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O patriota cósmico - 2

Suponhamos que somos confrontados com uma realidade desesperante – como Pimlico, por exemplo. Se meditarmos no que é realmente o melhor para Pimlico, chegaremos à conclusão de que o fio do raciocínio nos conduz ao trono, ou ao misticismo e à arbitrariedade. Não basta uma pessoa ter uma visão negativo de Pimlico, porque, nesse caso, limitar-se-á a dar um tiro na cabeça, ou a mudar de casa e ir viver para Chelsea. Também não basta, evidentemente, uma pessoa ter uma visão positiva de Pimlico, porque, nesse caso, Pimlico continuará a ser o que é, o que seria péssimo. A única maneira de sair disto parece ser amar Pimlico, amar este bairro com uma ligação transcendental e sem qualquer motivação de natureza mundana. Se aparecesse outro homem que amasse Pimlico, aí se construiriam torres de Marfim e pináculos de ouro; Pimlico ataviar-se-ia como se ataviam as mulheres apaixonadas. Porque a decoração não serve para esconder coisas horríveis, mas para decorar coisas que já são adoráveis. Uma mãe ...

O patriota cósmico - 1

Afirmei, no capítulo anterior, que é nos contos de fadas que melhor se exprime a sensação de fundo de que este mundo é estranho, sem deixar de ser atractivo. O leitor poderá, se quiser, considerar que a fase seguinte é a daquele estilo de literatura belicosa, que chega por vezes a ser patrioteira, que costuma seguir-se na história de vida de um rapaz. Todos nós devemos grande parte das nossas mais sólidas noções morais aos romances de cordel. Seja por que razão for, sempre me pareceu, e continua a parecer-me, que a melhor maneira de exprimirmos a nossa atitude em relação à vida não é em termos de crítica e aprovação, mas em termos de uma espécie de lealdade militar. A minha aceitação do universo não é optimista, é mais uma espécie de patriotismo. É uma questão de lealdade básica. O mundo não é uma pensão de Brighton, de onde possamos pensar ir-nos embora por ser uma pensão miserável. O mundo é a fortaleza da nossa família, com a bandeira erguida no alto do torreão e, quanto mais mise...

Coexistência com o inaceitável

Na opinião do crítico, estava efectivamente implícito! E voltou a elogiar a pujança criativa do realizador, a beleza das imagens, lentas, impregnadas de inquietação poética, misteriosas como os arpejos de uma harpa sem cordas; a rudeza da montagem que talvez se pudesse definir como neo-nouvelle vague ; e sobretudo a parcimónia do diálogo, admiravelmente reduzido ao essencial, atingindo o silêncio absoluto no violento clímax emocional que se despoletava na sequência da decapitação do sedutor, à porta do apartamente de Picadilly Circus: um choque inesperado e brutal de duas classes e duas culturas! - Mas eu não vi nada disso... - balbuciei, já um pouco aterrado com a minha eventual deficiência na observação de todas essas subtilezas... - É o que está im... im... implícito na sequência do u... u... urinol! - finalizou o crítico. Acatei com artificioso respeito a argumentação técnica do especialista, conquanto continuasse a achar, de mim para mim, que se tratava de um filme hediondo...

Diferenças entre as religiões inglesa e portuguesa

Foi com viva emoção que assisti pela primeira vez a uma cerimónia religiosa na abadia de Westminster. Encantou-me a distinção natural, a sóbria elegância do vestuário, a dignidade daqueles fiéis que, de pé, afinadíssimos, entoavam: «Aleluia! Aleluia!...», e não pude evitar uma expressão escarninha, mista de ironia, sarcasmo e até algum nojo, ao pensar nos formigames de andrajos, de pústulas, de aleijões, que se arrastam pelas estradas lusitanas, mesclando-se em massas híbridas e descomunais de povaréu lamuriento, conclaves mundiais de moléstias e pedinchice, no charnequenho lugar da Cova da Iria!... Nem a honrosa presença de altíssimos dignatários da diplomacia mundial, de governantes ilustres, de prestigiadas individualidades da vida civil e militar, das mais imponentes e paramentadas figuras da hierarquia clerical, do próprio Papa, que também já por lá andou a suportar, com assinalável estoicismo, capaz de se infectar, a proximidade promíscua do magote insalubre, a escutar e mesmo ...

Aprender a lidar com as coisas

I know now about helplessness-of what to do when there is nothing to do. I have learned coping. We live in a time and place where, over and over, when confronted with something unpleasant we pursue not coping but overcoming. Often we succeed. Most of humanity has not enjoyed and does not enjoy such luxury. Death shatters our illusion that we can make do without coping. When we have overcome absence with phone calls, winglessness with airplanes, summer heat with airconditioning- when we have overcome all these and much more besides, then there will abide two things with which we must cope: the evil in our hearts and death. There are those who vainly think that some technology will even enable us to overcome the former. Everyone knows that there is no technology for overcoming death. Death is left for God’s overcoming.

As horas em que ficamos acordados de noite

As horas em que ficamos acordados de noite, às vezes, são as alturas em que fazemos os planos mais significativos para a nossa vida. Têm grande potencial - para o bem ou para o mal! É nessas horas que a classe rica de Israel e Judá faz planos para se apropriar de terras. A Sós Com Deus

Pastor ou proprietário de gado?

Apascentai o rebanho de Deus que está entre vós, tendo cuidado dele, não por força, mas voluntáriamente; nem por torpe ganâcia, mas de ânimo pronto; nem como tendo domínio sobre a herança de Deus, mas servindo de exemplo ao rebanho; e, quando aparecer o Sumo Pastor, alcançareis a incorruptível coroa de glória. I Pedro 5:2-4

Uma ordem chocante - 2

Levenson argumenta que só podemos entender a ordem de Deus a Abraão tendo em conta esse pano de fundo cultural. A Bíblia afirma, repetidas vezes, que, devido ao pecado dos israelitas, a vida dos seus primogénitos estará automaticamente perdida, embora possa ser resgatada através de sacrifícios regulares (Êxodo 22:28; 34:19-20) ou, enter os levitas, do serviço ao tabernáculo (Números 3:40-41), ou ainda através do pagamento de um resgate ao tabernáculo e aos sacerdotes (Êxodo 3:46-48). Quando Deus submeteu o Egipto a juízo, por ter escravizado os israelitas, o seu último castigo consistiu em matar os seus primogénitos. A vida dos seus primogénitos estava perdida, devido aos pecados das suas famílias e da nação. Porquê? O filho primogénito era a família. Por isso, quando Deus disse aos israelitas que a vida do primogénito lhe pertencia, a menos que fosse resgatada, estava a dizer, da forma mais viva possível, naquelas culturas, que cada família da terra tinha uma dívida para com a justiça...

Uma ordem chocante - 1

Muitos leitores, ao longo dos tempos, têm levantado objecções compreensíveis a este relato. Têm interpretado a «moral» desta história como significando que fazer coisas cruéis e violentas é bom, desde que se acredite que essa é a vontade de Deus. Nunca ninguém falou de forma tão expressiva acerca deste assunto como Søren Kierkegaard, cujo livro Temor e Tremor se baseia na história de Abraão e Isaac. A conclusão derradeira de Kierkegaard é a de que a fé é irracional e absurda. Abraão pensou que aquela ordem não fazia sentido nenhum, contradizendo tudo o mais que Deus alguma vez dissera, mas obedeceu a essa ordem. Será que aquela ordem parecera completamente irracional a Abraão? A interpretação feita por Kierkegaard deste episódio não toma em conta o significado do filho primogénito, segundo o pensamento e simbolismo judeus. Jon Levenson, erudito judeu, professor em Harvard, escreveu A morte e a ressurreição do filho amado . Nesse volume, ele recorda-nos que as culturas antigas não era...

Artistas com empregos normais - 2

Did you seriously consider doing something else instead of music? I built some stuff. There’s something about holding tools in your hand, it’s not like holding a melody in your head, where it’s like vapor. When you are tangibly making something, like a chair, you can either sit on it, or it collapses. There is no, “Do you like it?” I built a deck on my roof and a screen porch off of my cabin in the country, actually stretching screen on frames and friction fitting them into the holes. It was the most satisfying thing I’ve ever done.

Artistas com empregos normais - 1

But then there is another category of artists-with-jobs: people whose two professions play off each other in unexpected ways. For these creators, a trade isn’t just about paying the bills; it’s something that grounds them in reality. In 2017, a day job might perform the same replenishing ministries as sleep or a long run: relieving creative angst, restoring the artist to her body and to the texture of immediate experience. But this break is also fieldwork. For those who want to mine daily life for their art, a second job becomes an umbilical cord fastened to something vast and breathing. The alternate gig that lifts you out of your process also supplies fodder for when that process resumes. Lost time is regained as range and perspective, the artist acquiring yet one more mode of inhabiting the world.

The Weight of Glory - 13

(...) Entretanto, a cruz vem antes da coroa e amanhã é segunda-feira de manhã. Abriu uma fenda nas muralhas impiedosas do mundo, e somos convidados a seguir o nosso Capitão lá para dentro. Segui-Lo é, obviamente, o ponto essencial. E assim sendo, poderá ser perguntado sobre qual a aplicação prática destas especulações com que nos temos presenteado. Consigo lembrar-me de pelo menos uma aplicação. É possível que cada um pense demasiado na sua potencial glória na próxima vida; é mais dificilmente possível que se pense o mesmo com demasiada frequencia ou profundidade em relação ao seu próximo. A carga, ou o peso, ou o fardo da glória do meu próximo deve ser depositada nas minhas costas, uma carga tão pesada que só a humildade pode carregá-la, e as costas dos orgulhosos cederão. É uma coisa séria viver numa sociedade de possíveis deuses e deusas, lembrar que a pessoa mais aborrecida e desinteressante com que possas ter falado, um dia poderá ser uma criatura que, se a visses agora, sentir-...

The Weight of Glory - 12

(...) E quando lá chegarmos, além da Natureza, comeremos da árvore da vida. De momento, somos renascidos em Cristo, o espírito em nós vive directamente em Deus; mas a mente, e ainda mais o corpo, recebe vida d'Ele através de mil subtracções – através dos nossos antepassados, através da nossa comida, através dos elementos. Os resultados débeis e distantes dessas energias que o êxtase criativo de Deus implantou na matéria quando Ele fez os mundos são o que agora chamamos de prazeres físicos; e mesmo que filtrados, eles são demasiado para o que conseguimos lidar actualmente. Como seria provar na fonte aquele regato do qual até estas coisas menores se mostram intoxicantes. Ainda assim, creio eu, isso é o que jaz diante de nós. O homem completo é feito para beber alegria da fonte da alegria. Como disse Santo Agostinho, o êxtase da alma salva "fluirá" para o corpo glorificado. À luz dos nossos apetites actuais especializados e depravados, não conseguimos imaginar esta torrens...

The Weight of Glory - 11

(...) E isto traz-me para o outro sentido para glória – glória enquanto brilho, esplendor, luminosidade. Devemos brilhar como o sol, a Estrela Vespertina ser-nos-á oferecida . Penso que comecei a perceber o que isso significa. Por um lado, claro, Deus já nos ofereceu a Estrela Verpertina: uma pessoa pode sair e desfrutar da oferta por muitas belas manhãs, se se levantar cedo o suficiente. Mas o que é que, poderão perguntar, nós queremos? Ah, mas nós queremos muito mais do que isso – algo a que os livros de estética pouco se dedicam. Mas os poetas e as mitologias sabem tudo sobre o assunto. Não queremos apenas ver a beleza, embora, sabe Deus, até esse seja um prémio suficiente. Queremos outra coisa, que dificilmente pode ser exprimida por palavras – estar unidos com a beleza que vemos, passar para ela, recebê-la em nós, banharmo-nos nela, tornarmo-nos parte dela. É por isso que povoámos o ar, a terra e a água com deuses e deusas, e ninfas e elfos – que, embora nós não possamos, no ent...

Escolher um carro

O meu interlocutor, um homem de meia-idade, foi buscar um catálogo, a fim de me permitir escolher o modelo, mas a última coisa que me estava a apetecer era consultar catálogos, por isso tratei de lhe explicar que precisava de um carro para quando andasse às compras. Não planeava utilizá-lo na autoestrada, nem para levar a namorada a passear. Não precisava de uma viatura com um motor potente, nem com ar condicionado, rádio, tecto de abrir ou pneus topo de gama. Disse-lhe mais: queria um modelo pequeno, que gastasse pouco e não libertasse muito fumo pelo tubo de escape, que não fosse demasiado ruidoso e não me deixasse ficar no meio da estrada. No que dizia respeito à cor, caso tivessem algum azul-marinho, seria perfeito. O vendedor propôs-me um carro utilitário, amarelo, de fabrico japonês. A cor não me entusiasmava por aí além; contudo, assim que o experimentei, percebi logo que estava na presença de uma viatura fiável e que andava bem. Além disso, gostei do design, inspirado em linha...

The Weight of Glory - 10

(...) Talvez pareça um tanto rude descrever glória enquanto o facto de Deus "reparar" em nós. Mas esta é praticamente a linguagem do Novo Testamento. Paulo promete àqueles que amem Deus, não como nós esperaríamos, que conhecerão Deus, mas que serão conhecidos por Ele . É uma estranha promessa. Então Deus não conhece todas as coisas a toda a hora? No entanto, ressoa terrivelmente noutra passagem do Novo Testamento. Nela somos avisados que poderá acontecer a qualquer um de nós quando nos apresentarmos finalmente diante de Deus ouvir a palavras implacáveis: " Nunca te conheci. Aparta-te de mim ". Em certo sentido, tão obscuro para o intelecto quanto insuportável para os sentimentos, tanto podemos ser banidos da presença d'Aquele que está presente em todo lado, como apagados do conhecimento d'Aquele que conhece tudo. Nós podemos ser completa e absolutamente deixados de fora – repelidos, exilados, alienados, final e inexprimivelmente ignorados. Por outro lado, ...

Escolher um sofá

(...) O sofá é muito confortável, nem demasiado mole, nem demasiado duro. Além do mais, a almofada adapta-se na perfeição à minha cabeça. Habituado que estou a trabalhar em qualquer lugar, sei do que falo quando digo que nem sempre é fácil encontrar um sofá cómodo onde valha a pena repousar o corpinho quando chega a hora de passar pelas brasas. Os sofás, na sua maioria, são comprados ao acaso, sem qualquer critério, revelando-se, até mesmo no caso dos mais luxuosos, uma autêntica decepção assim que a pessoa experimenta deitar-se em cima deles. Isto para dizer que poucos são os que realmente valem a pena. Não compreendo como é que, na hora de comprar um sofá, as pessoas podem dar-se ao luxo de ser tão pouco exigentes. Defendo a teoria – ainda que tal possa não passar de um proconceito da minha parte – de que a escolha de um sofá diz muito acerca do seu proprietário. Um sofá constitui, à sua maneira, um mundo compacto e inviolável. Isso, porém, é uma coisa que só aqueles que cresceram c...

The Weight of Glory - 9

(...) E agora reparem no que está a acontecer. Se eu tivesse rejeitado a imagem escritural e autoritativa de glória, e ficado obstinadamente bloqueado no desejo vago que, no início, era a minha única pista para o Céu, poderia não ter encontrado de todo a ligação entre esse desejo e a promessa cristã. Mas agora, tendo seguido nos textos sagrados o que parecia ser confuso e repelente, descubro, para minha grande surpresa, olhando para trás, que a ligação é claríssima. Glória, aquela pela qual o Cristianismo me ensina a esperar, satisfaz afinal o meu desejo original e, na verdade, revela um elemento desse desejo em que eu não tinha reparado. Ao deixar de considerar, por um momento, o meu próprio querer, comecei a perceber melhor o que eu realmente queria. Quando tentei, há alguns minutos atrás, descrever os nossos anseios espirituais, acabei por omitir uma das suas características mais curiosas. Geralmente reparamos nela assim que a visão esmorece, que música termina, ou que a paisagem...

Causas de uma adesão religiosa nominal

Também devo dizer que, com uma vulgarização de escolas evangélicas, também ocorre um fenómeno que é uma adesão religiosa nominal dentro do próprio protestantismo. No Brasil é possível ser “batista” e ser uma treta de crente. Em Portugal, a rigor, também é, mas é mais improvável. Os batistas no Brasil são assim uma espécie de evangélicos respeitados (provavelmente como os presbiterianos) e deu para sentir que, apesar de amar a minha denominação, no Brasil ela cheira-me aqui e ali a um tipo de superficialidade que em Portugal gostamos de apontar aos católicos.

The Weight of Glory - 8

(...) Não estou a esquecer-me do quanto este desejo tão inocente é parodiado nas nossas ambições humanas, ou no quão rapidamente, na minha experiência, o legítimo prazer de agradar aqueles a quem era meu dever agradar se transforme no veneno mortal da auto-admiração. Mas acho que conseguia detectar um instante – um curto, curto instante – antes disto acontecer, durante o qual a satisfação de ter agradado aqueles a quem acertadamente amei, e acertadamente temi, era pura. E isto é suficiente para pensarmos sobre o que pode acontecer quando a alma redimida, para além de toda a esperança, e de quase toda a crença, descobre por fim que agradou Aquele para o qual ela foi criada para agradar. Então, não haverá espaço para vaidade. Será libertada da miserável ilusão de que foi pelo seu esforço. Sem qualquer mancha daquilo a que agora chamamos auto-aprovação, ela irá alegrar-se inocentemente naquilo que Deus a criou para ser, e a ocasião que curará o seu velho complexo de inferioridade para s...

The Weight of Glory - 7

(...)  De seguida, viro-me para a ideia de glória. Não há forma de escapar ao facto de que esta ideia é bastante proeminente no Novo Testamente e nos primeiros escritos cristãos. Salvação está constantemente associada a palmeiras, coroas, roupões brancos, tronos e esplendor como o do sol e das estrelas. Tudo isto não me causa nenhum apelo imediato, e a esse respeito, imagino que eu seja um típico moderno. Glória sugere-me duas ideias, das quais uma parece-me perversa, e a outra ridícula. Para mim, glória significa ou fama ou luminosidade. Em relação à primeira, como ser famoso significa ser mais conhecido do que as outras pessoas, vejo o desejo pela fama como uma paixão competitiva, e como tal, mais do Inferno do que do Céu. Em relação à segunda, quem é que deseja tornar-se numa espécie de lâmpada eléctrica viva? Quando comecei a debruçar-me sobre este assunto fiquei bastante surpreendido por deparar-me com cristãos tão diferentes quanto Milton , Johnson e Tomás de Aquin...

The Weight of Glory - 6

(..) As promessas das Ecrituras podem ser reduzidas, por alto, a cinco ênfases. É prometido, em primeiro lugar, que estaremos com Cristo; em segundo, que seremos como Ele; em terceiro, com uma enorme riqueza de imagens, que teremos "glória"; em quarto, que seremos, em certo sentido, alimentados ou banqueteados ou entretidos; e finalmente, que teremos algum tipo de cargo oficial – governar cidades, julgar anjos, ser pilares do templo de Deus. A primeira pergunta que faço acerca destas promessas é: "porquê qualquer uma delas excepto a primeira?" Pode alguma coisa ser acrescentada à concepção de estar com Cristo? Porque deve ser verdade que, como diz um velho escritor, quem tem Deus e tudo o resto não tem mais do que aquele que tem apenas Deus. Penso que a resposta jaz uma vez mais na natureza dos símbolos. Porque embora possamos não reparar à primeira vista, ainda assim é verdade que qualquer concepção de estar com Cristo que qualquer um de nós possa agora formar nã...

The Weight of Glory - 5

(...)  Façam eles como quiserem, nós continuamos conscientes de um desejo que nenhuma felicidade natural satisfará. Mas há alguma razão para supor que a realidade oferece qualquer possibilidade de o satisfazer? "Nem estar com fome prova que temos o pão". Mas penso que pode ser salientado que isto é não perceber o que importa. A fome física de um homem não prova que ele vá ter algum pão; ele poderá morrer de fome numa jangada no Atlântico. Mas seguramente que a fome de um homem prova que ele provém de uma raça que repara o seu corpo quando come e habita um mundo onde existem substâncias comestíveis. Da mesma maneira, embora não acredite (quem me dera acreditar) que o meu desejo pelo Paraíso prove que eu vá desfrutar dele, penso que é uma indicação razoavelmente boa de que existe, e que alguns homens para lá irão. Um homem pode amar uma mulher e não conquistá-la; mas seria muito estranho se o fenómeno a que chamamos "apaixonar" ocorresse num mundo assexuado. Então...

The Weight of Glory - 4

(...) Ao falar deste desejo pelo nosso país distante , que encontramos em nós até mesmo agora, sinto uma certa timidez. Estou praticamente a cometer uma indecência. Estou a tentar dilacerar o segredo inconsolável em cada um de vocês – o segredo que magoa tanto que se vingam dele a chamar-lhe nomes como Nostalgia, Romantismo ou Adolescência; também o segredo que nos atravessa com tanta doçura que, numa conversa mais íntima, a sua menção torna-se iminente, sentimo-nos encavacados e fingimos que nos rimos de nós próprios; o segredo que não conseguimos esconder e que não conseguimos contar, embora desejemos fazer ambos. Não conseguimos contá-lo porque é o desejo por algo que nunca realmente surgiu na nossa experiência. Não conseguimos escondê-lo porque a nossa experiência está constantemente a sugeri-lo, e traímo-nos como amantes ao ouvir a referência a um certo nome. O nosso expediente mais vulgar é chamar-lhe Beleza e comportar-mo-nos se isso resolvesse o assunto. O expediente de Word...

The Weight of Glory - 3

(...) O cristão, em relação ao Céu, está praticamente na mesma posição que o miúdo da escola. Aqueles que alcançaram a vida eterna na visão de Deus sem dúvida que sabem muito bem que não não é nenhum suborno, mas sim a consumação da sua vida terrena de discipulado; mas nós que ainda não a alcançámos não o podemos saber da mesma maneira, e não podemos sequer começar a saber, a não ser por continuar a obedecer e encontrar a recompensa inicial da nossa obediência na nossa capacidade crescente de desejar a derradeira recompensa. Na mesma proporção que o nosso desejo aumenta, o nosso medo de que seja um desejar mercenário diminuirá, até que finalmente o reconheçamos como sendo absurdo. Mas provavelmente isto não acontecerá, para a maioria de nós, de um dia para o outro; a poesia substitui a gramática, o Evangelho substitui a Lei, e o desejo transforma a obediência, tão gradualmente quanto a maré eleva um navio encalhado.  Mas há mais uma importante semelhança entre nós e o miúdo da ...

Velhas histórias que tornam o herói vulgar e a história extraordinária

The view that fairy tales cannot really have happened, though crazy, is common. The man I speak of disbelieved in fairy tales in an even more amazing and perverted sense. He actually thought that fairy tales ought not to be told to children. That is (like a belief in slavery or annexation) one of those intellectual errors which lie very near to ordinary mortal sins. There are some refusals which, though they may be done what is called conscientiously, yet carry so much of their whole horror in the very act of them, that a man must in doing them not only harden but slightly corrupt his heart…  … Folk-lore means that the soul is sane, but that the universe is wild and full of marvels. Realism means that the world is dull and full of routine, but that the soul is sick and screaming. The problem of the fairy tale is—what will a healthy man do with a fantastic world? The problem of the modern novel is—what will a madman do with a dull world? In the fairy tales the cosmos goes mad; but...

The Weight of Glory - 2

(...) Não devemos ficar atrapalhados quando descrentes dizem que esta promessa de recompensa torna a vida cristã numa vida mercenária. Existem diferentes tipos de recompensa. Há a recompensa que não tem nenhuma ligação natural com as coisas que fazes para a ganhar, e é bastante distinta dos desejos que deviam acompanhar essas coisas que fizeste. Dinheiro não é a recompensa natural do amor; é por isso que chamamos a um homem "mercenário" se ele casar com uma mulher apenas tendo em vista o seu dinheiro. Mas o casamento é a recompensa própria para um verdadeiro amante ("lover", "amador", pessoa que ama), e ele não é mercenário por o desejar. Um general que combata bem para conseguir um título nobiliárquico é mercenário; um general que combata pela vitória não é, sendo a victória a recompensa apropriada para o combate, tal como o casamento é a recompensa adequada para o amor. As recompensas apropriadas não estão meramente anexadas à actividade pela qual são ...

The Weight of Glory - 1

Se perguntássemos a vinte bons homens dos dias de hoje qual é que eles pensavam ser a mais elevada das virtudes, dezanove responderiam "altruísmo/abnegação" (em inglês, "unselfinshness", que se poderia traduzir directamente por "desegoísmo"). Mas se perguntássemos à maioria dos grandes cristãos de antigamente, responderiam "amor". Repararam no que aconteceu? Um termo negativo foi substituído por um positivo, e isto é de uma importância maior do que meramente filológica. O ideal negativo do "altruísmo" ("desegoísmo") transporta consigo a sugestão não de conseguir primariamente coisas boas para os outros, mas de prescindirmos delas para nós próprios, como se o importante fosse a nossa abstinência, e não a felicidade dos outros. Não penso que isto seja a virtude cristã do "amor". O Novo Testamento tem muito a dizer sobre auto-negação, mas não auto-negação como um fim em si mesmo. É-nos dito para negarmos a nós mesmo...

Vendo no falso o verdadeiro e exigindo dos outros a mesma mentira

Comecei então a falar em voz alta e sem medo, apesar dos risos do mundo, porque, fosse como fosse, aqueles risos eram bondosos e não maldosos. Todas as minhas conversas decorriam nos serões, principalmente na companhia das senhoras, que gostavam muito de me ouvir e obrigavam também os homens a ouvir-me. Toda a gente se ria na minha cara: «Mas como é possível eu ser culpado por todos? Eu posso ser culpado, por exemplo, por si?» Eu respondia-lhes: «Como podem os senhores compreender isso se todo o mundo, desde há muito, tomou por outro caminho, vendo no falso o verdadeiro e exigindo dos outros a mesma mentira? Como vêem, eu procedi uma vez na vida com sinceridade e logo me tornei para todos uma espécie de maluquinho religioso: embora simpatizem comigo, não deixam de se rir de mim». dados biográficos de Zóssima  Volume I página 363 Editorial Presença

Prontos a derramar o nosso sangue pela honra sem nada saber sobre a honra

Passei muito tempo em São Petersburgo, na escola de cadetes, quase oito anos, e aquela nova educação adormeceu em mim muitas das sensações infantis, embora não me esquecesse de nada. Ganhei hábitos e mesmo opiniões novos que me transformaram numa criatura quase selvagem, cruel e absurda. Adquiri o brilho da cortesia e das maneiras mundanas, juntamente com a língua francesa, mas todos nós, incluindo eu, considerávamos os soldados que nos serviam na escola como animais. Aliás, eu era a este respeito o pior de todos, porque era o mais susceptível de todos os meus colegas. Quando acabámos o curso e nos tornámos oficiais estávamos prontos a derramar o nosso sangue pela honra do nosso regimento, mas nenhum de nós sabia nada sobre a verdadeira honra, nenhum de nós sabia o que isso significava e, se soubesse, rir-se-ia da honra. Quase nos orgulhávamos das nossas bebedeiras, fanfarronices e comportamentos desordeiros. Não diria que não prestávamos: toda aquela juventude era gente boa, mas que s...