segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

O principal é o senhor não mentir a si próprio. Quem mente a si mesmo e ouve as suas próprias mentiras chega a um ponto tal que já não distingue qualquer verdade em si nem à sua volta, deixando por isso de respeitar a si mesmo e aos outros. Ora, sem respeito por todos, o senhor deixa de amar e, para se divertir e distrair, sem amor, entrega-se às paixões e às volúpias grosseiras, atinge um estádio animalesco nos seus vícios, e tudo isso provém de estar a mentir permanentemente a si próprio e aos outros. Quem mente a si mesmo também será o primeiro a ofender-se. É que, às vezes, é muito agradável ficar ofendido, não é verdade? A pessoa sabe bem que ninguém a ofendeu, que inventou a sua ofensa e que mentiu para enfeitá-la, que exagerou para criar todo o cenário, que se agarrou a uma palavrinha e fez de uma ervilha uma montanha... a própria pessoa sabe isso e, mesmo assim, apressa-se a ficar ofendida, a ficar ofendida até ao prazer, até sentir um grande deleite e, a partir daqui, chega até à verdadeira hostilidade... Levante-se do chão e sente-se, por favor, porque isso tudo são também gestos falsos.

disse Zóssima a Fiódor Pávlovitch

Volume I
página 62
Editorial Presença

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017



Change your heart
Look around you
Change your heart
It will astound you
I need your lovin'
Like the sunshine
Everybody's gotta learn sometime

Muda o teu coração
Olha à tua volta
Muda o teu coração
Vai surpreender-te
Eu preciso do teu amor
Como do brilho do sol
Toda a gente acaba por ter de aprender.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016



Fazes no dia que nasce
A manhã mais bonita
A brisa fresca da tarde
A noite menos fria

Eu não sei se tu sabes
Mas fizeste o meu dia também

Esse bom dia que dás 
é outro dia que nasce
É acordar mais bonita
Trabalhar com vontade
É estar no dia com pica

É passar com a vida 
e desejar-te um bom dia também


Um bom dia para ti
Não que apenas passa não que pesa e castiga
Não que esqueças mais tarde
Mas o dia em que me digas


Ao ouvido baixinho 
ai tu fizeste o meu dia também tão bom também

Faz também o dia de alguém
Faz também o dia de alguém
Faz também o dia de alguém
Faz também o dia de alguém

Fazes no dia que nasce
A manhã mais bonita
A brisa fresca da tarde
A noite menos fria

Eu não sei se tu sabes
Mas fizeste o meu dia também

Um bom dia para ti
E para o estranho que passa
Para aquele que se esquiva
Para quem se embaraça 
e se cala na vida



Mesmo que não o diga
Ai tu fizeste o meu dia também tão bom também

Faz também o dia de alguém
Faz também o dia de alguém
Faz também o dia de alguém
Faz também o dia de alguém

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016



Quando me queres incluir
e me pões a dormir
num bairro qualquer por aí

E a lição de bem-estar
é não incomodar
quem veja incómodo em mim

Por mais passos que eu dê
mesmo sem querer
irei sempre bater
ou esbarrar contra ti

É teu o meu espaço
e p´lo teu embaraço
pelas portas d´aço
eu já percebi:

Tens medo de mim
Tens medo de mim
Tens medo de mim

Quando me vens revistar
só porque dou ar
de não ser daqui nem dali

E para me proteger
impões um poder
que não olha a meios pró fim

Todo o gesto que eu faça
é vil ameaça
que anulas e esmagas
e vejo assim

que a força que empregas
é injusta e cega
não vê em quem acerta
e acertas em mim

Tens medo de mim
Tens medo de mim
Tens medo de mim

Quando me culpas e prendes
tudo porque entendes
que isso é melhor para mim

Eu, mesmo inocente,
sou sempre diferente
porque não sou igual a ti

Agora, não entendo,
porquê este medo
brutal e tão extremo
que a ninguém faz crer

que estou na cadeia
porque a tua carteira
caiu, apanhei-a,
e quis devolver.

Tens medo de mim
Tens medo de mim
e eu medo de ti

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Quantas vezes, ao participarmos em alguma ajuda a uma instituição de caridade, não teremos agido como se estivéssemos a dar alguma coisa nossa cultivando todas as expectativas de sermos considerados abnegados e generosos? Isso aconteceu quando estávamos apenas a administrar, como mordomos, parte daquilo que o verdadeiro Dono nos confiou para os propósitos que tem em mente. A prova de que não é desta forma que nos vemos a nós próprios é o sentimento que nos invade quando alguém se esquece de nos agradecer, agradecendo só (!) a Deus.

Editora: Dikaion
página 128

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Um dia, li uma frase de Karl Barth que compara os métodos do livro de Génesis com os romances de Dostoievski. Barth diz que ambos arrogantemente ignoram as apreciações e honras convencionais e aproximam-se das vidas de homens e mulheres cavando as profundezas de Deus nas suas supostas vidas convencionais. Dostoievski e Génesis não respeitam as máscaras de homens e mulheres, mas julgam seus segredos. Eles vêem além do que homens e mulheres aparentam ser e entendem o que eles são e o que eles não são. Eles vêem, nos termos de Paulo, sua justiça reconhecida como o divino "todavia", e não como o divino "portanto"; como perdão, e não como um permissão para o que eles acreditam ser.

Original: Under the Unpredictable Plant
Editora: United Press
página 67

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Nunca se viam de um modo definido as suas feições. Os seus olhos azuis, profundos, vivos e inquisitivos só apareciam fora do espaço público. David pensava agora que o amigo sempre parecera querer esconder-se. Tinha visto algumas fotografias suas de miúdo em que era possível prever no olhar esquivo, e no modo reservado do corpo, a pré-história do personagem que haveria de criar para conseguir ser o artista que desejava ser.

Editora: Quetzal
página 171

sexta-feira, 19 de agosto de 2016


Hallelujah! I just found Jesus
Swimming at the bottom of the bottle 
I keep crawling out of
He said You look familiar but I can't place your face
I said You look like hell 
and that we used to hang at my mother's request
Hallelujah! I just found Jesus 
Trying to save the world through the wet hands 
and mouth of a girl
She's convinced me to stay in for as long as 
we both shall live
(Or until one of us gets bored)
Have I been saved?
'Cause I feel the same
Dirty and tired
Can I be saved without having shame or remorse 
for what I don't believe?
I offer up my humbled soul and my broken spirit 
All those things that I can't control
The intangible bullshit to you, my Lord
I believe there is no white light
Somebody's mistaken or somebody lied
I believe there is only one truth 
It resonates different in me and you 
so don't try to sell me yours
A criança que fui seguiu-me de desapontamento em desapontamento nesta primeira semana de trabalho. Pedra, lixo, silvedo e, sobretudo, a total ausência de magia. Nada remotamente relacionado com passagens secretas ou entradas para grutas ou divisões escondidas com a possibilidade de algum achado extraordinário. Sabia, evidentemente, que as lendas acerca da serra não podiam ser reais, mas sou incapaz de evitar sentir-me decepcionado.

Editora: Quetzal
página 13

segunda-feira, 18 de julho de 2016

The voice of Istanbul.

 I've had at least thirty names on your own to Istanbul. Now they say I'm between the east and the west, an identity crises. I know there's enough for this nonsense. Take the labels off and just look at me. You won't need a guidebook. Like all cities, I have my own sense of time. I'm a labyrinth of layers that only makes sense without a compass. If you're hesitant, not sure which way to go as you walk about, follow one of my cats. They will lead you to places, introduce you to people, point out secrets they keep even from me. They, more than anyone, are the longest continuing residents of the city A challenge to those who see their future in my past, I'm an obstacle for those who see only the future. I see change with the patience of centuries. Look at my silhouette from the bridge on the Golden Horn. Time has not passed me by. It has protected me. I ask of you the same.

sábado, 23 de abril de 2016


Southern trees bear strange fruit
Blood on the leaves and blood at the root
Black bodies swinging in the southern breeze
Strange fruit hanging from the poplar trees

Pastoral scene of the gallant south
The bulging eyes and the twisted mouth
Scent of magnolias, sweet and fresh
Then the sudden smell of burning flesh

Here is fruit for the crows to pluck
For the rain to gather, for the wind to suck
For the sun to rot, for the trees to drop
Here is a strange and bitter crop

As árvores do Sul carregadas de fruta estranha
Sangue nas folhas e sangue na raiz
Corpos negros a balançar na brisa do Sul
Fruta estranha pendurada nos choupos

Cena pastoral do Sul galante
Os olhos esbugalhados e a boca torcida
O cheiro das magnolias, doce e fresco
E o cheiro súbito de carne queimada

Eis aqui fruta para os corvos debicarem
Para a chuva juntar, para o vento sugar
Para o sol apodrecer, para a árvores deixarem cair
Eis aqui uma estranha e amarga colheita

terça-feira, 12 de abril de 2016

domingo, 3 de abril de 2016

Antes e depois de Sartre, foram numerosos os intelectuais, à esquerda ou à direita, que se enganaram com obstinação e enganaram o seu público! Mais uma vez, esqueceremos os impostores para não pensar senão nos espíritos sinceros. De onde vem uma tal propensão ao extremismo? Antes de abordar o essencial, há uma razão acessória que não se pode menosprezar: o intelectual exprime-se na maior parte das vezes por escrito, sem mais interlocutor que a página em branco. É então muito forte a tentação de ceder às exaltações da violência, muito mais do que num verdadeiro frente-a-frente.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

A case in point: the popular Facebook page “I f*cking love science” posts quick-take variations on the “science of x” theme, mostly images and short descriptions of unfamiliar creatures like the pink fairy armadillo, or illustrated birthday wishes to famous scientists like Stephen Hawking. But as the science fiction writer John Skylar rightly insisted in a fiery takedown of the practice last year, most people don’t f*cking love science, they f*cking love photography—pretty images of fairy armadillos and renowned physicists. The pleasure derived from these pictures obviates the public’s need to understand how science actually gets done—slowly and methodically, with little acknowledgement and modest pay in unseen laboratories and research facilities.
 The rhetoric of science has consequences. Things that have no particular relation to scientific practice must increasingly frame their work in scientific terms to earn any attention or support. The sociology of Internet use suddenly transformed into “web science.” Long accepted practices of statistical analysis have become “data science.” Thanks to shifting educational and research funding priorities, anything that can’t claim that it is a member of a STEM (science, technology, engineering, and math) field will be left out in the cold. Unfortunately, the rhetoric of science offers the most tactical response to such new challenges. Unless humanists reframe their work as “literary science,” they risk getting marginalized, defunded and forgotten.
When you’re selling ideas, you have to sell the ideas that will sell. But in a secular age in which the abstraction of “science” risks replacing all other abstractions, a watered-down, bland, homogeneous version of science is all that will remain if the rhetoric of science is allowed to prosper. 
We need not choose between God and man, science and philosophy, interpretation and evidence. But ironically, in its quest to prove itself as the supreme form of secular knowledge, science has inadvertently elevated itself into a theology. Science is not a practice so much as it is an ideology. We don’t need to destroy science in order to bring it down to earth. But we do need to bring it down to earth again, and the first step in doing so is to abandon the rhetoric of science that has become its most popular devotional practice.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

There are many strange coincidences in our world. The mass of the electron is 2000 times smaller than the mass of the proton. Why? The only known reason is that if it would change few times, life as we know it would be impossible. The masses of the proton and neutron almost coincide. Why? If one of their masses would change just a little, life as we know it would be impossible. The energy of empty space in our part of the universe is not zero, but a tiny number, more than a hundred orders of magnitude below the naive theoretical expectations. Why? The only known explanation is that we would be unable to live in the world with a much larger energy of vacuum.
The relation between our properties and the properties of the world is called the anthropic principle. But if the universe were given to us in one copy, this relation would not help. We would need to speculate about the divine cause making the universe custom built for humans. Meanwhile, in the multiverse consisting of many different parts with different properties, the correlation between our properties and the properties of the part of the world where we can live makes perfect sense.
Can we return back to the old picture of a single universe? Possibly, but in order to do it, three conditions should be met: One should invent a better cosmological theory, one should invent a better theory of fundamental interactions, and one should propose an alternative explanation for the miraculous coincidences which we just discussed.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

A questão completa desse argumento pode ser resumida brevemente: o naturalismo coloca-nos como seres humanos presos numa caixa. Porém, para termos qualquer confiança sobre a veracidade do nosso conhecimento de que estamos numa caixa, precisamos ficar fora da caixa, ou ter algum outro ser fora da caixa que nos forneça essa informação (os teólogos chama a isso "revelação"). Mas não há nada ou ninguém fora da caixa para nos dar a revelação, e não podemos por nós mesmos transcender a caixa. Portanto, niilismo epistemológico.
Um naturalista que não consegue perceber isso é como o homem no poema de Stephen Crane:

Vi um homem a perseguir o horizonte; 
Voltas e mais voltas e eles nunca se encontravam.
Isso perturbava-me;
Interpelei o homem. "
Isso é fútil", disse eu,
"você nunca conseguirá -"
"Você está enganado", gritou ele,
e continuou.

 No sistema naturalista, as pessoas perseguem o conhecimento que sempre se afasta delas. Nunca podemos conhecer.

página 105
Editorial Press
Original: The Universe Next Door

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

What scientific idea is ready for retirement?
ESSENTIALISM

(...)
Moral controversies such as those over abortion and euthanasia are riddled with the same infection. At what point is a brain-dead accident-victim defined as "dead"? At what moment during development does an embryo become a "person"? Only a mind infected with essentialism would ask such questions. An embryo develops gradually from single-celled zygote to newborn baby, and there's no one instant when "personhood" should be deemed to have arrived. The world is divided into those who get this truth and those who wail: "But there has to be some moment when the foetus becomes human." No, there really doesn't, any more than there has to be a day when a middle-aged person becomes old. It would be better – though still not ideal – to say the embryo goes through stages of being a quarter human, half human, three quarters human… The essentialist mind will recoil from such language and accuse me of all manner of horrors for denying the essence of humanness.

Evolution too, like embryonic development, is gradual. Every one of our ancestors, back to the common root we share with chimpanzees and beyond, belonged to the same species as its own parents and its own children. And likewise for the ancestors of a chimpanzee, back to the same shared progenitor. We are linked to modern chimpanzees by a V-shaped chain of individuals who once lived and breathed and reproduced, each link in the chain being a member of the same species as its neighbours in the chain, no matter that taxonomists insist on dividing them at convenient points and thrusting discontinuous labels upon them. If all the intermediates, down both forks of the V from the shared ancestor, had happened to survive, moralists would have to abandon their essentialist, "speciesist" habit of placing Homo sapiens on a sacred plinth, infinitely separate from all other species. Abortion would no more be "murder" than killing a chimpanzee – or, by extension, any animal. Indeed an early-stage human embryo, with no nervous system and presumably lacking pain and fear, might defensibly be afforded less moral protection than an adult pig, which is clearly well equipped to suffer. Our essentialist urge toward rigid definitions of "human" (in debates over abortion and animal rights) and "alive" (in debates over euthanasia and end-of-life decisions) makes no sense in the light of evolution and other gradualistic phenomena.
(...)


Pergunta: Que ideia científica está pronta para a reforma?
Resposta de Dawkins: Essencialismo.

(...)

Controvérsias morais como as levantadas pelo aborto e eutanásia estão armadilhadas com o mesmo vírus. Em que ponto é que uma vítima de morte cerebral pode ser considerada "morta"? Em que ponto do seu desenvolvimento um embrião torna-se uma "pessoa"? Apenas uma mente infectada com essencialismo pode colocar estas questões. Um embrião desenvolve-se gradualmente a partir do zigoto unicelular até chegar a recém-nascido, e não há um momento a partir do qual possamos considerar que a “pessoalidade” chegou. O mundo divide-se naqueles que percebem esta verdade e os que murmuram “mas tem de haver um momento em que o feto se torna humano”. Não, na realidade não existe, tanto quanto não tem de haver um dia em que um adulto passa a velho. Seria melhor - embora não ideal - dizer que o embrião atravessa estágios em que se torna um quarto de humano, meio humano, três quartos de humano… A mente essencialista afastar-se-á de tal linguagem e acusar-me-á de topo o tipo de horrores por negar a essência da humanidade.

Também a evolução, como o desenvolvimento embrionário, é gradual. Todos os nossos ancestrais, desde a raiz comum que partilhamos com os chimpanzes entre outros, pertenceram à mesma espécie que os seus pais e os seus filhos. E o mesmo se passa com os ancestrais dos chimpanzés, até ao mesmo progenitor partilhado. Estamos ligados aos chimpanzés modernos por uma cadeia de indivíduos em V que viveram, respiraram e reproduziram-se, sendo cada elo da cadeia um membro da mesma espécie que os seus vizinhos na cadeia, mesmo que os taxonomistas insistam em dividi-los em pontos convenientes, forçando a rotulação deles em categorias descontínuas. Se todos os intermédios, ao longo de ambas as pernas do V do ancestral partilhado, tivessem sobrevivido até aos nossos dias, os moralistas teriam de abandonar o seu hábito essencialista, “especista”, de colocar o Homo Sapiens num pedestal sagrado, infinitamente separado das outras espécies. O aborto não seria mais “homicídio” do que matar um chimpanzé - ou, consequentemente, qualquer animal. De facto, um embrião num estágio inicial de desenvolvimento, sem sistema nervoso e presumivelmente sem dor ou medo, poderia razoavelmente beneficiar de uma protecção moral inferior do que um porco adulto, que está claramente equipado para sofrer. A nossa inclinação essencialista para as definições rígidas de “humano” (em debates sobre o aborto e direitos dos animais) e de “vivo” (em debates sobre eutanásia e decisões de fim-de-vida) não faz sentido à luz da evolução e de outros fenómenos “gradualísticos”.
(...)