segunda-feira, 16 de julho de 2018

Diferenças entre as religiões inglesa e portuguesa

Foi com viva emoção que assisti pela primeira vez a uma cerimónia religiosa na abadia de Westminster.
Encantou-me a distinção natural, a sóbria elegância do vestuário, a dignidade daqueles fiéis que, de pé, afinadíssimos, entoavam: «Aleluia! Aleluia!...», e não pude evitar uma expressão escarninha, mista de ironia, sarcasmo e até algum nojo, ao pensar nos formigames de andrajos, de pústulas, de aleijões, que se arrastam pelas estradas lusitanas, mesclando-se em massas híbridas e descomunais de povaréu lamuriento, conclaves mundiais de moléstias e pedinchice, no charnequenho lugar da Cova da Iria!...
Nem a honrosa presença de altíssimos dignatários da diplomacia mundial, de governantes ilustres, de prestigiadas individualidades da vida civil e militar, das mais imponentes e paramentadas figuras da hierarquia clerical, do próprio Papa, que também já por lá andou a suportar, com assinalável estoicismo, capaz de se infectar, a proximidade promíscua do magote insalubre, a escutar e mesmo a responder, graças à sua excelente formação poliglota, aos clamores crendeiros da matilha abusadora (como se o Sumo Pontífice não tivesse preocupações infinitamente mais transcendentes do que as mazelas e os desassossegos de cada gabiru...) pois nada disso alterou o panorama de sordidez de tais amontoamentos: somos miseráveis em tudo, até na religião...
Olhei em volta, atentamente, percorrendo a imponente estrutura arquitectónica do templo londrino, e não vi um único maneta, uma única criatura de pernas inchadas, afectada por elefantíase, era como se as varizes, as gangrenas e a fé religiosa só formassem um todo inseparável nas igrejas portuguesas, pois também não ouvi tosses espasmódicas nem queixumes doloridos, ninguém me pediu esmola, exibindo chagas ou amputações, não esbarrei com cegos nem espezinhei paralíticos, só deparei com gente finíssima, prova inequívoca de uma civiliação robusta, de sólida elevação moral e apuradíssima presença física.

Tubarão 2000
página 35
António Vitorino d'Almeida
Editora: Oficina do Livro

domingo, 22 de abril de 2018

Pastor ou proprietário de gado?

Apascentai o rebanho de Deus que está entre vós, tendo cuidado dele, não por força, mas voluntáriamente; nem por torpe ganâcia, mas de ânimo pronto; nem como tendo domínio sobre a herança de Deus, mas servindo de exemplo ao rebanho; e, quando aparecer o Sumo Pastor, alcançareis a incorruptível coroa de glória.

I Pedro 5:2-4

domingo, 8 de abril de 2018

Uma ordem chocante - 2

Levenson argumenta que só podemos entender a ordem de Deus a Abraão tendo em conta esse pano de fundo cultural. A Bíblia afirma, repetidas vezes, que, devido ao pecado dos israelitas, a vida dos seus primogénitos estará automaticamente perdida, embora possa ser resgatada através de sacrifícios regulares (Êxodo 22:28; 34:19-20) ou, enter os levitas, do serviço ao tabernáculo (Números 3:40-41), ou ainda através do pagamento de um resgate ao tabernáculo e aos sacerdotes (Êxodo 3:46-48). Quando Deus submeteu o Egipto a juízo, por ter escravizado os israelitas, o seu último castigo consistiu em matar os seus primogénitos. A vida dos seus primogénitos estava perdida, devido aos pecados das suas famílias e da nação. Porquê? O filho primogénito era a família. Por isso, quando Deus disse aos israelitas que a vida do primogénito lhe pertencia, a menos que fosse resgatada, estava a dizer, da forma mais viva possível, naquelas culturas, que cada família da terra tinha uma dívida para com a justiça eterna: a dívida do pecado.
Tudo isto é fundamental para interpretarmos a ordem dada por Deus a Abraão. Se Abraão tivesse ouvido uma voz, que lhe parecesse ser Deus, a dizer: «Levanta-te e mata Sara», é provável que Abraão nunca o tivesse feito. Teria suposto de imediato que estava a ter alucinações, pois Deus não lhe pediria para fazer nada que contradissesse claramente tudo o que Ele disse acerca da justiça e rectidão. Contudo, quando Deus afirmou que a vida do seu filho único estava perdida, isso não pareceu uma afirmação irracional e contraditória aos ouvidos de Abraão. Reparem que Deus não estava a pedir a Abraão que entrasse na tenda de Isaac e o assassinasse. Estava a pedir-lhe que lhe oferecesse um holocausto. Estava a cobrar a dívida de Abraão. O seu filho tinha de morrer pelos pecados da família.

Falsos Deuses
página 37
Timothy Keller
Editora: Paulinas

Uma ordem chocante - 1

Muitos leitores, ao longo dos tempos, têm levantado objecções compreensíveis a este relato. Têm interpretado a «moral» desta história como significando que fazer coisas cruéis e violentas é bom, desde que se acredite que essa é a vontade de Deus. Nunca ninguém falou de forma tão expressiva acerca deste assunto como Søren Kierkegaard, cujo livro Temor e Tremor se baseia na história de Abraão e Isaac. A conclusão derradeira de Kierkegaard é a de que a fé é irracional e absurda. Abraão pensou que aquela ordem não fazia sentido nenhum, contradizendo tudo o mais que Deus alguma vez dissera, mas obedeceu a essa ordem.
Será que aquela ordem parecera completamente irracional a Abraão? A interpretação feita por Kierkegaard deste episódio não toma em conta o significado do filho primogénito, segundo o pensamento e simbolismo judeus. Jon Levenson, erudito judeu, professor em Harvard, escreveu A morte e a ressurreição do filho amado. Nesse volume, ele recorda-nos que as culturas antigas não eram tão individualistas como a nossa. As esperanças e os sonhos das pessoas nunca tinham a ver com o seu êxito, prosperidade ou proeminência pessoais. Como toda a gente fazia parte de uma família, e ninguém vivia separado da sua, essas coisas só se procuravam para o clã inteiro. Devemos lembrar ainda a antiga lei da primogenitura. O filho mais velho recebia a maior parte das terras e dos bens, para que a família não perdesse o seu lugar na sociedade.
Numa cultura individualista como a nossa, a identidade e o sentido de valor de um adulto está, muitas vezes, envolto das suas capacidades e realizações, mas na Antiguidade, todas as esperanças e sonhos de um homem e da sua família repousavam sobre o primogénito varão. O apelo a desistir do filho primogénito é apenas comparável a um cirurgião que desiste de usar as suas mãos, ou a um artista visual que perde o uso dos seus olhos.

Falsos Deuses
página 36
Timothy Keller
Editora: Paulinas

segunda-feira, 12 de março de 2018

The Weight of Glory - 13

(...)

Entretanto, a cruz vem antes da coroa e amanhã é segunda-feira de manhã. Abriu uma fenda nas muralhas impiedosas do mundo, e somos convidados a seguir o nosso Capitão lá para dentro. Segui-Lo é, obviamente, o ponto essencial. E assim sendo, poderá ser perguntado sobre qual a aplicação prática destas especulações com que nos temos presenteado. Consigo lembrar-me de pelo menos uma aplicação. É possível que cada um pense demasiado na sua potencial glória na próxima vida; é mais dificilmente possível que se pense o mesmo com demasiada frequencia ou profundidade em relação ao seu próximo. A carga, ou o peso, ou o fardo da glória do meu próximo deve ser depositada nas minhas costas, uma carga tão pesada que só a humildade pode carregá-la, e as costas dos orgulhosos cederão. É uma coisa séria viver numa sociedade de possíveis deuses e deusas, lembrar que a pessoa mais aborrecida e desinteressante com que possas ter falado, um dia poderá ser uma criatura que, se a visses agora, sentir-te-ias fortemente tentado a adorá-la, ou então, um horror e uma corrupção tal que agora apenas podes conhecer, se tanto, num pesadelo. Durante todo o dia estamos, em algum grau, a ajudarmo-nos uns aos outros para um ou outro destes destinos. É à luz destas possibilidades esmagadoras, é com a reverência e a circunspecção que se lhes adequa, que devemos orientar o nosso trato uns com os outros, em todas as amizades, em todos os amores, em todas as brincadeiras, em todas as políticas. Não existem pessoas comuns/vulgares/ordinárias (ordinary). Tu nunca falaste com um mero mortal. Nações, culturas, artes, civilizações – estas são mortais, e as suas vidas estão para as nossas como a vida de um mosquito. Mas é com imortais que brincamos, trabalhamos, casamos, desprezamos e exploramos – horrores imortais ou esplendores eternos. Isto não sgnifica que devamos ser perpetuamente solenes. Devemos brincar. Mas o nosso divertimente deve ser daquele tipo (e é, de facto, o mais divertido) que existe entre pessoas que, desde o princípio, se levaram a sério mutuamente – sem frivolidade, sem superioridade, sem presunção. E a nossa caridade deve ser um amor real e custoso, profundamente sentidos pelos pecados apesar dos quais amamos o pecador – não mera tolerância ou indulgência que caricaturam o amor, da mesma forma que frivolidade caricatura a diversão. A seguir ao próprio Santo Sacramento, o teu próximo é o objecto mais santo que é apresentado aos nossos sentidos. Se o teu próximo for Cristão, ele é santo quase da mesma maneira, porque nele também a vere latitat de Cristo – o glorificador e o glorifiado, a própria personificação da Glória, está verdadeiramente escondiada.

The Weight of Glory

segunda-feira, 5 de março de 2018

The Weight of Glory - 12

(...)

E quando lá chegarmos, além da Natureza, comeremos da árvore da vida. De momento, somos renascidos em Cristo, o espírito em nós vive directamente em Deus; mas a mente, e ainda mais o corpo, recebe vida d'Ele através de mil subtracções – através dos nossos antepassados, através da nossa comida, através dos elementos. Os resultados débeis e distantes dessas energias que o êxtase criativo de Deus implantou na matéria quando Ele fez os mundos são o que agora chamamos de prazeres físicos; e mesmo que filtrados, eles são demasiado para o que conseguimos lidar actualmente. Como seria provar na fonte aquele regato do qual até estas coisas menores se mostram intoxicantes. Ainda assim, creio eu, isso é o que jaz diante de nós. O homem completo é feito para beber alegria da fonte da alegria. Como disse Santo Agostinho, o êxtase da alma salva "fluirá" para o corpo glorificado. À luz dos nossos apetites actuais especializados e depravados, não conseguimos imaginar esta torrens voluptatis, e aviso-vos seriamente para não o tentarem. Mas isto deve ser mencionado, para expulsar pensamentos ainda mais desorientadores – pensamentos de que o que se salva é um mero espírito, ou de que o corpo ressurrecto vive numa insensibilidade dormente. O corpo foi feito para o Senhor, e estas excentricidades sinistras estão muito distantes do que está certo.

(...)

The Weight of Glory

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

The Weight of Glory - 11

(...)

E isto traz-me para o outro sentido para glória – glória enquanto brilho, esplendor, luminosidade. Devemos brilhar como o sol, a Estrela Vespertina ser-nos-á oferecida. Penso que comecei a perceber o que isso significa. Por um lado, claro, Deus já nos ofereceu a Estrela Verpertina: uma pessoa pode sair e desfrutar da oferta por muitas belas manhãs, se se levantar cedo o suficiente. Mas o que é que, poderão perguntar, nós queremos? Ah, mas nós queremos muito mais do que isso – algo a que os livros de estética pouco se dedicam. Mas os poetas e as mitologias sabem tudo sobre o assunto. Não queremos apenas ver a beleza, embora, sabe Deus, até esse seja um prémio suficiente. Queremos outra coisa, que dificilmente pode ser exprimida por palavras – estar unidos com a beleza que vemos, passar para ela, recebê-la em nós, banharmo-nos nela, tornarmo-nos parte dela. É por isso que povoámos o ar, a terra e a água com deuses e deusas, e ninfas e elfos – que, embora nós não possamos, no entanto estas projecções podem, desfrutar nelas mesmas da beleza, graça e poder da qual a Natureza é a imagem. É por isso que os poetas nos dizem falsidades tão adoráveis. Eles falam como se o vento do oeste pudesse mesmo varrer a alma humana; mas não pode. Eles dizem-nos que "a beleza nascida de um som murmurante" passará para um rosto humano. Mas não passa. Ou pelo menos, ainda não passa. Porque se levamos a sério a imagética das Escrituras, se acreditamos que um dia Deus nos dará a Estrela Vespertina e nos compelir a envergar o esplendor do sol, então podemos supor que os mitos antigos e a poesia moderna, sendo falsas enquanto história, poderão estar bastante perto da verdade enquanto profecia. De momento estamos no exterior do mundo, no lado errado da porta. Nós conseguimos distinguir a frescura e a pureza da manhã, mas elas não nos tornam frescos e puros. Não nos conseguimos misturar com os esplendores que vemos. Mas todas as páginas do Novo Testamento sussurram o rumor de que não será sempre assim. Em algum dia, se Deus quiser, entraremos para o lado de dentro. Quando as almas humanas se tornarem tão perfeitas em obediência voluntária quanto a criação inanimada na sua obediência desprovida de vida, então poderão envergar a sua glória, ou melhor, aquela glória superior da qual a Natureza é apenas um primeiro esboço. Não julguem que estou a descair para uma qualquer extravagância pagã de ser absorvido na Natureza. A Natureza é mortal. Nós viveremos para além dela. Quando todos os sóis e nébulas tiverem morrido, cada um de vocês continuará vivo. A Natureza é apenas a imagem, o símbolo; mas é o símbolo que as Escrituras me convidam a usar. Somos instados a passar através da Natureza, para além dela, até àquele esplendor que ela reflecte a espaços.

(...)

The Weight of Glory

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Escolher um carro

O meu interlocutor, um homem de meia-idade, foi buscar um catálogo, a fim de me permitir escolher o modelo, mas a última coisa que me estava a apetecer era consultar catálogos, por isso tratei de lhe explicar que precisava de um carro para quando andasse às compras. Não planeava utilizá-lo na autoestrada, nem para levar a namorada a passear. Não precisava de uma viatura com um motor potente, nem com ar condicionado, rádio, tecto de abrir ou pneus topo de gama. Disse-lhe mais: queria um modelo pequeno, que gastasse pouco e não libertasse muito fumo pelo tubo de escape, que não fosse demasiado ruidoso e não me deixasse ficar no meio da estrada. No que dizia respeito à cor, caso tivessem algum azul-marinho, seria perfeito.
O vendedor propôs-me um carro utilitário, amarelo, de fabrico japonês. A cor não me entusiasmava por aí além; contudo, assim que o experimentei, percebi logo que estava na presença de uma viatura fiável e que andava bem. Além disso, gostei do design, inspirado em linhas simples, e do facto de não contemplar acessórios supérfluos. Ainda por cima, tratando-se de um modelo antigo, era barato.
- Um carro é basicamente isto – disse-me o vendedor. - Para falar com toda a franqueza, creio que as pessoas perderam o juízo.
Respondi-lhe que era também essa a minha opinião.
E foi assim que me tornei o proprietário de um carro para ir às compras.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

The Weight of Glory - 10

(...)

Talvez pareça um tanto rude descrever glória enquanto o facto de Deus "reparar" em nós. Mas esta é praticamente a linguagem do Novo Testamento. Paulo promete àqueles que amem Deus, não como nós esperaríamos, que conhecerão Deus, mas que serão conhecidos por Ele. É uma estranha promessa. Então Deus não conhece todas as coisas a toda a hora? No entanto, ressoa terrivelmente noutra passagem do Novo Testamento. Nela somos avisados que poderá acontecer a qualquer um de nós quando nos apresentarmos finalmente diante de Deus ouvir a palavras implacáveis: "Nunca te conheci. Aparta-te de mim". Em certo sentido, tão obscuro para o intelecto quanto insuportável para os sentimentos, tanto podemos ser banidos da presença d'Aquele que está presente em todo lado, como apagados do conhecimento d'Aquele que conhece tudo. Nós podemos ser completa e absolutamente deixados de fora – repelidos, exilados, alienados, final e inexprimivelmente ignorados. Por outro lado, nós podemos ser chamados a entrar, acolhidos, recebidos, reconhecidos. Caminhamos todos os dias na lâmina da navalha entre estas duas possibilidades. Aparentemente, como tal, a nossa nostalgia permanente, o nosso anseio de ser reunidos com qualquer coisa no universo da qual nos sentimos separados, estar do lado de dentro de uma porta que sempre vimos do lado de fora, não é uma mera fantasia neurótica, mas o mais verdadeiro indicador da nossa condição real. E estar por fim convocado a entrar seria uma glória e uma honra para além de qualquer um dos nossos méritos, e também a cura para aquela velha aflição

(...)

The Weight of Glory

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Escolher um sofá

(...) O sofá é muito confortável, nem demasiado mole, nem demasiado duro. Além do mais, a almofada adapta-se na perfeição à minha cabeça. Habituado que estou a trabalhar em qualquer lugar, sei do que falo quando digo que nem sempre é fácil encontrar um sofá cómodo onde valha a pena repousar o corpinho quando chega a hora de passar pelas brasas. Os sofás, na sua maioria, são comprados ao acaso, sem qualquer critério, revelando-se, até mesmo no caso dos mais luxuosos, uma autêntica decepção assim que a pessoa experimenta deitar-se em cima deles. Isto para dizer que poucos são os que realmente valem a pena. Não compreendo como é que, na hora de comprar um sofá, as pessoas podem dar-se ao luxo de ser tão pouco exigentes.
Defendo a teoria – ainda que tal possa não passar de um proconceito da minha parte – de que a escolha de um sofá diz muito acerca do seu proprietário. Um sofá constitui, à sua maneira, um mundo compacto e inviolável. Isso, porém, é uma coisa que só aqueles que cresceram comodamente sentados num bom sofá podem entender. Acontece o mesmo aos que cresceram a ler bons livros e a ouvir boa música. Funciona assim.
Conheço vários indivíduos que, apesar de conduzirem automóveis de alta cilindrada, têm em suas casas sofás de segunda ou terceira categoria. São pessoas que não me merecem confiança. Um carro topo de gama terá o seu valor, não o nego, mas não passa de um automóvel caro. Qualquer pessoa com umas massas pode comprá-lo. Ao passo que um bom sofá exige discernimento, experiência e toda uma filosofia de vida. Custa dinheiro, mas isso não basta. É impossível adquirir um sofá perfeito sem uma ideia clara e definida do que é um sofá.
O sofá em cima do qual eu me encontrava estendido pertencia, a todos os títulos, à categoria dos sofás de primeiríssima categoria. Tanto assim era que comecei a sentir pelo velhote um assomo de simpatia.

página 65-66
editora Casa das Letras
3ª edição

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

The Weight of Glory - 9

(...)

E agora reparem no que está a acontecer. Se eu tivesse rejeitado a imagem escritural e autoritativa de glória, e ficado obstinadamente bloqueado no desejo vago que, no início, era a minha única pista para o Céu, poderia não ter encontrado de todo a ligação entre esse desejo e a promessa cristã. Mas agora, tendo seguido nos textos sagrados o que parecia ser confuso e repelente, descubro, para minha grande surpresa, olhando para trás, que a ligação é claríssima. Glória, aquela pela qual o Cristianismo me ensina a esperar, satisfaz afinal o meu desejo original e, na verdade, revela um elemento desse desejo em que eu não tinha reparado. Ao deixar de considerar, por um momento, o meu próprio querer, comecei a perceber melhor o que eu realmente queria. Quando tentei, há alguns minutos atrás, descrever os nossos anseios espirituais, acabei por omitir uma das suas características mais curiosas. Geralmente reparamos nela assim que a visão esmorece, que música termina, ou que a paisagem perde a sua luz celestial. O que sentimos nesses momentos foi bem descrito por Keats como "a jornada de regresso ao eu habitual". Vocês sabem o que quero dizer. Por breves minutos temos a ilusão de que pertencemos àquele mundo. Depois acordamos e percebemos que tal não acontece. Fomo meros espectadores. A beleza sorriu-nos, mas não nos recebeu; a sua face virou-se na nossa direcção, mas não nos viu. Não fomos aceites, acolhidos ou convidados a dançar. Podemos ir quando nos apetecer, podemos ficar se conseguirmos: "Ninguém nos ouve". Um cientista poderá responder que como a maior parte das coisas a que chamamos belas é inanimada, não é lá muito surpreendente que elas não reparem em nós. Como é óbvio, isso é verdade. Não é do objecto físico que vos estou a falar, mas daquela qualquer coisa indescritível da qual ele se torna mensageiro por um momento. E parte da amargura que se mistura com a doçura da mensagem deve-se ao facto de que tão raramente a mensagem parece ser dirigida a nós, mas dirigida sim a alguma coisa de que ouvimos falar. Por amargura, quero dizer dor, não ressentimento. Não nos devemos atrever a pedir para ser objecto de atenção. No entanto definhamos. A sensação de que somos tratados como estrangeiros neste universo, o anseio de sermos reconhecidos, de recebermos algum tipo de reacção, de contruir pontes sobre os abismos que crescem entre nós e a realidade, é parte do nosso segredo inconsolável. E seguramente que, deste ponto de vista, a glória, no sentido descrito, se torna altamente relevante para o nosso desejo. Porque glória significa boa reputação junto de Deus, aceitação por parte de Deus, resposta, reconhecimento e ser acolhido no coração das coisas. A porta em que temos batido a nossa vida toda abrir-se-á finalmente.

(...)

The Weight Of Glory

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

The Weight of Glory - 8

(...)

Não estou a esquecer-me do quanto este desejo tão inocente é parodiado nas nossas ambições humanas, ou no quão rapidamente, na minha experiência, o legítimo prazer de agradar aqueles a quem era meu dever agradar se transforme no veneno mortal da auto-admiração. Mas acho que conseguia detectar um instante – um curto, curto instante – antes disto acontecer, durante o qual a satisfação de ter agradado aqueles a quem acertadamente amei, e acertadamente temi, era pura. E isto é suficiente para pensarmos sobre o que pode acontecer quando a alma redimida, para além de toda a esperança, e de quase toda a crença, descobre por fim que agradou Aquele para o qual ela foi criada para agradar. Então, não haverá espaço para vaidade. Será libertada da miserável ilusão de que foi pelo seu esforço. Sem qualquer mancha daquilo a que agora chamamos auto-aprovação, ela irá alegrar-se inocentemente naquilo que Deus a criou para ser, e a ocasião que curará o seu velho complexo de inferioridade para sempre, afogará também o seu orgulho, mais fundo do que o livro de Prospero. A perfeita humildade dispensa modéstia. Se Deus está satisfeito com a obra, a obra pode estar satisfeita consigo própria; "não lhe compete regatear elogios com o Soberano". Consigo imaginar alguém a dizer que não lhe agrada a minha ideia do Céu enquanto um sítio onde recebemos palmadinhas nas costas. Mas por detrás desse desagrado jaz um equívoco movido por orgulho. No fim, aquela Face que é o encanto ou o terror do universo, terá de se voltar para cada um de nós com uma ou outra expressão, conferindo glória inexprimível ou infligindo vergonha que não pode ser curada ou disfarçada. Li num jornal no outro dia que o fundamental é o que pensamos acerca de Deus. Por Deus, não é! O que Deus pensa de nós é não apenas mais importante, mas infinitamente mais importante. De facto, o que pensamos d'Ele não tem importância alguma, excepto na medida em que isso esteja relacionado com o que Ele pensa de nós. Está escrito que "nos apresentaremos diante" d'Ele, compareceremos, seremos inspeccionados. A promessa de glória é a promessa, quase impossível de acreditar e só possível pela obra de Cristo, de que alguns de nós, qualquer um de nós que realmente o escolha, sobreviverá a esse exame, encontrará aprovação, agradará a Deus. Agradar a Deus... ser um ingrediente real na felicidade divina... ser amado por Deus, e ser aceite não apenas por piedade, mas por deleite, da mesma maneira que um artista se deleita na sua obra ou um pai se deleita num filho – parece impossível, um peso ou um fardo de glória que os nossos pensamentos dificilmente conseguem suster. Mas assim é.

(...)

The Weight of Glory

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

The Weight of Glory - 7

(...)

 De seguida, viro-me para a ideia de glória. Não há forma de escapar ao facto de que esta ideia é bastante proeminente no Novo Testamente e nos primeiros escritos cristãos. Salvação está constantemente associada a palmeiras, coroas, roupões brancos, tronos e esplendor como o do sol e das estrelas. Tudo isto não me causa nenhum apelo imediato, e a esse respeito, imagino que eu seja um típico moderno. Glória sugere-me duas ideias, das quais uma parece-me perversa, e a outra ridícula. Para mim, glória significa ou fama ou luminosidade. Em relação à primeira, como ser famoso significa ser mais conhecido do que as outras pessoas, vejo o desejo pela fama como uma paixão competitiva, e como tal, mais do Inferno do que do Céu. Em relação à segunda, quem é que deseja tornar-se numa espécie de lâmpada eléctrica viva?



Quando comecei a debruçar-me sobre este assunto fiquei bastante surpreendido por deparar-me com cristãos tão diferentes quanto Milton, Johnson e Tomás de Aquino a levarem bastante a sério a ideia de glória celestial no sentido de fama ou boa reputação. Mas não fama conferida por criaturas semelhantes a nós – fama com Deus, aprovação ou (diria eu) "apreciação" por Deus. E então, quando pensei melhor no assunto, reparei que esta perspectiva concorda com as Escrituras; nada pode eliminar da parábola o elogio divino, "procedeste bem, servo bom e fiel". Com isto, uma boa parte do que eu tinha pensado a vida toda caiu como um castelo de cartas. De repente lembrei-me que ninguém pode entrar no Céu, excepto se for como uma criança; e nada é tão óbvio numa criança – não numa criança presunçosa, mas numa boa criança – como o seu grande e indisfarçável prazer em ser elogiada. Não apenas numa criança, mas até mesmo num cão ou num cavalo. Aparentemente, o que tinha confundido com humildade tinha-me impedido, estes anos todos, de perceber qual era de facto o mais humilde, o mais infantil, o mais "criaturístico" – não, mais do que isso, o prazer específico dos inferiores: o prazer da besta diante do homem, da criança diante do seu pai, do aluno diante do seu professor, da criatura diante do seu Criador.

(...)

The Weight of Glory

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

The Weight of Glory - 6

(..)

As promessas das Ecrituras podem ser reduzidas, por alto, a cinco ênfases. É prometido, em primeiro lugar, que estaremos com Cristo; em segundo, que seremos como Ele; em terceiro, com uma enorme riqueza de imagens, que teremos "glória"; em quarto, que seremos, em certo sentido, alimentados ou banqueteados ou entretidos; e finalmente, que teremos algum tipo de cargo oficial – governar cidades, julgar anjos, ser pilares do templo de Deus. A primeira pergunta que faço acerca destas promessas é: "porquê qualquer uma delas excepto a primeira?" Pode alguma coisa ser acrescentada à concepção de estar com Cristo? Porque deve ser verdade que, como diz um velho escritor, quem tem Deus e tudo o resto não tem mais do que aquele que tem apenas Deus. Penso que a resposta jaz uma vez mais na natureza dos símbolos. Porque embora possamos não reparar à primeira vista, ainda assim é verdade que qualquer concepção de estar com Cristo que qualquer um de nós possa agora formar não será muito menos simbólica do que as outras promessas; porque infiltrará uma ideia de proximidade espacial e conversa carinhosa da maneira que entendemos conversa agora, que provavelmente concentrar-se-á mais na humanidade de Cristo, excluindo a sua divindade. E de facto, descobrimos que os que só observam a primeira promessa, enchem-na de uma imagética bastante terrena – de facto, com imagética himenal ou erótica. Não estou, em momento algum, a condenar tal imagética. Desejo de coração conseguir envolver-me com ela mais profundamente do que consigo, e orem para que eu venha a conseguir. Mas o meu ponto é que isto é também apenas um símbolo, semelhante à realidade em alguns aspectos, mas diferente noutros, e como tal, precisa de correcção dos símbolos diferentes das outras promessas. A variação da promessas não significa que outra coisa que não Deus virá a ser a nossa derradeira felicidade; mas porque Deus é mais do que uma Pessoa, e porque não devemos imaginar a alegria da Sua presença demasiado exclusivamente em termos da nossa pobre experiência presente de amor pessoal, com toda a sua pequenez, distorção e monotonia, é-nos fornecida uma dúzia de imagens que se mudam, corrigem e aliviam umas às outras.

(...)

The Weight of Glory

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

The Weight of Glory - 5

(...)

 Façam eles como quiserem, nós continuamos conscientes de um desejo que nenhuma felicidade natural satisfará. Mas há alguma razão para supor que a realidade oferece qualquer possibilidade de o satisfazer? "Nem estar com fome prova que temos o pão". Mas penso que pode ser salientado que isto é não perceber o que importa. A fome física de um homem não prova que ele vá ter algum pão; ele poderá morrer de fome numa jangada no Atlântico. Mas seguramente que a fome de um homem prova que ele provém de uma raça que repara o seu corpo quando come e habita um mundo onde existem substâncias comestíveis. Da mesma maneira, embora não acredite (quem me dera acreditar) que o meu desejo pelo Paraíso prove que eu vá desfrutar dele, penso que é uma indicação razoavelmente boa de que existe, e que alguns homens para lá irão. Um homem pode amar uma mulher e não conquistá-la; mas seria muito estranho se o fenómeno a que chamamos "apaixonar" ocorresse num mundo assexuado.

Então, eis o desejo, ainda a vaguear e incerto do seu objecto, e ainda largamente incapaz de olhar na direcção onde esse desejo realmente se encontra. Os nossos livros sagrados dão-nos alguma descrição do objecto. É, obviamente, uma descrição simbólica. O Céu é, por definição, exterior à nossa experiência, mas todas as descrições inteligíveis devem ser feitas a partir de coisas internas à nossa experiência. A imagem do Céu nas escrituras é, portanto, apenas tão simbólica quanto a imagem que o nosso desejo, sem ajudas, inventa para si mesmo; o Céu não está realmente cheio de jóias mais do que poderia estar da beleza da Natureza, ou de uma bela peça musical. A diferença é que a imagética das escrituras tem autoridade. Chegou até nós através de escritores que foram mais próximos de Deus do que nós, e aguentou o teste da experiência dos Cristãos ao longo dos séculos. O apelo natural que esta imagética autoritativa tem para mim é, à primeira vista, bastante reduzido. À primeira vista esfria, mais do que desperta, o meu desejo. E isso é apenas o que eu devia esperar. Se o Cristianismo não conseguisse dizer-me acerca da terra distante mais do que o meu temperamento já me tinha levado a presumir, então o Cristianismo não seria mais elevado do que eu próprio. Se tem mais para me dar, devo esperar que seja menos atraente no imediato do que "as minhas cenas". Ao inicio Sófocles pode parecer enfadonho e frio para o rapaz que só atingiu o Shelley. Se a nossa religião é uma coisa objectiva, então nunca devemos desviar os nossos olhos daqueles elementos que parecem confusos ou repelentes; porque será precisamente o confuso e o repelente que esconderá o que ainda não sabemos e precisamos de saber.

(...)

The Weight of Glory