos formigames de andrajos, de pústulas, de aleijões, que se arrastam pelas estradas lusitanas, mesclando-se em massas híbridas e descomunais de povaréu lamuriento, conclaves mundiais de moléstias e pedinchice, no charnequenho lugar da Cova da Iria!... Nem a honrosa presença de altíssimos dignatários da diplomacia mundial, de governantes ilustres, de prestigiadas individualidades da vida civil e militar, das mais imponentes e paramentadas figuras da hierarquia clerical, do próprio Papa, que também já por lá andou a suportar, com assinalável estoicismo, capaz de se infectar, a proximidade promíscua do magote insalubre, a escutar e mesmo ...

Aprender a lidar com as coisas

I know now about helplessness-of what to do when there is nothing to do. I have learned coping. We live in a time and place where, over and over, when confronted with something unpleasant we pursue not coping but overcoming. Often we succeed. Most of humanity has not enjoyed and does not enjoy such luxury. Death shatters our illusion that we can make do without coping. When we have overcome absence with phone calls, winglessness with airplanes, summer heat with airconditioning- when we have overcome all these and much more besides, then there will abide two things with which we must cope: the evil in our hearts and death. There are those who vainly think that some technology will even enable us to overcome the former. Everyone knows that there is no technology for overcoming death. Death is left for God’s overcoming.