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Mensagens

Um grande conhecimento nos mistérios evangélicos

(...)  Fiel - Dizei agora qual é o segundo ponto com que demonstrais a existência da obra da graça no coração.  Eloquente - Um grande conhecimento dos mistérios evangélicos.  Fiel - Deveis pôr esse em primeiro lugar, mas, seja em primeiro ou em segundo, é sempre falso, porque podemos facilmente ter muitos conhecimentos evangélicos e não termos a obra da graça nas nossas almas. Mais, pode um homem possuir toda a ciência, e, apesar disso, não ser coisa alguma, e, portanto, não ser um filho de Deus . Quando Cristo disse: «Sabeis todas estas coisas?», e os discípulos responderam: «Sim», ele acrescentou: «Bem-aventurados sois se as fizerdes» . Ele não bendisse o mero conhecimento mas a sua colocação em acção. Pois não é um conhecimento que é atendido com a realização de «Aquele que conhece a vontade do seu mestre, e não o faz» . Um homem pode ter o conhecimento de um anjo, e não ser sequer cristão. É o fazer que agrada a Deus. Não que o coração possa ser bom sem conhecimento....

Só Ele e eu somos os mesmos

Como na melodia que se vai repetindo em variações, reconheço o Deus da minha intimidade desde criança como a presença mais constante na minha vida.  Todas as células do meu corpo se substituem e já nenhuma existe de quando, pela primeira vez, terei orado. Ainda assim, aqui estou e aqui Ele está. Só Ele e eu somos os mesmos.  A memória desvanece-se, as certezas cortam-se e resvalam para a berma do caminho. As ações comprometem-se no seu momento e são substituídas por outras. E, no final do dia, quando me deito, encontro-me com Ele, ambos adornados de um silêncio pristino.  Aí estou eu, chegado de mais uma jornada, preparado para fechar a janela sobre o dia que passou e Ele recebendo-me, preparado para me ouvir ou só para me acenar o cuidado da sua evidência.  Digo de novo, tal como a sua presença se renova, olhe eu para onde olhar, como na melodia que se vai repetindo em variações, reconheço o Deus da minha intimidade desde criança como a presença mais constante na mi...

Clamar contra o pecado ou aborrecer o pecado?

Fiel - Eis a razão porque a princípio me agradou muito a sua companhia, e agora já me aborrece. Como nos veremos livres dele?  Cristão - Segue os meus conselhos, e se fizeres o que te digo, também ele se aborrecerá de ir ao teu lado, excepto se Deus tocar no seu coração e o converter.  Fiel - Que hei-de fazer?  Cristão - Ouve: aproxima-te dele, fala-lhe a sério sobre o poder da religião. Quando ele tiver aprovado as tuas palavras, o que não deixará de fazer, pergunta-lhe directamente se isso é o que ele pratica no seu coração, na sua casa e na sua vida. Então, Fiel aproximando-se outra vez de Eloquente, perguntou-lhe: «Então, que tal ides agora?»  Eloquente - Vou bem; mas julgava que teríamos conversado mais.  Fiel - Conversaremos agora. E visto que deixastes a mim a escolha do assunto, proponho este: Como se manifesta a graça salvadora de Deus, e quando existe no coração do homem?  Eloquente - Quereis dizer que vamos falar acerca do poder das coisas espir...

O que fazes quando as letras não estão a aparecer?

Dear Marko,   In my experience, lyrics are almost always seemingly just not coming. This is the tearful ground zero of song writing — at least for some of us. This lack of motion, this sense of suspended powerlessness, can feel extraordinarily desperate for a songwriter. But the thing you must hold on to through these difficult periods, as hard as it may be, is this — when something’s not coming, it’s coming. It took me many years to learn this, and to this day I have trouble remembering it.  The idea of lyrics ‘not coming’ is basically a category error. What we are talking about is not a period of ‘not coming’ but a period of ‘not arriving’. The lyrics are always coming. They are always pending. They are always on their way toward us. But often they must journey a great distance and over vast stretches of time to get there. They advance through the rugged terrains of lived experience, battling to arrive at the end of our pen. In time, they emerge, leaping free of the unk...

Arte feia, engenharia bonita

Vimos que desde Rosseau se estabeleceu a dicotomia entre natureza e liberdade. A natureza passara a representar o determinismo, a máquina, com o homem na desesperançosa situação de ser absorvido pela máquina. Então, no andar superior, vemos o homem lutando pela liberdade. A liberdade que era buscada era uma liberdade absoluta, sem limitações. Não existe Deus, nem mesmo um universal, a limitá-lo, de sorte que o indivíduo procura expressar-se com total liberdade e, todavia, ao mesmo tempo, sente a condenação de ser absorvido na máquina. Esta é a tensão do homem moderno.  O campo da arte oferece uma vasta variedade de ilustrações desta tensão, tensão que, por sua vez, proporciona uma explicação parcial para o fato curioso de que muita da arte contemporânea, como expressão própria do que é o homem em si, é feia. Ele não o sabe, mas está expressando a natureza do homem decaído que, como ser criado à imagem de Deus é maravilhoso; todavia, em sua presente condição é decaído. No esforço qu...

Que valores essenciais abriremos mão nesse processo?

“A misericórdia é um valor que devia estar no cerne de qualquer sociedade funcional e tolerante. A misericórdia reconhece que somos todos imperfeitos e, ao fazê-lo, permite-nos respirar e sentir-nos protegidos. Sem misericórdia, uma sociedade perde a sua alma e devora-se a si mesma”.  “Contudo, a misericórdia não é um dado adquirido. É um valor que temos de alimentar e procurar”, afirma, defendendo a importância de “cometer erros, corrigi-los, ousar duvidar e, pelo caminho, descobrir ideias novas e mais avançadas. Sem misericórdia, a sociedade torna-se inflexível, medrosa, vingativa e sem sentido de humor”.  Sobre a “cancel culture”, ou seja, a negação da validade da obra de um artista reprovado pelos seus atos ou opiniões, Nick Cave acredita que é “a antítese da misericórdia. O politicamente correto tornou-se a religião mais infeliz do mundo. Em tempos uma tentativa meritória de reimaginar a nossa sociedade de forma mais justa, agora apresenta todos os piores aspetos que a re...

No meio disto, havia as explosões de papoilas da Califórnia

No meio disto, havia explosões de papoilas da Califórnia. Estas têm cor quente - não laranja, nem ouro, mas se o ouro fosse líquido e emitisse vapor, esse vapor dourado seria a cor das papoilas.  A Leste do Paraíso [East of Eden]  Página 10 John Steinbeck  1952 dC  Editora: Livros do Brasil

Revelação - apenas a Escritura

Os evangélicos devem observar, neste ponto, que a Reforma afirmou “a Escritura somente”, e não “a Revelação de Deus em Cristo somente”. Se não temos das escrituras o mesmo conceito que tiveram os Reformadores, não contamos com o real conteúdo na palavra “Cristo” e esta é a tendência moderna na teologia. A teologia moderna usa o termo sem o conteúdo porquanto concebe um “Cristo” inteiramente alienado das Escrituras. A Reforma, porém, seguiu o ensino do próprio Cristo, vinculando a revelação que fizera de Deus com a revelação escrita, a Escritura.  A Morte da Razão [Escape From Reason]  Página 19  Francis Schaeffer  1968 dC  Editora: Aliança Bíblica Universitária do Brasil

O amor vivo é uma coisa cruel e assustadora

- Está a falar com franqueza? Está bem, depois desta sua confissão acredito que é sincera e tem um bom coração. Mesmo que não chegue à felicidade, lembre-se sempre de que está no bom caminho e tente não se desviar dele. O principal é evitar a mentira, qualquer mentira, sobretudo a mentira a si mesma. Esteja de olho nas mentiras que diz, não descure a atenção delas hora a hora, minuto a minuto. Evite também o desgosto pelos outros e por si mesma: o que lhe parece repugnante no seu íntimo purifica-se com o próprio facto de ter reparar nisso. Evite também o medo, embora o medo seja apenas uma consequência da mentira. Nunca desanime com a sua própria fraqueza na busca do amor, e nem sequer tenha muito medo dos seus procedimentos menos bons. Lamento não poder dizer-lhe nada mais consolador, porque o amor vivo, em comparação com o amor sonhado, é uma coisa cruel e assustadora. O amor dos sonhos anseia por uma obra rápida, satisfação imediata e aos olhos de todos. Aqui, é verdade, chega-se ao...

Humanidade em geral e pessoas em particular

Aquilo era um ataque da mais sincera autoflagelação e, ao acabar, olhou para o Stárets com o mais resoluto olhar de desafio.  - Tal qual um médico me confessou a muito - observou o Stárets . - Era um homem já de idade e com uma inteligência incontestável. Falava do mesmo modo sincero, embora com ironia, mas uma triste ironia. Gosto da humanidade, dizia ele, mas eu próprio me admiro: quanto mais gosto da humanidade em geral, menos gosto das pessoas em particular, isto é, das pessoas em separado, das pessoas concretas. Nos meus sonhos, dizia ele, chego muitas vezes as ideias apaixonadas de servir a humanidade e, se calhar, seria mesmo capaz de subir ao Calvário pelas pessoas se de repente isso fosse necessário; ao mesmo tempo digo-lhe sou incapaz de conviver com alguém no mesmo quarto durante dois dias, digo por experiência. Mal alguém fica perto de mim, logo a sua personalidade me oprime o amor próprio e me constrange a liberdade. Sou capaz de ganhar ódio, de um dia para o outro, a ...

Astronómicamente astrónomos

Está certo que, como disse a outro um certo cientista "astronomicamene falando, o homem é infinitamente pequeno". "É verdade", respondeu o seu colega; "só que, astronomicamente falando, o homem é que é o astrónomo". Ouça o Espírito, Ouça o Mundo [The Contemporary Christian] página 40 John Stott 1992 dC Editora: ABU Editora

Amor vivo? Exijo imediatamente o pagamento.

- Amor vivo? Esta é uma questão e que questão! Veja: amo tanto a humanidade que às vezes, imagine, sonho abandonar tudo, tudo o que tenho, abandonar a Lise e ir servir como enfermeira. Fecho os olhos, penso e sonho, e nesses instantes sinto em mim uma força invencível. Não haveria feridas, não haveria chagas purulentas que me assustassem. Faria as ligaduras e limparia as feridas com as minhas próprias mãos, seria a enfermeira de vela para todos esses sofredores, estou pronta a beijar essas chagas...  - Já não é mau que a sua mente sonhe com isso e não com outra coisa. Pode mesmo acontecer que a senhora venha realmente a fazer alguma boa acção.  - Sim, mas por quanto tempo aguentaria eu essa vida? - continuava a senhora com ardor, como em frenesi - É esta a questão principal! É a mais torturante das minhas questões. Fecho os olhos e pergunto a mim própria: aguentarias muito tempo nesse caminho? E se o doente a quem lavas as chagas não te responder logo com a gratidão mas, pelo ...

Declaram que não são compreendidos

Também às vezes, quando o mestre espiritual, isto é, o confessor ou superior, não aprova o seu espírito e a sua maneira de agir, porque querem que se estime e se louve as suas obras, declaram que não são compreendidos. Segundo eles esse director não é um homem espiritual, dado que não aprova a sua conduta e não se presta a aceitar a sua maneira de ver. É por isso que logo concebem o desejo de ter um outro guia; tentam encontrar um que se acomode ao seu gosto; de facto, encontram normalmente aquele que eles julgam disposto a louvaminhar e estimar as suas obras. Fogem como da morte de quem, querendo repô-los no bom caminho, se oponha a tais obras: e acontece mesmo que, às vezes, lhe ganham a versão. Como são muito presumidos, fazem normalmente muitos projetos e agem pouco. Desejam algumas vezes que os outros conheçam o seu género de espiritualidade e a sua devoção, e movimentam-se muito para o efeito, soltam suspiros, tomam atitudes estranhas. Têm o hábito de expressar de vez em quando a...

Sexualidade segundo um guião

Até mesmo por si só, uma palavra, um aglomerado de sons podem desencadear uma excitação sufocante (o célebre faire catleya de Proust). A imagem desdobra-se no interior do som. A masturbação tem, assim, a sua gramática muda. Dentro desta privacidade, contudo, nos recessos do mais íntimo, intervém instâncias públicas. O vocabulário erótico e sexual dos media , a gíria amorosa do cinema e da televisão, as vagas declaratórias da publicidade e no mercado de massa, estilizam, moldam segundo convenções o ritmo, o andamento, as componentes discursivas de milhões de parceiros sexuais. No mundo desenvolvido, com a sua pornografia corrosiva, são inumeráveis os amantes, particularmente entre os jovens, que «programam» o seu modo de fazer amor, façam-no conscientemente ou não, em termos semióticos pré-estabelecidos. O que deveria ser o mais espontaneamente anárquico, o mais individualmente revelador e inventivo dos encontros humanos, seguem em muito larga medida um guião . A última liberdade, a au...

Gula na oração

Aqueles de que falamos agem do mesmo modo na oração. Imaginam que ela consiste inteiramente no prazer e na devoção sensível que aí possam encontrar. Tentam achar esse prazer, como se costuma dizer, à força de braços; cansam-se e escondem a cabeça inutilmente. Quando verificam que nada conseguiram, ficam totalmente abatidos; imaginam que nada fizeram. A sua pretensão levou-os a perderem a verdadeira devoção e o espírito e oração sobrenatural que consiste em perseverar na paciência e na humildade, na desconfiança de si mesmo e no desejo único de agradar a Deus. Também acontece que, quando não encontram prazer neste ou naquele exercício de piedade, sentem um desgosto extremo; sentem repugnância em se entregarem de novo a esse exercício e, às vezes, chegam ao ponto de o abandonar. São, como já dissemos, parecidos com crianças pequenas; não se movem nem actuam de acordo com a razão, mas de acordo com a sensualidade. Passam todo o tempo à procura e alegria e das consolações espirituais. Nunc...

Gula nos exercícios espirituais

Por outro lado o Demónio seduz tão bem um grande número que os leva à gula, excitando os seus prazeres e os seus apetites. Esses iniciantes são incapazes de lhe resistir. Alteram a ordem que lhes é dada; aumentam -na, ou modificam-na porque a obediência neste ponto se lhes torna um jugo muito duro e demasiado estreito; alguns chegam mesmo a um tal extremo que, pelo simples facto de irem por obediência a certos exercícios de piedade, perdem o gosto e a devoção de os cumprir. Não tem outro gosto e outro desejo que o de seguir a sua própria inclinação. Por isso seria talvez melhor para eles se não cumprissem tais exercícios de piedade.  Vereis muitos deles insistindo junto dos seus mestres espirituais para obterem o que lhes agrada e, em parte à força, arrancam o seu consentimento. Quando não o conseguem, deixam-se cair na tristeza como crianças, ficam de mau humor e imaginam que não servem Deus quando não os deixam seguir os seus caprichos. Como estão apegados aos seus gostos e à sua...

Há gente que é pessoa

Pelas minhas contas, temos: pessoas, gente, povo e humanidade. O pior são as pessoas, claro, e o melhor é a humanidade. As pessoas não usam setas no trânsito; a humanidade foi à Lua. A humanidade é tão digna que, muitas vezes, aparece grafada com h grande: a Humanidade. Isso nunca aconteceu às pessoas, e bem. Não faz sentido escrever que as pessoas deitam lixo para o chão (coisa que a Humanidade, aliás, nunca faria). As pessoas raramente merecem a honra da maiúscula. Em geral, são referidas no fim da conversa, em tom de lamento, "Realmente, as pessoas...", e sempre com p pequeno. A gente talvez esteja num patamar acima, mas não muito. Há gente muito estúpida. O que é normal, dado que a gente costuma ser formada por muitas pessoas. Mas, apesar de tudo, às vezes é possível confiar na gente, e até desejar combinar um programa com ela, como fica claro na frase: "Então, gente, vamos sair?" Um convite que, não por acaso, nunca é feito às pessoas. O povo já é outra coisa...

O privilégio do exílio

Todos nós admiramos e respeitamos um adversário ou inimigo político de um regime opressor e que tivesse por isso de se exilar. Mas só se lhe reconhecemos o privilégio de ter direito a isso como às classes favorecidas a vivenda ou o automóvel. Que diríamos de um simples cavador que também se arrogasse a importância de se exilar? Pensar  Página 179  Vergílio Ferreira  1992 dC  Editora: Bertrand

A primeira pedra do que és

Quase tudo o que vais sendo vem no impulso que te move. Não apenas quando a cólera é esse impulso, ou o disparate que se te adianta, ou um sentimento qualquer que é de mais. Mesmo a arte, o pensar, o escrever. Porque o todo que em ti resulta, vem da pedra fundamental que para ele escolheste ou te calhou para o início desse todo. Há um puzzle a organizar e que não sabes e está em ti. O resto vai sendo o que tu pensas ou vai pensando por si e o que te pertence não é bem o que supunhas que estava em ti, mas o que se revela desse estar. Depois só te resta o espanto ou a alegria ou o desapontamento de saberes o que não sabias que sabias ou não. Sê prudente e sem pressa. Vê se é possível escolheres a pedra sobre a qual erguerás o edifício. É por isso que há sempre uma cerimónia quando se põe a «primeira pedra», que é posta normalmente por uma «entidade», para que o seu prestígio contamine o edifício todo. E é por isso talvez também que essa «entidade» não está sempre à altura da cerimónia e ...

As palavras voam, o que fica?

Verba volant, scripta manent , dizia a sabedoria dos antigos. Era a chamada de atenção para a responsabilidade do que fica escrito, contra a volubilidade do falar. Mas era também, para o nosso repouso, a certeza de que os escritos estavam aí, a toda a hora da nossa visita. Simplesmente as palavras hoje não “voam” e permanecem também nos registos magnéticos e a vozearia multiplica-se assim até à surdez. E opostamente os escritos tendem a esquecer-se, sobretudo os dos jornais, que são uma variante do falatório. Além de que nos é possível e mais fácil substituir pelas palavras que voam a escrita que já não fazemos. Quantas cartas o telefone te dispensou de escrever? Mas o próprio livro é quase sempre para “ler mais tarde”. E os chamado “livros de cabeceira” não se entende que não sejam senão para facilitarem o sono. A estante ainda é um móvel de adorno e de prestígio como outros móveis de uso e distinção. Mas a sua utilidade pouco vai além disso. O homem simplificou-se com a atrofia das f...

Arte religiosa às vezes

Toda a verdadeira arte é uma expressão do sagrado.  A arte religiosa às vezes também o é. Pensar  Página 329 Vergílio Ferreira  1992 dC  Editora: Bertrand

Sentimentos por cozinhar

O sentimento em bruto, como toda a “história” em bruto para um escritor, é absolutamente intragável como a carne crua. Mas é absolutamente agradável e funcional depois de bem cozinhada. Não te iludas pois com a carne cara que compraste no magarefe, dizendo aos teus conhecidos que é muito boa. Cozinha-a e depois falamos.  Pensar  Página 345  Vergílio Ferreira  1992 dC  Editora: Bertrand

Desejar conhecer um artista que se ama

Desejar conhecer pessoalmente um artista que se ama é querer apropriar-se do mistério da sua obra. Mas é muito raro saber-se que por detrás de uma obra não está o seu autor, mas as tintas de um quadro ou a pedra de uma escultura ou as palavras de um texto e assim. Porque a arte que devia estar no artista é apenas o mistério que ele próprio desconhece. E entre uma e outro está só o intervalo onde não há já ninguém. Assim a arte é maior do que o artista. Assim ela o dispensa depois de usado e vive por si enquanto ele já apodrece. Muita gente quer conhecer a arte num artista. Mas ninguém quer conhecer o estrume que está antes de uma roseira. Pensar  Página 344  Vergílio Ferreira  1992 dC Editora: Bertrand

Não encontram qualquer gosto ou consolação sensível

Quando vão comungar, pensam muito mais num qualquer prazer sensível do que em adorar e louvar com toda a humildade esse grande Deus que acabam de receber. Essa é de tal modo a sua ideia que, se não encontram no acto qualquer gosto ou consolação sensível, pensam que nada fizeram. É uma maneira muito baixa de julgar Deus. Não compreendem que a menor das vantagens que o Santo Sacramento procura é a deleitação sensível, enquanto a maior, aquela que não se vê, é a graça; é essa razão porque Deus lhes retira muitas vezes esses prazeres e esses favores sensíveis, para que os considerem com os olhos da fé. Querem sentir Deus e fruí-lo como se ele fosse compreensível e acessível aos nossos sentidos, não só quando se trata da questão que nos ocupa, mas também quando se trata dos outros exercícios espirituais. Tudo isto denota uma mui grande imperfeição e uma total oposição à natureza de Deus; porque a fé não é pura. A Noite Obscura [Noche oscura del alma] Página 58  1579 dC São João da Cr...

Aqueles que não foram partidos em dois

Happy is he who still loves something that he loved in the nursery: he has not been broken in two by time; he is not two men, but one, and has saved not only his soul but his life. Feliz é aquele que ainda aprecia algo que apreciava na infância: ele não foi partido em dois pelo tempo; ele não é dois homens, mas apenas um, e salvou não apenas a sua alma, mas a sua vida.

Ele falava precipitadamente, e não o tentei parar

I let him run on, this papier-mâché Mephistopheles, and it seemed to me that if I tried I could poke my forefinger through him, and would find nothing inside but a little loose dirt, maybe. He, don't you see, had been planning to be assistant manager by and by under the present man, and I could see that the coming of that Kurtz had upset them both not a little. He talked precipitately, and I did not try to stop him. I had my shoulders against the wreck of my steamer, hauled up on the slope like a carcass of some big river animal. The smell of mud, of primeval mud, by Jove! was in my nostrils, the high stillness of primeval forest was before my eyes; there were shiny patches on the black creek. The moon had spread over everything a thin layer of silver – over the rank grass, over the mud, upon the wall of matted vegetation standing higher than the wall of a temple, over the great river I could see through a somber gap glittering, glittering, as it flowed broadly by without a murmu...

Definições de fé

Comecemos por olhar para a sua definição de fé, questionando a origem desta. A fé «significa confiança cega na ausência de evidências ou mesmo apesar delas». Como pode alguém aceitar esta definição tão ridícula? Na sua «Prece para a minha Filha», Dawkins apresenta um ponto importante que também aqui é muito relevante:  «A próxima vez que alguém te afirmar que algo é verdade, deves responder-lhe: "E em que evidências se baseia isso?" E se não te apresentarem uma boa resposta, espero que penses muito bem antes de acreditares no que te foi dito.»  Que evidências existem para que alguém - e não me estou a referir às pessoas religiosas – possa definir a fé desta maneira absurda?  A verdade é que Dawkins não apresenta nenhuma prova em favor desta definição, que afinal pouco ou nada tem a ver com o sentido religioso (ou qualquer outro sentido) do mundo. Não oferece indícios de que é uma opinião representativa da opinião religiosa. Não cita em seu apoio nenhuma autoridade n...

Agostinho e a interpretação do Génesis

Agostinho de Hipona (354-430) foi o teólogo mais influente da sua era, tendo tido especial relevância na exploração da relação entre a interpretação bíblica e a ciência. Agostinho sublinhou a importância de serem respeitadas as conclusões da ciência na exegese bíblica. No seu comentário ao Génesis, Agostinho assinalou que certas passagens estavam genuinamente abertas a diferentes interpretações. Como tal, era importante permitir que os desenvolvimentos científicos posteriores pudessem contribuir para a escolha do modo mais apropriado de interpretar uma determinada passagem. «Em relação aos assuntos muitos obscuros e que se situam para lá da nossa visão, encontramos nas  escrituras sagradas passagens que podem ser interpretadas de maneiras muito diferentes sem prejuízo para a fé que recebemos. Nesses casos, não nos devemos precitipar e escolher uma posição definitiva que possa ser justamente posta em causa pelo posterior progresso, caso contrário nós também seremos postos em causa....

Reacção cristã dos contemporâneos de William Paley

Vários outros autores discordaram de Paley com base em argumentos teológicos, e não demoraram muito a apresentar essas discordâncias. Antes do aparecimentos da nova teoria de Darwin, já uma opinião teológica bem informada cada vez mais forte tinha exigido o abandono ou uma revisão profunda das ideias de Paley. Em 1852, John Henry Newman foi convidado a proferir uma série de palestras em Dublin sobre «a ideia de universidade». O tema permitiu-lhe explorar a relação entre o cristianismo e as ciências, especialmente a «teologia física» de William Paley. Newman usou um tom mordaz ao referir-se à perspectiva de Paley, apelidando-a de «falso evangelho». No seu entender, longe de significar um avanço nas perspectivas mais modestas adoptadas pela Igreja nos seus primórdios, tratava-se de uma degradação dessas ideias. Podemos resumir as críticas de Newman numa única frase: «A questão foi deslocada e excessivamente desenvolvida e, em consequência, quase só tem servido de instrumento contra o c...

Perspectiva limitada ou expandida dos religiosos?

Dawkins sugere que a perspectiva religiosa sobre o mundo deixa de parte algo fundamental. Depois de ter lido Decompondo o Arco-íris continuo sem saber a que é que ele se refere. A leitura cristã do mundo não nega nada do que as ciências naturais nos dizem, à excepção do dogma naturalista de que a realidade se limita àquilo que é passível de ser conhecido por meio das ciências naturais. Se existe alguma diferença, ela encontra-se no facto de o compromisso cristão com o mundo natural acrescentar uma riqueza que me parece estar ausente da visão de Dawkins, e que oferece um motivo adicional para o estudo da natureza. Foi João Calvino (1509-1564) quem comentou o quanto invejava aqueles que estudavam fisiologia e astronomia, pois podiam ter um envolvimento directo com as maravilhas da Criação de Deus. Estava a explicar que o Deus invísivel e intangível podia ser entendido através do estudo das maravilhas da natureza. A grande diferença entre a ciência e a religião talvez se situe, não no...