sexta-feira, 7 de julho de 2017

Comecei então a falar em voz alta e sem medo, apesar dos risos do mundo, porque, fosse como fosse, aqueles risos eram bondosos e não maldosos. Todas as minhas conversas decorriam nos serões, principalmente na companhia das senhoras, que gostavam muito de me ouvir e obrigavam também os homens a ouvir-me. Toda a gente se ria na minha cara: «Mas como é possível eu ser culpado por todos? Eu posso ser culpado, por exemplo, por si?» Eu respondia-lhes: «Como podem os senhores compreender isso se todo o mundo, desde há muito, tomou por outro caminho, vendo no falso o verdadeiro e exigindo dos outros a mesma mentira? Como vêem, eu procedi uma vez na vida com sinceridade e logo me tornei para todos uma espécie de maluquinho religioso: embora simpatizem comigo, não deixam de se rir de mim».

dados biográficos de Zóssima 

Volume I
página 363
Editorial Presença

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Passei muito tempo em São Petersburgo, na escola de cadetes, quase oito anos, e aquela nova educação adormeceu em mim muitas das sensações infantis, embora não me esquecesse de nada. Ganhei hábitos e mesmo opiniões novos que me transformaram numa criatura quase selvagem, cruel e absurda. Adquiri o brilho da cortesia e das maneiras mundanas, juntamente com a língua francesa, mas todos nós, incluindo eu, considerávamos os soldados que nos serviam na escola como animais. Aliás, eu era a este respeito o pior de todos, porque era o mais susceptível de todos os meus colegas. Quando acabámos o curso e nos tornámos oficiais estávamos prontos a derramar o nosso sangue pela honra do nosso regimento, mas nenhum de nós sabia nada sobre a verdadeira honra, nenhum de nós sabia o que isso significava e, se soubesse, rir-se-ia da honra. Quase nos orgulhávamos das nossas bebedeiras, fanfarronices e comportamentos desordeiros. Não diria que não prestávamos: toda aquela juventude era gente boa, mas que se portava mal, e eu em primeiro lugar.

dados biográficos de Zóssima

Volume I 
página 357
Editorial Presença

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

O principal é o senhor não mentir a si próprio. Quem mente a si mesmo e ouve as suas próprias mentiras chega a um ponto tal que já não distingue qualquer verdade em si nem à sua volta, deixando por isso de respeitar a si mesmo e aos outros. Ora, sem respeito por todos, o senhor deixa de amar e, para se divertir e distrair, sem amor, entrega-se às paixões e às volúpias grosseiras, atinge um estádio animalesco nos seus vícios, e tudo isso provém de estar a mentir permanentemente a si próprio e aos outros. Quem mente a si mesmo também será o primeiro a ofender-se. É que, às vezes, é muito agradável ficar ofendido, não é verdade? A pessoa sabe bem que ninguém a ofendeu, que inventou a sua ofensa e que mentiu para enfeitá-la, que exagerou para criar todo o cenário, que se agarrou a uma palavrinha e fez de uma ervilha uma montanha... a própria pessoa sabe isso e, mesmo assim, apressa-se a ficar ofendida, a ficar ofendida até ao prazer, até sentir um grande deleite e, a partir daqui, chega até à verdadeira hostilidade... Levante-se do chão e sente-se, por favor, porque isso tudo são também gestos falsos.

disse Zóssima a Fiódor Pávlovitch

Volume I
página 62
Editorial Presença

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017



Change your heart
Look around you
Change your heart
It will astound you
I need your lovin'
Like the sunshine
Everybody's gotta learn sometime

Muda o teu coração
Olha à tua volta
Muda o teu coração
Vai surpreender-te
Eu preciso do teu amor
Como do brilho do sol
Toda a gente acaba por ter de aprender.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016



Fazes no dia que nasce
A manhã mais bonita
A brisa fresca da tarde
A noite menos fria

Eu não sei se tu sabes
Mas fizeste o meu dia também

Esse bom dia que dás 
é outro dia que nasce
É acordar mais bonita
Trabalhar com vontade
É estar no dia com pica

É passar com a vida 
e desejar-te um bom dia também


Um bom dia para ti
Não que apenas passa não que pesa e castiga
Não que esqueças mais tarde
Mas o dia em que me digas


Ao ouvido baixinho 
ai tu fizeste o meu dia também tão bom também

Faz também o dia de alguém
Faz também o dia de alguém
Faz também o dia de alguém
Faz também o dia de alguém

Fazes no dia que nasce
A manhã mais bonita
A brisa fresca da tarde
A noite menos fria

Eu não sei se tu sabes
Mas fizeste o meu dia também

Um bom dia para ti
E para o estranho que passa
Para aquele que se esquiva
Para quem se embaraça 
e se cala na vida



Mesmo que não o diga
Ai tu fizeste o meu dia também tão bom também

Faz também o dia de alguém
Faz também o dia de alguém
Faz também o dia de alguém
Faz também o dia de alguém

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016



Quando me queres incluir
e me pões a dormir
num bairro qualquer por aí

E a lição de bem-estar
é não incomodar
quem veja incómodo em mim

Por mais passos que eu dê
mesmo sem querer
irei sempre bater
ou esbarrar contra ti

É teu o meu espaço
e p´lo teu embaraço
pelas portas d´aço
eu já percebi:

Tens medo de mim
Tens medo de mim
Tens medo de mim

Quando me vens revistar
só porque dou ar
de não ser daqui nem dali

E para me proteger
impões um poder
que não olha a meios pró fim

Todo o gesto que eu faça
é vil ameaça
que anulas e esmagas
e vejo assim

que a força que empregas
é injusta e cega
não vê em quem acerta
e acertas em mim

Tens medo de mim
Tens medo de mim
Tens medo de mim

Quando me culpas e prendes
tudo porque entendes
que isso é melhor para mim

Eu, mesmo inocente,
sou sempre diferente
porque não sou igual a ti

Agora, não entendo,
porquê este medo
brutal e tão extremo
que a ninguém faz crer

que estou na cadeia
porque a tua carteira
caiu, apanhei-a,
e quis devolver.

Tens medo de mim
Tens medo de mim
e eu medo de ti

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Quantas vezes, ao participarmos em alguma ajuda a uma instituição de caridade, não teremos agido como se estivéssemos a dar alguma coisa nossa cultivando todas as expectativas de sermos considerados abnegados e generosos? Isso aconteceu quando estávamos apenas a administrar, como mordomos, parte daquilo que o verdadeiro Dono nos confiou para os propósitos que tem em mente. A prova de que não é desta forma que nos vemos a nós próprios é o sentimento que nos invade quando alguém se esquece de nos agradecer, agradecendo só (!) a Deus.

Editora: Dikaion
página 128

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Um dia, li uma frase de Karl Barth que compara os métodos do livro de Génesis com os romances de Dostoievski. Barth diz que ambos arrogantemente ignoram as apreciações e honras convencionais e aproximam-se das vidas de homens e mulheres cavando as profundezas de Deus nas suas supostas vidas convencionais. Dostoievski e Génesis não respeitam as máscaras de homens e mulheres, mas julgam seus segredos. Eles vêem além do que homens e mulheres aparentam ser e entendem o que eles são e o que eles não são. Eles vêem, nos termos de Paulo, sua justiça reconhecida como o divino "todavia", e não como o divino "portanto"; como perdão, e não como um permissão para o que eles acreditam ser.

Original: Under the Unpredictable Plant
Editora: United Press
página 67

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Nunca se viam de um modo definido as suas feições. Os seus olhos azuis, profundos, vivos e inquisitivos só apareciam fora do espaço público. David pensava agora que o amigo sempre parecera querer esconder-se. Tinha visto algumas fotografias suas de miúdo em que era possível prever no olhar esquivo, e no modo reservado do corpo, a pré-história do personagem que haveria de criar para conseguir ser o artista que desejava ser.

Editora: Quetzal
página 171

sexta-feira, 19 de agosto de 2016


Hallelujah! I just found Jesus
Swimming at the bottom of the bottle 
I keep crawling out of
He said You look familiar but I can't place your face
I said You look like hell 
and that we used to hang at my mother's request
Hallelujah! I just found Jesus 
Trying to save the world through the wet hands 
and mouth of a girl
She's convinced me to stay in for as long as 
we both shall live
(Or until one of us gets bored)
Have I been saved?
'Cause I feel the same
Dirty and tired
Can I be saved without having shame or remorse 
for what I don't believe?
I offer up my humbled soul and my broken spirit 
All those things that I can't control
The intangible bullshit to you, my Lord
I believe there is no white light
Somebody's mistaken or somebody lied
I believe there is only one truth 
It resonates different in me and you 
so don't try to sell me yours
A criança que fui seguiu-me de desapontamento em desapontamento nesta primeira semana de trabalho. Pedra, lixo, silvedo e, sobretudo, a total ausência de magia. Nada remotamente relacionado com passagens secretas ou entradas para grutas ou divisões escondidas com a possibilidade de algum achado extraordinário. Sabia, evidentemente, que as lendas acerca da serra não podiam ser reais, mas sou incapaz de evitar sentir-me decepcionado.

Editora: Quetzal
página 13

segunda-feira, 18 de julho de 2016

The voice of Istanbul.

 I've had at least thirty names on your own to Istanbul. Now they say I'm between the east and the west, an identity crises. I know there's enough for this nonsense. Take the labels off and just look at me. You won't need a guidebook. Like all cities, I have my own sense of time. I'm a labyrinth of layers that only makes sense without a compass. If you're hesitant, not sure which way to go as you walk about, follow one of my cats. They will lead you to places, introduce you to people, point out secrets they keep even from me. They, more than anyone, are the longest continuing residents of the city A challenge to those who see their future in my past, I'm an obstacle for those who see only the future. I see change with the patience of centuries. Look at my silhouette from the bridge on the Golden Horn. Time has not passed me by. It has protected me. I ask of you the same.

sábado, 23 de abril de 2016


Southern trees bear strange fruit
Blood on the leaves and blood at the root
Black bodies swinging in the southern breeze
Strange fruit hanging from the poplar trees

Pastoral scene of the gallant south
The bulging eyes and the twisted mouth
Scent of magnolias, sweet and fresh
Then the sudden smell of burning flesh

Here is fruit for the crows to pluck
For the rain to gather, for the wind to suck
For the sun to rot, for the trees to drop
Here is a strange and bitter crop

As árvores do Sul carregadas de fruta estranha
Sangue nas folhas e sangue na raiz
Corpos negros a balançar na brisa do Sul
Fruta estranha pendurada nos choupos

Cena pastoral do Sul galante
Os olhos esbugalhados e a boca torcida
O cheiro das magnolias, doce e fresco
E o cheiro súbito de carne queimada

Eis aqui fruta para os corvos debicarem
Para a chuva juntar, para o vento sugar
Para o sol apodrecer, para a árvores deixarem cair
Eis aqui uma estranha e amarga colheita

terça-feira, 12 de abril de 2016

domingo, 3 de abril de 2016

Antes e depois de Sartre, foram numerosos os intelectuais, à esquerda ou à direita, que se enganaram com obstinação e enganaram o seu público! Mais uma vez, esqueceremos os impostores para não pensar senão nos espíritos sinceros. De onde vem uma tal propensão ao extremismo? Antes de abordar o essencial, há uma razão acessória que não se pode menosprezar: o intelectual exprime-se na maior parte das vezes por escrito, sem mais interlocutor que a página em branco. É então muito forte a tentação de ceder às exaltações da violência, muito mais do que num verdadeiro frente-a-frente.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

A case in point: the popular Facebook page “I f*cking love science” posts quick-take variations on the “science of x” theme, mostly images and short descriptions of unfamiliar creatures like the pink fairy armadillo, or illustrated birthday wishes to famous scientists like Stephen Hawking. But as the science fiction writer John Skylar rightly insisted in a fiery takedown of the practice last year, most people don’t f*cking love science, they f*cking love photography—pretty images of fairy armadillos and renowned physicists. The pleasure derived from these pictures obviates the public’s need to understand how science actually gets done—slowly and methodically, with little acknowledgement and modest pay in unseen laboratories and research facilities.
 The rhetoric of science has consequences. Things that have no particular relation to scientific practice must increasingly frame their work in scientific terms to earn any attention or support. The sociology of Internet use suddenly transformed into “web science.” Long accepted practices of statistical analysis have become “data science.” Thanks to shifting educational and research funding priorities, anything that can’t claim that it is a member of a STEM (science, technology, engineering, and math) field will be left out in the cold. Unfortunately, the rhetoric of science offers the most tactical response to such new challenges. Unless humanists reframe their work as “literary science,” they risk getting marginalized, defunded and forgotten.
When you’re selling ideas, you have to sell the ideas that will sell. But in a secular age in which the abstraction of “science” risks replacing all other abstractions, a watered-down, bland, homogeneous version of science is all that will remain if the rhetoric of science is allowed to prosper. 
We need not choose between God and man, science and philosophy, interpretation and evidence. But ironically, in its quest to prove itself as the supreme form of secular knowledge, science has inadvertently elevated itself into a theology. Science is not a practice so much as it is an ideology. We don’t need to destroy science in order to bring it down to earth. But we do need to bring it down to earth again, and the first step in doing so is to abandon the rhetoric of science that has become its most popular devotional practice.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

There are many strange coincidences in our world. The mass of the electron is 2000 times smaller than the mass of the proton. Why? The only known reason is that if it would change few times, life as we know it would be impossible. The masses of the proton and neutron almost coincide. Why? If one of their masses would change just a little, life as we know it would be impossible. The energy of empty space in our part of the universe is not zero, but a tiny number, more than a hundred orders of magnitude below the naive theoretical expectations. Why? The only known explanation is that we would be unable to live in the world with a much larger energy of vacuum.
The relation between our properties and the properties of the world is called the anthropic principle. But if the universe were given to us in one copy, this relation would not help. We would need to speculate about the divine cause making the universe custom built for humans. Meanwhile, in the multiverse consisting of many different parts with different properties, the correlation between our properties and the properties of the part of the world where we can live makes perfect sense.
Can we return back to the old picture of a single universe? Possibly, but in order to do it, three conditions should be met: One should invent a better cosmological theory, one should invent a better theory of fundamental interactions, and one should propose an alternative explanation for the miraculous coincidences which we just discussed.